Pretérito

1 Capítulo 1 - A Pesquisa


Notas iniciais
Espero, ansiosamente, que curtam. Caso sim, eu tenho o passado de outros personagens também. Um beijo e bom proveito.

A cor rosa bebê deixava o espetáculo que eram os pores de sol... Majestosos. Não. Essa palavra não era o suficiente para expressar tudo o que o meu olhar apurado conseguia identificar. Era muito mais do que isso. Os pores de sol deveriam deixar as pessoas sem palavras. Sem fôlego. Se eu precisasse respirar, seria exatamente assim que me sentiria vendo aquilo. Isso mesmo.

Como aquele, eu nunca vira. Lentamente e em um arco, o sol despedia-se pelas próximas horas naquele lugar do continente, escondendo-se atrás dos prédios mais altos. A confusão que eram as cores amarelo, laranja, roxo e rosa faziam do céu uma obra de grandes mestres. De repente, as luzes da cidade se acenderam de forma que as estrelas pareciam ter trocado de lugar. Eu não me cansava daquilo, pois em todos os meus anos, eu aprendera que todo por do sol é único. Meu âmago esperava ansiosamente por esse momento e, quase, me lembrar como era ser normal. Mesmo que vocês humanos nunca reparassem em como essa beleza natural fazia diferença para aqueles que foram condenados a nunca verem nada além de um céu noturno.

A tentação de descer pelo elevador, dar um passo em direção à rua lotada do crepúsculo e aproveitar os últimos momentos da luz solar era forte. Respirei fundo e fechei a cortina do quarto de hotel que eu alugara. Impedindo que fizesse algo que me arrependeria. Em mais alguns minutos seria seguro sair dali para a noite sem fim de New York City.

Parei e esperei olhando fixamente para um canto da parede em que a tinta começava a descascar bem na junção do teto com a parede. A mente ainda fixa no sol em uma ravina perdida eras atrás. Sem perceber, ou percebendo até demais, o quarto foi ficando escuro e frio — como em um sepulcro. Tudo menos um cômodo utilizado pelas últimas doze horas. Ficar parada, para seres como eu, era como uma segunda natureza, algo inevitável, por isso éramos os modelos perfeitos aos grandes mestres: Belos, Frios, Estáticos, Imortais.

Um som estridente fez com que eu voltasse ao tempo atual. Uma pequena confusão mental fez com que eu ficasse, momentaneamente, perdida no tempo até que eu avistasse o telefone ao lado da cama que iluminava o ambiente com uma estranha luz azul. O hotel não era um dos mais caros da cidade, mas isso não significava que não era aconchegante: um box de casal estava com os lençóis, necessariamente, bagunçados; encostado em uma parede branca; ao lado um mini-frigobar recheado com guloseimas; na parede oposta uma televisão em um console tinha diversos canais liberados; uma porta dava a um banheiro simples, mas limpo.

Em um milésimo de segundo, estava com o aparelho em mãos. O número que piscava era desconhecido. Um segundo toque mostrou o mesmo número. Suspirei conforme o quarto ficava ainda mais escuro.

Alô?— Disse timidamente a voz do outro lado enquanto eu sentava na cama. — Drª Smith?— Não respondi, mas não desliguei. O código foi entendido pelo meu interlocutor. — Venha assim que possível.— Sem responder, encostei o dedo na tela para acabar com a chamada. Nada. Isso costumava acontecer. Com uma luva térmica, a chamada foi acabada.

Levantei. Fui ao banheiro e me olhei no espelho. Um gorro escuro, achatava meus cabelos longos e castanho-escuros; a pela branca como mármore, refletia a luz elétrica de forma natural; coloquei uma lente de contato verde sobre o arroxeado da minha íris; o nariz fino não tinha imperfeições; o lábio volumoso tinha uma pequena cicatriz no canto esquerdo; um sobretudo preto estava sobre uma camiseta de manga também preta; a calça jeans escura estava dentro de uma bota estilo coturno.

Ótima para passar despercebida pelo tráfego da maior cidade do planeta. Pesadamente, desci com o elevador do décimo andar tentando, a todo custo, não encostar desnecessariamente em alguém. Isso seria extremamente desconfortável para ele. A caixa de metal apertada de onze metros quadrados, possuía mais três ocupantes, sendo um deles extremamente delicioso. De forma quase que inconsciente, segui o cheiro até o ascensorista que, habilmente, não deixara as portas encostarem em mim. Sorri provando o seu cheiro no ar.

O homem alto ao meu lado seria o mais fácil de ser subjugado, porque olhava descaradamente à mulher que estava ao seu lado. Ela já veria eu chegando e alertaria ao funcionário que ficaria em pavor e deixaria o seu sangue tenso. A menos que eu conseguisse, prensá-la na parede contra o seu parceiro... Nesse momento, o funcionário do hotel decidiu olhar para os meus olhos. Esse era o erro de qualquer um, incluindo o meu. Em um momento eu vi cada segundo da vida do homem que, mesmo em um trabalho que não pagava muito, amava, simplesmente, o que fazia. Principalmente, quando havia pessoas boas e bem-humoradas como... eu..?

Obviamente, na mente do homem, eu era apenas uma garota bonita e educada, não a sua predadora natural. Respirei fundo e fui atingida por seu insano cheiro. O monstro em meu interior rugiu, mas os olhos tímidos e inocentes de sua neta, fizeram com que a humana dentro de mim se revoltasse.

No momento seguinte, o som das portas se abrindo, fez com que o destino do homem fosse decidido: ele não morreria por minhas mãos nessa noite. Com um novo sorriso, me despedi dos ocupantes daquela máquina e fui em direção à porta com fantasmas voando pelas paredes da minha mente.

A escolha desse hotel foi totalmente proposital. Não apenas pelo preço, eu evitava gastar muito dinheiro por períodos de tempo em que eu ficava tão consciente quanto qualquer outro, mas pela sua proximidade com o destino que eu tinha em mente: o Centro de Distribuição de Sangue dos Hospitais da região de New York.

Com o início da noite de quinta-feira, as pessoas saíam apressadas dos seus serviços indo em direção ou a seus lares ou a happy hours com colegas. Ou seja, uma noite propícia para não ser tão incomodada. Em horário atípico, mostrei a credencial que estava em meu bolso ao segurança que tentou me barrar na entrada do grande prédio espelhado no centro de Manhattan. Nocrachá, o nome de Drª Julie Smith, uma das fundadoras do lugar, faziam com que entrar não fosse o real problema. Sabendo exatamente onde ir, segui por corredores da parte administrativa do primeiro andar em direção às escadas, não queria mais nenhum elevador naquela noite, principalmente quando as pessoas saíam após um longo turno, para descer rumo ao quinto andar do subsolo, exatamente aonde ficavam as salas de armazenagem. Andando de forma humana (o que me irritou levemente), desci. Quinze longos minutos depois, afinal, todos os andares, mesmo nas escadas, tinham setores de segurança que viam as credenciais e liberavam meu progresso, cheguei ao meu destino.

— Já faz alguns meses que não a vejo por aqui, Doutora Smith. — Saudou-me Olívia Nelitx, uma excelente técnica em clonagem sanguínea, que caminhava apressada para me receber, apesar de momentos antes estar no caminho contrário.

— É um prazer vê-la, senhorita Nelitx. — Disse automaticamente enquanto passava por ela. — Estive viajando de um lado ao outro atrás de ideias e ferramentas para a pesquisa. — Respondi com um único fôlego. — Além, é claro, de aprovar o funcionamento de outras bases como essa pelo país. — Sorri francamente.

— A doutora faz falta. — Respondeu com os olhos brilhando de excitação, algo que poderia significar duas coisas distintas.

— Descobriu alguma coisa que eu deva saber, senhorita? — Perguntei animada pela primeira vez em meses.

— Sim, venha! — Disse correndo como um esquilo atrás de uma noz. — A doutora vai adorar saber disso! — Exclamou enquanto entrava em uma sala de testes. Antes de segui-la, estanquei na porta. Claro que o que me fez ficar ali foi tanto o forte cheiro errado de sangue, o que depois do meu encontro no hotel, atiçou claramente a furiosa sede em minha garganta. Obviamente. Não os protocolos médicos que minha mente fazia questão de lembrar.

Ri, baixinho.

— Calma, senhorita. — Digo batendo levemente na porta automática de vidro e mostrando os meus trajes. — Ainda não estou paramentada para entrar aí. Vou a minha sala. Volto em poucos minutos.

Na direção oposta, entro em uma sala de um pesquisador com o nome da Drª Julie Smith impresso na porta de vidro. Pelo costume, acendo a luz no interruptor logo ao lado da entrada e baixo as persianas. O cômodo podia parecer simples e impessoal para qualquer um que não conhecesse o passado, inventado, da doutora. A mesa central estava meticulosamente arrumada, sem um traço do abandono de meses; o computador de última geração desligado com canetas e papeis de anotações estavam guardados sob um embrulho desconhecido; uma estante estava repleta de livros de medicina e biotecnologia; próximo a ela, um diploma de medicina e outro de biotecnologia, junto aos certificados de doutorados, três diferentes, decoravam uma parede fria; o ar condicionado foi ligado no mesmo momento que o interruptor; no outro lado da parede um armário com roupas apropriadas para um laboratório fazia rivalidade com o maior toque pessoal do lugar: um pequeno frigobar — que era o meu destino.

Dentro, estava totalmente abastecido por algum dos meus assistentes vampiros, com um estoque de sangue engarrafado. Peguei uma e abri para beber lentamente. Com uma careta pelo gosto errado e nem um pouco recente, lembrei do que acontecera há pouco no elevador do hotel. Aquilo, aquela vontade de beber até me satisfazer, fazia parte da minha vida desde que eu largara os antigos instintos para me destinar a um propósito maior e que não fizesse com que eu fosse um monstro, ou não um tão horrível assim. A consequência direta disso? Eram certos tipos de fraquezas que a minha espécie não estava tão acostumada assim. Não era justo, mas nem todos escolheram essa vida. Tentar achar uma alternativa era o mínimo que poderia fazer.

Alguns estudos da nossa comunidade, mostravam a consequência direta do uso de sangue na nossa psiqué. Não era algo que eu quisesse me tornar. Por isso, desde o princípio, eu tentava evitar tomar. Mas havia quebrado a promessa antes. E quase essa noite.

— Venha logo, doutora. — A voz de Olívia saiu pela comunicador do laboratório direto no meu escritório. Sorri. Sim, ela era uma ótima assistente. Terminei de beber e larguei a garrafa em um local próprio ao descarte. A sede devidamente controlada. Ser a dona de um empreendimento como aquele tinha suas vantagens.

— A calma é uma virtude poderosa, senhorita Nelitx. — Sorri, enquanto a respondia.

Rapidamente, vesti o traje adequado à situação: um pijama cirúrgico e bem desinfetado roxo, um jaleco branco com meu nome bordado, um sapato também branco e que as pessoas normais considerariam confortável, o cabelo bem preso em um coque sob uma touca cirúrgica lisa. Caminhei ao local onde me esperavam, lá, para desinfetar qualquer resíduo que pudesse ficar em mim, um jato de ar quente acompanhado de uma luz ultravioleta passou por meu corpo. Vestindo uma luva saí para acompanhar a tão grandiosa descoberta de Olívia — aquela que fez com que eu atravessasse o país em menos de um dia.

— Veja isso, doutora! — Olhou em um microscópio, logo, projetando seu conteúdo em um monitor ao lado. — Olhe para essas hemácias! — Disse animada. Analisei. Com um pequeno sobressalto vi o que minha assistente tanto quis me apressar a apresentar.

— Essas amostras são do projeto 65A1? — Perguntei, rapidamente.

— Sim, senhora! — Disse mais uma vez eufórica. Eu entendia perfeitamente o sentimento dela. Nos últimos anos, a doação de sangue diminuiu drasticamente. O que fez com que pessoas em estado de necessidade precisassem, cada vez mais, de um composto que tentasse substituir o sangue humano ou alguma substância que valesse para qualquer que fosse o Rh ou tipo sanguíneo do paciente. Por anos, tentamos reproduzir algo assim, mas sem nenhum sucesso. Hoje, na minha frente, a prova de que seria capaz. Claro que era apenas uma parte do sangue produzida totalmente artificialmente, mas já fazia a diferença. Com pequenos passos, nunca mais voltaremos a tomar sangue humano!... Quer dizer, ninguém morrerá pela falta de sangue humano!!!

Um novo cheiro, alertou-me da presença desconhecida de um terceiro elemento.

Um chiado baixo demais para os olvidos de Olívia saíram dos meus lábios enquanto eu virava para avaliar o vampiro que entrava em meu território.

Um rosto perplexo me fitou. Acredito que não desconfiava que um de nós poderia trabalhar tão perto de sangue... Pensando nisso, o que ele fazia ali?

Todos os vampiros que trabalhavam ali, uma dúzia mais ou menos, tiveram que ter anos de treino, pessoalmente comigo. Aquele cheiro era familiar, como uma lembrança, mas não de um dos meus colaboradores. Fitei olhos dourados. A confusão momentânea durou apenas um segundo, quando sua mente abriu-se como um livro para mim. Essa familiaridade foi solucionada quando uma antiga memória dele passou por seus olhos (consequentemente, pelos meus).

— Essa aqui é a nossa querida Athena — A voz de Aro saiu sedutora.

— Só tu para usares esse nome, lorde. — Disse com um tom de irreverência. — Mas é um prazer conhecê-lo, meu jovem.

Vi seus lábios formando o nome Athena, antes, porém, o interrompi.

— Desculpe, mas não o conheço. — Disse firmemente enquanto caminhava em sua direção. — Sou a doutora Julie Smith, o senhor... — Deixei a frase morrer. Lembrava-me, perfeitamente do nome dele.

— Sou do doutor Cullen. — Disse apertando a minha mão. — Carlisle Cullen.

— Com todo o respeito, doutor, mas o que faz em meu laboratório? — Perguntei descontraída para os ouvidos humanos, mas reforçando o meu.

— A, doutora, perdoe-me. — Disse, apressadamente, Olívia. — O doutor Cullen soube da nossa pesquisa e pediu para acompanhá-la. — Claramente, arrasada pela beleza dele.

— Fins acadêmicos, é claro, doutora Smith. — Respondeu rapidamente.

— Com certeza! — Respondi, rápida. — O que acha de vir ao meu escritório para conversarmos por um momento, doutor? — Perguntei com um leve sorriso.

Ele acenou levemente com a cabeça e com um sorriso. Então, seguimos em direção ao meu escritório na velocidade normal de um humano. Quietos. Mas eu podia sentir os olhos dele em mim, ao mesmo tempo que analisava o lugar. Curiosidade acadêmica ou procurando uma saída, eu não sabia opinar.

— Sente-se. — Ordenei enquanto fechava a porta. — O que faz aqui, Carlisle?

— Eu poderia fazer a mesma pergunta a você, Athena — Disse... Seria aquele tom amável? — Como disse sua assistente, eu, assim como quase toda a comunidade médica, fiquei extremamente fascinado pelo trabalho que fazem aqui. Mas, confesso, que nunca esperaria encontrar alguém como nós no centro da pesquisa.

Quem esperaria?

— Deve-se lembrar, como eu não acreditava tão fielmente nas ideias dos Volturi. Decidi, graças a esse novo século, fazer as coisas melhores. — Uma pausa. — Para nós. — Respondi simplesmente. Não era uma mentira. Olhei em seus olhos. Novas imagens pipocaram em meu cérebro. Pessoas com séculos de história, eram muito mais difícil de absorver. — Devo parabenizá-lo pelo casamento? — Perguntei rapidamente e com um sincero sorriso, tentando, acabar com as visões. Carlisle sua esposa, Esme, um garoto, Edward, uma garota, Rosalie, outro garoto, Emmett.

— Obrigado. — Disse agradecido. Lembrei-me como éramos amigos há tantos anos. Sorri, cortando as histórias infindáveis que vinham a mim. — Nunca fica fácil? — Falou analisando-me.

Enquanto abria o frigobar em busca de uma nova garrafa, respondi:

— Não. Principalmente, quando alguém tão fascinante está aqui. — Sorri com os olhos fechados e tomando, vagarosamente o líquido.

— Me surpreende ter conseguido sair da corte. Pensei que estivesse morta. — Comentou pensativo.

— Aro quis, não posso negar — Disse levemente, com os olhos fechados. — Mas ele não tem poder algum sobre mim. — Dei de ombros e com um tom incrédulo com a ideia de Aro mandando em mim.

— É realmente bom vê-la, Athena.

— Sabe que eu nunca gostei muito desse nome, não é? — Ri, divertida. E abri os olhos. Ele me olhava fixamente. Novas imagens e pessoas que eu ignorei até que... — Como você conhece Mary? — Disse assustada. — Digo, Alice?

A postura leve dele mudou radicalmente. — Como? — Uma dura voz... paternal? Terminei de ver as lembranças em seus olhos. Não. Ele, melhor dizer ela, encontraram-se e agora eram uma família. Não. Não. Não. Isso não é possível!

— Eu preciso vê-la! — Disse alarmada e segurando os seus pulsos firmemente. — É importante!

Sua postura tornou-se ameaçadora, mesmo estando em desvantagem.

— Por que? — Perguntou.

— Eu tenho uma dívida com ela. Por favor, Carlisle. Pelos velhos tempos! — Implorei. Para alguém que ouvisse de fora, poderia parecer uma conversa completamente estranha, confusa e íntima. Talvez fosse. Mas aqueles que sabiam do meu poder de ver o passado dos outros estavam, de certa forma, acostumados com essa atitude.

— Ela é da minha família, Athena. — Respondeu duro. — Eu não vou deixar que nada aconteça com ela.

— Eu sei. — Disse com os pensamentos longes. — Mas eu preciso devolver a ela o seu passado.

Notas finais
O que acham?