Pretty little liars
22 22. Banhos de cerveja fazem bem para os poros
— Dá só uma olhada — sussurrou Maya toda animada. — Costumava ter uma dessas no meu café favorito na Califórnia!
Emily e Maya olharam para a cabine de fotografia no terreno da festa de Noel, perto das árvores. Uma comprida extensão elétrica cor de laranja saía da cabine e seguia até a casa, através do gramado. Enquanto elas olhavam para a cabine, o irmão mais velho de Noel, Eric, e uma MonaVanderwaal bem tontinha saíram de dentro da cabine, pegaram suas fotos e foram embora.
Maya deu uma olhada para Emily.
— Quer tentar?
Emily concordou. Antes que elas entrassem na cabine, ela deu uma olhada para a festa. Alguns garotos estavam reunidos em volta do barril e uma porção de outras pessoas dançava com seus copos erguidos. Noel e um bando de garotos nadavam só de cuecas no lago e Ben não estava à vista.
Emily se sentou ao lado de Maya no banquinho laranja da cabine de fotografia e fechou a cortina. Elas estavam tão espremidas ali que seus ombros e coxas roçavam.
—Toma. — Ela estendeu a garrafa de Jack Daniel's para Emily e apertou o botão verde. Emily deu um gole e depois segurou a garrafa com animação no momento em que a câmera bateu a primeira foto. Então elas encostaram o rosto uma na outra e deram grandes sorrisos. Emily ficou vesga e Maya inchou as bochechas com ar como um macaquinho para a terceira foto. Depois a câmera as pegou quase normais, se bem que um pouco nervosas.
—Vamos ver como ficaram — sugeriu Emily.
Mas, quando se levantaram, Maya puxou a manga de sua camisa.
— Podemos ficar aqui só mais um segundo? Esse é um ótimo esconderijo.
— Hum, claro — Emily se sentou de novo. Sem querer, fez barulho ao engolir. — E então, como você está? — Maya perguntou, tirando uma mecha de cabelo da frente dos olhos de Emily.
Emily suspirou, tentando parecer confortável no baquinho minúsculo. Confusa. Irritada com meus país provavelmente racistas. Com medo de ter tomado a decisão errada sobre a natação. Meio assustada por estar sentada tão perto de você.
— Eu estou bem — ela acabou dizendo.
Maya bufou e deu um gole no uísque.
— Eu não acredito nisso nem por um segundo.
Emily ficou quieta. Maya parecia ser a única pessoa que a entendia de verdade.
— É, acho que não — confessou Emily.
— Bom, então o que é que está acontecendo?
Mas, de repente, Emily não queria falar sobre a natação, ou sobre Ben ou seus pais. Ela queria falar sobre... outra coisa. Algo que ela vinha percebendo aos poucos. Talvez ter visto Aria tivesse começado isso tudo. Ou talvez, finalmente, ter uma amiga tivesse trazido aquela sensação de volta. Emily pensou que Maya entenderia.
Ela respirou fundo.
— Ah, sabe aquela menina, a Alison, que morava na sua casa?
—Sei.
— Nós éramos muito chegadas e eu, tipo, realmente a amava. Eu adorava tudo nela.
Ela ouviu Maya respirando aflita e tomou outro gole da garrafa de Jack Daniel's.
— Nós éramos melhores amigas. — Emily passou os dedos entre o tecido azul desgastado da cortina da cabine de fotos. — Eu gostava demais dela. E por isso, um dia, assim, do nada, eu fiz.
— Fez o quê?
— Bem, Ali e eu estávamos na casa da árvore no quintal da casa dela. Nós íamos muito lá para conversar. Estávamos sentadas, conversando sobre um carinha de que ela gostava, um menino mais velho que nós, cujo nome ela não me falou, e eu não consegui mais me segurar.
Então eu me inclinei... e a beijei.
Maya fungou baixinho.
— Mas Alison não estava a fim daquilo. Ela se afastou de mim e disse algo como "Bem, agora eu sei por que você fica tão quieta quando estamos nos trocando para a aula de educação física".
— Nossa — disse Maya.
Emily tomou outro gole do uísque e se sentiu meio tonta. Ela nunca tinha bebido tanto. E lá estava um de seus maiores segredos, exposto como as calcinhas da vovó no varal.
—Ali disse que não achava que amigas deveriam se beijar — continuou ela. — Então eu tentei lidar com aquilo como se fosse uma piada. Mas quando cheguei em casa, me dei conta de como realmente me sentia. Então, escrevi uma carta para ela, contando que eu a amava. Eu não acho que ela a tenha recebido. Se recebeu, nunca disse nada.
Uma lágrima caiu no joelho exposto de Emily. Maya percebeu e a enxugou com o dedo. — Eu ainda penso um bocado nela. — Emily suspirou. — Eu meio que bloqueei as lembranças, disse a mim mesma que tudo aquilo foi só porque ela foi a minha primeira amiga de verdade e, você sabe... nada além disso... mas agora eu não sei.
Elas ficaram ali sentadas por alguns minutos. O barulho da festa parecia diluído. A cada poucos segundos, Emily ouvia o barulho de um isqueiro Zippo sendo usado para acender um cigarro. Ela não estava surpresa pelo que tinha acabado de dizer sobre Ali. Era assustador, claro — mas também era a verdade. De certa forma, era bom que ela finalmente tivesse entendido isso.
— Já que estamos trocando confidências — disse Maya com calma —, tenho algo para contar a você também.
Ela virou o pulso na direção de Emily, mostrando a cicatriz esbranquiçada.
—Você já deve ter visto isso.
— Sim — sussurrou Emily, olhando para a cicatriz na semiescuridão da cabine. — Ela é do tempo em que eu me cortava com uma gilete. Eu não sabia que esse corte ficaria tão profundo. Saiu muito sangue. Meus pais me levaram para o pronto-socorro.
— Você se cortava de propósito? — perguntou Emily baixinho.
—Ah... sim. Quero dizer, não faço mais isso. Eu tento não fazer.
— Por que você faz isso?
— Eu não sei. — Às vezes eu só... sinto que preciso. Você pode tocar nela se quiser. Emily tocou. Era irregular ao toque, e macia, não parecia com pele de verdade. Tocar nela era a coisa mais íntima que Emily já fizera. Ela abraçou Maya.
O corpo de Maya estremeceu. Ela deitou sua cabeça no pescoço de Emily. Como da outra vez, ela tinha um cheiro artificial de banana. Emily apertou seu corpo contra o peito magro de Maya. Como seria cortar a si mesma e se ver sangrando tanto? Emily tinha lá sua cota de dores, mas nem mesmo as suas piores lembranças — como quando Ali a rejeitou ou A Coisa com Jenna — a fizeram sentir-se culpada, horrível e esquisita, haviam despertado o desejo de se ferir daquele jeito.
Maya ergueu o rosto e encarou Emily. Depois, com um sorriso triste, ela beijou Emily nos lábios. Emily piscou para ela, surpresa.
— Às vezes melhores amigas se beijam, sim — disse Maya. — Viu?
Elas ficaram ali, juntas, seus narizes quase se tocando. Lá fora, os grilos faziam uma barulheira.
Maya a puxou de novo. Emily derreteu-se em seus lábios. Suas bocas estavam abertas e ela sentia a língua macia de Maya. O peito de Emily estava tenso de excitação enquanto ela deslizava as mãos pelo cabelo áspero de Maya, pelos ombros e pelas costas dela. Maya enfiou as mãos por baixo da camisa polo de Emily e apertou a barriga dela com os dedos. Emily, dando conta disso, teve medo, mas depois relaxou. Era um zilhão de vezes diferente de beijar Ben.
As mãos de Maya percorreram o corpo dela e pararam em seu sutiã. Emily fechou os olhos. A boca de Maya tinha um gosto delicioso, de Jack Daniel's e álcool. Então, Maya beijou os ombros e o peito de Emily. Emily jogou a cabeça para trás. Alguém tinha pintado uma lua e um monte de estrelinhas no teto da cabine.
De repente, a cortina começou a se abrir. Emily pulou, mas era tarde demais — a cortina havia sido completamente aberta por alguém. E então, Emily viu quem estava ali.
— Ai, meu Deus — disse ela.
— Droga — Maya xingou. A garrafa de Jack Daniel's virou no chão.
Ben carregava dois copos de cerveja, um em cada mão.
— É. Isso explica tudo.
— Ben... eu... — Emily tentou cambalear para fora da cabine, batendo com a cabeça na porta.
— Não se levante por minha causa — disse Ben, numa voz horrivelmente irônica, brava e magoada, que Emily nunca tinha ouvido antes.
— Não... — Emily gritou. —Você não entende.
Ela saiu da cabine. Maya também. Ela viu Maya pegar a tira com as fotos e enfiá-la no bolso.
— Nem começa — Ben cuspiu. Então, jogou um dos copos cheio de cerveja nela. A cerveja morna espirrou nas pernas de Emily, em seus sapatos e seu short.
O copo voou até um arbusto.
— Ben — Emily gritou.
Ben titubeou e depois jogou o outro copo com maior precisão em Maya, molhando o rosto e o cabelo dela. Maya gritou.
— Pare com isso! — Emily engasgou.
— Suas sapatões filhas da mãe — disse ele. Ela percebeu a mágoa em sua voz. E então, ele deu as costas para elas e correu cambaleando para a escuridão.
Fale com o autor