Pretty Little Liars

8 Capitulo 8 - A CARIDADE NÃO É ASSIM TÃO DOCE


Milena acordou no chão de seu banheiro, sem a menor noção de como fora parar lá, o relógio à prova d'água marcava 18:45 e, pela janela, o sol do final de tarde projetava longas sombras no jardim deles, ainda era segunda-feira, o dia do funeral de Marian, ela devia ter caído no sono... e andado enquanto dormia. Ela costumava ser sonâmbula crônica, seu estado piorou tanto no sétimo ano que tivera que passar uma noite na Clínica de Avaliação do Sono, da Universidade da Pensilvânia, com eletrodos ligados ao seu cérebro. O médico disse que era só estresse.

Ela se levantou e jogou água fria no rosto, olhando-se no espelho, sua pele era perfeita e seus dentes eram brilhantes de tão brancos, parecia estranho que sua aparência não demonstrasse como ela se sentia péssima.

Ela examinou a equação em sua cabeça mais uma vez: M sabia sobre Rubens e sobre a coisa com Cristina. Rubens estava de volta. Logo, Rubens tinha de ser M, e ele estava dizendo a Milena que mantivesse a boca fechada, era a mesma tortura do sexto ano, tudo igual.

Ela voltou para o quarto e encostou a testa no vidro da janela. À sua esquerda ficava o moinho particular da família, que não funcionava mais havia muito tempo, mas seus pais amavam o tom rústico e autêntico que ele dava à propriedade. À sua direita, a fita com a frase "Não Ultrapasse" pintada em letras pretas ainda estava por todo o gramado dos Gomes. O santuário de Marian, feito de flores, vela, fotos e outras bugigangas em homenagem a ela, havia crescido, engolindo todo o beco.

Do outro lado da rua ficava a casa dos Gomes. Dois carros na garagem, uma cesta de basquete no quintal, a bandeirola vermelha na caixa de correspondência. Mas lá dentro...

Milena fechou os olhos, lembrando-se do mês de maio no sétimo ano, um ano depois da coisa com Cristina. Estava tão ocupada junto com Viviane escrevendo uma mensagem de texto para Marian em seu sensacional Sidekick novo que só cinco ou seis paradas depois elas notaram que havia alguém do outro lado do vagão do trem. Era Rubens. Encarando-as.

Suas mãos começaram a tremer. Ele havia estado no internato o ano todo, elas não virão há meses. Como de hábito, o cabelo dele caía sobre os olhos e ele usava fones de ouvido enormes, mas alguma coisa nele naquele dia parecia... mais intensa. E mais assustadora.

Todos os sentimentos de culpa e ansiedade sobre a coisa com Cristina que Milena havia tentado enterrar voltaram à tona. Eu vou pegar você. Elas não queriam ficar no mesmo vagão que ele. Elas colocaram uma perna no corredor, depois a outra, mas o cobrador entrou na frente, de forma abruta.

–Você está indo para a rua Treze ou para a Market East? -rugiu ele.

Milena encolheu-se de volta no banco.

– Para a Treze — sussurrou ela. Quando o cobrador saiu de vista, ela deu uma olhada para Rubens de novo. O rosto dele se abriu em um sorriso enorme e sinistro. E, um segundo depois, sua boca estava impassível mais uma vez, mas seus olhos diziam: Espere...só...para... ver.

Na terça-feira à tarde, Viviane arrumou a blusa creme e o cardigã soltinho que tinha vestido depois da escola e correu de propósito pelos degraus do consultório de cirurgia plástica William Atlantic e da clínica de reabilitação de queimados. Se você fosse tratar algumas queimaduras sérias, iria à clínica de William Atlantic. Se fosse fazer uma lipo, iria à clínica de Bill Beach.

O prédio havia sido construído na parte de trás no bosque, e apenas um pequeno pedaço podia ser visto através das imponentes árvores. O mundo todo cheirava a flores silvestres. Uma tarde perfeita de outono para ficar de bobeira na piscina do country club e observar os garotos jogando tênis. Era uma tarde perfeita para dar uma corridinha de dez quilômetros a fim de queimar o pacote de cheetos que ela detonara na noite anterior, enlouquecida pela visita surpresa do pai. Aquela podia até mesmo ser uma tarde perfeita para observar um formigueiro ou tomar conta dos gêmeos de seis anos da vizinha. Qualquer coisa seria melhor do que o que ela estava fazendo: sendo voluntária numa clínica para pessoas com queimaduras.

Ser voluntária era quase um xingamento para Viviane. Sua última experiência tinha sido no desfile de caridade do colégio Rosewood. Meninas de Rosewood usando roupas de grife desfilaram pelo palco, o pessoal deu lances pelas roupas exibidas e o dinheiro foi para a caridade. Marian vestiu um Calvin Klein estonteante, bem justo, e um pirralho cheirando a fraldas deu um lance de mil dólares por ele. Viviane, por outro lado, teve de usar uma monstruosidade rodada e cor de néon de Betsey Johnson, que a fazia parecer gorda. A única pessoa a dar lances na roupa que ela usava foi seu pai. Uma semana depois, seus pais anunciaram que iriam se divorciar.

E, então, seu pai estava de volta. Ou alguma coisa parecida.

Quando Viviane pensava na visita do pai no dia anterior, sentia-se tonta, ansiosa e brava, tudo ao mesmo tempo. Desde sua transformação, sonhava com o momento em que o encontraria de novo. Ela estava magra, era popular e equilibrada. Em seu sonho, ele sempre reaparecia com Kate, que ficaria gorda e cheia de espinhas, e Viviane é muito mais bonita que ela.

– Ôôô! — gritou ela. Alguém saiu pela porta no momento em que ela estava entrando.

– Olhe por onde anda — resmungou a pessoa. Então, a ergueu os olhos. Ela estava diante de portas duplas de vidro, perto de um cinzeiro e de um enorme vaso com prímulas, a pessoa saindo do prédio era... Janu.

O queixo de Viviane caiu. Janu estava com o mesmo olhar surpreso. Elas estudaram uma à outra.

– O que você está fazendo aqui? — perguntou Viviane.

– Visitando uma amiga da minha mãe. Plástica de seios, e você? — perguntou Janu.

– Hum, a mesma coisa. — Viviane observou Janu com atenção. O radar de mentiras de Vivi apitou dizendo a ela que Janu podia estar mentindo. Mas, então, talvez Janu pudesse sentir a mesmíssima coisa sobre ela.

– Bem, vou embora daqui. — Janu endireitou a bolsa num dos ombros. — Ligo para você mais tarde.

– Tudo bem — disse Viviane. Elas seguiram em direções opostas. Vivi se virou e deu uma olhada em Janu, só para constatar que a amiga estava olhando para ela por sobre o ombro.

– Agora, preste atenção — disse Ingrid, a enfermeira-chefe alemã, impassível e corpulenta. Elas estavam na sala de exames, e Ingrid ensinava Viviane como limpar as latas de lixo. Como se houvesse algum mistério nisso.

Todas as salas de exame eram pintadas de verde-abacate e as únicas coisas penduradas nas paredes eram pôsteres austeros, que mostravam doenças de pele. Ingrid designou Viviane para o ambulatório; e um dia, se Viviane fizesse tudo direito, em vez do ambulatório, ela teria permissão de limpar os quartos dos pacientes internados, onde as pessoas com queimaduras graves ficavam. Sortuda.

Ingrid puxou o saco de lixo.

– Isto aqui vai para o latão de lixo azul, que fica lá atrás. E você precisa esvaziar as latas de lixo hospitalar também. — Ela fez um gesto em direção a algo idêntico a uma lata de lixo. — Esse tipo de lixo precisa ser sempre recolhido separadamente do lixo comum. E você tem que usar isto aqui. — Ela deu um par de luvas de látex para Viviane. Vivi olhou como se elas estivessem cobertas de lixo hospitalar.

Em seguida, Ingrid indicou o corredor.

– Há dez outras salas de exame aqui — explicou ela. — Esvazie as lixeiras e limpe as tampas também. E, depois, venha me procurar.

Tentando prender a respiração, ela tinha horror àquele cheiro de hospital, gente doente e desinfetante, Vivi se arrastou até o armário de material de limpeza para pegar mais sacos de lixo. Ela olhou para o corredor, imaginando onde eram os quartos dos pacientes. Cristina tinha sido internada aqui. Um monte de coisas, desde o dia anterior, tinham feito com que pensasse na coisa com Cristina, apesar de ela continuar tentando tirar aquilo da cabeça, a ideia de que alguém sabia, e podia espalhar o fato, era algo que ela realmente não conseguia entender.

Apesar de a coisa com Cristina ter sido um acidente, algumas vezes Viviane achava que não era bem assim.

Ainda assim, Cristina era um dos alvos prediletos de Marian, então, lá no sexto ano, Vivi rabiscara uma fofoca sobre os seios de Cristina abaixo do suporte de toalhas de papel do banheiro feminino. Ela derrubara água na carteira de Cristina, na aula de álgebra, para que ela tivesse uma mancha falsa de xixi nas calças. Ela tirou sarro do sotaque falso que Cristina usava para falar na aula de francês II... por isso, quando os paramédicos tiraram Cristina da casa na árvore, Vivi ficou enjoada. Ela havia sido a primeira a concordar em pregar uma peça em Rubens. E ainda pensara:"talvez, se pregarmos uma peça em Toby, possamos pregar uma peça em Cristina também". Era como se ela tivesse desejado que aquilo acontecesse.

As portas automáticas fizeram barulho ao se abrirem, no final do corredor, tirando Viviane de seu devaneio. Ela ficou paralisada, com o coração disparado, desejando que a pessoa chegando fosse Sean, mas não era. Frustrada, tirou o BlackBerry do bolso do casaco e digitou o número dele. Caiu direto na caixa postal, e Viviane desligou. Ela ligou de novo, sem esperanças, mas, novamente, a ligação caiu na caixa postal.

– Ei, Sean! — cantarolou Viviane depois do bipe, tentado parecer despreocupada. — Aqui é Vivi, de novo. Eu queria mesmo conversar, então, hum, você sabe onde me encontrar.

Ela já havia deixado três mensagens para ele naquele dia, mas Sean não tinha respondido. Ela se perguntou se ele estava numa reunião do Clube da Virgindade, onde, recentemente, assinara um pacto de virgindade, jurando não fazer sexo, tipo, nunca. Talvez ele ligasse para Viviane quando terminasse a reunião. Ou... talvez, não ligasse. Vivi reprimiu o pensamento, tentando afastar essa possibilidade da mente.

Ela suspirou e foi até a sala que servia como vestiário para os empregados e como almoxarifado. Ingrid tinha pendurado a bolsa Ferragamo de estanho em um gancho, perto de uma coisa de vinil vagabundo da Gap, e ela reprimiu a vontade de tremer de raiva. Ela guardou o telefone na bolsa, pegou um rolo de papel toalha e uma garrafa de desinfetante em spray e foi para uma sala de exames vazia. Na verdade, fazer esse trabalho talvez mantivesse sua cabeça longe dos problemas com Sean e M.

Quando estava terminado de esfregar a pia, sem querer, esbarrou em um armário de metal que estava próximo. Dentro dele, havia prateleiras com caixas de papelão etiquetadas com nomes familiares. Tylenol 3.Vicodin. Viviane espiou lá dentro. Havia centenas de amostras de remédios. Elas estavam... estavam ali. Só. Não estavam trancadas.

Aquilo era a sorte grande.

Viviane, mais que depressa, enfiou algumas mãos cheias de Percocet nos bolsos incrivelmente fundos de seu casaco. Pelo menos, ia poder se divertir no final de semana, fora dali.

Então, alguém colocou a mão em seu ombro. Vivi deu um pulo para trás e se virou, derrubando o montinho de papel toalha ensopado com desinfetante e um vidro cheio de cotonetes no chão.

– Por que você ainda está na sala de exame dois? — Ingrid franziu a testa. Ela parecia um pug mal-humorado

– Eu... eu só estava tentado fazer tudo direito. — Viviane logo se abaixou para recolher as toalhas de papel no lixo e torceu para que os Percocet não caíssem de seus bolsos. Seu pescoço queimava onde Ingrid havia encostado.

– Bem, venha comigo — disse Ingrid. — Tem alguma coisa fazendo barulho em sua bolsa. Está perturbando os pacientes.

–Tem certeza de que é na minha bolsa? — perguntou Viviane. — Eu mexi agora na minha bolsa e...

Ingrid fez com que Viviane a seguisse de volta ao vestiário. Com certeza, havia um barulhinho vindo do bolso interno da bolsa dela.

– É só meu celular. — Viviane se animou. Talvez Sean tivesse ligado!

– Bem, resolva isso sem fazer muito barulho e, depois, volte ao trabalho.

Viviane tirou o BlackBerry da bolsa para checar quem estava ligando. Ela tinha uma nova mensagem.

"Esfregar o chão em Bill Beach não vai ajudá-la a ter sua vida de volta, nem mesmo você pode arrumar essa bagunça. E, além disso, sei de algo que vai garantir que você não volte a ser a musa de Rosewood, nunca mais. — M"

Viviane olhou em volta no vestiário, confusa. Leu de novo a mensagem, enjoada e com a garganta seca. O que M poderia saber que garantisse uma coisa daquelas? .

Se M sabia que...

Viviane digitou voando uma resposta no teclado de seu telefone:

Você não sabe de coisa nenhuma. — Ela apertou ENVIAR.

Em segundos, M respondeu:


Eu sei de tudo, eu poderia DESTRUIR VOCÊ.