Preto é a Cor do Amor
5 Meu primeiro emprego
Notas iniciais
– Will
Um mês havia se passado desde que cheguei à Nova Iorque, um mês tentando reconstruir uma relação de pai e filho com Apolo, um mês rindo com meus novos amigos e um mês procurando emprego. Jason às vezes me mantém informado da funerária do pai de Nico, Hades, que ainda não conseguiu nenhum ajudante. Deve ser porque ninguém quer trabalhar numa funerária...
Eu já havia procurado em todas as lanchonetes do bairro e em as lojas de roupa, pensei até em ser babá. Mas desisti no mesmo instante. Já estava cansado, esgotado e derrotado. Tudo conspirava contra mim, tudo girava para eu trabalhar na funerária. Conversei com meu pai e ele realmente percebeu que eu não poderia trabalhar no hospital com ele sem um diploma. Disse ainda que não “seria ruim trabalhar na empresa de Hades, já que ele é um ótimo empresário e sua funerária é famosa.”, palavras dele.
Resolvi seguir o conselho de meu pai e no dia seguinte, sexta-feira, eu iria para lá ver se ainda estavam com a vaga de emprego. Devo dizer que durante esse mês minha relação com Nico havia melhorado já nos falávamos normalmente, às vezes ele ria de algumas piadas que eu fazia e sempre fazíamos trabalhos juntos. Sendo esse ultimo escolha do professor, não nossa. E durante esse tempo Nico só usava roupas pretas, algumas ficavam muito bem no corpo magro e esguio dele, mas havia dias que eu me pegava pensando nele e o motivo de sempre usar preto. Também não vi a irmã e mãe dele, pensei até que os pais poderiam ser separados e a filha foi viver com a mãe. Mas se fossem separados Hades não teria foto da família inteira na sua casa, ou talvez gostasse tanto daquelas fotos que não quis descartá-las.
Já era noite e me peguei pensando em Nico, ultimamente a curiosidade sobre ele vem me fazendo pensar até demais nele, e levantei da cama para ir a janela olhá-lo. Sim eu olhava Nico por curiosidade, apenas isso. Observei que ele estava sentado rabiscando num papel em sua escrivaninha negra apenas com uma bermuda preta, sua blusa estava jogada na cama e seus pés estavam descalços. Balançava levemente a cabeça e seus lábios se moviam de acordo com a música que tocava no celular, deveria ser rock. Seus cabelos estavam com um grampo prendendo-os de um jeito despojado, combinando totalmente com o look, algumas vezes ele parava de rabiscar, olhava para a parede, mexia o lápis no ar e voltava a tocá-lo no papel. Percebi que ele estava fazendo o dever de cálculo da aula passada.
Ri com a cena e sentei no batente da janela, era grande então dava para sentar sem cair, ajeitei-me melhor na janela e dobrei meus joelhos para que eu pudesse quase abraçá-los. Observei o céu sem estrelas, apenas uma nuvem negra que predominava na escuridão aérea. Às vezes, um ou outro avião passava a quilômetros de distância e eu olhava-os pensando para onde poderiam estar indo, alguns pássaros perdidos passavam por entre minha casa e de Nico e o uivo de cachorros de rua era ouvi ao longe. Suspirei e fechei os olhos e encostei minha testa nos meus joelhos, eu deveria estar quase que encolhido.
– O que foi? –escutei uma voz vinda da janela de frente a minha e levei um susto, quase me desequilibrando da janela.
– Nico! – repreendi-o – Quer me matar de susto? – perguntei olhando para a figura sem blusa, com a pele pálida e lisa, apoiada na janela do quarto.
Ele me olhou com seus olhos negros, analisando-me e depois deu um risinho abafado.
– Te matar literalmente não era a intenção – confessou e eu ri – Mas porque está ai na janela? Estava me espionando? – brincou e eu tentei disfarçar o fato de ter corado.
– Claro que não! Tenho coisa melhor pra fazer do que ficar olhando você pela janela... – menti, na verdade eu não tinha nada para fazer, não consegui arranjar emprego, as tarefas de escola eram fáceis para mim e já não tinha meus amigos para sair, me restava olhar para meu vizinho de janela e ver o que ele fazia. Isso não era espionar!
– Hum, vou fingir que acredito – respondeu já saindo da janela – Boa noite Will – disse fechando a janela e apagando a luz.
– Boa noite Nico – respondi baixinho, já que ele não iria escutar mesmo.
Voltei a deitar na cama e fechei os olhos. A última coisa que me lembro foi sonhar que estava deitado na areia branca e fofa das praias de Malibu e escutar alguém me chamar ao meu lado, quando me virei para ver quem era, o rosto da pessoa estava borrado. Não consegui ver quem era, mas nossas mãos estavam entrelaçadas e eu sentia que amava aquela pessoa até a última célula do meu ser. Depois o sonho mudou.
–*-
Para quem não sabia que aquilo era uma funerária, pensaria apenas que era uma casa enorme, quase uma mansão. A frente da funerária era cinza médio e havia pequenas mudas de plantas num pequeno gramado em torno do caminho até o portão da frente. Dentro as paredes eram cinza clara, com alguns quadros de pinturas modernas, ar-condicionado deixando o ambiente com uma temperatura agradável, uma mesinha no canto com chás, cafés, bolachas e revistas e uma televisão na parede para entreter as pessoas sentadas nas cadeiras. Uma sala de espera até confortável.
Perguntei a recepcionista sobre a vaga de emprego e com quem eu poderia falar e ela me pediu para esperar que logo o gerente do local iria me atender. Olhei para o corredor que se dividia em três e a escada enorme que havia no final dele. O local deveria ser enorme, e as paredes eram toda cinza clara. Na parede que tava para o corredor havia uma enorme placa, e em cima uma foto da funerária, na placa contava a história dela e o lema dele estava no final, numa letra maior que as outras e em negrito.
“Com dignidade e respeito honramos nossos entes queridos no momento do último adeus.” *
Achei muito bonito o tema, mas qualquer pensamento nobre sobre aquilo se foi quando eu reparei no nome da funerária. Aquilo não tinha nada de nobre, parecia até uma piada de humor negro. Mas tive que me segurar para não cair na gargalhada ali mesmo na sala de espera.
Funerária Você é o Próximo.
Esse era o nome. Tão irônico, mas ao mesmo tempo verdadeiro. Nunca se sabe o dia de amanhã, então realmente você pode ser o próximo. Respirei fundo para tentar não rir e a secretária me chamou.
– Senhor, siga reto este corredor, suba a escada é a segunda porta a direita – falou me apontando o caminho.
O corredor era bem iluminado, as bifurcações do corredor davam até locais espaçosos pelo que pude perceber sem entrar, subi as escadas segurando no corrimão branco, pelo menos algo branco aqui, subi e já no segundo andar vi cinco portas, todas não tão afastadas e de madeira maciça. Andei até a segunda porta a direita e bati levemente.
– Entre! – escutei uma voz abafada falar.
Abri a porta e vi que a sala era média, com as paredes beges, uma mesa perto de uma janela grande, duas cadeiras de frente a poltrona do gerente, mesa de centro, estantes com livros e fotografias e uma portinha que provavelmente deveria ser o lavabo.
– Boa tarde – falei me sentando na cadeira de frente ao homem, de no máximo trinta anos, sem barbas e olhos e cabelo castanhos claro.
– Boa tarde, me diga... William – disse meu nome lendo o currículo que eu havia entregado para a recepcionista, nem percebi quando ela saiu para deixá-lo aqui – Porque quer trabalhar aqui?
Pensei muito bem antes de responder, afinal eu não queria trabalhar aqui, nunca quis. Mas eu precisava do emprego, então forcei um sorriso e endireitei minha postura. Will ator na ativa.
–Eu apenas quero trabalhar num local onde eu saiba que as pessoas ficarão felizes por saber seus entes queridos são tratados com respeito após a morte – respondi sorrindo levemente.
– E porque aqui? – perguntou lendo meu currículo. Que se encontrava um pouco vazio, apenas com alguns trabalhos voluntários, premiações de projetos escolares que foram para competições estaduais em Malibu e só isso.
– Eu sou novo na cidade e tive escutei ótimos elogios sobre essa funerária – respondi lembrando-me de Jason que sempre falou que o negócio do pai de Nico era famoso e própero – E também soube da vaga de emprego...
– Realmente, já faz algum tempo que estamos esperando alguém, mas parece que ninguém quer vir trabalhar numa funerária... Temos sorte de ter funcionários o suficiente para abrirmos as portas, até o filho do dono trabalha aqui – confessou.
Engoli em seco. Nico trabalhava aqui? Tudo bem que esse é o negócio do pai dele, mas não pensei que ele pudesse trabalhar aqui. Disfarcei minha surpresa e sorri para o gerente, ele fechou a pasta com meu currículo e discou um numero no telefone que estava na mesa.
– Venha até minha sala, acabei de achar seu ajudante – disse n telefone e depois desligou – Pode começar a trabalhar amanhã à tarde, seu turno começa às quatro horas da tarde e termina às dezenove horas da noite.
Ele me entregou o contrato que dizia minha carga horária de trabalho, que eu deveria estar restritamente uniformizado e que deveria respeitar as normas da funerária e assim que acabei de ler assinei o papel. Agora já era contratado.
Escutei baterem na porta e o gerente mandou entrar. Prendi a respiração quando vi que a pessoa a quem eu ia ser “estagiário” era Nico. Ele estava vestido com o uniforme da funerária, calça preta, blusa cinza com o nome escrito em letras pequenas do lado direito do peito e all star, pelo menos o sapato podíamos escolher.
– Nico, eu acabei de contratar a pessoa que irá te ajudar – disse sorrindo e eu acenei para ele.
Devo dizer que ele se surpreendeu ao me ver sentado com o contrato assinado a minha frente, quando acenei para ele, balançou levemente a cabeça e suspirou.
– Obrigado Brian – disse ele e então descobri que o nome do gerente era Brian –Will venha comigo, vou te mostrar todo o local para você já começar amanhã.
Levantei da cadeira, agradeci ao gerente -Brian- e segui Nico até a porta. No segundo andar ele me mostrou que a última porta era a do presidente, Hades, e empresário, também Hades, as outras duas portas Nico disse que eram as salas dos caixões. Com vários estilos, cores, tamanhos, detalhes diferentes.
Quando abriu uma delas para me mostrar vi que eram realmente bem diversificados, tinham caixões rosa, brancos, pretos, azuis, marrom, de todas as cores e tamanhos. Alguns eram enormes, outros eram de crianças e outros eram de tamanhos medianos. Nico disse que também havia os caixões por encomenda, onde a pessoa dizia exatamente o que queria, quais os detalhes queria, qual a cor deveria ser e então a funerária mandava fazer. Claro que esses eram um pouco mais caros.
– Quem foi que deu o nome da funerária? – perguntei realmente curioso. Nico parou no meio das escadas e me olhou, analisando o fundo da minha alma com aqueles seus olhos negros e misteriosos. Nunca consigo desvendar os mistérios por trás dos olhos de Nico.
– Eu – respondeu estreitando os olhos – Algum problema com ele? – perguntou agora cruzando os braços. Fiquei surpreso e sorri divertido.
– Não, achei apenas engraçado – comentei – Um humor negro engraçado.
Continuamos nossa pequena ‘excursão’ na funerária e Nico me mostrou que na bifurcação da direita do corredor principal dava para a pequena capela onde eram rezadas as missas para os finados. Na bifurcação da esquerda havia três portas no grande salão, onde era levado o caixão depois da missa, ali os familiares fariam as despedidas finais. Na primeira porta dava para uma parte gramada, onde o carro fúnebre esperava o caixão, depois de seus convidados se dirigirem até o cemitério o caixão era o último a sair, e assim levado até o grande cemitério da cidade. Já na segunda porta havia outro salão, bem menor que o primeiro, lá era onde ocorria a cremação do corpo, se assim os familiares decidissem. Tudo muito bem organizados, limpo e cinza. Quando eu achei que fosse o fim da excursão Nico disse que iria me mostrar onde trabalharíamos.
Ele me levou até a capelinha e abriu a porta branca e discreta que havia no canto da parede de frente ao altar onde o caixão era disposto. Assim que entramos pela porta um longo corredor amplo se entendia, Nico seguiu na minha frente e eu analisava tudo. As paredes já não eram de um tom cinza, mas sim, bege, no final do corredor haviam uma enorme porta de madeira polida e quando Nico abriu-a eu vi que a sala era enorme, quase do tamanho do salão onde o caixão ficava para os familiares se despedirem.
No cento da sala havia uma mesa enorme de tamanho médio, um caixão posto nele e nenhum corpo dentro. Nas paredes estavam vários armários, com trancas para chaves e prateleiras com francos e potes de vidros contendo um líquido meio marrom alaranjado. No canto havia uma mesa média, com alguns papéis e livros espalhados e uma poltrona. Poucas fotos estavam em cima da pequena estante ao lado da mesa e nelas eu vi Nico e Jason, Nico e a irmã e Nico com a família.
– Aqui é onde trabalho – comentou indo até a mesa e ajeitando a papelada – E você foi contratado para me ajudar.
– Serei seu estagiário? – perguntei olhando as coisas em volta da sala.
– Não vejo como estagiário... Apenas me ajudará a preparar os finados para todo o processo fúnebre – disse agora me olhando – Meu pai fez um contrato com o hospital do seu pai, então quem tem convênio com o hospital recebe desconto aqui na funerária. Os parentes que falecem, assim que a família autoriza, são enviados para cá, eu preparo-os e depois ocorrem todos os ritos fúnebres.
– E o que você faz? – perguntei olhando-o e estreitando meus olhos.
– Como o próprio hospital já limpa os corpos com formol quando nos enviam, eu apenas os visto adequadamente, com as roupas que os parentes nos dão, ajeito o caixão decorando-o com as flores e tudo o mais e depois peço ao Joey levar o caixão para a capela – respondeu terminando de ajeitar a mesa – Mas tem vezes que os familiares demoram a liberar o corpo do hospital, então tenho que eu mesmo passar bastante formol para o corpo não começa a feder na cerimônia, apenas precaução.
– Hum... – comentei olhando o nada.
Nunca disse a ninguém, mas eu espero fazer faculdade de medicina, então ficar um tempo mexendo no defunto não me fará mal. Até poderá me fazer acostumar com isso e assim já fico preparado quando for fazer a faculdade. Sorri animado para começar meu emprego e Nico elevou uma sobrancelha, desconfiado.
– Estou ansioso para trabalhar – disse confiante.
E eu realmente estava ansioso, ainda mais por saber que eu ia trabalhar e passar quatro horas direto com Nico di Ângelo. O garoto de perto que me intriga até nos sonhos.
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