Primeiros erros
15 14
A casa de Kyoko sempre tivera um tipo especial de vida. Não era apenas o cheiro doce que parecia permanecer no ar — lembrança constante dos mochis que ela preparava desde que Obito era criança — nem o jardim pequeno, mas sempre impecável, onde as flores cresciam como se fossem tratadas com a mesma paciência que ela dedicava às pessoas. Era algo mais profundo, uma sensação de abrigo que fazia qualquer um baixar a guarda sem perceber.
Talvez por isso Naomy estivesse sorrindo tanto. Ou talvez fosse apenas o entusiasmo da velha senhora.
Kyoko já havia abraçado a jovem três vezes desde que ela atravessara o portão. Beijara suas bochechas com carinho exagerado, passara as mãos pelo cabelo trançado como se quisesse conferir se ainda era o mesmo que costumava pentear anos atrás, e distribuíra elogios com a generosidade de quem não tinha medo algum de parecer sentimental na frente dela.
— Minha menina... você continua tão bonita. — disse ela, segurando as mãos de Naomy como se tivesse medo de que a jovem desaparecesse de novo. — Como eu senti sua falta!
Naomy riu baixo, claramente envergonhada com tanta atenção e, no fundo também sentia falta da senhorinha que lhe tinha um carinho de avó por uma neta.
Obito, parado um pouco atrás delas, cruzou os braços e observou a cena com uma mistura de resignação e algo que parecia quase... ternura. Afinal ele imaginava que o motivo pelo qual sua atual esposa tivesse parado de visitar a anciã Uchiha fosse pelo termino abrupto.
Kyoko, porém, ainda não havia terminado.
— E você! — virou-se de repente para o neto, apontando um dedo acusador. — Por que não trouxe ela antes?
Obito abriu a boca para responder, mas não teve chance, Kyoko já havia retornado a Naomy como se ele não estivesse ali.
— Por que parou de me visitar, minha menina? — continuou a idosa, voltando-se imediatamente para Naomy. — Só porque este grandessíssimo insignificante decidiu que não queria mais nada com você?
Naomy ficou envergonhada na mesma hora.
— Obaa-san...
— Que história é essa de que você precisava parar de vir à minha casa? — prosseguiu Kyoko, completamente indignada. — Minha casa sempre esteve aberta para você!
A castanha sorriu, um pouco sem graça.
— Eu sei disso. — Ela abaixou um pouco o olhar antes de explicar. — É que... eu não queria invadir o espaço dele. E também não iria pegar bem.
Kyoko inclinou a cabeça, confusa.
— Planos diferentes... — disse Naomy com delicadeza. — E as pessoas falam. Eu precisava me preservar um pouquinho.
Foi então que a velha senhora percebeu o que havia dito e a expressão dela mudou instantaneamente.
— Ah... — murmurou, enrubescendo como uma criança que acabara de cometer uma gafe.
Por um momento raro, Kyoko pareceu sem palavras. Mas apenas por um momento e logo em seguida ela suspirou e puxou Naomy para outro abraço apertado.
— Que bobagem... — disse, acariciando lhe os cabelos. — Você sempre foi parte desta casa e dessa família.
Depois se afastou e voltou o olhar para Obito. O sorriso gentil desapareceu e o beliscão veio rápido.
— AI! — Obito reclamou, recuando meio passo.
— Se você aprontar novamente com ela... — começou Kyoko, os olhos estreitos — eu nunca mais olho na sua cara.
O tom era calmo, mas absolutamente sério.
Entendeu neto? — Obito respirou fundo.
Havia muitas coisas que ele poderia dizer naquele momento. Poderia explicar, poderia contar tudo. Poderia dizer à avó que aquilo jamais aconteceria de novo.
Que Naomy não era mais apenas a garota que costumava vir aos domingos ajudar a fazer mochi. Que agora ela fazia parte da família definitivamente. Porque havia se tornado sua esposa. Mas, olhando para a expressão feliz da avó e para o jeito como Naomy ainda estava ligeiramente envergonhada com toda aquela atenção, ele percebeu que talvez aquela revelação merecesse um momento melhor então apenas assentiu.
— Entendi. — Kyoko o observou por mais um segundo, como se avaliasse se ele estava sendo sincero e depois bufou.
— Hmpf. — Mas um pequeno sorriso escapou logo em seguida. Porque, no fundo, a velha senhora já desconfiava de algo.
Afinal... fazia tempo demais que ela conhecia o próprio neto para não perceber quando ele finalmente parava de agir como um idiota.
— Enfim, deixando isso de lado... Se você está aqui, significa que o noivado foi reatado, não é? O compromisso está de pé. — Os olhos da idosa brilharam. — Ah, felicidades! Como eu estou feliz!
Ela levou uma das mãos ao peito, visivelmente emocionada.
— Vou preparar uma refeição leve para comemorarmos. Já tomaram café?
Obito soltou um pequeno suspiro pelo nariz, conhecendo bem aquela empolgação.
— Na verdade, vovó... eu tenho que ir. Algumas transgressões estão me esperando no escritório da polícia.
Kyoko fez uma careta de desaprovação, mas não discutiu. Obito então deu alguns passos na direção de Naomy parou diante dela e por um instante, apenas a encarou. Havia uma mecha caída para fora daquele coque trançado perfeitamente alinhado.
Sem dizer nada, ele levantou a mão. Os dedos dele tocaram o cabelo dela com cuidado, movendo a pequena mecha para trás da orelha. O gesto foi lento, momentaneamente distraído... mas demorou um segundo a mais do que o necessário, esquecendo-se completamente de onde estava. O polegar deslizou suavemente pela linha do maxilar dela antes de parar.
Só então ele pareceu perceber o que estava fazendo e onde estava fazendo. A poucos passos dali, Kyoko observava tudo e Obito retirou a mão imediatamente, como se tivesse acabado de se lembrar de que a avó tinha olhos extremamente atentos — e uma memória ainda melhor.
Ele se recompôs, encarou a avó mais uma vez e sorriu. Foi até ela e despediu-se com um beijo na testa.
— Até mais tarde, vovó. — Kyoko estreitou os olhos, claramente analisando cada detalhe daquela pequena interação. Depois Obito voltou para Naomy e sussurrou:
— Volto em duas horas. — E assim saiu, deixando a esposa para trás, os cuidados da avó, que, claro, tinha muitas perguntas. E que, naquele momento, talvez fosse mais perigoso do que enfrentar qualquer missão.
— Muito bem... — disse ela, cruzando os braços com um sorriso que misturava ternura e travessura. — Agora que aquele cabeça-dura foi embora...
Ela inclinou um pouco a cabeça.
— Você vai me contar absolutamente tudo, minha menina. — O tom era doce. Mas não havia a menor chance de Naomy escapar daquele interrogatório.
[...]
Nem nos seus maiores sonhos ou pesadelos Naomy imaginou uma situação como aquela.
Tudo começou quando a senhora Kyoko e ela prepararam mochis e um prato de udon, ela ajudou a idosa com as compras na vendinha próxima. Kyoko cumprimentava todos pelo caminho, orgulhosa demais da companhia para esconder. E foi ali que o destino resolveu complicar tudo, pois Mikoto apareceu.
A matriarca Uchiha vinha pelo outro lado da rua, elegante como sempre, e bastou um olhar para reconhecer Naomy. O sorriso que surgiu no rosto dela foi imediato.
— Ora, ora... — disse, aproximando-se com naturalidade. — Então é verdade.
Naomy sentiu o estômago afundar.
— Parabéns, Naomy. — continuou Mikoto com delicadeza. — A mais nova Uchiha do clã.
Por um segundo inteiro, Naomy teve vontade de simplesmente desaparecer. Quis negar, fingir que aquilo era algum mal-entendido grotesco e cavar um buraco no chão e se esconder nele. Mas tudo o que conseguiu fazer foi sorrir com educação e agradecer, enquanto Kyoko observava a troca de palavras com uma expressão curiosa demais.
Depois que Mikoto seguiu seu caminho, Naomy praticamente arrastou a velha senhora de volta para casa. O coração batia rápido demais e assim que a porta se fechou atrás delas, Naomy respirou fundo e virou-se para a idosa.
— Me perdoe por esconder. Eu juro que... — não teve tempo de terminar de falar, pois logo se viu nos braços da idosa que derramava algumas lágrimas de felicidade.
— Oba-san... — murmurou Naomy, completamente surpresa. — Não foi de propósito. Obito queria informá-la pessoalmente e...
— Oh minha menina... — interrompeu Kyoko, segurando o rosto dela entre as mãos. — Minha querida e doce Naomy.
Ela enxugou as lágrimas com o canto do kimono.
— Você não faz ideia de quanto eu esperei por isso.
Naomy piscou algumas vezes confusa. Esperava bronca, um possível indignação ou talvez um sermão longo sobre esconder coisas da família.
Mas não aquilo.
— Eu... — começou ela, sem saber muito bem o que dizer.
Kyoko apenas sorriu. Um sorriso tão cheio de satisfação que parecia iluminar o rosto inteiro da velha senhora.
— Desde que vocês eram pequenos — continuou ela, como se revelasse um segredo antigo — eu já sabia que acabariam juntos.
Naomy arqueou lentamente uma sobrancelha.
— Sabia?
Kyoko assentiu com convicção.
— Você acha mesmo que eu deixava você vir aqui todo domingo só porque gostava da minha comida ou porque o clã aceitou essa aliança?
Ela soltou uma pequena risada.
— Apesar de criá-lo sabendo que estávamos em tempos difíceis. Obito é meu neto, sangue do meu sangue e que mãe não almejaria o melhor para o seu filho? — Naomy viu ali nas palavras dela toda a resignação e carinho pelo moreno. — Eu via a forma como vocês brigavam. Como cuidavam um do outro e como ele ficava irritado quando outro garoto falava com você.
Naomy ficou completamente imóvel.
— Obito sempre foi um idiota... — disse Kyoko com carinho. — Mas nunca foi cego quando se tratava de você.
A castanha abriu a boca para responder e fechou novamente. Porque, pela primeira vez desde que aquela avalanche de acontecimentos começara... Ela percebeu algo assustador. Talvez todos ao redor deles já soubessem.
— Bom vamos mudar de assunto! Não quero lhe constranger ainda mais. Mas, precisarei dar uma saidinha em breve. — Kyouko parecia leve demais para alguém que acabara de receber uma notícia tão grande. Naomy ainda estava tentando organizar os próprios pensamentos quando a velha senhora, já recuperada das lágrimas de felicidade, passou as mãos pelo avental como quem decide que agora tudo precisava seguir adiante.
— Você deve descansar um pouco, minha menina — disse ela, com aquela autoridade gentil que não deixava muito espaço para discussão. — Eu vou até o templo agradecer.
Naomy piscou, ainda um pouco aturdida.
— Agradecer?
— Claro — respondeu Kyouko, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Esperei anos por isso. Seria muita ingratidão não agradecer agora que finalmente aconteceu.
Antes que Naomy pudesse responder, a idosa já continuava:
— E depois vou conversar com a Mikoto.
A castanha ergueu a cabeça de repente.
— Conversar...?
— Ora, precisamos organizar uma renovação de votos decente! — declarou Kyouko com entusiasmo renovado. — Aquela história de pergaminho e assinatura não conta como casamento digno.
Naomy abriu a boca e fechou. Estava difícil de expor tudo que passava em sua mente e em seu coração, mas uma coisa era certa, ela não gostava nem um pouco quando decidiam por ela. Entretanto, não tinha energia suficiente para acompanhar aquele ritmo de acontecimentos.
Tudo parecia rápido demais. Kyoko, porém, continuava perfeitamente confortável com aquela avalanche de planos.
— E vocês precisam ter filhos logo — acrescentou ela, já caminhando em direção à porta. — Quero ser bisavó enquanto ainda tenho forças para correr atrás deles!
Naomy apenas assentiu, completamente rendida ao fluxo de palavras da velha senhora.
Ainda estava tentando processar uma coisa muito específica: Obito com ciúmes na infância.
A ideia parecia tão absurda e, ao mesmo tempo, estranhamente plausível. Ela ficou ali parada enquanto Kyoko terminava de arrumar o kimono para sair.
— Descanse um pouco — repetiu a idosa, abrindo a porta. — Essa casa também é sua agora.
Naomy permaneceu na sala.
Sozinha. O silêncio que se instalou ali era diferente do da casa de Obito. Ali havia história em cada canto. O espaço era pequeno, mas carregado de lembranças.
As paredes estavam cobertas de fotografias. Ela caminhou devagar até uma delas, aquela em que tinha fotos de Obito ainda criança com os pais ao lado e o sorriso largo, desajeitado, aquele tipo de felicidade despreocupada que só existe antes da vida começar a exigir demais ou compreender o seu papel no mundo shinobi.
Em outra foto, ele parecia um pouco mais velho, o cabelo já bagunçado do mesmo jeito que agora, segurando algo que provavelmente tinha sido um troféu ou prêmio.
Naomy parou diante de uma terceira onde ele estava rindo. Rindo de verdade e por um instante ela se perguntou quantas pessoas ainda tinham visto aquele sorriso nos últimos anos. Por um segundo balançou a cabeça negando tais pensamentos.
— Ele não deve habitar seus pensamentos Naomy, se não quando tudo terminar será ainda pior. — Sussurrou se perdendo nas lembranças que aquela sala poderia lhe render e foi assim que Obito a encontrou.
Parada no meio da sala, uma das fotografias antigas entre os dedos. Naomy passava o polegar pelas bordas gastas do papel com cuidado, como se aquele gesto pudesse preservar não apenas a imagem, mas o momento inteiro que ela representava.
O olhar dela estava distante como se estivesse se recordando de algo. Obito encostou-se discretamente no batente da porta antes de falar qualquer coisa. Seguiu a direção do olhar dela e reconheceu a imagem imediatamente.
Era uma manhã de domingo, ele havia treinado arduamente com a clara intenção de superar Kakashi. Queria ter a mesma atenção que o amigo e rival, o maldito prodígio que sempre parecia um passo à frente recebia de Rin e não poupou esforços, isso culminou nele ferido e com o semblante um pouco irritado e foi assim que Naomy o encontrou.
Ela tinha ido até a casa da avó dele naquela manhã pela mais pura obrigação — ele soube disso muito depois. Sua mãe ordenou logo após a cerimônia tradicional dos Sarutobi onde Naomy vestia um kimono preto, o tecido era decorado com flores cor-de-rosa delicadas que contrastavam com a seriedade da cor escura.
Quando avistou Obito naquela manhã percebeu o quanto ele estava irritado e principalmente que não repararia em suas vestes ou sequer no brilho dos seus cabelos e bochechas tingidas. Ela realmente estava linda como uma manhã de primavera e tinha parado diante dele naquele jardim e percebido imediatamente o estado em que ele estava. O cenho franzido, o corte na bochecha, o silêncio carregado de frustração.
Ele mal levantara os olhos. Ela, porém, não disse nada. Apenas se sentou no banco ao lado dele e tirou do bolso um lenço dobrado e perfumado antes de amparar as bochechas do Uchiha cuidando assim do seu ferimento.
Ele lembrava do toque, do cheiro do perfume e do silêncio confortável que ela criava sempre que estava perto.
E lembrava... Do sorriso. Não era um sorriso de pena por vê-lo competir com alguém muito melhor do quê ele e nem de simples conforto.
Havia algo mais ali. Algo que ele simplesmente não soube ler.
"Meu Rukudou, como eu fui burro." — O pensamento atravessou a mente dele agora, anos depois, enquanto observava Naomy ainda segurando aquela fotografia.
Obito se aproximou lentamente mantendo os olhos fixos nela. Para ele o sorriso exprimia bem mais do quê conforto, estava claro que Naomy havia mudado, daquela menina doce, para uma mulher complexa e extremamente provocante e habilidosa, mas olhando-a de cima naquele momento ela parecia apenas uma menina presa nas doces lembranças que guardou com tanto carinho.
E ele percebeu, com uma clareza que chegava tarde demais... Que talvez Naomy sempre tivesse estado ali esperando que ele simplesmente a enxergasse. Tal exasperação não o impediu de frear, pelo contrário, o levou a se aproximar ainda mais. O silêncio da casa parecia absorver cada passo, cada respiração, como se até as paredes soubessem que aquele momento era delicado demais para ser interrompido bruscamente.
Talvez por isso ele não tenha percebido que, para alguém como Naomy, silêncio daquele nível nunca significou segurança. No instante em que a sombra dele atravessou o espaço atrás dela, o reflexo veio antes do reconhecimento.
O metal brilhou e uma kunai afiada surgiu junto ao pescoço dele, com ela o encarando furiosamente.
— Não se seja sorrateiramente desse jeito idiota, eu pensei que fosse um ataque. — Lentamente abaixou a arma sentindo os dedos de Obito segurarem seu pulso. Os dedos dele envolveram a pele exposta de forma carinhosa.
— Você vive atenta demais. — murmurou ele. — Pode relaxar.
O polegar dele pressionou levemente a pele dela antes de continuar:
— Enquanto eu estiver aqui... tenha pena de quem tentar atentar contra sua vida.
Naomy poderia dizer que as orelhas esquentaram e o corpo também, mas preferiu se abster, ela não iria admitir aquilo.
De jeito nenhum!
Preferiu manter a expressão neutra, ainda que estivesse plenamente consciente de duas coisas ao mesmo tempo.
Primeiro: ele ainda segurava o pulso dela e fazia carinho.
Segundo: ele estava perto demais.
Obito parecia perceber o mesmo problema. Porque, mesmo sem querer, o corpo dele parecia inclinar-se um pouco mais, como se alguma parte dele estivesse curiosa demais para descobrir o que aconteceria se diminuísse ainda mais aquela distância. Não foi uma decisão consciente. Foi praticamente instintivo, como se a presença dela tivesse um campo gravitacional próprio que o puxava sem que ele percebesse. Cada segundo que passava ali, com a mão ainda segurando o pulso dela e o silêncio denso da sala ao redor, parecia diminuir a distância entre eles.
Ele não estava acostumado a isso.
Não daquele jeito.
Nunca imaginou que poderia sentir algo assim por outra mulher. A vida inteira, os próprios sentimentos tinham um único nome quando se tratava de confusão no peito: Rin Nohara. Era simples, previsível e juvenil.
Aquilo com Naomy não era.
Aquilo era novo e perigosamente fácil de perder o controle.
Obito sabia disso. Em algum lugar da mente, a consciência gritava que precisava parar antes de dar um passo maior do que a perna e fizesse algo que pudesse arruinar qualquer chance de construir algo real com ela. Mas o corpo parecia ignorar completamente essa lógica.
Ele inclinou um pouco mais o rosto, a respiração de Naomy quase tocava a dele agora. E então...
A porta da casa se abriu.
Kyoko entrou gargalhando, o som alegre da voz preenchendo o espaço antes mesmo de qualquer um deles ter tempo de reagir.
— Ah, mas isso foi maravilhoso! — dizia ela, ainda do lado de fora.
Naomy e Obito se afastaram num reflexo imediato. A velha senhora surgiu na entrada da sala carregando um grande buquê de ranúnculos brancos e rosas vermelhas, acompanhada por dois civis que a ajudavam com mais arranjos. Ela ainda ria quando entrou, mas o riso diminuiu ao ver a cena.
Por um segundo inteiro, Kyoko simplesmente parou. O olhar dela passou de Obito para Naomy, avaliando a distância curta demais entre os dois e a expressão ligeiramente culpada no rosto do neto.
A velhinha piscou. E então, como se tivesse acabado de interromper algo importante, fez uma careta divertida.
— Ah... — Ela coçou a cabeça, claramente percebendo que talvez tivesse voltado cedo demais, porém não demorou para se recompor. — Que bom que meu neto desnaturado e a minha querida menina ainda estão aqui!
O tom alegre voltou com facilidade enquanto erguia o buquê que carregava.
— Olhem quantas flores lindas eu recebi! — Os dois civis atrás dela entraram trazendo mais arranjos. — Alguns parentes da vila mandaram isso para parabenizar o casamento de vocês.
Kyoko parecia radiante.
— Não é maravilhoso?
Obito piscou algumas vezes, ainda tentando reorganizar a própria mente depois do momento interrompido, já Naomy também parecia ligeiramente deslocada, como se ainda estivesse processando a proximidade que existira segundos antes.
Mas Kyoko não parecia interessada em dar tempo para que qualquer um dos dois se recuperasse. Ela já estava caminhando pela sala, distribuindo flores pelas mesas e superfícies disponíveis.
— Vamos precisar de mais vasos — murmurou satisfeita. — Este casamento vai ser celebrado como merece!
Então parou novamente e lançou um olhar curioso para os dois.
— Agora me digam... — Um sorriso travesso apareceu.
— Eu interrompi alguma coisa?

Fale com o autor