Preto é a Cor do Amor
24 Um jantar nada comum
Notas iniciais
— Will
Eu estava deitado na cama de Matt, esperando o mesmo terminar de tomar banho para conversar. Já eram quase seis horas da tarde, mas a cena de Nico com ciúmes não saia de minha cabeça, como um replay infinito. O moreno havia deixado a janela do quarto aberto, mas não estava no cômodo.
— Será mesmo que fazer ciúmes nele vai dar certo? – pensei alto.
— Se vai dar eu não sei, mas hoje de manhã ele pareceu bem abalado quando te chamei de amor— Matt falou entrando no quarto com a toalha enrolada em sua cabeça. Estava já vestido.
— Hum... – falei olhando o teto.
Senti a cama afundar ao meu lado e Matt se acomodou ao meu lado. Mexia no celular e mantinha um sorriso bobo no rosto, me virei para encarar meu amigo e o baixinho soltou uma risada.
— O que tanto conversa ai? – perguntei por fim.
— Estou conversando com Carol – falou bloqueando o celular e se virando para me olhar de volta – Lembra que eu tinha dito que estava namorando?
Puxei mentalmente todo o histórico de conversas com Matt.
— Ah... Verdade, você tinha me falado de uma menina que estava namorando... – comentei ainda tentando lembrar os detalhes da conversa – Carol! Desde pequeno chamando a atenção dela – ri ao lembrar disso.
— Então, não consegui me despedir dela quando vim pra cá... E agora ela está quase entrando no telefone pra me socar – riu sem graça.
— Não avisou pra ela que você vinha?! E agora Matt? Você é retardado cara?! – me exaltei com ele – A menina não sabia de nada do que aconteceu e de um dia pro outro descobre que o namorado simplesmente foi embora. Ela tem razão de estar brava...
— Você fala como se tivesse me dado tempo pra avisar! – Matt se emburrou – Já não basta a Carol me xingando, vou ter que aturar você também?!
— Faça alguma coisa a respeito disso! – ditei.
— Já estou fazendo! Ela está me matando de tanto rir com o exagero dos fatos...
Revirei os olhos e me levantei da cama. Minha blusa estava um pouco amarrotada e meus cabelos bagunçados, resultado de estar deitando na cama. Andei até a janela e vi que Nico estava em seu quarto, parecia falar com alguém, mas a pessoa estava fora de vista para mim. Sorri animado e me despedi de Matt meio apressado.
Corri até a casa de Nico e bati de leve na porta.
— Menino Will! – Isa sorriu para mim assim que abriu a porta.
— Isa! – falei abraçando a mulher.
— Entre, o senhor Nico está no quarto com a irmã – falou sorrindo.
Arqueei as sobrancelhas e segui o caminho para o quarto do moreno. Quando entrei no cômodo do rapaz, encontrei Hazel sentada na cama mexendo no celular e o barulho do chuveiro sendo ligado.
— Hazel? – perguntei confuso.
A menina me olhou, bloqueando a tela do celular, sorriu e veio até mim, me abraçando levemente.
— Oi Will.
— O que faz aqui? – perguntei ainda sem entender. Hazel olhou para o banheiro e logo depois me puxou para a sala de estar, no primeiro andar da casa.
— Nico está bem nervoso com você – riu de leve e depois respirou fundo – Eu sou a irmã adotiva dele.
— Ahn? – olhei a menina sem entender e ela apenas revirou os olhos.
— Quando eu tinha quinze anos, Hades me adotou... Mas poucos meses depois, Maria morreu – falou olhando para as próprias mãos que estavam em seu colo – Nico ficou bem abalado com isso e se apoiou em Bianca, eu era bem próxima dela também... Mas ela também morreu...
— Não precisa me contar Hazel... – falei tentando mudar de assunto. Vi que aquilo era difícil para ela, e a última coisa que eu queria, era fazer Hazel chorar.
— Tudo bem Will – falou baixinho – Bem, depois da morte de Bianca, Nico e eu ficamos muito próximos, afinal nós precisávamos um do outro pra se apoiar...
— Mas porque você não mora aqui? – perguntei realmente confuso.
— Eu não quis ficar aqui, pensei que tudo de ruim tinha acontecido por minha culpa, apenas alguns pensamentos bobos... Conversei com Hades e depois de muito insistir, consegui minha independência. Trabalho lá na funerária pra pagar o pequeno apartamento que moro, mas meu pai continua pagando a mensalidade da escola...
— Nossa... – foi apenas o que consegui falar. Hazel tinha essa aparência de menina frágil, mas já era muito mais independente que qualquer um de nossa sala.
— Veio conversar com Nico? – perguntou interessada, mudando rapidamente o assunto da conversa.
Sorri nervoso e desviei meus olhos da menina negra a minha frente. Hazel riu divertida e levantou-se do sofá, andou até parar ao meu lado e colocou a mão em meu ombro.
— Vocês ficam bem juntos – decretou apertando de leve sua mão em meu ombro – Avise meu irmão que tive que sair por conta de um imprevisto.
Vi a menina andar calmamente até sumir de minha vista. Subi as escadas apressadamente e sentei na cama de Nico, no mesmo local que Hazel estava antes. Escutei a porta se destrancar e vi Nico sair de lá com uma toalha branca enrolada na cintura e outra sobre sua cabeça.
— Sabe Hazel, eu estava pensando em... – começou a falar, mas parou assim que me viu sentando no lugar da irmã – O que faz aqui?
— Hazel teve que sair pra resolver uns assuntos ai – falei dando de ombros e analisando cada mínimo detalhe do rapaz.
A barriga de Nico era bem magra, sua pele continuava pálida pela falta de sol, e pude ver que ele tinha algumas pintinhas na barriga. Quando Nico tirou a toalha dos cabelos, algumas poucas gotas caíram pelo peitoral, desceram retas até sumirem na toalha amarrada na cintura. Foquei meus olhos na toalha e rezei mentalmente para ela cair sem querer.
— O que você faz aqui? – escutei Nico perguntar de novo e então percebi que secava descaradamente o corpo do moreno.
— Ai Niquito... Passo cinco dias longe de você e quando venho te fazer uma visita é assim que sou tratado? – falei debochado e prendendo o riso. Vi o moreno estreitar os olhos e cruzar os braços, esquecendo-se momentaneamente que estava apenas de toalha.
— Devia estar dando atenção para seu namorado, e não estar aqui me infernizando – falou me acusando. Sorri ladino para aquilo e me levantei da cama, andando a passos lentos até ele.
— Ciúmes, Nico? – perguntei olhando-o nos olhos.
— Não tenho ciúmes de ninguém, Solace. Apenas falei o óbvio – se virou de costas para mim e abriu o armário, a procura de uma roupa.
— Mas não foi isso que pareceu hoje mais cedo – falei rente ao seu ouvido e vi quando ele apertou a porta do armário e os pelos da nuca se eriçaram.
Nico balançou a cabeça de leve e me ignorou. Vestiu rapidamente uma roupa qualquer e se virou para mim.
— O que você quer Solace? – perguntou me encarando.
Sorri para ele e me afastei antes que eu fizesse algo que me arrependeria depois.
— Apenas passar um tempo com meu amigo. Ou não posso mais? – perguntei com uma sobrancelha erguida e Nico praguejou algo em italiano, mas não negou nada.
Sorri para ele, e voltei a me acomodar em sua cama. O cheiro do moreno invadiu minhas narinas e eu relaxei com isso, era tão bom...
— Porque cortou o cabelo? – não resisti em perguntar.
— Porque quis – respondeu sem me olhar.
— É sério, Nico... Eu gostava dele grande – comentei e vi o rapaz tocar os próprios cabelos negros.
— Ele estava grande demais... Estava começando a me lembrar os cabelos de Bianca – falou agora pegando em seu colar com a foto das duas mulheres.
Eu apenas escutei atentamente Nico falar e permaneci calado quando o moreno me fitou. Seus olhos escuros pareciam analisar minha alma e descobrir meus segredos mais profundos.
— Não te entendo – decretou após me analisar.
— Como assim? – perguntei rindo, meio confuso.
Nico andou a parede oposta a cama e cruzou os braços, me encarando. Me sentei e observei o moreno continuar a me analisar.
— Não consigo entender o motivo de tudo isso... Sua insistência em se aproximar de mim – comentou.
Eu me limitei em apenas rir e me levantei da cama, a fim de me aproximar dele. Nico continuou onde estava e crispou os lábios quando sentiu minhas mãos envolverem sua cintura. Puxei o corpo magro de Nico até que ele estivesse a poucos centímetros de mim e apertei levemente a cintura magra do garoto, rocei meu nariz em sua bochecha, fazendo um percurso imaginário até sua orelha e então mordi levemente aquele local.
— Porque eu gostei de você – falei sussurrado e deixei um beijo em seu ouvido.
Vi Nico arfar surpreso e então eu encostei nossos lábios de leve. Aprofundei o toque e senti o moreno tentar se soltar, num esforço totalmente inútil. Suas mãos que estavam em meu peitoral tentado me empurrar, começaram a explorar meu corpo e se embrenharam em meus cabelos loiros, me puxando para mais perto de si. Minha língua explorava a boca úmida dele e eu conseguia sentir o gosto da pasta de dente dele. Suas mãos começaram a arranhar levemente minha nuca e eu arfei durante nossa troca de salivas.
— Nico... – escutei o barulho da porta ser aberta bruscamente e uma voz grossa ecoar pelo quarto, mas que foi calada quando viu a cena dentro do quarto.
Nico me empurrou abruptamente de perto se si e corou fortemente ao olhar o homem parado na porta, nos olhando seriamente.
— O que significa isso? – escutei a voz firme do homem mais velho e um arrepio subiu minha espinha.
— Pai... Er... Nós... Ele... – vi Nico tentando se explicar para o pai. O moreno, agora, estava mais pálido que o normal e respirava irregularmente.
Hades continuou parado na porta do quarto, analisando a cena em sua frente, até que seus olhos pararam em mim. Os olhos do mais velho me avaliavam minuciosamente, procurando o mínimo dos defeitos, a escuridão das íris dele me fazia prender a respiração e perder toda a cor do corpo. O ar parecia ter ficado mais denso e tenso. Nico olhava para o chão, claramente envergonhado com a situação, Hades parecia querer me matar com apenas um olhar e eu... Eu apenas sorria nervoso e tentava a qualquer custo não sair correndo daquela casa.
— Hoje teremos um jantar interessante— sorriu. Ato que me fez encolher de medo e receio, e logo em seguida olhou para Nico – Filho, eu queria apenas avisar que teremos visita para o jantar de hoje.
Quando Hades saiu do quarto a atmosfera relaxou. Nico suspirou profundamente e se sentou em sua cama. A cor voltava gradativamente em seu rosto e os olhos demonstrando a falta de entendimento do que tinha acabado de acontecer. Eu me mexi desconfortável e arrumei minha roupa amarrotada.
— Seu pai sabia que você... Sabe... É gay? – perguntei temeroso.
Pela cara de desespero que Nico tentava contar a resposta era óbvia. Não. Hades não sabia. Suspirei pesadamente e me sentei ao seu lado na cama, minhas mãos começaram a fazer leves carícias em suas costas a fim de relaxá-lo um pouco.
— Olha, conta comigo ta? Foi minha culpa teu pai nos pegar naquela situação e tudo o mais... – comentei encorajando-o.
Nico apenas se desvencilhou de meu toque e deitou de costas para mim. Entendi que o moreno não queria conversar e com um suspiro resignado, me levantei da cama.
— Até amanhã na escola... – falei saindo do cômodo.
Meus passos até minha casa foram rápidos e, felizmente, eu não me esbarrei em Hades quando ia embora.
~*~
Quando eu digo que a sorte nunca está do meu lado, eu não minto. Quando eu voltei para casa, encontrei meu pai na sala conversando no telefone, Deméter e Perséfone conversavam animadamente com Martha na cozinha e Matt dormia.
Até ai tudo bem... O fato foi que meu pai conversava com Hades no telefone. Com Hades!
Aquele filho de uma jumenta leprosa simplesmente ligou para meu pai e nos convidou para jantar na casa dele!
Quando meu pai nos comunicou sobre o jantar, a cor do meu rosto sumiu. Eu só conseguia pensar na humilhação que Hades faria eu e Nico passarmos por ele ter nos flagrado aos beijos (porque o pai de Nico tem uma cara de quem não suporta homossexuais). O desespero se instalou de meu ser e eu não podia nem negar o convite... Apolo já tinha confirmado que todos iriam. Tive que acordar Matt para ir também, já que eu não queria encarar aquilo sozinho. Mas quando eu contei resumidamente o que estava acontecendo, meu querido amigo chorou de tanto rir da minha cara. Riu tanto que chegou a ser curvar e colocar os braços na barriga, reclamando de dor.
E agora aqui estou eu, sentado na grande mesa de jantar da casa de Hades. Nico está sentado ao meu lado direito e Matt ao meu lado esquerdo. Hades está na ponta da mesa e Apolo está à esquerda do anfitrião da casa, Deméter juntamente com Perséfone se sentaram ao lado do loiro mais velho.
— Então Hades, ainda estou tentando entender o motivo desse repentino convite – meu pai falou iniciando uma conversa.
Tanto eu quanto Nico estávamos visivelmente nervosos. O moreno olhava atentamente a prataria posta na mesa e eu mexia nervosamente minhas mãos sobre meu colo. Meu amigo conversava naturalmente com Deméter e Perséfone como se o assunto tratado não fosse da conta deles. O que de fato era verdade.
— Hoje eu descobri uma coisa interessante por isso pedi para que viessem aqui – falou calmo. Estranhamente calmo.
Eu engoli em seco e supliquei a qualquer entidade que acabasse com aquilo logo. Hades parecia gostar de me ver apavorado com tudo aquilo, seu repuxar de lábios, numa tentativa falha de sorriso, deixava todos os pelos de meu corpo, eriçados.
— E seria sobre o que essa sua descoberta? – Apolo perguntou se inclinando sobre a mesa –Tem haver com o contrato?
— Não vamos falar de negócios hoje Apolo! – vi Nico apertar sua calça jeans por debaixo da mesa e num ato de reflexo movi minha mão para segurar a dele. Nico me olhou de canto de olho e relaxou minimamente quando entrelacei nossos dedos.
— Calma, vai dar tudo certo— sussurrei para ele, numa tentativa de acalmá-lo.
— Hoje descobri que meu filho está namorando escondido o seu filho, Apolo – falou simplista e nessa hora eu arregalei os olhos.
Namorando?! Escondido?!
Nico apertou minha mão e eu percebi que ele também estava digerindo as palavras do próprio pai.
— Oh... – meu pai falou. Sua expressão era pensativa e depois de longos minutos ele suspirou e olhou sorrindo para eu e Nico – Eu não tenho nada contra esse namoro, sei que Nico é um rapaz decente e que levará Will para o caminho mais responsável. Por mim, está tudo bem!
Será que eu posso morrer agora?! Pensei enquanto corava até a alma.
Escutei Matt abafar um riso e lancei a ele meu pior olhar de raiva contida. Voltei a olhar para Nico e o mesmo estava com as bochechas e orelhas super vermelhas, meu pai sorria abertamente para todos e Hades me analisava minuciosamente.
Deméter e Perséfone se mantinham caladas e evitavam se intrometer na conversa mais que constrangedora.
— Eu já suspeitava que Nico fosse gay – falou por fim. Vi Nico prender a respiração e apertar minha mão – Nico, saiba que eu não tenho nada contra isso... Se você acha que homens te farão mais felizes, eu aceito. Quero te ver feliz.
— Pai... – Nico sussurrou com a voz fraca.
— Mas isso não quer dizer que goste desse rapaz – Hades falou cortado filho sem nem perceber – Então me diga Willian, quais são suas intenções com meu filho?
Eu definitivamente quero morrer agora...! Pensei nervosamente.
— Eu... Ahn... Er... – minha mente trabalhava tentando formular uma resposta coerente para a pergunta de Hades, mas minha voz sumia toda hora que eu abria a boca – Eu gosto muito do seu filho, senhor.
Vi Nico me olhar de canto de olho e Hades estreitou os olhos de íris negras e assombrosas.
— E...? – me incentivou a falar. Lembrei-me das conversas que já tive com alguns rapazes em Malibu que já haviam sido apresentados paras as famílias das namoradas e repeti as palavras usadas por eles.
— E eu quero, se o senhor permitir, fazer Nico muito f-feliz... – gaguejei na ultima parte.
Meu pai soltou um leve riso divertido e Matt me olhava curioso com o que eu faria agora. Hades se inclinou em minha direção. Meu coração batia como louco no meu peito e eu tive receio de que todos pudessem escutar.
— Estarei de olho em você – falou – Mas, para a felicidade de Nico, eu permito o namoro.
Eu relaxei na cadeira e percebi que ainda segurava a mão de Nico e nossos dedos ainda estavam entrelaçados.
— Mas pai... Nós não estamos... – Nico tentou falar num fio de voz, mas novamente foi cortado. Hades pareceu nem notar que seu filho tentava falar alguma coisa.
— Senhor, podemos servir o jantar? – perguntou Isa aparecendo na porta.
— Claro Isa! Hoje vamos comemorar o namoro de meu filho! – falou sorrindo.
Nico se afundou na cadeira, profundamente exasperado, e eu apenas sorri para aquilo. Hades visava apenas à felicidade do filho, e eu o admirava por isso.
Porém deduzir que eu e Nico estávamos namorando apenas porque nos flagrou aos beijos no quarto do moreno e armar toda essa situação desconfortável para nós dois, foi a última coisa que eu pensei que Hades poderia fazer... Parecia que era de família ser imprevisível.
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