Pretty Little Psychos
1 Butterfly Wings
Notas iniciais
Boa leitura, eu acho
Essa história é uma que me veio à cabeça do nada, mas enfim...
Carol respirou profundamente o ar hospitalar, e a sensação de não ter inalado nada lhe deu arrepios. De seu lado, uma enfermeira de aparência doce esperava enquanto ela lavava suas mãos e as cobria em álcool em gel; as pessoas ali pareciam ter medo de germes.
A enfermeira que a guiara para dentro era uma grande amiga de sua mãe, que foi a que lhe enviou para lá, em primeiro lugar. E Carol não sabia como agradecê-la: Seu sonho, desde pequena, foi ajudar as pessoas, então a primeira coisa que lhe veio à mente foi medicina. Quando ficou mais matura, descobriu que havia pessoas com problemas piores que apenas ossos quebrados, que eram dolorosos e podiam ser curados; existiam pessoas que não eram só castigas pelo mundo, mas também por sua própria mente.
Ela não era muito velha. Dezessete não é velho. Mas ela queria saber como seria seu futuro trabalho, como que se adiantasse para que não falhasse por falta de adaptação. E nunca recusaria passar um tempo com as pessoas que iria salvar, ou apenas fazer se sentir seguras e incluídas... Mesmo que significasse passar todas as férias de verão num hospital psiquiátrico.
Butterfly wings, o lugar onde a liberdade é calmante e está sempre ao seu lado. Carol gostava daquele tema, mas achava irônico como a liberdade ficava presa com você em um quarto psiquiátrico, e acabava te dando diversos sedativos se se comportasse mal.
Olhou para a enfermeira de cabelos pretos presos num coque que conhecia bem, e sorriu. Carmen era uma mulher que tinha acompanhado seu crescimento de perto, e Carol perdera a conta de quantas vezes ela os vinha visitar por mês. Não a consideraria bonita nem feia. Ela era gentil com ela, era isso que importava, e Carol sabia que, um dia, Carmen, se quisesse, podia ter ficado com todos os homens da vizinhança; ela não era bonita, mas tinha diversos vestígios de que um dia fora, por trás do jaleco branco e touca brega.
Estavam na recepção do hospital, que era tão grande quanto o resto do prédio de pedra, mas somente por fora, dando a impressão que haviam entrado num castelo medieval. Ali, ela estava sendo instruída de como agir com pacientes, e explicavam como seria sua hospedagem. Pelo que entendeu, ficaria num quarto destinado aos pacientes, que no momento estava desocupado, mas ela não se incomodou; queria saber como eles se sentiam, de qualquer maneira.
Foi aconselhada de deixar suas coisas logo no quarto, mesmo querendo desesperadamente um tour pelo hospital. Carmen conseguiu convencê-la a fazê-lo depois, pois estava quase na hora do jantar, e podiam fazer o tour um pouco antes de conhecer os pacientes, que era o que ela mais queria fazer.
Carmen tinha uma agenda ocupada, então apenas falou o caminho que a garota deveria seguir e saiu pelo lado oposto, falando que voltaria para busca-la antes do jantar, e que ia preparar os pacientes para vê-la.
—Não diga a eles sobre mim. –pediu Carol, aumentando a voz enquanto a tia (como ela a chama e considerava) se afastava. –Quero fazer surpresa, e anotar a reação deles ao receber visitas desconhecidas!
—Não vou conseguir ser cautelosa se você continuar gritando! –Ela gritou de volta e, sem se virar, levantou uma das mãos, em despedidas.
Carol riu consigo mesma e se virou, achando que a tinha não devia lhe dar tanta liberdade e apenas solta-la no local de seu trabalho dos sonhos. Mas ela não queria arranjar problemas para a tia –ou para ela-, então decidiu seguir as instruções de Carmen, entretanto, não deixaria de reparar em tudo enquanto passava.
Mas não conseguiu continuar seu caminho, pois um médico havia parado na sua frente. Ele, “gentilmente”, pediu a Carol parar de gritar, a final, aquilo podia ser um hospital de loucos, mas ainda era um hospital. Ela concordou, toda sem graça, e se esqueceu de se concentrar em seu caminho.
Logo, ela estava perdida.
Olhou para ambos os lados do corredor estreito no qual se encontrava, e só o que viu eram portas tão brancas quanto as paredes. Contudo, ela reparou, as portas não eram de madeira. Lá era ligeiramente mais gelado do que na recepção, obrigando-a a colocar o casaco quadriculado preto e azul que, anteriormente, estava em sua cintura.
De dentro das diversas portas, de vez em quando, ela ouvia ora vozes, ora risadas, ora choros... Não se sentia incomodada, e sim com vontade de entrar em cada quarto e conversar com cada pessoa ali, estudando sua mente e descobrindo o porquê.
As rodinhas de sua mochila quebravam o considerado “silêncio”, enquanto enfermeiras e enfermeiros entravam e saiam dos quartos, passando por Carol sem nem olhá-la. Quando ela tentava falar com eles, para pedir ajuda, eles só respondiam com “Desculpe, estou ocupado(a)”; eles não se incomodavam em desviar dela, também, dando esbarrões que quase a jogavam no chão.
Ela andava olhando para baixo, distraída com a maneira que os cadarços desamarrados de seu all-star preto dançavam no chão. Já entrara em uns dois corredores, e ambos davam em lugar nenhum, só mais algumas portas que, ela constatou, estavam vazias. Talvez alguma delas fosse a dela, mas ela nem ao menos lembrava o número de seu quarto.
Até que ouviu um grito. Um urro de dor. Correu em direção ao som, na esperança de ajudar, mesmo sabendo que, quase certamente, seria barrada. Uma porta foi escancarada à sua frente, e ela deu uma parada brusca, enquanto duas enfermeiras ajudavam um enfermeiro, de aparência nova demais, a sair de um quarto. Seu jaleco estava cheio de sangue, e seu rosto contorcido em dor. Ele segurava o dedo indicador com força, e foi aí que Carmen notou algo errado; onde estava seu dedo indicador?
Se aproximou do homem, mas a enfermeira mais perto dela a empurrou para longe. Carol, então, correu para o quarto, mas só pode ver uma grande mancha de sangue no quarto acolchoado branco, quando um enfermeiro a pegou pelo pulso e aproximou-a dele. Uma enfermeira trancava a porta por dentro, depois de uns três auxiliares entrarem com ela.
—O que está fazendo aqui?! Quem deu permissão para você entrar? –Ele bradava, apertando seu pulso cada vez mais a cada frase.
—Ninguém! –ela rebatia, tentando perfurar a carne do homem com as unhas, mas seu pulso continuava firme –Eu me perdi! Poderia me ajudar?
Ele suspirou, impaciente, jogando seu pulso para longe de si. Ela o agarrou, massageando a parte que foi brutalmente esmagada; teria a marca de suas pulseiras marcada no pulso pelos próximos minutos.
—Não fui avisado sobre você.
—Eu vim passar o verão. –Ela explicou, omitindo o nome da tia, para não coloca-la em problemas –Fico num quarto vazio de pacientes. Cento e doze, cento e vinte e dois, algo assim...
Ele a olhou por um bom tempo, talvez se questionando se ela era um paciente louco fugitivo. Se convencendo da possibilidade de ela não ser, ele olhou algo na prancheta que estava embaixo de seu braço, talvez uma agenda, e levantou as sobrancelhas, como se, finalmente, entendesse.
—Cento e dois. –ele esclareceu- Siga-me.
Obedecendo, ela o seguiu de uma distancia saudável, com medo de se perder, mas também não querendo se aproximar muito do homem, que parecia estar em um tipo de TPM masculino, chamado ausência-de-férias.
Ele lhe mostrou seu quarto, entregou as chaves e foi embora sem nem se despedir. Sentando-se na cama, observou melhor o local onde passaria o resto das férias de verão: Era meio pequeno, e o único móvel, além da cama, era uma mesinha e uma cadeira com rodinhas, que Carol imaginou ter sido colocado lá por sua tia. Tudo era tediosamente branco, com exceção da lâmpada, que era amarela, talvez para quebrar aquela brancura enjoativa. Seu quarto era a primeira porta do corredor a direita da recepção.
16:54. Carol começara a se instalar; tinha trazido coisas de casa, sabendo o quarto seria monótono e chato.
17:23 foi quando acabou: Nas paredes, grudara algumas fotografias que ela mesmo tirara, dando uma vida com a junção de paisagens, pessoas e animais. A mesinha ao lado da cama já estava com o laptop, e algumas coisas que trouxe de casa –um bonequinho do homem aranha, outro estilo pop de Harry potter, um retrato de luz temático de star wars e uma “pequena” pilha de livros...-, além de colocar um tipo de molde, acima da lâmpada amarela, espalhando sombras de flores pelo quarto.
A mochila de rodinhas estava, agora, vazia, e a das costas tinham somente suas roupas. Praticamente jogou-se na cadeira giratória, e deixou-a dar uma volta de 360º, antes de abrir o laptop; queria escrever um tipo de diário.
1º dia, butterfly wings
O lugar é exatamente o que se esperaria de um hospital de cirurgia, não psiquiátrico. Tudo é incrivelmente branco e monótono, até mesmo os enfermeiros! Não parecem ter mais paciência, nem quero imaginar como tratam os pacientes... Bem, não os culpo; cuidar de algo que não entende é complicado e, definitivamente, eles não tentavam entender as pessoas daquele lugar! Tratam-nos como aberrações, e não humanos que precisam de ajuda.
A primeira coisa que fiz quando cheguei foi me perder, e algo estranho aconteceu: talvez uma acidente com um paciente violento, eles deviam saber trata-lo melhor, tinha sangue para todo lado.
Carol olhou para a ultima frase por alguns segundos, que se arrastaram como minutos, e a apagou totalmente; O cara perdeu o dedo, a culpa não era dele! Talvez tenha sido culpa do paciente. Ela tinha que colocar na cabeça que, nem sempre, os pacientes eram vitimas. Ela estremeceu, pensando que talvez tivesse que passar por algo assim no futuro.
Quando levantou, depois de escrever mais um pouco, e mandar uma mensagem para a mãe, estava tremula e enjoada. Não conseguia esquecer a imagem do dedo decepado, e sua cabeça pulsava com a curiosidade de que diabos acontecera naquele quarto acolchoado?
O bater na porta a provocou um pequeno sobressalto, e ela olhou para o relógio: 18:00. Carmen era uma mulher pontual. Ao invés de permiti-la entrar, ela foi a que saiu; era hora para seu tour!
Após avisar para Carmen que já havia estudado o corredor todo, ela a informou que ali ficavam os casos... especiais.
—Como assim especiais?
—São criminosos –ela respondeu, com os olhos fechados, como que não querendo falar aquilo- que não foram presos por serem diagnosticados com doenças mentais.
Carol imediatamente se lembrou da sala acolchoada, e ficou perguntando o que aquela pessoa havia feito no passado, e por que fizera o que fizera agora. Sua pena por ele se esvaiu, e foi tomada por algo como nojo; odiava criminoso. Perdera seu irmão de quatro anos numa tentativa de assalto à uma loja. Ele era o refém e, bem, ele cumpriu suas ameaças.
Carol pediu para se afastarem do corredor; se sentia doente. Aceitando o pedido, eles foram para o corredor à esquerda, onde ficava os quartos dos funcionários. No andar de cima, ficavam os pacientes normais, com quartos normais e, por uma janelinha na porta, tinha até janela para fora... com grades. Havia, também, no primeiro andar, seguindo em frente, um centro médico, com salas de cirurgias, exames, internação e etc.
19:00, e um sino alto soou, como numa escola. Ela ouviu diversas portas abertas ao mesmo tempo, e sorriu involuntariamente. Estavam no jardim, onde tinham diversas flores inofensivas.
—Os pacientes especiais não comem no refeitório –explicou Carmen, à caminho do mesmo, a passos mais lentos que Carol gostaria -, as comidas são entregues nos quartos. Suas atividades também são separadas.
—Ótimo. –Carol falou, sem interesse.
Então, viu as portas duplas do refeitório, e correu até lá, ultrapassando a tia, que tentou pará-la, mas ela já havia aberto ambas as portas com um empurrão.
O refeitório estava em silêncio, e todos olharam para ela. Alguns maravilhados, outros assustados. Alguns confusos, e outros, distantes. Ela sorriu; sentiu que estava no lugar certo!

Notas finais
três bjus
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