Pride and Hate
24 Finding James
Notas iniciais

À noite, se olhasse pela última janela acesa da grande casa azul, você veria uma menina e um menino brincando com suas fantasias. A menina, mais velha, usava uma roupa que imitava os índios do mundo novo e uma pena branca de ganso no cabelo ruivo. O irmão mais novo era um pirata malvado, com um chapéu e uma espada de madeira, que tentava roubar a indiazinha. Brincar de pirata era o que ele mais gostava de fazer, mais até do que nadar no rio ou subir nas árvores. Aos oito anos, a última coisa que ele queria era ir para a escola.
O colégio onde ele estudava era o Eton, de onde saem os melhores e maiores gentlemans da Grã Bretanha. Um lugar onde não se aprende só matemática e história, mas também etiqueta e bons modos. Nenhuma criança quer deixar de brincar na lama para aprender a usar talheres.
— Você vai morrer, mocinha! — Ele gritou para a irmã enquanto pulava da cama
—Nunca, seu pirata malvado — ela se esquivou e correu atrás do baú de brinquedos segundos antes da porta se abrir.
— Vocês dois, comportem-se como adultos — o homem que entrou no quarto tinha uma voz aterrorizante, do tipo que arrepia cada pelo do corpo. Os olhos azuis eram frios como gelo e congelavam a quem olhassem.
— Estamos indo dormir, pai. Boa noite.
O menino pulou na cama e se escondeu embaixo dos cobertores antes que o pai usasse o chicote do cavalo nas suas costas. Ele mesmo apagou a vela ao lado da cama e fingiu que estava dormindo.
— Mary, sai de trás do baú. Agora.
A menina se levantou de cabeça baixa, tentando não olhar nos olhos do pai. Tirou a pena do cabelo e a fantasia de índia, ficando apenas com a camisola, e seguiu o pai até o final do corredor, onde a mãe a esperava.
— Mary estava brincando com o seu filho de novo. Moças da idade dela não deveriam fazer isso. Essa é a educação que está dando para eles?
A mãe de Mary era uma pessoa maravilhosa, gentil e carinhosa. Nunca batia nos filhos como o marido fazia, nem os deixava sem café da manhã. A filha era sua copia em aparência e bom coração. Havia algo nos olhos castanhos da Senhora Hooke que acalmava até o mais acelerado coração, era um antídoto contra os efeitos que o senhor Hooke causava nas pessoas.
— Farei o possível, James. — ela levou a menina até o quarto e tentou conversar com ela.
O senhor e a senhora Hooke estavam conversando no quarto e não perceberam que o menino estava acordado. Ouvindo a voz dos pais, ele seguiu até a porta e ficou ouvindo a conversa com o ouvido encostado na madeira. Eles falavam sobre os negócios e os navios que o senhor Hooke enviava até os Estados Unidos, sobre os ataques de piratas no caribe e algumas histórias de marinheiros sobre sereias e fadas. Alguns homens ate falavam de um crocodilo gigante que atacava os barcos durante a noite. Apesar de todos os esforços, ninguém conseguiu captura-lo. Tudo estava maravilhoso enquanto esse era o assunto, mas então começaram a falar dos filhos e o menino não gostou muito de ouvir.
— Mary não é mais uma criança, ela não pode ficar participando dessas brincadeiras com o James.
— Não vai mais acontecer, ela me prometeu.
— Temos que separa-los, quanto antes ele voltar para a escola, melhor. Um dia ele será um advogado e cuidará dos negócios da família. Quanto antes começar sua formação, melhor para ele.
Crescer? Eu não quero crescer! James não gostou do que estava ouvindo, saiu antes de ouvir o final da conversa. Pulou a janela mais baixa e correu o maximo que podia para longe. Não queria saber de escolas, boas maneiras ou de pais. Nunca mais seria encontrado, nunca mais voltaria para casa.
Enquanto isso, seus pais continuavam a conversar sem perceber o que tinha acontecido. Mas também, se percebessem, não teria história.
— James é um ótimo menino, mas não vai a lugar nenhum se não estudar. Ele precisa entender que eu faço isso porque quero o melhor para ele.
Sr. Hooke sentou-se na cama e foi abraçado pela esposa. Foram dez segundos de sossego ate que a babá bateu na porta. Ela tinha subido até o quarto de James para levar o remédio, mas a cama estava vazia. Procuraram pela casa inteira, mas a única coisa que encontraram foi uma janela aberta e o chapéu de pirata jogado do lado de fora. O Sr. Hooke pegou a espingarda e o chapéu e foi procurar James perto do rio, mas ele não estava lá, assim como o menor dos botes. Voltou para casa apenas para avisar a esposa que iria descer o rio de barco. Embora ela imporasse que o marido fosse só de manhã, ele não queria esperar, tinha esperanças de achar o filho antes do amanhecer.
Sozinho no barco, ele desceu o rio gritando o nome do menino para as árvores. Alguns pássaros se assutavam com a gritaria e voavam, mas fora isso não havia outro movimento. O sol já estava de pé quando o Sr. Hooke chegou no final do rio, onde ele encontra o mar. Atracou o bote num pequeno porto de pescadores e começou a conversar com eles, perguntou a todos se alguém tinha visto James. Apenas um homem o conhecia.
— Eu vi o garoto sim. Ele foi com um dos barcos grandes pra ar aberto.
Correndo, Hooke foi até o outro porto, dos navios grandes, gritando o nome do filho e balançando o chapéu de pirata. Procurou entre todos os navios, mas ele já tinha partido. Seu filho, se fora. Com o coração destroçado, Hooke esperou o próximo barco para os Estados Unidos. O navio em questão era velho e não apresentava muita segurança, boa parte da tripulação não tinha dentes e poucos falavam inglês. Mesmo assim ele embarcou, encontraria James de um jeito ou de outro.
A viagem foi difícil, o mar era instável e chovia muito, a comida era escassa e havia pouca água. Ratos infestavam a embarcação e muitos homens estavam doentes. Na metade do caminho, o barco foi atacado pelo navio pirata Caveira e Ossos, quase todos foram mortos, menos Hooke. Ele ainda guardava o chapéu de pirata do filho e isso o salvou. O capitão John aceitou ele entre seus homens e seguiram viagem para a Flórida.
Hooke aprendeu a lutar e a cuidar do barco, se tornando amigo do capitão. Mas nem tudo eram flores. Pouco tempo depois, John o contou que sabia onde estava o filho dele, tinha atacado também o barco em que o menino estivera. James tinha se tornado amigo de uma fada e ela o levou para a Terra do Nunca. Hooke não acreditou nessa história, entao o próprio John disse para seus homens:
— Segunda estrela à direita e direto até de manhã
Hooke não entendeu nada, mas não reclamou. Já tinha visto muita coisa estranha naquele navio, uma a mais não iria fazer mal. Quando acordou no outro dia, tinham chegado a uma ilha diferente. Havia indios e sereias, vários flamingos voando perto de lagoa e uma caverna com jeito de caveira. Lembrou-se com saudade da filha Mary, que gostava tanto da sua fantasia de sereia. O capitão John levou hooke até os homens que haviam ficado em Nunca e eles disseram que conheciam um novo garoto tinha se juntado aos Perdidos.
— Ele diz que não gosta do próprio nome, diz que era o nome do pai. Prefere o nome do meio. Os meninos também chamam ele de Pan, porque ele vive tocando uma flauta.
Hooke entendia o filho. Depois de tudo o que tinha acontecido entre eles, era normal ele não querer mais se chamar James. Tinha escolhido outro que não lembrasse do pai, ele agora era Peter.
— Preciso encontrar meu filho, John. Como eu faço isso?
O capitão não podia ajudar, ninguém sabe onde se escondem os meninos perdidos. James Hooke teria que seguir sozinho dali em diante. Caminhou no meio da mata atrás do filho, mas só encontrava vestígios, sempre chegava atrasado. Começou a se perder entre as árvores. Não, eu não falo de perder o caminho, mas de enlouquecer. Jas Hooke começou a esquecer da sua vida e da Inglaterra, mal se lembrava do motivo de estar procurando Peter. Estava a um fio da loucura.
Decidiu voltar para o barco e para seus amigos. Encontrou John na praia, observando as sereias. Conversaram durante muito tempo sobre a ilha e as descobertas de Hooke. Estava indo tudo bem, ate que o capitão se lembrou de uma coisa.
— Os meninos perdidos nunca mais voltam, ficam aqui eternamente. A ilha faz algo com a cabeça deles, nao se lembram mais quem são, seus corpos agora fazem parte da ilha. Se seu filho for um dos perdidos, então a única maneira de salvá-lo é matando.
— O que quer dizer?
— Precisa matar Peter.
Hooke não acreditava no que estava ouvindo. Matar seu filho, depois de tanto sacrifício para encontra-lo. Não podia fazer isso, não conseguiria. John não deveria falar assim, talvez houvesse outra maneira de James salvar Peter. Essa revelação foi a gota d'água pra Hooke, cortou de vez o fio que segurava sua mente, enlouqueceu de vez. Pegou a espada e atacou John. A luta foi terrível, mas os dois resistiram durante muito tempo. Hooke conseguiu derrubar John e quase o matou. Cortou uma das suas pernas e tirou seu chapéu de capitão.
— Você não é nada, Long John Silver. O Caveira agora é meu.
Colocou o chapéu e saiu andando tranquilamente até o navio. Deu ordens aos homens para levantar a âncora e navegar ao redor da ilha. Quando perguntaram o porquê disse apenas:
— Vamos matar Peter Pan.
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