Pretty Little Liars

9 Capitulo 9 - A MÃE DA VIVIANE NÃO ENSINOU A ELA QUE NÃO SE DEVE ENTRAR EM CARROS DE ESTRANHOS?


Na tarde de terça-feira, enquanto dirigia da escola para casa, Bia passou pelo campo de lacrosse e reconheceu a figura solitária, correndo em disparada em volta da área do gol, com a rede em riste na frente do rosto. Ele estava treinando passes e correndo na grama molhada e enlameada. Nuvens agourentas e cinzentas tinham se acumulado no céu, e começava a garoar. Bia encostou o carro de repente.

— Thiago! — Ela não via o irmão desde que ele saiu intempestivamente do bar no dia anterior. Algumas horas mais tarde, ele havia ligado para casa, dizendo que estava jantando na casa de um amigo, Neco. E, mais tarde ainda, ligou para avisar que ia dormir lá.

O irmão levantou o rosto e olhou para ela, do outro lado do campo, e franziu a testa.

— Que foi? — perguntou Thiago.

— Vem cá — disse ela.

Thiago se arrastou pelo gramado perfeito.

— Entra aqui — mandou Bia.

— Eu estou treinando. — diz Thiago.

—Você não pode evitar este assunto para sempre, temos que conversar a respeito — diz Bia.

— A respeito do quê? — pergunta Thiago.

Ela ergueu uma de suas sobrancelhas perfeitamente arqueadas.

— Ah, o que foi que vimos ontem? No bar? — pergunta Bia.

Ele brincou com um dos cadarços de couro da rede. Gotas de chuva batiam contra a aba de seu boné Brine.

— Não sei do que você está falando. — diz Thiago

— Como é? — Bia estreitou os olhos. Mas Thiago nem mesmo olhou para ela — Tudo bem. — Ela engatou a ré.

Thiago apoiou a mão no vão da janela do carro.

— Eu... eu não sei o que vou fazer — disse ele, baixinho e Bia pisou no freio.

— O quê?

— Se eles se divorciarem, eu não sei o que vou fazer — repetiu Thiago, a expressão vulnerável e constrangida em seu rosto fazia com que ele parecesse ter dez anos. — Estourar meus miolos, talvez — Lágrimas escorriam dos olhos dela.

— Isso não vai acontecer — garantiu ela, com a voz tremendo. — Eu prometo — Thiago fungou. Ela estendeu a mão para tocá-lo, mas ele se afastou e correu campo afora. Bia decidiu ir embora, seguindo devagar pela rua sinuosa e molhada.

O tempo chuvoso era seu favorito. Fazia com que se lembrasse dos dias de chuva do passado, quando tinha nove anos. Ela entrava de fininho no veleiro do vizinho, subia pela parte de dentro da vela e se aconchegava dentro de uma das cabines, ouvindo o barulho da chuva batendo na lona e escrevendo em sua agenda da Hello Kitty. Ela sentia que pensava de forma mais clara em dias chuvosos e, neste momento, precisava mesmo pensar. Ela poderia ter lidado com M contando a sua mãe sobre a Meredith se aquilo tivesse acontecido no passado. Os pais dela poderiam sobreviver a algo assim; Geraldo poderia dizer que aquilo nunca mais aconteceria e blá-blá-blá. Mas, agora que Meredith estava de volta, bem, isso mudava tudo. Na noite anterior, seu pai não viera jantar em casa, por causa dos, hum, trabalhos que ele tinha que corrigir, e Bia e sua mãe sentaram-se no sofá diante da televisão e assistiam The Walking Dead! Ambas no mais absoluto silêncio. E a questão era que ela também não saberia o que iria fazer se os pais se divorciassem. Subindo uma ladeira bem íngreme, Bia pisou no acelerador, o Subaru sempre precisava de um empurrãozinho extra nas subidas. Mas, em vez de continuar em frente, as luzes do interior do carro se apagaram, e o automóvel começou a descer a ladeira de ré.

— Droga — sussurrou Bia, puxando o freio de mão. Quando tentou a ignição de novo, o carro nem sequer deu partida. Ela olhou para a estrada de duas pistas vazia. O som de um trovão ecoou e a chuva começou a despencar do céu. Bia mexeu na bolsa, pensando se deveria chamar um guincho, ou seus pais para buscá-la, mas, depois de remexer ali dentro, deu-se de conta de que havia esquecido o celular em casa. A chuva caía tão forte que o para-brisa e as janelas embaçaram. — Ah, meu Deus — sussurrou Bia, sentindo-se claustrofóbica. Ela começou a ver pontinhos pretos na sua frente. Bia conhecia essa sensação de ansiedade: era um ataque de pânico. Ela já tivera alguns antes. Um depois da Coisa com Cristina, outro depois do desaparecimento de Marian e o terceiro aconteceu quando ela estava andando pela rua Laugavegur em Reykjavík e viu uma menina idêntica a Meredith em um outdoor. Acalme-se , disse a si mesma. É só chuva. Ela respirou profundamente duas vezes para se acalmar, tampou os ouvidos com os dedos e começou a cantar "Frêre Jacques" por alguma razão, a versão em francês funcionou. Depois de cantar a música três vezes, os pontinhos pretos começaram a desaparecer. A chuva perdeu a força de furacão e estava apenas torrencial. O que precisava fazer era andar até a casa da fazenda pela qual havia passado e perguntar se podia usar o telefone deles. Ela manteve a porta do carro aberta, segurou seu blazer de Rosewood por cima da cabeça e começou a correr. Uma rajada de vento ergueu sua minissaia e ela enfiou o pé em uma poça de lama enorme. A água entrou por entre as tiras de sua sandália de salto alto. — Que inferno — resmungou. Estava apenas a alguns metros de distância da casa quando um carro Audi azul-marinho passou. Ele passou sobre a poça d'água, molhando Bia completamente e depois parou quando viu o carro da Bia quebrado. Deu ré devagar, até chegar perto dela. O motorista baixou o vidro.

— Você está bem? — Bia apertou os olhos, a chuva gotejava da ponta de seu nariz. No banco do motorista estava Juca, um garoto da sala dela. Ele era um menino típico de Rosewood: jaqueta com capuz, pele hidratada, feições bem americanas, carro caro. A diferença é que ele jogava futebol em vez de lacrosse. Não era o tipo de pessoa que ela queria ver justo numa hora daquelas.

— Estou bem — gritou ela.

— Na verdade, você está ensopada. Precisa de uma carona? — A Bia estava tão molhada que sentia como se o rosto estivesse enrugado como uma ameixa seca. O carro de Juca parecia seco e aconchegante. Por isso, ela deslizou para o banco do carona e fechou a porta. Juca disse a ela que jogasse o blazer, que estava pingando, no banco de trás. Depois, inclinou-se e aumentou o aquecimento. — Para onde vamos? — perguntou Juca, Bia tirou os cabelos que cobriam sua testa.

— Na verdade, só preciso usar seu celular, depois eu deixo você em paz.

— Tudo bem. — Juca mexeu em sua mochila em busca do celular, Bia encostou-se ao banco e olhou em volta. Juca não havia enchido seu carro com adesivos de bandas, como alguns caras faziam, e a parte de dentro não cheirava a suor masculino. Em vez disso, cheirava a uma combinação de pão e cachorro recém-lavado. Havia dois livros no chão, em frente ao banco dos passageiros: Zen e a arte de manutenção de motocicletas e O Tao do Puff.

— Você gosta de filosofia? — Perguntoy Bia e afastou as pernas, para não molhar os livros. Juca abaixou a cabeça.

— Bem, sim. — Ele parecia constrangido.

—Também li esses dois, eu li muitos filósofos franceses esse verão, quando estava na Islândia — Ela fez uma pausa, nunca havia realmente falado com Juca, antes de partir, os garotos de Rosewood lhe davam medo, o que era parte do motivo pelo qual os odiava. — Hum, eu passei um tempo na Islândia... Meu pai tirou um ano sabático.

— Eu sei. — Juca deu um sorriso cínico a ela, Bia olhou para as próprias mãos.

—Ah. — E então houve um silêncio desconfortável. O único som era o da chuva batendo e do movimento ritmado dos limpadores de para-brisa.

— Quer dizer que você lê, tipo, Camus e essas coisas? — perguntou Juca. Bia concordou, ele sorriu — Eu li O Estrangeiro neste verão.

— Mesmo? — Bia ergueu o queixo, certa de que ele não tinha entendido nada. E, de qualquer forma, o que um típico garoto de Rosewood iria querer com livros profundos de filosofia? Se aquilo fosse uma analogia típica dos testes de lógica que eles às vezes faziam na escola, poderia ser "garotos de Rosewood: lendo filósofos franceses :: Turistas americanos na Islândia: comendo em qualquer lugar, menos no McDonald's". Coisas como essas simplesmente não aconteciam. Quando Juca não respondeu, ela telefonou para casa do celular dele. Tocou sem parar até cair na caixa postal — eles não tinham ligado a secretária eletrônica ainda. Então, ligou para o número do pai, na faculdade —já passava das cinco horas e ele tinha deixado um bilhete na geladeira dizendo que ficaria no escritório entre as três e meia e as cinco e meia da tarde. Chamou, chamou e lá também ninguém atendeu. Os pontinhos pretos começaram a piscar na frente de Bia mais uma vez enquanto ela imaginava onde o pai poderia estar... ou com quem poderia estar. Ela se inclinou sobre os braços nus, tentando respirar mais fundo. Frére Jacques, cantou em silêncio.

— Opa! — disse Sean, sua voz parecendo muito distante.

— Eu estou bem — afirmou Bia com a voz amortecida por suas pernas. — Eu só tenho que... Ela ouviu Juca tatear pelo carro. Depois, ele enfiou um saco do Burger King nas mãos dela.

— Respira aqui dentro. Mas acho que ainda tem algumas batatas fritas, desculpe. — disse Juca, Bia colocou o saco em volta da boca e o inflou e desinflou devagar. Ela sentia a mão morna de Juca no meio de suas costas e, devagar, a tontura começou a ceder. Quando ela levantou a cabeça, Juca olhava para ela, aflito. — Ataques de pânico? — perguntou ele — Minha madrasta também tem. Sacos de papel sempre ajudam — Bia amassou o saco em seu colo.

— Obrigada.

— Tem alguma coisa irritando você? — Perguntou Juca, Bia balançou a cabeça rapidamente.

— Não, eu estou legal.

— Ah, não é, tipo, por isso que as pessoas têm ataques de pânico? — perguntou Juca, Bia apertou os lábios.

— É complicado. — Além disso, ela queria dizer, desde quando típicos garotos de Rosewood se interessam pelos problemas das meninas esquisitas? — Juca deu de ombros.

—Você era amiga de Marian Gomes, certo? — perguntou Juca, Bia concordou. — É estranho, não é?

— É, sim. — Ela limpou a garganta. — Embora, hum, não seja estranho da forma como você acha que é. Quero dizer, é estranho desse jeito, mas é estranho de outros jeitos também.

— De quais jeitos? — Perguntou Juca, ela se inclinou para trás, naquele dia, na escola, pareceu que todos falavam com ela com sussurros infantis. Será que eles achavam que, se falassem no volume normal, Bia poderia ter uma crise de nervos instantânea?.

— Eu só queria que todo mundo me deixasse em paz, como era na semana passada. — Juca mexeu no desodorizador em formato de pinheiro que estava pendurado no espelho retrovisor, fazendo-o balançar.

— Sei o que você quer dizer, quando minha mãe morreu, todo mundo pensou que, se eu ficasse um segundo sozinho, iria cometer uma loucura — disse Juca, Bia endireitou-se no assento.

— Sua mãe morreu? — perguntou Bia, Juca olhou para ela.

— Sim, mas foi há muito tempo. No quarto ano.

— Ah. — Bia tentou se lembrar de Juca no quarto ano. Ele era uma das crianças mais baixinhas da classe, e ela havia jogado queimado no mesmo time que ele um monte de vezes, mas foi só isso. Ela se sentiu mal por ser tão indiferente — Meus pêsames — Ficaram em silêncio, Bia cruzou e descruzou as pernas descobertas, o carro começou a ficar com o cheiro de sua sala de lã molhada.

— Foi difícil — continuou Juca. — Meu pai teve um monte de namoradas. Eu nem mesmo gostava da minha madrasta, no começo mas me acostumei com ela, acho. — Bia sentiu os olhos se encherem de lágrimas : ela não queria ter que se acostumar com mudanças na família dela. Deu uma fungadela alta. Juca chegou mais para a frente. — Tem certeza de que não quer falar sobre isso? — Bia encolheu os ombros.

— Deveria ser um segredo.

— Vou dizer o que podemos fazer. E se você me contar o seu segredo e eu contar o meu para você?

—Tudo bem — concordou Bia, rapidamente, a verdade era que ela estava morrendo de vontade de falar com alguém sobre o assunto. Ela teria confidenciado aquilo para suas velhas amigas, mas elas foram tão discretas a respeito de seus segredos que envolviam M que isso fez com que Bia se sentisse ainda mais desconfortável em revelar os dela. — Mas você não pode contar nada.

— De jeito nenhum.

E, então, Bia contou a ele sobre seu pai Geraldo, sua mãe; Meredith e o que ela e Thiago haviam visto no dia anterior no bar. A coisa toda simplesmente saiu.

— Não sei o que fazer — desabafou — Sinto como se fosse eu quem devesse manter todos juntos — Juca estava quieto, e Bia temeu que ele tivesse parado de escutar. Mas, então, ele ergueu a cabeça.

— Seu pai não deveria ter colocado você nessa situação.

— É, eu sei. — Bia deu uma olhada para Juca. Se você superasse a camisa enfiada dentro da calça e a bermuda cáqui, ele até que era bem bonitinho. Os lábios eram mesmo bem rosados e os dedos era nodosos, irregulares. Pela forma como sua camiseta polo justa estava esticada sobre o peito, ela imaginou que ele estava no auge da forma física para um jogador de futebol. De repente, ela ficou constrangida. — É fácil conversar com você — disse Bia, tímida, fitando os próprios joelhos. Ela tinha deixado escaparem alguns pelinhos em seus joelhos quando se depilara. Isso não costumava fazer muita diferença, mas agora meio que fazia. — Por isso, hummm, obrigada.

— Claro. — disse Juca e sorrriu. Quando Juca sorria, seus olhos ficavam enrugados e ternos.

— Esta definitivamente não foi a forma como eu imaginei passar minha tarde — A chuva ainda tamborilava no para-brisas, mas o carro tinha ficado bem quentinho durante o tempo em que ela tagarelava.

— Nem eu. — Juca olhou pela janela. A chuva tinha começado a diminuir — Mas... não sei. Até que foi legal, não foi? — perguntou Juca, Bia deu de ombros, e então, lembrou ;

— Ei, você me prometeu um segredo! É melhor que seja bom.

— Bem, não sei se é bom. — Juca se inclinou na direção de Bia e ela chegou mais perto. Por um louco segundo, pensou que eles poderiam se beijar. — Bom, eu faço parte desse negócio chamado Clube da Virgindade — sussurrou Juca. Seu hálito cheirava a balas Altoids. — Você sabe do que se trata?

— Acho que sim. — Bia tentou evitar que seus lábios esboçassem um sorriso — É aquele negócio de sem-sexo-até-o-casamento, certo?

— Certo. — Juca se afastou um pouco. — Bem... eu sou virgem, mas... não sei se quero continuar a ser.

No dia seguinte

Viviane apertou o botão da máquina de chicletes no Fresh Fields. Era uma quarta-feira, depois do treino da natação, e ela estava comprando coisas para o jantar, que a mãe havia pedido. Ela comprava chiclete na máquina toda vez que ia ao Fresh Fields e tinha inventado um jogo: se apanhasse um chiclete amarelo, alguma coisa boa iria acontecer com ela. Ela olhou para o chiclete na palma de sua mão, era verde.

— Oi. — Alguém havia se aproximado dela. Viviane olhou para cima.

— Bia, oi — Como sempre, Bia obviamente não tinha receio de se destacar com suas roupas. Ela vestia um colete felpudo azul-néon. E, embora usasse a saia do uniforme da escola, havia levantado a barra bem acima dos joelhos, combinando-a com leggings pretas e sapatilhas de balé azul-celeste. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo alto, do tipo que as líderes de torcida costumam usar. a efeito funcionava, e a maioria dos homens com menos de setenta e cinco anos no estacionamento do Fresh Fields estava olhando para ela.

— Está tudo bem com você?

— Tudo bem, e você? — Bia deu de ombros. Ela lançou um olhar discreto para o estacionamento, que estava cheio de funcionários colocando os carrinhos espalhados pelo pátio de volta aos lugares certos. — Você não recebeu mais nenhuma...

— Não. — Viviane evitou os olhos de Bia. Ela havia apagado a mensagem de texto de M da segunda-feira e era quase como se nada tivesse acontecido. — E você?

— Nada. — Bia deu de ombros de novo.

— Acho que estamos a salvo — Não, não estamos, Vivi quis dizer, ela mordeu as bochechas por dentro.

— Bem, você pode me ligar a qualquer hora. — Bia começou a andar em direção às máquinas de refrigerante. Viviane saiu da loja, um suor frio lhe cobria o corpo. Por que ela tinha sido a única pessoa a receber uma mensagem de M? Será que M a havia escolhido? Ela pôs a sacola de compras na mochila, destrancou a bicicleta e pedalou para fora do estacionamento. Quando virou para uma rua lateral que, na verdade, não tinha nada além de quilômetros de cercas brancas, sentiu uma leve sensação de outono no ar.

— Viviane ! — gritou alguém, às suas costas. Ela se virou para ver quem a estava chamando, e a roda dianteira da bicicleta derrapou em algumas folhas molhadas. De repente, se viu no chão. — meu Deus, você está bem? — gritou a voz. Viviane abriu os olhos. Parado de pé, à sua frente, estava Rubens. O gorro do casaco estava levantado, fazendo seu rosto parecer sombrio. Ela deu um gritinho. O rosto de Binho, sua expressão frustrada, ele estava a seguindo? Ela pensou na mensagem de M. Apesar de a maioria de nós ter mudado completamente... Bem, no caso de Rubens, com certeza. Rubens se abaixou.

— Deixe-me ajudar você — disse Rubens, Viviane levantou a bicicleta sozinha, moveu as pernas cuidadosamente e levantou a calça para verificar o longo e fundo arranhão em sua canela.

— Eu estou bem.

— Você deixou isto cair lá atrás. — diz Rubens e entregou a Viviane sua bolsinha de moedas da sorte, ela era feita de couro cor-de-rosa. Marian a deu de presente a Viviane um mês antes de desaparecer.

— Hum, obrigada. — Viviane tomou a bolsinha das mãos dele, sentindo-se desconfortável. Rubens franziu a testa ao ver o arranhão.

— Isso parece ruim. Você quer vir comigo até o carro? Eu acho que tenho alguns BandAids... — perguntou Rubens, o coração de Viviane acelerou. Primeiro, tinha recebido aquela mensagem de M, e agora isso, ela sempre havia se perguntado se Rubens sabia sobre a coisa com Cristina por que ele havia assumido a culpa.

— É sério. Eu estou bem. — Ela levantou a voz.

— Eu posso pelo menos te dar uma carona pra algum lugar?

— Não! — gritou Viviane. Então, percebeu a quantidade de sangue que estava escorrendo de sua perna. Ela odiava ver sangue. Os braços dela começaram a ficar moles.

— Viviane? — perguntou Rubens. — Você está... — A vista de Viviane ficou turva, ela não podia desmaiar ali. Tinha que se afastar de Rubens. Apesar de a maioria de nós ter mudado completamente... E, então, tudo ficou escuro. Quando ela acordou, estava deitada no banco de trás de um carro pequeno. Uma série de pequenos Band-Aids escondiam o arranhão em sua perna. Ela olhou em volta, ainda tonta, tentando se situar, quando percebeu quem estava dirigindo. Rubens se virou.

— Bu! — disse Rubens, e Viviane gritou — Ei! — Rubens parou em um semáforo e levantou as mãos para o alto, em um gesto que dizia: Não atire — Desculpe, eu só estava brincando. — Viviane se sentou. O banco de trás estava entulhado de coisas: garrafas vazias de Gatorade, cadernos de espiral, livros didáticos, tênis surrados e um par de calças de moletom cinza. O estofamento do banco de Rubens havia se desgastado em alguns lugares, revelando um enchimento de espuma azul. Um aromatizante de carro, no formato de um ursinho dançante, balançava no espelho retrovisor. O carro não cheirava bem, entretanto. Tinha um odor forte e azedo.

— O que você está fazendo? — perguntou Viviane. — Aonde nós estamos indo?

—Você desmaiou — explicou Rubens calmamente. — Por causa do sangue, talvez, eu não sabia o que fazer, então, peguei você no colo e te coloquei no meu carro. Sua bicicleta está no porta-malas. Viviane olhou para os pés; lá estava sua mochila. Rubens a havia carregado? Tipo, nos braços? Ela se sentiu tão assustada que parecia que ia desmaiar de novo. Olhando em volta, não reconheceu a estrada cheia de árvores por onde estavam passando. Eles podiam estar em qualquer lugar.

— Me deixe sair — gritou Viviane. — Eu posso pedalar daqui.

— Mas não tem acostamento...

— É sério. Encoste. — ordenou Viviane, Rubens encostou o carro em uma área gramada e olhou para ela, os cantos de sua boca caíram e seus olhos se arregalaram de preocupação.

— Eu não tive a intenção... — Ele passou a mão no queixo — O que eu deveria ter feito? Deixado você lá?

— É — respondeu Viviane.

— Bem, hum, eu sinto muito, então. — Rubens saiu do carro, andou até o lado dela e abriu a porta. Um cacho de cabelos escuros caiu sobre a testa dele. — Na escola, eu fui voluntário na unidade de resgate de emergência. Eu meio que quero resgatar tudo, agora. Até mesmo animais mortos na estrada. Viviane olhou para a estrada e notou a gigantesca roda d'água da fazenda Applegate Horse. Eles não estavam no meio do nada. Estavam a menos de dois quilômetros da casa dela. —Venha — disse Rubens. — Eu te ajudo — Talvez ela estivesse exagerando. As pessoas mudam, era só ver qualquer um dos amigos de Viviane, por exemplo. Não significava que Rubens fosse, definitivamente, M. Ela relaxou as mãos, que apertavam o assento do carro.

— Hum, você pode me levar. Se quiser. — disse Viviane, Rubens olhou para ela por um instante. Um dos cantos de sua boca se curvou, em um quase sorriso. A expressão em seu rosto dizia: Hum, tudo bem, garota maluca, mas ele não disse nada. Ele voltou para o banco do motorista, e Viviane o examinou em silêncio. Rubens realmente havia mudado. Os olhos dele, que antigamente tinham uma expressão assustadora, agora pareciam apenas profundos e pensativos. E ele estava falando. Coerentemente. No verão, após o sexto ano, Viviane e Rubens foram para o mesmo acampamento de natação, e Rubens simplesmente olhava fixamente para ela, sem o menor constrangimento e, então, puxava a aba do boné sobre os olhos e cantarolava. Mesmo assim, Viviane desejava poder perguntar a ele a questão de um milhão de dólares: por que ele havia assumido a culpa por cegar sua irmã postiça, quando não o havia feito? Na noite em que acontecera o acidente, Marian entrou em casa e dissera a elas que tudo estava bem, que ninguém a havia visto. Todas estavam muito assustadas para dormir no começo, mas Marian acariciara as costas de todas, acalmando-as. No dia seguinte, quando Rubens confessara, Bia perguntara a Marian se, durante aquele tempo todo, ela sabia o que ele iria fazer.

— Eu simplesmente tive uma sensação de que tudo ficaria bem — explicou Marian.

Com o tempo, a confissão de Rubens havia se tornado um daqueles mistérios da vida, que ninguém jamais entenderia, o que havia no chão do banheiro das meninas de Rosewood Day quando a zeladora gritava; por que Imogen Smith perdia tantas aulas no sexto ano (porque, definitivamente, não era mononucleose), ou como... quem matou Marian. Talvez Rubens se sentisse culpado sobre outra coisa, ou quisesse sair de Rosewood? Ou, talvez, ele tivesse mesmo fogos de artifício na casa da árvore e os tivesse disparado acidentalmente.

Rubens manobrou o carro e entrou na rua de Viviane. Tocava blues nas caixas de som, e ele acompanhava o ritmo batendo no volante com as palmas das mãos.

Viviane finalmente pensou em uma pergunta segura.

— Então, você está na Tate, agora?

— É — respondeu ele — Meus pais me disseram que, se eu fosse aceito, poderia ir, e eu fui, é bom estar perto de casa, eu posso ver a minha irmã, ela está na escola na Filadélfia, Cristina. — O corpo inteiro de Viviane, até os dedos dos pés, ficou tenso, ela tentou não demonstrar nenhuma reação, e Rubens olhou diretamente para a frente, parecendo não notar que ela estava nervosa.

— E, hum, onde você estava antes? No Maine? — perguntou Viviane, fazendo parecer que ela não sabia que ele estava na Academia Manning para Rapazes, que, de acordo com a pesquisa que ela fizera no Google, ficava na Estrada Fryeburg, em Portland.

— É. — Rubens diminuiu a velocidade para deixar que dois garotos de patins atravessassem a rua — O Maine era legal. A melhor coisa era o resgate de emergência.

— Você... você viu alguém morrer? — perguntou Viviane, Rubens olhou nos olhos dela pelo espelho retrovisor novamente.

— Não, mas uma senhora me deixou o cachorro dela em testamento.

— O cachorro? — Viviane não conseguiu controlar uma risada.

— É, eu estava com ela na ambulância e a visitei no CTI. Nós conversamos sobre o cachorro dela, e eu disse que adorava cachorros. Quando ela morreu, o advogado dela me encontrou.

— E... você ficou com ele?

— Está na minha casa agora, ele é um animal dócil, mas tão velho quanto a ex-dona — disse Rubens, Viviane riu e algo dentro dela começou a derreter, Rubens parecia... normal. E legal. Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, eles haviam chegado à casa dela. Rubens estacionou o carro e tirou a bicicleta de Viviane do porta-malas. Quando ela pegou o guidom, os dedos deles se tocaram. Uma pequena faísca se acendeu dentro dela. Rubens olhou para Viviane por um momento, e ela olhou para a calçada. Séculos atrás, ela havia colocado a mão no concreto fresco. Agora, a marca da mão parecia pequena demais para ter pertencido a ela. Rubens sentou-se no banco do motorista. — Então, vejo você amanhã? — perguntou Rubens, Viviane levantou a cabeça de uma vez.

— P-por quê? — perguntou Viviane, Rubens ligou o carro.

— É a reunião Rosewood-Tate. Lembra?

— Oh — respondeu Viviane — É claro.

Enquanto Rubens se afastava, ela sentiu o coração desacelerar, por alguma razão maluca, ela pensara que Rubens iria convidá-la para sair. Ora, vamos, disse ela a si mesma ao subir os degraus da entrada de casa. Aquele era Rubens. Os dois juntos era algo tão provável como... bem, como Marian ainda estar viva. E, pela primeira vez desde que ela desapareceu, Viviane tinha finalmente desistido de esperar por isso.