Pretérito Imperfeito
28 Capítulo XXVIII - I See You Walk
Notas iniciais
Juliana estava em uma sala escura, não conseguia ver ao redor. Um refletor estava apontando para uma cadeira no centro do cômodo, ela era simples, porém rústica. A penumbra apenas permitia visualizar com dificuldade uma poltrona marrom de couro posicionada alguns metros frente a frente com a cadeira.
Havia um homem nas sombras, sentado nessa poltrona, era possível ver todo o seu corpo vestido com um terno negro e uma blusa azul-marinho por baixo, se conseguia ver até os dois últimos botões desabotoados, mas o rosto era a única coisa que não se podia enxergar.
Juliana sentada na cadeira iluminada vestia um short curto de látex preto e um corpete também negro com pequenos detalhes bordados no mesmo tom de vermelho do batom em seus lábios. A menina dançava de uma forma sensual, não sabia o motivo, mas tudo o que ela queria era satisfazer seu espectador oculto.
Esse homem não se movia, apenas observava. Juliana realmente não fazia ideia de como sabia, mas tinha plena certeza de que ele estava bem satisfeito e de alguma forma era exatamente o que ela queria. Quem era ele?
A garota sentada inclinou-se para frente tocando cada perna, quase tocando em suas sandálias gladiadoras negras, com uma mão e deslizando em direção ascendente nas laterais de seu corpo até as mãos alcançarem sua nuca e erguerem todo o seu cabelo liso-ondulado no alto.
Ela lançou sua cabeça para trás, com os saltos finos das sandálias se apoiou no chão e arfou seu corpo formando uma linha reta. Depois, voltou a se sentar, empinando-se fez uma circunferência no ar com a cabeça, bagunçando um pouco seu cabelo. Em seguida, inclinou sua cabeça encarando a escuridão onde deveria estar a cabeça de seu observador e deu um chute no ar com uma de suas pernas para provocá-lo mais ainda.
O espectador finalmente se levantou da poltrona, só que acabou ficando ainda mais fora docampo de visão dela, a escuridão o tomou da cintura para cima. Juliana se levantou, mas ficou parada no lugar assim como o homem, só que ela começou a rebolar chegando ao chão e subindo novamente.
O rapaz então ergueu um indicador ao ar para ordenar que ela ficasse quieta. Juliana ficou repleta de curiosidade. O homem, depois de ficar uns segundos apenas a observando de longe, finalmente resolveu se aproximar revelando sua identidade, era Jonathan.
Juliana se surpreendeu por dentro, mas por fora ela continuava entregue ao momento. Era um sonho; aquele tipo de sonho que o seu consciente não sabe o porquê de estar fazendo as coisas, mas mesmo assim continua a fazer.
Jonathan se aproximou em silêncio, agarrou os braços da garota e esta derreteu sobre seu toque. Ele sorriu com plena satisfação, em seguida diminui a distância das faces deles deixando pouco menos de dois centímetros de fronteira. Os olhos azuis do homem não saíram da cor carmim na boca de Juliana.
Esta por sua vez fechou seus olhos e esperou na expectativa torturante que Jonathan inclinasse sua cabeça em poucos graus para que a beijasse. Ele sorriu novamente para a garota completamente entregue em seus braços, e se aproximou um pouco mais para aumentar a tortura prazerosa nela.

A garota de olhos fechados podia sentir que estavam a menos que milímetros de distância, não se beijavam, entretanto o lábio inferior dele tocava levemente o lábio inferior dela, era menos que um toque, era um roçar.
Não suportando mais a brincadeira de sensações que ele queria fazer, Juliana por um impulso tentou beijá-lo, mas ele foi mais rápido e a empurrou, a garota caiu em um caixão cuja tampa estava aberta.
Quando deu por si, estava corretamente acomodada nesse leito fúnebre enquanto Jonathan a observava, ela não conseguia se mexer. Mas seus olhos conseguiram vasculhar melhor o ambiente; foi quando ela viu que os dois não estavam sozinhos na sala, pelo menos não agora.
A figura de Damon estava num canto a olhando, Juliana tentou pedir ajuda, mas nenhum som saia de sua boca, em alguns segundos de sua agonia, mas uma figura surgiu ao lado de Damon, era ela mesma. Não! Não era ela, era a outra, a idêntica. Era Giuliana.
O olhar de Damon se voltou para o dessa Giuliana que agora segurava a mão dele. Ela sorriu e ele o fez de volta. Ela acariciou a face de Damon com a outra mão e ele fechou os olhos recebendo o carinho, Juliana queria se debater, chamar a atenção; queria conseguir se levantar e agarrar os cabelos daquela outra, arrancar fio por fio.
Mas a única coisa que aconteceu com a menina paralisada no caixão foi o surgimento de lágrimas. Jonathan que olhava para ela apenas ria assistindo toda a cena.
Ela parou de olhar para o casal do outro lado da sala que agora se beijava e olhou para o homem que ria ao lado dela.
Jonathan parou de rir e deu um “tchauzinho” para a menina deitada, em seguida andou até o casal do outro lado e os separou. Beijou a Giuliana apaixonadamente enquanto o Damon assistia sem se incomodar, depois os três ficaram de mãos dadas — Giuliana estava no meio dos dois – e começaram a assistir a tampa do caixão se fechar sobre Juliana.
A garota presa viu a luz desaparecer assim como o ar que foi ficando cada vez mais escasso com uma rapidez incrível até desaparecer.
Juliana acordou inspirando fundo e se sentando bruscamente em sua cama. Quando se deu conta que havia despertado de um pesadelo, ela se jogou para trás afundando novamente nos travesseiros.
– Nunca mais eu fico no You Tube até tarde assistindo clipes de Enrique Iglesias... – Ela resmungou sozinha em seu quarto com a voz pesada de sonolência.
Após alguns minutos ela levantou um pouco a cabeça para olhar seu novo relógio digital, Juliana havia acordado dez minutos antes de o despertador tocar acordando-a para seu “animador” primeiro dia de aula.
A menina resolveu levantar logo, e começar de uma vez seus rotineiros hábitos matinais. Tomou banho e escolheu seu look, dessa vez teria que ser algo condizente com os olhares que ela sabia que ia receber graças a ladra-de-namorados-e-destruidora-de-sonhos-de-1864.
Porém, na hora de arrumar seu cabelo ela ficou em um impasse, o que ela iria fazer? Então uma lembrança provocada por seu pesadelo surgiu: “É só uma dica para você parecer mais madura e intensa”.
Juliana decidiu caprichar em um rabo de cavalo, deixando um pouco de seu franjão solto.
[...]
– Uau! Onde é a festa? – Perguntou Elena vendo a irmã descer as escadas.
– Por quê? Está demais? – Juliana perguntou desesperando-se.
– Não. Você está linda, e bem mais arrumada que habitualmente... – Disse Elena começando a abrir a porta.
– Resolvi que vou ‘brincar’ de popular, já que todo mundo parece desejar tanto que eu assuma esse posto, vou fazê-lo por uns dias, pelo menos até cansar... Hey! Você já vai sair? Não vai tomar café? – Indagou Juliana.
– Já tomei, mas tenho que sair mais cedo, prometi a Caroline que ia ajudá-la a preparar algumas pegadinhas para os calouros do primeiro ano.
– Ah tá... Então até a escola. – Disse Juliana indo tomar seu café da manhã com Jenna e Jeremy.
– Até... – Disse Elena saindo e fechando a porta.
[...]
Juliana abriu a porta vai-e-vem do colégio e se deparou com a habitual confusão do corredor amarrotado de gente, calouros procurando loucamente por suas salas; veteranos se reencontrando, matando a saudade e alguns idiotas zoando os calouros.
Ela não teve nem tempo para sentir saudade daquela confusão. Como Giuliana havia ficado um mês no lugar dela, Juliana havia tido poucos dias de férias antes de cair em seu sono profundo, então suas férias de tudo aquilo foi muito menor do que as de qualquer um.
Aos poucos todas as centenas de cabeças no corredor se viraram para a forte luz do sol que adentrou o ambiente por causa da porta aberta que Juliana mantinha. A garota inspirou fundo, fechou a porta e começou a caminhar.
Até os calouros a conheciam, graças a alguém que havia compartilhado numa rede social o vídeo gravado por um celular dela dançando na boate. Os alunos e até alguns professores que estavam no meio foram abrindo caminho, deixando o centro como uma imensa passarela de vinte metros para Juliana.
As pessoas estavam meio recostadas nos armários e a encaravam. As meninas olhavam com curiosidade, algumas tinham admiração nos olhos e outras um pouco de despeito; os meninos a olhavam com o que já era de se esperar: malícia. Uns ousaram assoviar, mas a maioria se manteve apenas com o olhar de cobiça.
Juliana continuava a caminhar com a cabeça erguida tentando fingir prazer em ser a mais nova celebridade do colégio. Ela cumprimentava alguns conhecidos e seguia seu caminho até seu armário que para variar ficava no final dos vinte metros do corredor. Seus ombros mantinham-se erguidos assim como seu ego; aquelas operárias queriam uma abelha rainha e Juliana daria isso a elas pelo menos por enquanto.
Quase chegando ao seu destino, um menino do terceiro ano assoviou para ela e juntou suas mãos formando um coração e batendo algumas vezes contra seu próprio peito. A garota continuou andando, mas soltou uma risada charmosa para o menino que se esforçara para ganhar sua atenção. No fundo no fundo, Juliana estava se sentindo uma espiã da CIA ou uma atriz de Hollywood interpretando um papel que era tão diferente dela mesma, chegava até a ser um pouco divertido.
Chegando ao seu armário, ela foi interceptada por uma voz familiar, mas que agora possuía um tom de despeito e um pouco de inveja.
– Amiga! – Disse Sierra a abraçando. Elas tinham uma amizade pequena, desde que Caroline havia nomeado Juliana capitã das líderes de torcida, a verdade era que Sierra era uma das meninas que lutavam para conseguir o cargo, e agora o menino que ela tinha passado as férias inteiras tentando conquistar tinha acabado de bater no peito um coraçãozinho feito com as mãos para Juliana.
Juliana a abraçou um pouco desconfiada pelo tom da voz de Sierra. Mas não tinha nem como ela fazer ideia que o garoto do coração era a nova paixão da garota, pois essas férias ela passou dormindo.
– Você está arrebentando, não é?! – Disse Sierra.
– Apenas colhendo os frutos de uma noite de bebedeira... – Juliana disse abrindo seu armário e sabendo, graças a sua visão periférica, que ainda tinham olhares sobre ela.
– Se cada vez que uma garota tomar um porre se tornar a mais popular do colégio as indústrias de bebidas alcoólicas iriam conseguir dominar o mundo... – Disse a loira.
Juliana riu.
– É verdade... – Ela colocou um caderno de sua mochila no armário aberto.
– Mas quem é aquela personificação de Adônis que está vindo ali? – Disse Sierra olhando para a porta de onde Juliana tinha entrado e começando a babar.
A morena fechou seu armário apressadamente e virou o rosto por pura curiosidade, e não acreditou no que via.
O homem começou a andar pelo corredor e os alunos fizeram a mesma abertura de passarela para contemplá-lo. Era um novo zangão para a colméia do Mystic Falls High School.
Ele vestia um terno um pouco mais esportivo e despojado acompanhado de uma gravata e uma mochila lateral. Os olhares do público permaneciam o mesmo dos que eram para Juliana só que o sexo havia mudado. Os meninos olhavam com curiosidade, alguns tinham admiração nos olhos e outras um pouco de despeito; as meninas o olhavam com o que já era de se esperar: malícia. Umas não conseguiram se conter e suspiravam, mas a maioria se manteve apenas com o olhar de cobiça.
O zangão era Jonathan, do Mystic Grill e do pesadelo. Ele continuou caminhando até que chegou ao final do corredor e em Juliana.
– Rabo de cavalo... Escutou meu conselho então... – Ele disse com sua voz atraente.
Juliana não agia como as outras garotas, ela o olhava desconfiada. Bem diferente de Sierra que estava ao lado dela e se derretendo toda para o cara misterioso, que nem notou a existência dela ou das outras meninas no ambiente.
– Você está me perseguindo? – Ela indagou. A população inteira de abelhas assistia, mesmo sem escutar nada, a interação dos dois.
– Depende do ponto de vista... – Ele disse e soltou brevemente sua risada sensual.
A garota levantou uma de suas sobrancelhas.
– Relaxa... Já disse que não sou um serial killer. – Jonathan deu uma piscadinha e seguiu seu caminho virando e desaparecendo da vista de todos no corredor perpendicular ao que eles estavam.
Quando ele saiu um chiado incontrolável começou; abelhas e seus zumbidos.
Juliana só não conseguia distinguir se era só por causa do homem misterioso ou por causa dele ter conversado com ela por um instante.
– Uau! De—on-de—vo-cê—co-nhe-ce—a-que-le—de-us—gre-go? – Sierra soletrou as sílabas.
– Eu não o conheço... Só falei com ele alguns segundos no Grill. – Ela disse intrigada ainda olhando para a esquina do corredor que ele havia entrado. – Qual é a nossa primeira aula?
– Filosofia. – Respondeu Sierra ainda se recuperando do choque de beleza masculina.
– Então vamos logo para a sala, que a professora Christine já deve estar lá!
[...]
Juliana se sentou na frente e Sierra ao lado dela. A Salvatore-Gilbert começou a redigir o cabeçalho enquanto a professora não entrava na sala.
Alguns alunos já estavam impacientes pela demora e a sala já estava repleta de murmúrios de conversa. De repente tudo se silenciou, Juliana ergueu sua cabeça e encarou o homem sorridente que estava na frente da turma.
– Olá, pessoal! Meu nome é Jonathan Mackenzie e eu substituirei a Professora Christine Brown, infelizmente ela se encontra em uma virose aguda, então introduzirei vocês em Filosofia esse semestre... – Disse ele olhando cara por cara e terminando em Juliana, a menina arregalou os olhos processando a informação.
– Se a anã da Srta. Brown quiser bater as botas e nos deixar tendo aulas pro resto do ensino médio com essa divindade eu não me incomodo nem um pouco! – Sierra sussurrou se inclinando para perto do ouvido de Juliana quando o professor tinha virado para escrever no quadro.
Juliana lançou um olhar reprovador para o comentário da colega e depois voltou a olhar para o professor em sua frente, ela ainda estava abalada pela surpresa.

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