Pride and Hate
26 Lackland? No. King of England!
Notas iniciais

As escadas da torre eram estreitas e úmidas, seus sapatos escorregavam na pedra gelada, mas ele conseguia manter a postura régia. Durante anos a única coisa que teve foram as boas maneiras e a consciência de que pertencia à uma família importante no mundo conhecido inteiro. Seu pai era Henrique II, bisneto de Guilherme, o conquistador, que veio da França para se tornar rei da Inglaterra. Até onde sabia sua família só fez brigar desde esse tempo. A última da vez foi a briga de seus irmãos mais velhos contra seu pai. Henrique fez a burrada de dividir a herança entre seus filhos ainda em vida e Guilherme achou que já estava na hora de ser rei. João não podia culpá-lo, aquela coroa era tão dourada, brilhante, adorável e... Bom, Guilherme e seus outros irmãos rebeldes acabaram morrendo antes do pai, sobrando apenas João e o também rebelde Ricardo.
— Bem feito, ninguém mandou meus "adoráveis irmãos" quererem o que não era deles. Pelo menos eles tinham terras e títulos. Nunca sobra nada para o mais novo. Mas eu estou aqui, vivo, com todos os títulos e terras deles e aqueles insuportáveis estão sendo comidos por vermes embaixo da terra. Nada mais vai me deter — João nem percebeu que estava falando alto.
— Ah, senhor, na verdade, temos um problema sim. — O conselheiro do príncipe regente, Sir Hiss, quase nunca abandonava sua alteza real. A cobra falava tão perto da orelha do príncipe que às vezes ele conseguia sentir a língua bifurcada dentro se seu ouvido fazendo cócegas.
— Cale-se, alguém pode ouvi-lo. Eu sei qual é o nosso problema, bem, os nossos problemas.
Eles continuaram subindo as escadas lentamente até chegarem a uma porta de madeira trancada por fora. João ficou tentando ouvir o que se passava dentro do quarto, mas não tinha nada além de chorinhos infantis. O tempo todo segurava na adaga que trazia no cinto, um gesto que ele acreditava trazer boa sorte.
— Godofredo precisava ter filhos? Podia ter feito igual Ricardo, casar e logo deixar a mulher pra ir pra guerra. Na verdade, nem precisava ter casado.
Meio sem jeito, a cobra verde abriu a porta para João entrar no quarto. Era pequeno e não possuía decoração nenhuma, a única mobília era uma mesa de madeira e uma cama simples. Encostado na parede estava um leãozinho fraco de aparência triste, sua juba ainda não tinha crescido e as roupas estariam apertadas se ele não fosse tão magro. O menino pareceu não notar a entrada do príncipe e do conselheiro e continuou olhando pelas grades de ferro da janela. Só olhou para trás quando Sir Hiss apresentou o príncipe, e o fez com muita indiferença, como se a presença do tio não fosse digna de sua atenção.
— Como está sendo sua estadia aqui, Artur? – João não esperava que o sobrinho respondesse, não depois de ter sido preso a mando dele. – Eu estive com sua irmã mais cedo, ela me pediu para lhe mandar um abraço. Sinta-se abraçado.
O leão continuava sem responder.
— Ela está muito bem, Lady Kluck está cuidando dela e da menina Marian. Você a conhece? Uma adorável raposa, infelizmente esteve noiva daquele Robin Hood. Talvez não seja a melhor companhia para sua irmã Leonor, mas é o que temos no momento. Artur, saia dessa janela, por favor, venha conversar com seu tio.
— é Lorde da Irlanda, pra você.
— Lorde da Irlanda. HAHAHA Um leãozinho que mal desmamou é um Lorde e exige respeito.
Artur se virou para João de repente e ameaçou o príncipe com uma pedra pequena que ele parecia estar segurando há muito tempo.
— Você sabe que eu sou o verdadeiro herdeiro do trono, João sem terras, você nunca será rei!
João ficou realmente ofendido, aquilo tinha atingido seu ponto fraco. Mesmo sendo o filho favorito de seu pai João nunca teve muita coisa, o apelido começou logo que foi feita a partilha dos títulos e propriedades entre seus irmãos. Insolentes. Brigaram para derrubar o pai que tinha lhes dado tudo só para terem um pouco mais, mas nada sobrava para o mais novo, nada. Lutou ao lado do pai durante a pequena guerra que se formou e continuava sem nada, isso até seus irmãos morrerem e ele finalmente herdar o que era deles. De filho mais novo sem nada a príncipe regente em três tacadas, mas ainda tinha outros três problemas: o rei Ricardo e os dois sobrinhos. Por enquanto não precisava fazer nada com Ricardo, se ele der sorte, os árabes cuidariam do irmão e logo, logo receberiam a notícia de sua morte. Artur e sua irmã Leonor eram um caso mais grave e imediato, afinal os Lordes ingleses gostam deles e realmente esperam que Artur suceda Ricardo, caso ele não tenha filhos. Leonor era mulher e por isso nunca chegaria ao trono antes de João, mas a insatisfação geral com os altos impostos para pagar a viagem de Ricardo à Terra Santa e todos os outros gastos pessoais da família real tornavam o Príncipe Regente um leão odiado. Quando aquele Lorde Robin começou a reclamar com ele, e defender os pobres ainda por cima, João não teve outra escolha senão condená-lo a morte. Foi Sir Hiss quem deu a idéia de acusar Robin de matar os pais de Lady Marian num falso acidente de navio para ficar com todo o dinheiro deles quando casasse com a moça. João nem se importava se ele tinha matado os pais da raposa ou não, só queria acabar com o problema de uma vez. Infelizmente o garoto conseguiu fugir, reuniu um grupo de fieis seguidores e agora passavam o dia a assaltar a nobreza e os cobradores de impostos. É claro que com esses ataques aos impostos foram aumentando e aumentando para acabar com o desfalque causado por Robin Hood e seus amigos, e quanto mais aumentavam os impostos, mais aumentava o ódio a João.
Sir Hiss impediu o leãozinho de atacar João enrolando-se nele. É por essas e outras que é muito bom ter um amigo cobra.
— O que é isso, Artur, não devemos nos exaltar. Deixe-me terminar de falar sobre Leonor. Eu acho que vou deixar você fazer uma visita a ela qualquer dia, precisa ver o quanto ela cresceu, já é quase uma moça. Alguns homens do castelo começaram a olhar de um jeito diferente para ela, então eu disse que ninguém deveria entrar na ala norte sem a minha permissão, agora lá só vivem as mulheres solteiras e as viúvas. Você sabe que devemos sempre cuidar muito bem das moças, não é? Então, Leonor também me pediu para que vocês se correspondessem por cartas, mas não achei prudente, pois elas podem ser interceptadas por nossos inimigos.
— Meus inimigos, seus aliados. — O príncipe tinha que confessar: o garoto era muito esperto para a sua idade. Isso ia dificultar muito as coisas, João tinha que agir rápido antes que ele reunisse um exército e arrancasse a coroa de sua cabeça.
— Sir Hiss, acredito que o menino está mais calmo, por favor, solte-o. — A cobra desenrolou lentamente e voltou para o lado do príncipe regente. — Artur, você deve entender que por mais que eu goste de você, a Inglaterra sempre vem em primeiro lugar e eu não acho que um leãozinho mimado seja o melhor para o nosso reino, por isso Ricardo e eu estamos cuidando de tudo. Quem sabe um dia, quando você tiver idade e sabedoria, poderá sentar no trono e usar seus poderes reais para fazer o que quiser com esse lugar, inclusive dá-lo de presente pros franceses se quiser. Até lá, você e sua irmã estão sob minha custódia e me devem obediência.
João andou pelo quarto calmamente enquanto Artur absorvia as palavras do tio. As paredes de pedra da torre deixavam o quarto muito gelado e Artur não tinha uma roupa quente, então ele sentou na cama e colocou o cobertor fino nas costas, como uma capa. Apesar de ter dito que o pequeno príncipe poderia chegar ao trono quando adulto, João não esperava que isso acontecesse, mas ainda não tinha pensado num modo de acabar com essa possibilidade.
— O senhor por acaso vai mandar alguém me matar? Como fez com meu amigo Robin?
Artur falava meio sussurrado por causa do “abraço” apertado de Sir Hiss. João começou a rir sem se preocupar com os guardas que estavam esperando no andar de baixo, a gargalhada ecoava pela torre e isso a deixava um tanto maléfica. Ele não aguentava mais a existência desse ser que continuamente reclamava o que era dele. Situações extremas pedem medidas extremas. Ele encarou seu sobrinho magrelo e fraco, o garoto não poderia revidar, nem teria tempo de gritar.
— Não. — João tirou a adaga do cinto — Prefiro fazer justiça com minhas próprias mãos. Mande lembranças aos meus irmãos.
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