Pride and Hate
12 Shadow Man
Notas iniciais

Texas, 1897. Escola Episcopal do Texas, um internato recém-inaugurado no coração da cidade de Santo Antonio. Estritamente para garotos e totalmente militar, a escola abriga todos os tipos de meninos, sendo assim totalmente livre do preconceito. Negros agora foram capazes de entrarem para o internato, podendo assim estudar como todos os outros alunos ali presentes. Mas claro que um negro não é bem visto pelos outros alunos, principalmente quando estes mesmos são loiros com olhos azuis. E esse é o caso de Howard Facilier, que depois de ser acusado pelos seus pais de algo que não cometeu, foi totalmente exilado neste novo internato desde sua inauguração. Howard, agora com 17 anos, se sente muito isolado por tudo e por todos. Muitas vezes é capaz de ouvir murmúrios quando passa, sendo um dos poucos alunos negros daquele lugar terrível no qual ele odeia chamar de lar.
– Sr.Facilier! – fala seu professor de matemática, no meio da aula, enquanto Howard desenha suas máscaras macabras dignas de filmes de terror em um de seus cadernos. Ele se assusta, e deixa seu lápis cair no chão.
É possível ouvir todos os alunos rindo ao seu redor, olhando com olhares tortos e fazendo graça do pobre jovem negro.
– Sim, Sr.Olive? – pergunta Howard, se pondo de postura para falar com seu professor.
– Poderia vir ao quadro resolver esta equação, por gentileza? – pergunta seu professor, mostrando com sua régua uma equação matemática escrita á giz no quadro negro.
Se havia alguma matéria que Howard, ou Sr.Facilier, como seus professores o chamavam, era bom esta matéria era matemática. Levantou-se de sua cadeira nova de um recém-inaugurado internato e se dirigiu até o quadro, pegando o giz de seu professor e começando a resolver a equação. Cada conta, cada passo, Howard sabia. Foi capaz de resolver a equação em apenas alguns minutos, e entregar de volta o giz na mão de seu professor.
– Está brincando comigo? – pergunta o professor, olhando com uma face furiosa e não aceitando que um menino de cor seja capaz de tal feito.
– Senhor? – pergunta Howard, sem saber o que seu professor estava pretendendo.
– Você está de deboche comigo, Sr. Facilier? – pergunta o professor.
– Me desculpe se lhe causei a impressão errada, mas... – Howard é interrompido por seu professor:
– Calado! Agora, estenda sua mão.
– Senhor? – pergunta Howard, sem entender do que o professor estava falando.
– Estenda sua mão, Sr.Facilier! –grita o professor para Howard, estendendo sua régua.
Howard estende sua mão e coloca perto do peito de seu professor, que com toda a força dá com a régua em sua mão, e novamente, e novamente. Causa uma dor extrema, mas não é nada que ele nunca tenha sentido. Está acostumado com isso, mas a humilhação que passou não era constantemente passada.
– Bata mais professor, puna este negro imundo! – fala o menino Jackson que estava sentado em uma carteira no meio da sala.
O professor olha para Jackson com reprovação, e espantado diz:
– Sr.Clark, por favor, se dirija á sala de diretoria. Racismo não é tolerado aqui.
– Mas, professor, ele é um negro imundo! – fala Jackson.
– Sr. Clark, faça o que eu digo. – fala o professor.
Jackson se levanta com ódio de sua carteira olhando com olhos ferozes para o rosto de Howard. Apesar da hipocrisia do professor em punir um racista sendo próprio um dos, Howard preferiu se manter calado para não gerar mais confusão. Seria novamente agredido por Jackson e sua turma, como sempre por algo que não pôde evitar.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Howard estaria procurando algo para ler na biblioteca. Livros eram sua única forma de sair do mundo miserável que ele existe para se transportar para um mundo mágico de aventuras, duelos e finais felizes. Suas mãos tremiam enquanto imaginava o castigo que Jackson e seus amigos fariam contra ele por conta do que aconteceu na aula de matemática, e queria a todo custo sair daquele mundo. E foi aí que viu “O Príncipe Sapo”, dos Irmãos Grimm. Exato, contos de fada seriam perfeitos para a ocasião. Puxou o livro velho e empoeirado da estante e foi capaz de derrubar mais alguns que estavam espremidos a ele, se abaixando para pegar o que havia derrubado. E foi aí que viu:
“A Magia do Vodu”. Parecia não ter um autor, mas a capa parecia bem peculiar, com um preto forte e letras em dourado bem chamativas. Desistiu de um conto de fadas para ver o que de fato era o vodu que o livro dizia.
Lá dizia que o vodu é a comunicação com seres de um universo paralelo capaz de prever o futuro e dizer o que cada ser está destinado a passar, o que ele passou e seu destino final após sua morte. Estes espíritos são bem caridosos, e basta uma tentativa de contado para conseguir fazer com que eles fiquem seus amigos, claro que tudo á um preço.
Howard não tinha nada a perder, e aquela era sua única chance de fazer algum amigo, já que na sua vida inteira seu melhor amigo foi um cachorro de estimação.
E assim Howard esperou. Naquela mesma noite pegaria velas aromatizadas na capela do internato e em um pequeno local iria acendê-las em uma roda, se sentando de pernas cruzadas e lendo em latim os dizeres do livro para se comunicar com os espíritos:
–“Spiritus autem, ut nemini possit et intueretur.”
Howard ficou esperando, e nada. Nenhuma sombra apareceu, nem nenhum espírito capaz de dizer seu futuro.
– Que idiotice. – fala Howard, pensando alto. – Nem acredito que acreditei nesta besteira.
Ele se levanta, apagando todas as velas que havia acendido, pegando o livro e voltando para seu quarto com seu colega que é esquisito e não fala com ninguém para passar horas estudando sozinho.
No outro dia de manhã, Howard acordou e como todos os dias foi indo em direção á sua primeira aula, história. A sala de história fica em um local afastado dos dormitórios, e tem que se andar muito até chegar lá. Howard passa por alguns lugares desertos, já que é de manhã cedo e poucos alunos acordaram. Neste pequeno beco que dá para a sala de história, Howard enxerga Jackson e seus dois amigos olhando para ele com os braços cruzados e pose de durões. Sabia que era agora, e a partir daquele momento ele sairia com um olho roxo.
– Olá, Facilier. – fala Jackson, se aproximando de Howard juntamente com sues cavalos treinados.
– Jackson. – fala Howard, parado enquanto os observa se aproximando ainda mais.
– Facilier, eu não gostei do que aconteceu ontem. – fala Jackson, rodando em volta do corpo de Howard. – E sabe o que aconteceu? Ligaram para meus pais, é. E acontece que eu não voltarei para casa para o natal, como punição pelo que aconteceu. Meus pais acham certo um preto imundo estudar em um internato renomado como este.
– Desculpe. – fala Howard. Está tremendo, apenas esperando pelo primeiro murro de Jackson ou de um de seus amigos.
– Bem, acho que gora posso pelo menos compensar tudo o que perdi em você. – fala Jackson, erguendo seu punho.
Mas é aí que acontece: o punho de Jackson nunca chega a acertar o rosto de Howard, e volta e acerta seu próprio rosto. Os dois amigos de Jackson são derrubados no chão sabe-se lá pelo que, e acertados bruscamente contra a parede. Jackson é jogado contra o teto e cai de cara no chão, fazendo com que seu nariz sangre. Os três ficam apavorados, e sem pensar saem correndo dali.
Howard fica parado e apenas vê os meninos correndo apavorado pelo que acabou de presenciar. E aí ele vê: olha nas paredes e sombras estranhas, com rostos perturbadores parecidos com os de seus desenhos em seus cadernos, aparecem sorrindo para ele. Howard fica apavorado, e recua um pouco, mas uma voz ecoa em sua mente:
– Não se preocupe, Facilier. Somos amigos.
– Quem são vocês? – pergunta Howard, gritando.
– Somos seus novos amigos do outro lado. Você nos chamou. Ajudamos você, mas queremos coisas em troca.
– Eu não quero nada de vocês. – fala Howard, gritando, arrependido pelo que fez na outra noite.
– Agora não tem mais volta. O caminho que você escolheu é perigoso, Facilier. Arque com as consequências. Seja nosso amigo ou será condenado a prisão em nossa dimensão.
Howard fica aturdido, e se arrepende de tudo que fez. Mas não sabe de onde essas forças tiram seus poderes e não sabe seu destino caso as contrarie.
– Está bem. – fala Howard, calmamente.
Seus amigos fizeram com que Howard ficasse temido em seus últimos anos no internato, ninguém nunca mais mexeu com ele. Howard, após terminar, foi obrigado pelos seus amigos a se mudar para Louisiana e tentar sua vida como leitor de cartas, sendo capaz de lhes fornecer almas infelizes para eles, afinal, que lugar mais cheio de turistas nas proximidades que Nova Orleans? Howard abandonaria seu primeiro nome, e ficaria conhecido como Dr.Facilier, ou Homem da Sombra.
Teria sucesso em todas suas trocas, em persuadir todos seus clientes trapaceando, mas suas dívidas só aumentariam com o tempo. Ele somente quebraria suas dívidas ao ter a ideia de trapacear contra um príncipe, e inspirado em seu conto de fadas favoritos, o transformar em um sapo.
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