Amnésia Anterógrada: A deficiência de criar novas memórias posteriores à um trauma cerebral, sendo ele físico ou psicológico.

Carol jogou-se para trás e sentiu as costas da cadeira inclinarem, obrigando-a a olhar para o teto, pensativa. Virou a cabeça para um relógio de parede ao lado da janela: 22:17.

Suspirou, coçando os olhos, antes de colocar um chiclete de menta na boca, sem mordê-lo. Observou novamente a sua pesquisa, mas não estava satisfeita. Ainda estava confusa.

Descobriu que a amnésia de Toby podia ser psicogênica, além de anterógrada; este tipo de doença era causado por traumas psicológicos, enquanto a anterógrada por si só, em sua maioria, por traumas cerebrais. Tinha dois caminhos a seguir antes de continuar sua pesquisa, e ambos eram bloqueados por um grande sinal de interrogação.

Ela tentou buscar o máximo de informações possíveis de sua conversa com Toby, mas só um momento lhe veio à mente:

—Quando sua amnésia começou? -Indagou Carol, após esperar o garoto limpar o prato, sentindo pena quando ele quase o lambeu, parecendo faminto.

Ele a olhou, e então olhou para o colo, e um ar de melancolia o envolveu novamente. Carol quase se arrependeu da pergunta, mas a curiosidade bloqueava esse sentimento, e ela observou em silêncio enquanto ele puxava o bloquinho de notas e procurava algo no inicio do mesmo. Carol percebeu que sua letra era bem mais desajeitada naquela época, e se perguntou com quantos anos ele havia começado a escrever.

—E-eu... -ele começou, percorrendo os olhos por páginas e mais páginas. Carol podia sentir tanto seu desconforto quanto o da garota ao seu lado, que rapidamente levou uma colherada do purê à boca e engoliu como um remédio, forçando-o a descer com água, antes de se afastar, quase como que fugindo, com o prato praticamente intocado.

Mas não antes de afagar carinhosamente os cabelos de Toby, fazendo-o sorrir novamente.

—Não me lembro. -Ele disse, um pouco mais confiante, e então, encarou Carol -Desculpe, eu não me lembro.

Carol havia lhe falado que não havia problema, com toda sua sinceridade. Não era culpa dele. Não era culpa de ninguém, mas, realmente, esperava que aquela pergunta fosse acabar com dúvidas, e não trazer mais ainda à tona.

Sua vontade de ajudar o garotinho aumentou ainda mais, o que resultou em algumas horas de pesquisa; fazia a ficha do garoto ela mesma. Nome, idade (que descobrira ser dez –bingo!-), doença, experiência, personalidade, tratamentos... Faltava um monte de coisas, que talvez só participando dos tratamentos dele ela entenderia, mas estava feliz com seus resultados.

Fez uma ficha para a anoréxica também, deixando seu nome e idade como “unknown”.

No dia seguinte, levaria as fichas para serem examinada pela tia.

Ela, finalmente, mordeu o chiclete e sentiu o liquido refrescante se espalhar por sua língua, adquirindo um ar de determinação; Por que esperar até o dia seguinte? Definitivamente, o turno de sua tia não tinha acabado: ela começava a trabalhar às oito da noite e terminava às cinco da manhã, adquirindo o turno da madrugada, por assim dizer.

Ela só precisava imprimir os arquivos. Agora, como? Sem perder tempo, ela pensava enquanto colocava ambos os arquivos num pen-drive. Girando a cadeira e vendo os diversos tons de branco das quatro paredes, ela decidiu levar o pen-drive para sua tia; ela saberia o que fazer. Talvez a pedisse para lhe desenhar um mapa, também...

Era isso que faria. Levantou rápido –e até demais, fazendo-a ficar tonta quando o movimento brusco se somava ao girar na cadeira durante, ao menos, um minuto – e pegou o pen-drive em forma de Bart Simpsons, jogando o casaco sobre os ombros e abrindo a porta com dificuldade; Mesmo depois de destrancada, a porta era pesada e, definitivamente, não de madeira. A final, aquele era o corredor dos criminosos; Ela se sentia tanto irritada quanto segura.

Ao sair e trancar a porta novamente, parou, apoiando-se na parede e observando o teto, refletindo se devia mesmo incomodar sua tia –que ela nem sabia onde estava-; O teto branco era iluminado pela lâmpada branca, e aquilo machucava os olhos, e o silêncio absoluto do corredor a incomodava.

Quando, finalmente, reuniu coragem para se mover, ouviu um barulho suave, perceptível ao somente ao meio do silêncio. Ela olhou para o longo corredor, e no chão de mármore algo se destacava, opaco ao meio do reluzente piso: era um pedaço de papel. Um não, vários pedaços de papel. Foram empurrados por debaixo da porta, e estavam se acumulando um ao lado do outro.

Ela iria embora, ignorando o acontecimento, mas a falta de determinação para incomodar a tia e a curiosidade falaram mais alto, guiando-a quase instintivamente para a porta.

Ela ouvia passos na direção das portas de dentro dos quartos quando se aproximava de cada uma; eles escutavam ela. Estranho, quartos acolchoados deviam impedir a passagem do som... Nem todos os quartos eram assim? Alguns pareciam tão silenciosos que Carol presumiu que estavam vazios.

Ao chegar ao quarto dos papeis, o exato contrario aconteceu: A pessoa estava na porta –pode ver pela sombra visível pela fresta por onde passara os papeis – e, ao ouvir Carol se aproximar, se afastou lentamente.

Ela resolveu ignorar isso, dividida entre confortável pela pessoa se afastar, ou desconfortável por ela saber que a garota estava lá. Abaixou-se e pegou os diversos papeis pequenos, que descobriu ser um papel apenas, cortado em vários quadrados perfeitinhos; Tão perfeitos que pareciam ter sido feitos com tesouras. Olhou para cima, a pequena placa de prata na porta, e leu o número duzentos e doze.

Levantando-se e tirando uma mecha de cabelo da frente dos olhos, obrigando-a a ficar atrás da orelha, ela leu um papel, e então outro, e outro... No final, estava apenas confusa e assustada: Era um poema. Uma cantiga infantil. Escrita de novo, e de novo, em diferentes idiomas. Ela sabia por associação de palavras e número de estrofes.

Humpty Dumpty sentou-se em um muro,

Humpty Dumpty caiu no chão duro.

E todos os homens e cavalos do Rei

Não conseguiram junta-lo outra vez.

Ela passou lentamente as mãos sobre o papel, admirando as letras delicadas e redondas -quase como as de Toby -, feitas com algo que ela achou ser canetinha preta, pela grossura das palavras.

—Mas o que... –Carol sibilou, consigo mesma, se arrependendo ao ouvir passos apreçados em sua direção.

Pararam, com um baque surdo; A porta da frente da porta dos papeis havia sido acertada pelo corpo do paciente habitante, que batia de novo e de novo com, Carol presumia, seu ombro. O pior de tudo eram os gritos que a mulher lá dentro começara a produzir. Infelizmente, ela não falava francês, então não sabia o que ela estava falando:

—Ce n’était pas ma faute!

Carol, num momento de desespero, procurou e misturou os papéis, e achou o poema em francês, deslizando-o por debaixo da porta da mulher desesperada. Ela se calou logo, e deu uma risada curta, mas logo depois, uma fungada, como se estivesse emocionada. Carol pode ouvi-la se afastar ao mesmo tempo que ouviu uma nova porta abrir, e uma Carmen assustada pôs a cabeça pra fora de uma porta um pouco mais atrás da garota, mudando a expressão para cansaço ao ver ela, que deu um sorrisinho envergonhado, colocando os braços para trás, disfarçadamente escondendo os papeis.

Nem sabia o porquê.

Carmen sorriu para dentro da porta e a fechou depois de algumas palavras; uma breve despedida, que foi ignorada com sucesso! Então, foi com passos decididos em direção à Carol, que pensou em fugir, mas o olhar da tia impediu suas pernas de se moverem.

—O que faz aqui? –ela perguntou, mais como uma ameaça.

—Ah, sabe... passeando pelos corredores do inferno. –ela respondeu, tentado quebrar o clima pesado. Ela só piorou as coisas, obviamente –Nada demais... –Ela respondeu, olhando para baixo. –Te procurando.

Carmen ergueu uma sobrancelha, como se indagasse a razão e, num movimento discreto, enquanto fingia procurar o pen-drive, guardou todos os papeis –que já havia dobrado- no bolso das jeans. Entregou a pequena figura do Bart para a tia, que só a pegou depois que Carol esclareceu seu conteúdo. A expressão da tia mudou para algo como surpresa –um tipo de surpresa quase agradável – e pediu a garota para segui-la, e ela o fez, tentando ignorar os chamados que vinham das portas, às vezes, abafados, e em outras, claro até demais.

A tia a levou para um quartinho que parecia um escritório, ao fim do corredor com o dormitório dos empregados. Lá, colocou o pen-drive no computador e salvou ambos os arquivos, cedendo ao pedido de Carol de não contar nada sobre os pacientes que estava estudando. Estava um silêncio mortal enquanto Carmen preparava o quarto para a impressão –impressora, papeis, fazia as edições necessárias e etc-, e Carol teve a grande ideia de quabrar o gelo:

—Então, Tia Carmen –ela começou, com um tom cômico –Quando vai pedir minha mãe em casamento, para eu poder chama-la de Carmãe?

—Quando seu pai morrer. –A mulher respondeu, e Carol riria, se seu tom não estivesse assustadoramente sério.

-Meu pai e minha mãe não estão juntos...

—Mas ela ainda chora por ele de noite. –Silêncio, então Carmen começou a rir, encarando a garota confusa –É uma brincadeira, sua quadradona. Você quem começou.

Carol forçou uma risada com a tia, antes de a mesma pegar os papeis quentinhos que tinham acabado de sair da impressora e entregar-lhe, com um sorriso.

—Toma aí, Filhol —Carol a olhou confusa, com as testas fortemente franzidas –É Carol mais Filha. Meu Deus, para onde foi seu sendo de humor?

—Desculpe, Carmãe, isso é falta de café. –Carol explicou, grampeando os papeis. Estava em direção à porta quando se recordou de algo, evirou-se novamente para Carmen. – Tia Carmen... Posso ler a ficha do paciente do quarto duzentos e doze?

—Sinto dizer, Carol, mas não é permitido... É considerado informação pessoal.–Carmen lamentou. Carol fez uma cara triste, mas indicou que entendia, e já saía da sala quando a tia continuou : — Mas você pôde ler a cópia da ficha dele, que tal?

Carol abriu um sorriso radiante, se jogando nos braços da tia. Como prometido, ela procurou um arquivo de uma estante de metal e de lá tirou uma ficha extensa, começando a fazer a cópia.

—São as anotações de um enfermeiro. –Explicou Carmen, puxando a atenção de Carol para ela – Eu posso tentar conseguir com que ele vire seu paciente. Você será acompanhada por um auxiliar, claro, mas...

—Não tenho interesse. –Carol simplesmente falou, com os olhos fechados e os dedos batendo do lado de sua coxa, como fazia quando tentava manter a calma.

—Você precisa. –Carmen destacou, levantando-se para ficar cara a cara com a garota (tinham quase a mesma altura, e Carmen era levemente mais alta) –Sei do seu trauma e é triste o que aconteceu com George, uma tragédia; Mas isso foi à três anos atrás. Isso vai ser uma barreira para seu trabalho.

Carol a observou em silêncio.

Novamente, ela estava totalmente certa. Ela ajudaria a todos, mesmo aquelas pessoas, as que não queria ser ajudadas. As que não mereciam sua ajuda. Ela os ajudaria, como George queria ajudar: Seria o melhor cirurgião um dia, era o que ele dizia.

E agora ela salvaria o tipo que condenou seu irmão, por causa de algumas notas idiotas escondidas num cofre atrás do caixa.

—Eu vou falar com meu chefe. –Carmen falou, por fim, se sentando novamente e grampeando as folhas. –Não é obrigada a fazer nada, mas se mudar de ideia, já tem a opção. –ela sorriu, de uma maneira gentil.

Carol percebeu que, mesmo sendo nova, tinha muito mais experiência que ela; ela devia estar certa, não é? Acenou em silêncio e saiu com os papeis nas mãos, com a mente muito cheia para pensar em se despedir.

Ao chegar ao quarto, jogou os papeis na mesinha e o corpo na cama, abafando um urro com os travesseiros de espuma; estava exausta. Se fosse outro tipo de paciente, talvez sua curiosidade a obrigasse a ir roubar um pouco de café das enfermeiras, e até papear com eles por um bom tempo –tinha tantas dúvidas, e elas eram como heroínas para Carol – para ter energia para ler os arquivos. Mas estava desinteressada, ou irritada de mais até para pensar no assunto.

De repente, a garota sentiu os papeis pensarem no bolso dos jeans, como se implorassem por atenção, e ficou decidida a ignorá-los, tentando pensar em outra coisa, mas só no que sua mente se concentrava era aquele maldito poema.

Tirou-os do bolso, impaciente, e desdobrou-os, juntando-os aos arquivos do paciente do quarto duzentos e doze.

NOME: Daniel W.

IDADE: 19.

MOTIVO DE INTERNAÇÃO: Assassinato dos pais e animal da casa, costurando-os como fantoches; Fizera o mesmo com o vizinho de treze anos; exibição de um vídeo “brincando” com os fantoches como se fossem uma família.

Ela jogou a ficha de lado, com nojo. Cobriu os olhos com o antebraço e torceu para esquecer aquelas informações... Ele era tão novo. Por que ele estragou a vida desta maneira?

Merda, estava começando a ficar curiosa novamente; precisava dormir para o dia seguinte ser produtivo.

Balançou os papeis por um momento, pensando em um bando de coisas, mas não focando em nada, em especial. Antes de sentar, decidida. Arrancos os poemas do arquivo e colocou fita adesiva atrás, colando-os na parede, envolta de uma única imagem, a maior delas, a mais viva.

A que estava no centro.

George sorria para ela, cercado pelos poemas que tanto gostava, escritos por mãos de um homem tão nojento quanto o que acabara com sua vida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.