Preto é a Cor do Amor
4 Undefined
Notas iniciais
– Will
Depois da minha descoberta sobre meu novo vizinho, eu desci calmamente até a cozinha para ver se ainda tinha alguma coisa para comer, afinal fiquei na internet conversando com meus amigos até agora, nove horas da noite.
— Pai? — perguntei assim que entrei e o vi sentado tomando uma pequena xícara de leite quente. Um relâmpago cortou o céu e iluminou a cozinha, que estava apenas iluminada com uma vela em cima da mesa.
— Pensei que estava dormindo... — comentou levantando o olhar para mim.
— Estava apenas conversando com meus amigos, porque a vela? — olhei a cera branca derretendo e caindo no pequeno suporte que a segurava.
— Em tempos assim eu prefiro usar as velas, a ligar as luzes — respondeu levantando e colocando a xícara dentro da pia – Se houver um apagão, será menos provável que algo estrague.
— Hum... Tem alguma coisa pra comer? — perguntei andando até a geladeira.
— Tem leite e alguns cookies no forno que Martha fez, agora já não é hora para comer algo muito pesado — respondeu e depois de lavar a xícara, sorriu para mim e esticou a mão até ela está sobre meus cabelos — Boa noite filho — falou bagunçando-os.
— Boa noite — ri com a atitude dele e peguei o leite na geladeira. Fui até o forno tirei alguns cookies de chocolate e sentei-me a mesa.
Olhei para a vela, e pensei como estaria o tempo em Malibu. Provavelmente a noite estaria estrelada, com meus amigos num luau na areia da praia com muita bebida, músicas boas e muita diversão. Se eu ainda estivesse lá eu estaria muito bêbado numa hora dessas, ficando com três garotas ao mesmo tempo e nem ligando para meu celular que estaria tocando sem parar por causa da minha mãe preocupada.
— Bons tempos... — murmurei pensativo.
Terminei de comer, lavei tudo e andei no escuro da minha nova casa até meu quarto. Devo dizer que não foi tão fácil assim, mas consegui chegar lá inteiro e sem bater meu dedo mindinho em nenhum móvel, isso foi uma vitória!
Como quem diz não querer nada, andei ‘despreocupadamente’ até a janela e olhei para a janela de Nico, não me surpreendi quando a vi fechada e com o quarto todo escuro. Ele já deveria estar dormindo.
Peguei-me pensando no motivo de Nico estar sério hoje e decidi que no dia seguinte eu tentaria conversar com ele, eu sentia que precisava ser amigo dele.
~*~
— Bom dia — falei assim que entrei na sala de aula.
Tudo bem que era meu segundo dia na escola, mas eu já sentia que conhecia esse pessoal a minha vida toda. Eles estavam sentados como no dia anterior, Percy e Annie, Jason e Piper sentados juntos e Nico sozinho na mesa. Mas diferente de ontem, ele estava no meio da conversa, não falava tanto, mas opinava uma coisa ou outra. Fiquei feliz em saber que ele não era excluído e que estava sorrindo, pouco mais estava.
Sentei-me na cadeira ao lado de Nico e comecei a participar da conversa sobre qual time de baseball era o melhor, Yankees ou Mets. Claro que não prestei muita atenção na conversa, fiquei o tempo inteiro tentando decifrar o rapaz ao meu lado. Hoje de novo ele está todo de preto, como alguém consegue usar tanto preto numa vez só? Suspirei e me virei para frente, a conversa já não me interessava.
— O que foi? — escutei Nico perguntar-me e olhei-o de canto de olho.
Talvez seja aquela necessidade por atenção, não sei, mas fiquei feliz por ele ter prestado atenção em mim e ter me perguntado o que estava acontecendo. Talvez ele quisesse ser meu amigo, tanto quanto eu quero ser dele. Fiz minha melhor cara de tristeza, suspirei cansado e abaixei a cabeça. Um excelente ator.
— Estou querendo procurar um emprego, mas não faço ideia de onde posso começar... — comentei cabisbaixo.
Era verdade. Eu tinha sim que procurar emprego e também não fazia ideia de onde começar, resolvi então jogar uma pequena investida em Nico para ver se ele poderia me ajudar. Talvez com a ajuda dele, eu possa achar emprego rápido e assim consiga pagar a pequena dívida que tenho com Apolo. Nico olhou para mim pensativo, levou as mãos até os cabelos negros e bagunçou-os levemente, abriu a boca para falar ao, mas desistiu da ideia. Depois de longos segundo ele resolveu me olhar de novo.
— Fale com Jason ele pode te ajudar — disse se virando para frente, colocando seus fones de ouvidos e deitando a cabeça na mesa para descansar.
Meu queixo caiu. Eu realmente pensei que ele pudesse me ajudar, ele tem essa carinha de anjo frágil e delicado, mas é mais ferino que um gato. Pensei que ele ajudaria o novato que chegou recentemente na cidade e que precisa de informações. Murmurei alguns pequenos e inaudíveis xingamentos para meu colega de mesa e olhei para frente onde o professor de gramática escrevia no quadro. Pensei em chamar Nico para prestar atenção na aula, mas decidi não o fazer. Ele deveria ser mais responsável e prestar atenção na aula, e não ficar dormindo na mesma.
~*~
Eu deveria ter acordado Nico na hora que o professor entrou na sala de aula, o problema era que eu ainda estava meio ressentido com o fato dele não ter me ajudado. Agora estou aqui na sala chorando internamente por culpa de um trabalho de gramática, de uma matéria que não entendi nada, e meu parceiro não é ninguém menos que Nico di Ângelo, o garoto que dormiu a aula inteira. Percy disse para eu não me preocupar e que eu tinha tirado a sorte grande por fazer um trabalho com Nico, mas como eu posse ter certeza disso se ele dormiu durante todos os cinquenta minutos de aulas?
Suspirei derrotado e resolvi chamar o moreno dorminhoco ao meu lado. Olhei para ele e vi seu tronco subindo e descendo calmo e vagarosamente, seus cabelos negros e um pouco longo estava caindo no rosto pálido dele, seus lábios finos estavam entreabertos e rosados, e suas bochechas levemente coradas.
— Nico... — sussurrei tentando não acordá-lo abruptamente. Ele murmurou algo e cobriu o rosto com os braços.
— Ainda não acordou? — Jason perguntou na porta da sala.
— Está ai há quanto tempo? — perguntei levantando da cadeira e indo a sua direção.
— Tempo suficiente para te ver chamando por ele — riu e andou devagar até o moreno — Com ele tem que ser um pouco mais radical.
No momento que eu ia perguntar o sentido de radical naquela frase, Jason se abaixou chegando bem perto do ouvido de Nico e gritou em alto e bom som.
— ACORDA NICOLE!
Devo dizer eu a cena a seguir foi a mais engraçada de toda minha vida. Nico arregalou os olhos assustado, caiu da cadeira e botou a mão no ouvido. Sua respiração estava alterada e Jason morria de rir a sua frente.
— Filho de uma... — Nico começou a dizer levantando-se e Jason ajudou-o.
— Xingar a mãe não vale — cortou-o e riram. Sim, riram. Nico di Ângelo riu, não tão abertamente, mas muito mais do que já tinha visto desde que cheguei aqui e isso me deixou feliz, afinal ele sabia sorrir.
— Nicole? — perguntei assim que eles chegaram até mim e começamos a andar até o refeitório.
— É uma piada nossa... — Nico comentou querendo dar aquele assunto por encerrado, talvez porque seja pessoal, mas fiquei muito curioso sobre a história de ‘Nicole’.
— Ah Nico hoje o professor de gramática passou um trabalho em dupla, temos de fazer para a próxima semana — falei olhando-o e ele levantou uma sobrancelha confuso.
— Hoje às cinco horas na minha casa, depois te passo o endereço — respondeu sentando-se na mesa. Sentei ao seu lado.
— Na verdade já sei onde você mora — comentei baixo.
— Segundo dia de aula e já stalkeou o Nico? — Jason brincou e todos da mesa riram. Nico me olhou confuso e eu corei de nervoso.
— Will é o stalker de Nico agora? — Leo perguntou divertido.
— N-Não sou stalker de ninguém — respondi nervoso — É que apenas descobri por coincidência que Nico é meu vizinho.
Depois de tentar explicar para o pessoal que eu não stalkeava ninguém, eles deixaram esse assunto de lado e lembrei-me de perguntar a Jason sobre os locais onde posso arranjar um trabalho. Chamei-o para ir comigo até a sala e assim que entramos na sala eu perguntei se ele conhecia algum lugar que precisa-se de um ajudante. Ele pensou um pouco e depois sorriu divertido.
— Já falou com Nico? — perguntou.
— Já, mas ele disse que você saberia me ajudar melhor — respondi ainda meio ressentido com o moreno.
— Entendo... — falou pensativo — O pai dele tem uma funerária e lá eles estão precisando de um ajudante que não precisa ter experiência.
— Funerária? — perguntei — Não tem outro local que você conheça que precise de um ajudante? Pode ser faxineiro...
Funerárias se resumiam a lugares tristes, com cores depressivas e aura pesada. Totalmente o contrário dos lugares que eu gostaria de trabalhar. Olhei para Jason que negou e depois saiu da sala. Tantos lugares em que eu poderia arranjar um trabalho, mas tinha que numa funerária o único lugar com vagas? Suspirei pesadamente e voltei para a mesa do refeitório.
~*~
— Não há vagas disponíveis nesta época do ano, todas já foram preenchidas — disse o gerente da oitava loja que eu entrava e era sempre o mesmo discurso entediante de sempre.
Depois da escola decidi sair me busca de qualquer loja, passei em lojas de calçados, de roupas femininas, masculinas e infantis, nas lanchonetes e nada de ter vagas para trabalhos. Tentei até no Pet Shop próximo para ver se eles necessitavam de um ajudante para lavar os cães, e até eles negaram um trabalho para o pobre loiro desesperado por emprego.
Cheguei em casa arrastando meu corpo para dentro e fechei a porta na maior lerdeza possível. Martha, a governanta idosa e simpática, veio até mim super preocupada e tirou a mochila das minhas costas. Arrastei-me até o sofá mais próximo e me joguei no mesmo. Percebi pelas suas feições que ela queria uma explicação para meu desanimo quase palpável.
— Será que eu posso trabalhar no hospital com meu pai? — perguntei ajeitando-me melhor no sofá.
— Acho que não, para trabalhar lá você teria que ter alguns diplomas ou deve estar cursando medicina — comentou.
— Mas meu pai disse que me faria trabalhar com ele se eu não arranjasse trabalho... — murmurei.
— Seu pai às vezes fala demais — Martha riu e foi embora da sala.
Fechei os olhos e suspirei cansado. Eu aceitaria até trabalhar de faxineiro, mas numa funerária onde é tudo tão preto, cinza, fúnebre e morto é demais para mim! Tudo menos isso! Olhei para o relógio e constatei que já eram quatro e meia da tarde. Subi lentamente até meu quarto, tomei um banho rápido e vesti a primeira roupa que vi na minha frente. Peguei minha mochila e avisei Martha que iria à casa de uma colega de classe.
Andei poucos metros do meu portão para o portão da casa de Nico e toquei a campainha. Uma empregada baixinha, com cabelos negros com alguns fios brancos presos num coque alto, olhos marrons que passavam uma tranquilidade e um sorriso contagiante.
— Vim fazer um trabalho com Nico — disse sorrindo amigavelmente para a senhora.
— O senhor di Ângelo fazendo trabalho com alguém? — perguntou surpresa.
Depois da pequena surpresa da senhora, ela me deixou entrar e disse que o quarto de Nico era a terceira porta no segundo andar. Subi lentamente as escadas, e reparei que na parede estavam dispostas algumas fotos da família di Ângelo.
Na primeira estavam um homem alto, de pele clara, cabelos e olhos negros, parecia a versão de Nico mais velho, e uma mulher de longos cabelos escuros que estavam presos para trás e seus olhos marrons escuro brilhavam, abraçados e sorrindo junto.
Na segunda estavam duas crianças a menina era idêntica a mulher da primeira foto, o mesmo sorriso, cabelos longos e escuros, era a cópia exata da mãe. Já o menino era parecido com o pai, me assustei ao reconhecer Nico naquela foto, ele parecia feliz, sorrindo abertamente, com os olhos brilhando e abraçado a menina que parecia ser mais velha.
A terceira era a família toda reunida, Hades, Nico, a mãe e a irmã, sendo os irmãos ainda bem pequeninos. Uma família realmente bonita, Nico sorria alegre em todas as fotos, me perguntei o que aconteceu a ele para este sorriso tão bonito ter sumido. Talvez um dia eu vá saber.
— Gostou do que viu? — escutei uma voz no topo da escada e me virei rápido para ver quem era.
Nico vestia uma bermuda tactel preta com detalhes vermelhos, uma blusa preta folgada e estava descalço. Seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo mal feito e estava apoiado no corrimão da escada. Digamos que a visão estava muito linda, mas lembrei-me que ele não havia prestado atenção na aula e isso me desanimou.
— Vamos fazer logo esse trabalho — comentei desanimado. Nico ergueu uma sobrancelha, provavelmente não entendendo desanimo repentino e me guiou até seu quarto.
Não me surpreendi quando entrei um seu quarto e vi que era com uma decoração preta, lençol de cama preta, móveis pretos e o que salvava aquele quarto monocromático eram as paredes brancas. Algumas fotos estavam dispostas na cômoda e vi que era dele com Percy e Annie, outra era dele com Jason, ele com uma menina que eu não conhecia, mas se não me engano era da nossa turma, dele com a irmã e uma dele abraçado a Hazel. Em todas elas, ele sorria alegremente.
Resisti à tentação de perguntar onde estaria à irmã dele e me assustei quando o vi bem próximo de mim quando me virei. Ele me olhava atentamente com os olhos negros estreitos, analisava cada centímetro do meu rosto e eu me senti corar de nervosismo.
— Que tal fazermos o trabalho? Pare de olhar minhas fotos — falou voltando a se sentar na cama. Soltei o ar que não percebi prendem e andei até ele que me esperava com o livro de gramática em mãos.
Vai ser difícil me tornar amigo de Nico. Difícil, mas não impossível.
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