Notas iniciais
Olá povoo Como estão? Bom, como devem ter percebido, o titulo de hoje é em francês, assim como uma música que vocês encontrarão no capítulo. Essa é a tradução --> https://www.letras.mus.br/maria-callas/215271/traducao.html Apresentação de Carmen no Royal Opera House--> https://www.youtube.com/watch?v=KJ_HHRJf0xg Enjoy ^-^ —Maegi

Paris, a cidade mais romântica da Terra. Torre Eiffel, Louvre, Arco do Triunfo, Moulin Rouge... Tão conhecida e amada, o sonho de consumo de todos,

Paris é perfeita!

Será?

Edgar não concorda.

O garoto nasceu e cresceu na cidade luz, mas sua vida nunca foi fácil. Desde pequeno ele trabalhava no teatro com a mãe, enquanto ela costurava os figurinos, ele engraxava os sapatos. Conforme foi crescendo, o trabalho foi mudando. Ele cuidava dos cenários, da iluminação e até o jantar dos artistas ele ajudava a fazer. Durante as peças, ao invés de assistir ao espetáculo, ele olhava para os espectadores. Aquelas pessoas eram tão ricas, que muitas delas nunca precisaram trabalhar na vida. Sonhava com o dia em que seria tão rico quanto aquelas pessoas, o dia em que não ficaria nos bastidores, mas no camarote de honra.

Maior do que sua ambição, apenas o seu amor por Valentine, uma cantora de ópera que também trabalhava no teatro. Eles quase nunca conversavam, mas Edgar era apaixonado pela voz que ecoava nos corredores atrás do palco. Valentine não era esnobe como outras cantoras, era gentil com os empregados e sempre agradecia. Ela era bonita como nenhuma outra e também roubava corações na platéia. Edgar sentia ciúmes de cada buquê que mandavam para ela, principalmente quando pediam para ele entregar.

Valentine tinha uma espécie de namorado, um cara rico, herdeiro de uma grande fortuna. Monsieur Boulle aparecia, assistia ao espetáculo, mandava flores e eles passavam a noite juntos. No outro dia ele ia embora como se na tivesse acontecido. Isso irritava Edgar, Valentine não era uma puta para ele trata-la assim. Ela merecia ter vida de princesa, uma vida que ele estava disposto a dá-la, assim que fosse rico, é claro. Todos os seus planos giravam em torno daquilo agora.

O teatro estava silencioso naquela noite, não era dia de apresentações e todos os cantores tinham ido embora. Edgar estava trocando uma lâmpada queimada num dos camarotes quando ouviu passos no palco. Não deu muita importância ao som, pensava que era alguém limpando o palco. Terminou de colocar a lâmpada nova e já estava indo embora quando viu que quem estava no palco, era ela. Valentine andava de um lado para o outro, sem rumo, com um lenço branco enxugava as lágrimas que escorriam dos olhos negros. Então ela parou no meio do palco e começou a cantar:

Quand je vous aimerai?
Ma foi, je ne sais pas,
Peut-être jamais,
peut-être demain.
Mais pas aujourd'hui,c'est certain.

Ele conhecia a música, é Habanera da ópera Carmem; sabia que o diretor pretendia apresenta-la na próxima temporada. Edgar sentou-se na cadeira almofadada do camarote e ficou ouvindo seu amor cantar.

L'amour est un oiseau rebelle
Que nul ne peut apprivoiser,
Et c'est bien en vain qu'on l'appelle,
S'il lui convient de refuser.
Rien n'y fait, menace ou prière,
L'un parle bien, l'autre se tait;
Et c'est l'autre que je préfère
Il n'a rien dit; mais il me plaît.
L'amour! L'amour! L'amour! L'amour!

As notas altas eram as preferidas dele, mesmo nao entendendo nada de musica, ele gostava do modo como elas ecoavam pelo teatro.

L'amour est enfant de Bohême,
Il n'a jamais, jamais connu de loi,
Si tu ne m'aime pas, je t'aime,
Si je t'aime, prend garde à toi!
Si tu ne m'aime pas,
Si tu ne m'aime pas, je t'aime!
Mais, si je t'aime,
Si je t'aime, prend garde à toi!
Si tu ne m'aime pas,
Si tu ne m'aime pas, je t'aime!
Mais, si je t'aime,
Si je t'aime, prend garde à toi!

Esse era com certeza seu dia de sorte. Quando ele poderia ouvir Valentine cantar só para ele de novo?

L'oiseau que tu croyais surprendre
Battit de l'aile et s'envola;
L'amour est loin, tu peux l'attendre;
Tu ne l'attend plus, il est là!
Tout autour de toi vite, vite,
Il vient, s'en va, puis il revient!
Tu crois le tenir, il t'évite;
Tu crois l'éviter, il te tient!
L'amour, l'amour, l'amour, l'amour!

Após cantar a última nota, ela desabou. Começou a chorar no palco mesmo, soluçando alto e borrando toda a maquiagem. Edgar saiu correndo do camarote e foi até o palco, ele a abraçou e enxugou suas lágrimas. Ali mesmo ela contou o porquê de estar chorando. O riquinho tinha terminado com ela porque iria se casar com uma moça da classe dele. Ainda disse que nunca tinha amado ela de verdade e que foi apenas uma diversão. Além disso, foi demitida e estava conversando com um dos um dos moços da bilheteria e este lhe contou que o cocheiro disse ao eletricista, que falou ao marceneiro, que contou ao cozinheiro, que ouviu do violinista que uma nova cantora tinha sido contratada e ela que seria a cigana Carmem nas próximas apresentações, não Valentine.

Edgar ficou irado, mas não podia descontar sua raiva no cafajeste, muito menos no seu chefe. Naquele momento, o mais importante era cuidar da sua Valentine. Ele levou a moça de volta ao camarim e passou a noite com ela, ouvindo suas lamentações. A cantora chorou nos ombros dele até dormir. Edgar colocou-a na cama, ajeitou os travesseiros e a cobriu, depois saiu do quarto fechando a porta com cuidado para não acorda-la. Queria ficar ali para sempre, mas precisava voltar para o seu cantinho e dormir o resto de noite que lhe sobrara antes de voltar para o trabalho.

No dia seguinte, Edgar foi trabalhar mais feliz do que nunca. Tinha até se penteado e borrifado um pouco de perfume que ele encontrou na sala do seu patrão. Preparou um café da manhã especial para a sua amada e levou até camarim dela antes que os outros funcionários começassem a chegar. Até colocou uma flor na bandeja para tentar agradar Valentine. Ela já estava acordada quando ele chegou, e parecia bem mais animada.

Ela sorriu para ele e sentou-se para comer. A flor que ele tinha colocado junto à xícara ganhou lugar de destaque ao enfeitar o penteado da soprano. Edgar não se contentava de tanta alegria. Estar ali, com ela, partilhando os primeiros raios da manhã era um dos seus sonhos se tornando realidade.

— Edgar, você sabe muita coisa que acontece no teatro, não é? O que sabe sobre Carmem? Tem alguma ideia dos planos do diretor?

— Só sei dos cenários que estou ajudando a montar, nada mais. Esse ano tenho uma ocupação mais fixa.

Ela sorriu de um jeito tão agradável que Edgar começou a derreter por dentro.

— Meu bem, se souber de mais alguma coisa, vai me contar, não vai?

Meu bem. Aquelas palavras ficariam guardadas no fundo do coração dele. Ela não o amava do mesmo modo, mas gostava dele, e isso já era o suficiente para Edgar. Como negar alguma coisa para aqueles olhos brilhantes?

— Claro, contarei tudo.

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Edgar duvidou muito dessa história, cantoras novas não eram contratadas depois dos ensaios começarem. E como a fofoca tinha passado do cocheiro para o eletricista, que falou ao marceneiro, que contou ao cozinheiro, que ouviu do violinista, ele achava que era invenção de gente que não tinha o que fazer. Mesmo assim, tinha prometido à Valentine que contaria tudo o que descobrisse. Ele foi até o violinista algumas horas depois perguntar quem era a tal cantora.

— Mademoiselle Bonfamille. Ela não é uma novata, deve conhecer de nome.

— Bonfamille tem seus vinte e sete anos, você tem certeza que ela irá interpretar Carmen?

— É claro que tenho, Edgar. Nós da orquestra até já ensaiamos com ela. Devo dizer que canta muito melhor que aquela Valquíria.

— É Valentine

O violinista disse que não importava mais o nome dela, mesmo que conseguisse um papel (coisa que ele duvidava) ainda seria ofuscada pela mademoiselle Bonfamille. Edgar ainda não conseguia acreditar que nao veria sua amada cantando no palco. Como prometido, ele subiu até o camarim de Valentine para contar a descoberta.

No meio do caminho, encontrou uma carteira cheia de dinheiro caída perto da escada que levava aos camarotes. Edgar não resistiu, guardou todo o dinheiro no bolso e largou a carteira vazia no chão.

Continuou seu caminho até Valentine e a encontrou na sala do figurino olhando as novas roupas. Ela estava tão feliz que durante alguns segundos ele pensou em não contar nada. " Meu bem, se souber de mais alguma coisa, vai me contar, não vai?" Ele tinha feito uma promessa, não poderia recuar agora.

Quando Valentine o viu, começou a enumerar as qualidades e defeitos das roupas, como cada uma ficaria em cada pessoa etc. Até que chegou no vestido de Carmem e ficou calada durante um tempo, pensando qual cantora caberia naquele modelo.

— Contrataram Bonfamille para Carmem.

Irada, ela começou a gritar e falar coisas terríveis da nova cantora. Edgar a abraçou antes que ela rasgasse o corpete e sentaram no chão abraçados, enquanto ela se acalmava.

— Ah, meu bem, você é tão bom para mim, queria poder agradece-lo.

Valentine começou a beija-lo e foram se deitando no chão da sala, ela tirou a camisa dele e ele parou surpreso. No início, ela não entendeu sua súbita separação, mas poucos segundos depois compreendeu:

— Você nunca fez isso antes — Edgar continuava com os olhos arregalados e sem respirar — não se preocupe, vai dar tudo certo.

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Os dois estavam deitados no chão, abraçados, imaginando todas as coisas que poderiam dar errado, quando Valentine se lembrou que Bonfamille estava a procura de um mordomo. Pediu a Edgar para se contratar para a vaga e se tornar o espião dela. Ele relutou durante algum tempo, mas ela enumerou suas qualidades e como ele seria bem-sucedido nesse novo emprego. Ah, e o mais importante: ele iria ganhar muito mais do que no teatro.

Edgar concordou e foi até a casa da cantora, sendo aceito no emprego depois de duas horas de entrevista. Ele guardava um bloco de notas dentro do colete e anotava todas as informações que considerava importantes. As comidas que ela era alérgica, sua rotina, os ensaios, os amigos que ela encontrava e até seu amor pelos muitos gatos que ela tinha.

Depois da estréia, os admiradores enviaram presentes à cantora, como costumavam mandar para Valentine. A diferença é que eles não eram tão caros quanto o colar que Bonfamille recebeu de um advogado. Era feito de prata e enfeitado com várias pequenas safiras. Juntos, Valentine e Edgar bolaram um plano para roubar o colar, vende-lo e fugirem com o dinheiro. Tudo teria dado certo se ela não fosse tão vaidosa.

Uma noite em que Bonfamille estava fora de casa, ele deixou ela entrar na casa e roubaram algumas das mais caras joias da cantora. Brincos de rubi, um colar mais simples de ouro e o tão famoso colar de safiras. Na hora de ir embora, Valentine disse que Edgar tinha que ficar na casa para não levantar suspeitas, mas que depois mandaria uma carta marcando uma data e um local para se encontrarem. O tolo apaixonado acreditou e deixou que ela levasse os colares e brincos.

Depois de três meses Edgar se tocou que ela tinha usado ele para roubar as jóias e que nunca iria voltar. Apesar de querer vê-la presa e humilhada, ele nada podia fazer, pois denunciar Valentine era denunciar a si mesmo. Sua patroa tinha enviado detetives atrás das joias, mas nenhum deles conseguiu encontrar uma única pedra.

O mordomo tinha perdido as esperanças de encontrar Valentine, até que a viu saindo de um restaurante com o colar de safiras. Usava roupas muito melhores e estava quase irreconhecível. O pior de tudo, para Edgar, é que ela estava acompanhada daquele ex-affaire riquinho que tinha terminado com ela para se casar. Ser amante de um milionário era muito melhor que namorar um simples mordomo, pelo jeito.

Ele precisava fazer com que Valentine pagasse por seus crimes, e a oportunidade apareceu num sábado a noite. Mademoiselle Bonfamille sairia para jantar com seu amigo advogado (o mesmo que lhe deu o colar) e perguntou a Edgar se ele sabia de algum restaurante novo.

— Bem, vocês podem ir ao Parfait Cousine.

— Ele tem razão, Adelaide, muitos amigos meus frequentam esse restaurante. Inclusive, Monsieur Boulle me disse que jantaria lá esta noite.

Edgar se permitiu sorrir, seu plano daria certo. Se ele estivesse com sorte, Boulle estaria lá com Valentine e o colar de safiras. Ele quase foi até o restaurante para ver a cena que aconteceria entre a ladra e a dona original das pedras. Entretanto, ele temia que Valentine o acusasse como cúmplice e ele acabasse junto com ela na cadeia. Voltou para o seu quartinho e não dormiu até a chegada de Adelaide Bonfamille de volta à casa.

Valeu a pena.

Algumas horas depois, Adelaide chegou em casa vermelha de raiva. Para se acalmar, foi brincar com os gatos enquanto relatava o que tinha acontecido.

— Edgar, eu e George encontramos o meu colar! Estava com uma cantora invejosa. Acredita que ela confessou ter roubado meus colares e meus brincos? Claro que ela falou só depois que a polícia chegou, antes disso me acusou de mentirosa. George disse que vai processar a coitada. O que me deixa feliz é que tenho meu colar de safiras comigo agora. Infelizmente, ela vendeu as outras peças.

— Que história horrível, mademoiselle. Agora, me de o colar, vou guarda-lo em seu joalheiro.

Edgar guardou o colar no lugar dele, aproveitou que estava mexendo nas joias e pegou um pequeno brinco de ouro, apenas um, e fez a cantora acreditar que tinha perdido. Guardou aquele brinco e pegou o outro do par assim que teve oportunidade. Agora com o par completo, vendeu e guardou o dinheiro onde ninguém mais fosse achar. Ele fez isso mais algumas vezes, mas acabou desistindo de roubar por muitos anos. Até que descobriu que herdaria toda a fortuna de Bonfamille, logo após a morte dos gatos dela.

Notas finais
Espero que tenham gostado, meus amores ^-^