Pride and Hate
15 Trust No Human
Notas iniciais

As selvas indianas estavam densas naquela noite. Os animais estavam apenas mantendo seu próprio ciclo, sempre caçando e realizando quaisquer atividades deles necessárias. A patrulha de elefantes marchando, o urso Balu apenas boiando nas águas do rio e a pantera Baguera deitada em sua árvore, apenas vendo o tempo passar. A traiçoeira cobra Kaa estava em busca de alimento, natural das cobras, desde nascença pensando em si próprias e em seu próprio alimento. Quanto mais carne, melhor.
Mas nem todos os animais carnívoros nascem traiçoeiros. Claro, naturalmente eles têm que caçar para poder sobreviver, mas alguns respeitam o ciclo e os filhotes de bichos. Mas existia um carnívoro, mais precisamente um tigre, que respeitava mais do que simplesmente os animais da selva indiana. Este tigre trata-se de Shere Khan. Um tigre novo, mas que já conseguiu constituir uma linda família juntamente á mãe de seus três filhotes de apenas alguns meses de vida os quais ele ama muito. Mas toda semana Shere Khan sai de noite de sua caverna para caminhar por mais ou menos duas horas até chegar à aldeia de homens mais próxima e se encontrar com o humano o qual ele aprendeu a respeitar e amar tanto quanto sua própria fêmea mãe de seus filhos.
Este humano chama-se Aarav, um homem alto, forte e bonito no qual poderia matar Shere Khan a qualquer momento, mas decidiu salvá-lo de uma terrível morte. Shere Khan estava simplesmente andando pelas matas indianas alguns anos passados e uma incrivelmente grande tempestade com raios caiu. Esta tempestade era forte, tão forte que um desses raios chegou a atingir a árvore na qual Shere Khan havia subido para descansar e se abrigar da chuva. Abaixo, uma mata pegando fogo o impediu de descer. Ficou preso em uma árvore pegando fogo, deixando-o queimar seu pelo e deixar marcas que ficariam ali por muito tempo. Então, Shere Khan pularia da árvore na esperança de fugir, mas simplesmente mergulhou no fogo e foi consumido por ele, queimando seus pelos. Se não fosse pelo fato de Aarav o ter tirado de lá e passado um creme curador de queimaduras em sua pele, ele teria morrido e deixado uma fêmea sozinha. Daquele momento em diante, o tigre cedeu sua confiança aos humanos e visitaria Aarav uma noite por semana, sempre sendo muito bem tratado por ele, deixando-o dar comida e água fresca. Mas nem tudo ficou bem naquela noite: o trauma de ter sido quase queimado vivo deixou Shere Khan com pavor de fogo, capaz até de fugir ao ver um fósforo se acendendo. Aarav entendia aquilo, e parecia falar com Shere Khan, apesar de não entendê-lo em nada. Aarav deixa todas as tochas apagadas quando o tigre vem visita-lo, e faz carinho em sua cabeça, dando-o tudo do bom e do melhor.
Nesta noite Shere Khan levantou-se e sem fazer quase nenhum barulho para não acordar Klaisha, sua fêmea, saiu da caverna. Em alguns passos afora da caverna, ele pode ouvir um pequeno rugido vindo de trás, se virando par ver o que era. Era Klaisha, aproximando-se dele aos poucos e olhando com os olhos de tigres curiosos para seu macho, perguntando:
– Shere, o que você está fazendo?
– Klaisha! – fala ele, disfarçando. – Vou beber água, estou com sede.
– Não tente me fazer de idiota, Shere Khan. – fala Klaisha, se aproximando do tigre. – Eu tenho percebido você sair todas as semanas á noite, isso é uma rotina. Você não vai beber água. Não confia em mim? Sou sua fêmea, temos três filhotes juntos...
– Eu sei, eu sei. – fala Shere Khan, agora se vê sem saída e tem que contar á sua fêmea. Afinal, confiava nela mais do que em qualquer um, até mesmo mais do que Aarav. – Estou vendo um humano.
– Um humano? – pergunta Klaisha, sem entender por que Shere Khan está vendo um humano. – Shere Khan, você sabe que os humanos não são confiáveis. Sempre tentando tirar nossas peles para colocar como tapete ou simplesmente nos fazer de refeição.
– Este é! – fala Shere Khan. – Querida, tente confiar em mim. Ele me salvou a alguns anos. Se não fosse por ele, você estaria sozinha e nossos filhotes nunca teriam nascido.
– Querido, por favor, me escute. – fala Klaisha. – Eles não são confiáveis. Este homem só quer adquirir sua confiança para depois fazer de nós tudo o que fizeram com os outros.
– Por favor, Klaisha, eu sei que ele é diferente. – fala Shere Khan. – Se ele fosse me matar, já teria feito, não acha? Faz quase um ano que o vejo.
Klaisha vê que os argumentos de Shere Khan são convincentes. Ela se vê de frente á um tigre que realmente acredita que um homem pode ser confiável. E pelo visto ele é. Klaisha gostou disso em Shere Khan, o fato de ele ser bondoso com os outros, sempre olhar o melhor dos seres. Isso é o que a fez se apaixonar por ele.
– Tudo bem. – fala Klaisha. – Mas não quero mais segredos, certo?
– Certo. – fala Shere Khan, aliviado.
– Agora vá ver este humano. – fala Klaisha, se virando e voltando para sua caverna e seus filhotes.
Shere Khan sentiu um peso sair de seu peito. Finalmente poderia deixar de esconder o que faz nessas noites. E na sua caminhada até a aldeia dos homens, conseguiu enxergar que tem uma vida maravilhosa. Não queria ter outra vida, afinal, tem seres que realmente o amam e se importam com ele. O tigre chega, após uma longa caminhada, á aldeia dos homens. A vê escura, o que não é de se estranhar dada a hora. Mas é de se estranhar o fato de Aarav não ter aparecido, afinal, ele sempre aparece no final das contas.
Shere Khan pensa em adentrar mais ainda na aldeia. Passa pelas barracas de palha, vendo se Aarav está em alguma. Não acha nada. Apenas portas e janelas fechadas, numa pequena aldeia com poucos humanos.
E é aí que acontece. As portas se abrem e luzes saem de dentro das casas. Essas luzes posteriormente se formam como tochas, e humanos as segurando, apontando para Shere Khan. Ele tenta fugir, mas está cercado com mais de dez humanos apontando tochas para ele. Não entende o que está acontecendo, mas não se preocupa em entender. Simplesmente pensa em sair dali e tentar achar Aarav, mas não o encontra em lugar algum. As chamas o cegam, e fazem com que ele desmaie.
Ele abre os olhos e se vê dentro de uma jaula na qual é feita com bambus. Demora um pouco para Shere Khan se situar, em princípio vê tudo borrado, mas aos poucos sua visão vai melhorando. Está de manhã, o sol está brilhando assim como o sangue escorrendo e batendo no chão. Esse sangue se trata de uma tigresa e três filhotes de tigres pendurados por um gancho, deixados de cabeça para baixo enquanto o sangue escorre pelos seus corpos e cai no chão. Shere Khan olha para a cena e consegue deixar uma lágrima de tigre escorrer pelos seus olhos, Klaisha e seus três filhotes estavam pendurados por esses ganchos, cheio de humanos ao redor de seus corpos. O tigre consegue enxergar ao lado de seus corpos o mesmo homem alto, forte e bonito. Aarav, apenas passando uma faca pelo corpo morto de Klaisha. Shere Khan não acredita no que vê, e sua única reação é dar um rugido.
Aarav se vira, e vê o tigre enfurecido e derrubado em sua jaula de bambu.
– Ah, olá Listrado. – diz Aarav, falando o nome que ele deu a Shere Khan, Listrado. – Gostou da obra de arte?
Shere Khan deixa mais lágrimas de tigre escorrerem pelo seu rosto coberto de pelos, e cai no chão da jaula de bambu, arrasado.
– Listrado? – pergunta outro homem perto de Aarav.
– Sim, é o nome que eu dei para ele.- diz Aarav, rindo. – Só para distraí-lo e conseguir mais alguns tapetes para minha sala. Listrado não fará parte desses tapetes. – agora Aarav vira-se para ele. – Listrado, hoje é seu dia de sorte! Você vai para a América, para os grandes circos que eles têm por lá. Circos que pagam bem para terem tigres fortes, grandes e dispostos a passar por uma roda em chamas como você. Claro, você não parece muito disposto á passar por uma roda em chamas, mas eles não precisam saber isso, não é?
Shere Khan não aguenta. Dá um rugido enorme, e avança em direção ás barras de bambu, fazendo-as ficarem desestabilizadas. Aarav e os outros homens se assustam, e veem que a jaula improvisada não durará muito.
– Aarav, esta jaula vai cair se ele persistir. – diz o outro homem.
– Eu sei. – diz Aarav. – Ele vai conseguir sair. Vamos fujam todos. Acharemos outro local para colocar nossa aldeia.
Shere Khan não desiste e apenas balança mais ainda as barras de bambu enquanto vê os homens irem para suas casas, pegarem suas mulheres vestidas com sáris indianos e seus bebês em seus colos. Shere Khan balança mais ainda a jaula, por cinco minutos suficientes para que todas as famílias peguem botes e velejem pelo rio abaixo, fugindo da aldeia.
Aarav pega sua mulher e seu pequeno bebê, e foge em um dos bote. O barco está a vários metros de distância quando Shere Khan rompe a jaula de bambu, e corre em direção á família de Aarav mata adentro. Alguns metros mais afrente, dentro do bote de madeira, está Aarav, sua mulher e uma cestinha com um pequeno menino adormecido que Shere Khan não consegue identificar como um bebê.
Ele pula no bote, e faz com que ele se quebre, fazendo com que o casal caia no rio, enquanto Shere Khan rasga suas peles e as come com o maior prazer, não dando a mínima para o ciclo, afinal, não tinha mais fêmea ou filhotes, e estes mesmos não respeitaram seu ciclo.
Matou Aarav e sua mulher, deixando um pequeno bebê adormecido em uma cesta num bote á beira do rio. Shere Khan fugiu, indo para terras distantes. Mais posteriormente, após a fuga de Shere Khan, aquele bebê acordaria e seu choro seria ouvido por uma pantera negra, que sabendo do ciclo, ajudaria na sobrevivência do bebê, colocando-o para ser criado por uma família de lobos. Shere Khan voltaria dez anos mais tarde, totalmente mudado, prometendo vingança contra todo e qualquer humano que tivesse a infelicidade de cruzar seu caminho, até mesmo o pequeno menino Mogli.
Fale com o autor