Pretty Little Psychos
2 Amnésia Anterógrada
O primeiro grito a atingiu como um soco. Carol pôde sentir a cor se esvaindo de seu rosto, enquanto uma enfermeira corria para o paciente aos berros, e outros, para os aos prantos. Sua palidez foi rapidamente substituída por um forte vermelho, que parecia se espalhar por seu corpo todo em forma de calor.
Merda, foi a primeira coisa que ela pensou, já cheguei estragando tudo, deve ser um dom.
Recebeu diversos olhares feios, em maioria dos auxiliares; os pacientes que não tinham voltado o rosto para a comida, desinteressados pela garota, a olhavam com confusão ou admiração. Um ou outro estavam impacientes.
Alguns enfermeiros estavam prestes a ir falar com ela -provavelmente para expulsá-la, Carol imaginava -, quando sentiu um forte apertão no ombro; Carmen estava atrás dela, com um olhar severo para o enfermeiro que continuava andando, como numa afirmação de que não era necessário continuar. Ele olhou feio para Carmen, e então para Carol, e esta reconheceu-o como o enfermeiro de antes.
—Não se preocupe, Trevor -A tia começou, percebendo que o olhar não seria suficiente -. ela está comigo.
—Pois então tome conta dela.
Ele saiu com passos pesados, como uma criança fazendo birra. Carol pode ouvir Carmen suspirar, logo antes de virá-la pelo ombro, fazendo-a encara-la.
—O que você tem na cabeça? -Ela começou, assustadoramente casual — Estamos lidando com pacientes debilitados, você precisa ser mais cuidadosa. Não é isso que você quer? Trabalhar aqui?
Carol ficou em silêncio, irritada por não conseguir do desviar o olhar penetrante de Carmen. A pior parte era que Carmen estava totalmente certa. O que dizer numa situação dessas? Perdão? Do que isso adiantaria?
—Temos pacientes aqui com síndrome de pânico — Continuou Carmen, vendo que Carol não ia dizer nada. -, outros com Panofobia. Alguns nós nem conseguimos diagnosticar. Entende o que eu digo? Diga, sim ou não, é simples, Carol.
—Sim. -ela disse, automaticamente; ela só queria sair daquele sermão. A tia ficou em silêncio por um bom tempo, só encarando a garota, antes de sorrir e bagunçar seus cabelos.
—Então vai lá se divertir, sua louca. -Ela pensou um pouco, e sua expressão mudou para vergonha — Acho que essa não é a melhor das palavras para usar agora...
Carol riu, enquanto a tia se afastava. Ela virou seu olhar para o refeitório, procurando algo interessante; algo que indicasse um caminho a seguir. A final, não podia sair falando com todos ao mesmo tempo — mesmo sendo isso o que ela realmente queria.
Logo, ela avistou um rosto animado dentre todos os outros; Ela devia ter uns dez ou nove anos, e sorria para ela com carinho. Admiração, até. Ela sorriu de volta, curiosa em saber que doença aquele, aparentemente, doce garotinho escondia. Antes de chegar à ele, pode ver o mesmo alisando a camisola listrada com azul que todos naquele refeitório pareciam usar.
—Boa noite, senhorita! -Ele falou, logo quando ela sentou ao seu lado, sem ter muita ideia se podia estar fazendo aquilo. Mas como ia aprender sobre os pacientes sem falar com eles? – Eu sou Toby Hansen.
—Carol Moons. –ela respondeu, sorrindo. –é um prazer Toby!
—Eu amei a cor do seu cabelo... –Ele disse, sem freios. Ela achou fofo. –Tudo aqui é tão branco e monótono... E ele é vermelho, quase como uma chama... Posso sentir seu calor em contraste com o frio que faz aqui.
De repente, ele teve um sobressalto, e levantou uma das mãos, quicando no banco único e longo onde estava sentado, como um estudante que se lembra de uma resposta durante a aula. Ele olhava para trás, para uma enfermeira, que veio em sua direção a passos lentos, cheia de má vontade.
Toda a gente desse hospital era assim, arrogante? Pensou Carol, e a vontade de socar a mulher foi inevitável. Tentou apagar o pensamento, engolindo uma colherada -a final, não era permitido objetos afiados, por motivos óbvios: o medo de alguém furar um olho era constante- cheia de purê de batatas que tinha para o jantar; a final, estava de noite, ela podia só estar mal-humorada por causa do cansaço. Carol tinha que entender as pessoas. Não era isso que ela queria fazer com os pacientes? Não seria diferente para os auxiliares.
—Senhora Cowell, posso escrever sobre o cabelo da senhorita Moons? –ele pediu, com a melhor voz e olhos de cachorrinho pidão que conseguiu fazer. Carol sorriu ao ouvir os elogios do garotinho -Por favor, ele é muito bonito!
A enfeira olhou para Carol, apreensiva, quase como se pedisse perdão e permissão ao mesmo tempo. Não seria naturalmente estranho alguém querer escrever sobre cabelo? Carol achava artístico. Ela sorriu e acenou com a cabeça, permitindo, e o garotinho abriu o maior sorriso que ela já havia visto; era real e inocente, um dos mais bonitos que vira.
Toby tirou do colo um caderninho simples preto e um lápis da mesma cor, e começou a virar páginas e páginas cheias de palavras, a procura de uma em branco. Carol ficou impressionada e curiosa, querendo saber o que o garotinho gostava tanto de escrever. Quando, finalmente, achou uma página vazia, pôs-se a escrever rápido, dando olhadas discretas para o cabelo de Carol.
O som do lápis no papel era confortável e relaxante, e ela gostava de observar as palavras se formando conforme ele escrevia; para um garotinho, sua caligrafia era muito boa, melhor do que a de Carol: Ele devia fazer isso sempre.

—O que está escrevendo? –indagou Carol, depois do pareceram minutos, e o garoto não havia terminado; e a escrita dele não era lenta! Ela já estava na segunda página.
—Tudo! –ele simplesmente disse, sorrindo para si mesmo e colocando o ponto final de maneira dramática, quase como jogando o braço no papel (“Droga” ele choramingou “quebrei a ponta...”) – Tudinho!
Depois de dar uma olhava rápida, ele tirou caderno da mesa e virou-o para ela, todo orgulhoso de si. Carol se espantou, e pegou o caderno da mão dele para ver melhor, não confiando nos seus olhos de primeira:
19:13, refeitório.
Eu estava sentado na segunda mesa de acordo com a localização do buffet, quando uma moça engraçada entrou, com um sorriso bonito, e um cabelo maravilhoso. Fiquei impressionado e sorri, torcendo para poder conversar com ela; Ela realmente veio, e sentou ao meu lado.
“Boa noite, senhorita” eu falei, sorrindo. “Eu sou Toby Hansen”
Carol virou para a segunda página, e ali tinham mais trechos de suas conversas e como ele se sentia, o que pensava, que movimentos fazia no corpo...
Ela me olha com curiosidade, e eu fico um pouco envergonhado; parece querer me estudar como todo mundo desse hospital... Mas de um jeito diferente. Ela é gentil, eu gosto dela.”
Essa foi a ultima frase. Aquilo não era artístico...
era triste.
Ela ia questionar o garoto, tirar todas as dúvidas que invadiam sua cabeça, zumbindo como abelhas. Contudo, ele já estava comendo furiosamente o purê de batatas ralo, perdendo o interesse na garota por um instante.
—Amnésia anterógrada. –Disse uma voz a sua esquerda.
Carol virou o rosto, e deu de cara com uma garota. Quatorze anos, talvez? Ela parecia desinteressada na comida, e ficou fazendo desenhos no purê com a colher. Carol a examinou com os olhos, e não precisou de mais nenhuma informação para saber o que havia de errado com a garota. O porquê de ela estar ali.
Anorexia. Seus cabelos pretos e desalinhados em contrates com os seus ossos aparentes das bochechas e clavícula a faiam parecer como um personagem de um filme de Tim Burtom. Sua roupa era minúscula no intuito de caber nela, talvez o tamanho de uma criança, o que a obrigava a usar uma calça com os mesmos padrões da camisola, que nela servia como uma blusa, de tão curta.
—Perdão? –Carol indagou, percebendo que tinha viajado. A garota achou graça, dando um sorriso de lado.
—O garotinho aí do seu lado. –Ela explicou, olhando confusa para ela –Você estava curiosa para saber por que ele está fazendo o que faz, não é? Ele tem amnésia anterógrada. Ligue os pontos.
—Eu não consigo me lembrar das coisas. –Carol teve um sobressalto ao ouvir a voz do garoto, e perceber que ele estava escutando há um tempo – E eu não quero me perder. Então eu escrevo tudo o que sinto e, se eu quiser me lembrar do momento, eu só leio minhas anotações. –Sua voz soava quase melancólica, mas tinha um ar de divertimento que parecia envolver o garoto, como uma aura. – As enfermeiras dizem que ajuda...
—E ajuda? –indagou Carol.
—Vai ajudar. –ele falou, convicto -, é o que minha mãe diz! Por enquanto, eu posso só ler as anotações como uma história na qual eu sou o protagonista. Isso é muito maneiro, na verdade! –ele sorriu. –Assim eu não vou parar de ser quem eu sou.
—As memórias formam um indivíduo. -ele continuou, agora, definitivamente melancólico, mas com um sorriso no rosto — Se eu não consigo tê-las, quem sou eu?
—Ei, -Carol falou, depois de pensar um pouco, e ambos olharam para ela, cercando-a com os olhos –Você se lembra da primeira palavra que eu disse?
—Sim. –ele falou, num mix de orgulho e confusão –Foi... E-ei, eu acho... –Ele soou inseguro, como se aquela fosse a pergunta de um teste importante.
—E sente o que eu estou fazendo agora? –ela perguntou, brincalhona, enquanto fazia cócegas no garotinho, que se contorcia. A garota olhava para os dois perplexa, e seus olhos arregalados aumentavam sua semelhança com um personagem de animação.
—Hahaha! Sim! Eu sinto! Para, faz cócegas! –Ele pedia, enquanto tocava com as mãozinhas geladas e ossudas no rosto de Carol, para afastá-la.
Eles não se preocupam em dar uma comida mais reforçada que purê de batatas ralo para os pacientes? Todos tão ossudos...
—Então você é você mesmo. –Concluiu Carol, e o garoto olhou-a, numa mistura de perplexidade e confusão –Você sente o que sente, fala o que sua mente comanda e faz o que seu corpo achar apropriado; isso são características de um individuo. Você é alguém.
—Tente não esquecer isso, em especial, tá bom? –ela continuou, tirando os cabelos marrom escuro da frete dos olhos da mesma cor do rosto moreno da criança, vendo-a corar. Entregou o lápis e o caderno de volta para Toby, que os pegou com uma expressão neutra, ainda confuso.
Antes de dar aquele lindo sorriso que Carol parecia gostar tanto quanto a garota ao seu lado.
—Sim! –Ele confirmou, todo orgulhoso e determinado. –É uma promessa!
Fale com o autor