Pretérito

2 Capítulo 2 - O Encontro


Notas iniciais
Espero que gostem. Bom proveito.

Uma hora até conseguirmos sair de Manhattan ao aeroporto JFK. Seis horas em uma aeronave até Seattle. Quarenta minutos em um barco rapidamente alugado. Ao invés das três horas que o GPS apontou, em uma hora e vinte minutos entramos na cidadezinha de Forks, Carlisle dirigia contrariando qualquer lei de trânsito — não que eu pudesse julga-lo por isso: a minha vontade era ter corrido as mais de três mil milhas. Ao total, nove horas em um trajeto insano e nem uma palavra dita.

Isso quer dizer que o clima estava tento, muito tenso. Não é sempre que alguém aparece querendo devolver a memória de alguém. Isso quase nunca acontece com os desmemoriados. Se eu poderia fazer isso? Com certeza. Principalmente se a da pessoa em questão, eu tivesse roubado. Me julguem. Mas Mary, quer dizer Alice, não estava preparada para o que sua vida tinha se transformado.

Acho que Carlisle estava se organizando. Provavelmente, eles sabiam que estávamos a caminho mesmo sem ele ter telefonado — as vantagens em se ter uma leitora de futuros na família. Claro que aquele era seu ambiente, mesmo não morando mais naquela cidade há anos, pelo o que eu vi em suas memórias, era ali que todos acreditavam ser o seu lugar: A Península de Olimpic, o Clã de Olimpic (como a vida é cheia de ironias!).

O carro de Carlisle não parou e entrou no caminho que eu vira como sua casa (haviatantos anos que eu não tinha uma, que esse conceito parecia tão estranho), ele continuou rumo a uma clareira em que ele tivera a própria guerra. Olhei para o rosto tenso do meu amigo. Uma pessoa tão boa quanto ele, nunca deveria ter sofrido o que sofreu. Mas após tantos anos trabalhando com o tempo, eu me pergunto se ele não vivera tempo bastante para aproveitar sua própria vida.

O século XV não tinha sido fácil. Mesmo para mim que já tinha vivido um pouco mais. Acredito que em meus maus dias, eu tenha sido amaldiçoada à fogueira algumas centenas de vezes (acho que talvez isso tenha acontecido um pouco antes).

Mas o que importava era que ele estava feliz. Ou até me encontrar, pelo menos. Antes de chegarmos a cento e oitenta quilômetros por hora de frente a uma floresta cerrada, ele parou o carro (bons freios, a propósito). Saiu e seguiu o restante do caminho a pé. Ele não me esperou, pois sabia que o seguiria, afinal, era eu que exigira esse confronto. Desci do carona, inspirei fundo e umas dezenas de cheiros diferentes vieram a mim. Incluindo os da minha festa de recepção. Fazer o quê?

Seguindo o cheiro de Carlisle, entrei pela floresta.

Claro que não era muito difícil saber onde estávamos. Minha capacidade de enxergar permitia que eu visse cada folha, galho, ser que estava próximo ou longe. Minha capacidade de ouvir, permitia que eu soubesse onde e, quase previsse, para onde as coisas ou seres iriam. Meu faro permitia saber se tentariam algo contra mim e a que passo estavam. As memórias de Carlisle não permitiriam que eu me perdesse, o difícil era conviver com tantos séculos de nômades que passaram por ali. O fardo era grande.

Parei na entrada de uma clareira grande, não muito a frente um grupo heterogêneo me fitava claramente zangado e eufóricos.

Prontos para uma batalha.

— Perché ricordo all'improvviso com'era a Ivrea? — Perguntei em um tom zombeteiro a Carlisle ao relembrar uma ocasião na Itália.*

Ouvi um suspiro ficar preso em sua garganta. Eu tinha que ser parabenizada pela minha tentativa em quebrar o gelo.

Lentamente, tirei os olhos das costas do meu velho amigo e rodei pelo campo. Aquele lugar estava mostrando como a primavera era bela, a grama verde e com flores desabrochando soltavam um aroma inebriante por toda a colina. Olhei um ponto indistinto a frente: aparentemente, não tinha nada de diferente do restante do descampado, mas ali fora o exato lugar que eles ergueram uma pira funerária para descartar todos os vencidos. Aquelas imagens já tinham passado pela minha cabeça pelos olhos de Carlisle, mas estar no lugar era muito mais poderoso e eu poderia ver a batalha de outros ângulos: quase me sentia uma deusa — novamente.

Pisquei lentamente e voltei o olhar para as pessoas a minha frente. Com uma rapidez que seria perdida por olhares humanos, eu vi Edward colocar a mão sobre os olhos e evitar fazer contato visual enquanto massageava as têmporas.

— Não recomendo fazer isso a menos que esteja preparado. — Fechei meus olhos com força. — Não acho que estivesse. — Disse com um dar de ombros. Senti a atmosfera carregar com a personalidade forte de todos ali.

Mais a frente e esperando Carlisle, Esme me fitava com suas feições de coração em expectativa (uma dor sem fim pesou pelo meu coração quando eu vi o seu destino); um passo atrás para defendê-la estava Emmett com seus mais de um metro e noventa de puro músculos que me instigaram a uma vida divertida e escandalosamente deliciosa; sua esposa estava ao seu lado, pronta para atacar, uma fúria insana me assolou quando eu vi o seu passado. Do outro lado de Esme, Isabella me olhava corajosamente e, sem dúvidas, tentando projetar seu escudo contra a minha habilidade, mas que ajudou a encobrir apenas, parcialmente, o seu passado; Edward estava com um dos joelhos no chão, a respiração irregular enquanto lia cada um dos meus pensamentos (um fardo tão ruim quanto o meu); mais atrás, escondidos entre as sombras das árvores, um clã de quase-lobisomens rosnavam baixo (o cheiro deles era quase insuportavelmente ruim), o passado de uma dúzia deles bagunçava meus sentidos; logo ao lado do alfa, uma mulher híbrida encontrava-se tranquilamente. Era fascinante vê-los! Entre os dois grupos, Jasper mantinha uma pose que eu julgava ser protetora, mas sua história me enojou tanto que qualquer simpatia morreu. Logo ao seu lado, o motivo de eu me sujeitar ao julgo de um clã inteiro estava, aparentemente, totalmente indefesa: Mary Alice Brandon.

Ou Alice Cullen. Como vocês queiram chamá-la.

Eu sabia, conscientemente, que deveria ficar parada e quieta na minha. Não fazer movimentos bruscos e só falar quando fosse necessário. Mas a surpresa faz com que façamos coisas que não sejam nem um pouco inteligentes. Eu dizer isso é uma ironia gigantesca.

— May-Al, sou eu. — Um passo em frente. — Eu vim vê-la. — Um rosnado alto saiu da boca de Jasper. Até que o garoto tinha coragem — admirei isso nele.

Um rastejar de passos quase imperceptíveis fez com que eu voltasse a cabeça para a esquerda.

— Não posso negar, é uma tática interessante... — Suspirei. — Mas eu já matei coisas muito maiores que você, Leah. — Disse em um tom baixo e ameaçador. Olhando diretamente em seus olhos amarelos, projetei uma imagem que apenas eu, ela e os caroneiros (Edward e sua matilha) poderíamos ver: há uns mil e quinhentos anos, eu estava sob uma lua cheia em uma ravina usando trajes típicos de uma velha legião romana. A minha volta, nada se mexia, pareciam ser apenas pequenas montanhas empilhadas. Me aproximei de uma, na verdade, eram corpos destroçados. Ao redor deles, pelos e sangue escorriam em uma imagem macabra. Em meu pé, um lobo de uns três metros de altura estava em seus gemidos finais. Meus olhos eram como duas pedras de rubi brilhando na escuridão.

Fazia algum tempo que eu não ouvia um uivo tão aterrorizado quanto aquele que me trouxe velozmente à realidade. Confesso que senti pena dos mutantes. Eles não tinham culpa alguma do que acontecera milhares de anos antes ou da guerra subsequente. Infelizmente, eles tinham que entender que, mesmo com esse belo rostinho, o meu passado me transformava em uma inimiga implacável.

Modéstia, completamente a parte, é claro.

— PARE! — Uma voz gritou implorando. Olhei para Edward, assim como todos ali, seu rosto estava atormentado e sentava-se no chão como uma criança indefesa.

— Desculpe-me. — Pedi sincera. — Mas acho que não deveria ficar vasculhando os pensamentos alheios! — Repreendi-o tentando soar séria.

— Você acha que eu posso evitar? — Perguntou enquanto era ajudado a se levantar por sua esposa.

— E eu posso? — Perguntei como a velha amarga que era. — Tente fazer isso por mais alguns séculos e veremos como estará depois de tudo isso! — Eu comentei amarga. — É nesse momento que você já leu todas as minhas intenções, ou uma pequena parte delas, porque seria quase impossível, e diz para os outros que está tudo bem e eu só quero o bem da sua irmã? — Perguntei seguindo a melhor lógica dali: a minha.

— Não! — Urrou Jasper. Nunca imaginaria que a minha presença pudesse causar tanto ódio após minha decisão de largar a minha família. Aquele garoto me surpreendeu novamente. Retiro o que eu disse anteriormente, gostei dele!

Em uma típica atitude de Alice. Ela deu um passo a frente, pegou na mão de Jasper, o acalmando, e disse em um tom musical — lindo, mas nem um pouco parecido com a voz delicada que ela tinha. É uma pena!

— Está tudo bem! — Ela disse confiante. — Eu quero mesmo ouvir o que ela tem para me dizer. — Eu dei um sorriso saudoso, lembrando, principalmente, das nossas peripécias em alguns festivais que eu tinha a arrastado. — Do que você me chamou? — Perguntou curiosa.

— May-Al, costumava ser uma brincadeira nossa enquanto estávamos no circo. — Aquela simples sentença chamou a atenção de todos novamente.

— Desculpe, eu não lembro. — Disse com os olhos tristes, o que quebrou mais um pouco o meu já parado coração.

— Eu sei... — Murmurei e respirei fundo. Ela não tinha se aproximado muito, mas seu cheiro, ao mesmo tempo que diferente, me lembrava do antigo. Ela percebeu. Sempre percebia. — Você sempre teve um cheiro único... É difícil associar um ao outro. — Disse como se me desculpasse com um leve dar de ombro. — Na verdade, quem deveria se desculpar sou eu... Enquanto estava internada em Saint Paul, Cézar me convenceu a ajudá-lo para facilitar o seu processo. — Parei, pensativa. — Nunca imaginaria que eu acabaria guardando as suas memórias por tanto tempo... — Divaguei voltando cem anos no tempo.

— Sabe, essa conversa não faz sentido algum! — Disse, o que poderia parecer exasperação se fosse qualquer outra pessoa que tivesse dito, nela, era animação. Outro sorriso saudoso saiu de meus lábios. — Por favor, comece do início!

— Bem como a dor de cabeça do seu irmão pode atestar. — Comecei apontando a Edward e me sentando na grama. Olhei para o céu que começava a clarear, meu organismo dizia que deveria demorar mais tempo para o sol sair, mas eu estava do outro lado do país, é claro que amanheceria muito mais cedo. — Eu não sou um livro muito fácil de se ler. — Parei observando o nascer do sol sobre as copas das árvores. — Eu, talvez, e digo isso por não saber ao certo quando podendo ser bem antes, nasci uns quarenta anos antes do início de Queóps, em uma tibo nômade perdida no meio do deserto. — Deixei que a informação pesasse para todos eles, nunca tinha revelado a minha real idade. — Minha transformação não foi o que eu chamaria de "típica"... — Parei ao sentir o primeiro raio chocar-se sobre a minha pele e refletir como um prisma... A sensação era quase que a de viver novamente. — Havia uma crença que no meio do deserto sem fim, haveria um oásis que serviria para a pessoa sobreviver e encontrar a cidade mais próxima, mas para passar por ali um preço deveria ser pago para um grande mal que acabava com as caravanas que ousassem duvidar disso. Caso você quisesse viver, teria que erguer um local para oferendas e dar seus bens mais preciosos em troca de uma passagem que poderia ser bem-sucedida ou não. — Fiz uma pequena pausa tentando organizar as lembranças de outras pessoas. Era incrível como eu poderia saber o passado humano de todos, mas não o meu. — Vinte e quatro anos depois do meu nascimento, minha família passou por ali e, por um acaso, a oferenda de meus pais foi julgada... hum... insuficiente. Naquela noite, seis vampiros cercaram o caminho que fazíamos pelo deserto. Em um ato altruísta, dei a minha vida em troca da passagem segura pela minha família humana. Antes que qualquer um questionasse, fui levada até o oásis novamente. — Parei.

— E...? — Perguntou Alice, claramente imersa na história. Olhei para os outros que tinham expressões de fascínio e horror tão claramente construídas.

— A, três dias depois eu era uma vampira recém formada e viajando a uma velocidade assustadora para outro canto do mundo. — Olhei para Carlisle. — Foi lá que passaram a me chamar por Athena. — Suspirei, enquanto voltava cinco mil anos no tempo. — Por poder ver o passado e, consequentemente, o que as pessoas planejavam contra minha família para assim montar planos de ataque e opiniões, os outros vampiros falavam que eu era a melhor estrategista que nossos exércitos tinham. Não tardou muito para um mito surgir e passarem a nos endeusar.

— Para tudo. Espera um pouco. — A voz forte de Emmett ecoou pela colina. — Quer dizer que toda aquela baboseira grega e romana tem relação com uma família de vampiros? — Sua risada era incrédula.

— Sabe, eu recomendo que tenha muito cuidado com as próximas palavras. — Disse com uma voz dura. — Você acha que os Volturis são o problema do nosso mundo? — Ri, amarga. — Não, nem um pouco. Quando estávamos no poder muito antes de cedê-lo à próxima família, e acredite em algum lugar meus irmãos ainda estão perdidos, o mundo era muito mais.. selvagem. — Sussurrei a palavra como se fosse um pecado tê-la. — Se hoje o mundo é muito mais correto, você deve ele a nós. Nem sempre foi assim, os lobisomens não eram o nosso único problema — Pisquei para eles. — Acredite em mim. Ou em seu irmão e no que ele presenciou em minhas memórias.

Edward apenas girou o pulso em um aceno. Acredito que ainda inconformado com o que vira entre os meus pensamentos. Ele acenou com a cabeça, quase que imperceptivelmente para todos, negando. O que acha, então, de abismado com aquilo que eu não contei e ou editei um pouco. Outro aceno, agora, positivo. Não era do meu passado que precisavam ter medo. Aquilo não sou mais eu, eu mudei e tenho um novo princípio.

— Enfim, — Disse chamando a atenção de todos novamente que pareceram confundir-se em um debate sobre mitologia. Um arrepio involuntário subiu pela minha espinha. — Quando eu desisti do que minha família pregava como "bem social" e, por favor, não perguntem o que isso quer dizer. — Uma pausa pensando na vontade inexistente de encontrar qualquer um dos meus familiares. — Eu voltei a caminhar pelo mundo. Conheci muitas culturas e diversas pessoas. Aquele blá-blá-blá para manter a nossa existência um pouco mais digna. — Imagens de três mil anos de história humana passaram como um lampejo pelos meus olhos. — Então, em Volterra, na Itália, há um pouco mais de quatrocentos anos, conheci Carlisle quando ele passou uma temporada com os Volturi. Nada muito interessante, caso queiram saber a minha opinião, e continuam agindo da mesma maneira — pelo o que suas memórias me disseram.

Fiz uma pausa, era extremamente desconfortável revelar coisas demais, mas eles precisavam confiar o mínimo possível em mim para que eu pudesse ter Mary novamente.

— E, em mil novecentos e dezoito eu te encontrei. — Fiz uma pausa. — Na verdade, seria melhor dizer que você me encontrou. Naquela época eu estava alojada com um circo e tinha uma tenda de adivinhação. — Dei de ombros com uma piada antiga. — Você sempre teve, como eu vou dizer isso sem parecer que eu estou te julgando. — Pensei um momento em uma palavra satisfatória. — Uma pré-disposição ao futuro das pessoas, mas, geralmente, ele envolvia algum evento um pouco trágico demais. — Falei rapidamente. — Assim, tudo o que você queria era saber o que acontecia com você... Até se zangou quando eu disse que não poderia ajudá-la. — Respirei fundo. — Nessa época, mais ou menos, nos tornamos muito amigas. E isso é sério mesmo, Alice. — Parei, levantei, cruzei os meus braços em um "x" sobre o meu peito. — Infelizmente, o restante eu só poderei contar se você realmente quiser saber, Alice. — Olhei no fundo dos seus olhos. — Você quer?

Notas finais
O que acharam? —----- *por que eu de repente lembrei de como foi em Ivrea?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.