Preto é a Cor do Amor
41 Photograph
Notas iniciais
— Will
Meu corpo inteiro parecia estar virando gelatina. Minhas pálpebras pesavam sob meus olhos e a única vontade que eu tinha era deitar na cama e dormir. Cada passo que eu dava em direção ao apartamento pareciam passos de lesma. O cheiro de hospital exalava de minhas roupas e eu só queria um banho quente e meu colchão. Nunca fiquei tão feliz quando parei na frente da porta do apartamento.
Assim que entrei, encontrei Nico no quarto, terminando de arrumar as malas.
— Que isso, hein — brincou — A residência está acabando contigo.
Revirei os olhos e caí pesadamente na cama. Lembro de ter murmurado um “boa noite” meio fora de hora para ele, mas não sei se o moreno ouviu algo. Nessa hora, nem o cheiro de doença impregnado em minhas roupas me incomodou. O colchão macio e o cheiro de Nico nos lençóis me transportaram imediatamente para o mundo dos sonhos.
—
Acordei no anoitecer com Nico acariciando meu rosto. Quando abri meus olhos, vi o moreno deitado ao meu lado, me olhando dormir. Tinha um sorriso calmo nos lábios finos e seus olhos brilhavam em admiração.
— Já acordou? — perguntou com a voz mansa.
— Não. Estou sonhando que meu noivo está fazendo carinho em mim enquanto sussurra que me ama — brinquei puxando Nico para meus braços.
— Devia estar bom então. Tenho que ir, você quer me levar? — eu podia ver em seus olhos que ele queria que eu o acompanhasse.
— Deixa só eu tomar um banho rápido. Se quiser pode me acompanhar... — brinquei beijando-lhe os lábios.
— Acabei de me arrumar, talvez na próxima — riu, se levantando da cama e saindo do quarto — Estou te esperando!
Nico iria para Nova Jersey participar de uma conferência sobre economia e apresentar um projeto que ele e mais alguns amigos do curso estavam estudando. Essa viagem já estava agendada deste o início do quinto semestre dele na faculdade. Eu sabia o quão animado ele estava, porque durante uma semana inteira ele ficou me mostrando a programação do evento e todos os nomes dos palestrantes, e toda vez que eu o esperava para irmos para casa, vinha ele com uns amigos da classe, sempre falando dessa viagem.
Eu estava feliz por ele. Eu via que ele tinha se encontrado neste curso. Sempre quando eu perguntava das aulas, ele tinha um brilho diferente nos olhos. A empolgação e sinceridade dele sempre me faziam perguntar sobre tudo o que ele andava fazendo por lá, mesmo eu não entendendo nada do que ele dizia. Eu amava o sorriso que ele exibia ao contar as coisas. Era bem contagiante isso.
— Não está esquecendo nada, né? — perguntei assim que apareci na sala e vi Nico assistir ao noticiário.
O moreno desligou a televisão e me encarou.
— Não, fiz um pequeno check list das coisas que tinha que levar e estão todas ai — falou.
Ao longo do percurso, o moreno mantinha a mão esquerda em cima de minha coxa, hábito que ele adquiriu já nem sei há quanto tempo. Sua cabeça balançava conforme o ritmo da música que tocava no rádio e seus lábios por vezes se mexiam para cantar alguns trechos.
— Ah! Lembrei! — exclamei assim que paramos num sinaleiro e Nico me olhou confuso — Quando você voltar, vou te mostrar a sua música.
Vi que por um momento Nico ficou confuso. Depois de quase três segundos ele deu indícios que iria esboçar alguma reação; começou com ele arqueando as sobrancelhas, depois seus olhos se arregalaram e um sorriso radiante emoldurou seus lábios.
— Mentira! Você já terminou? — perguntou afobado.
— Ainda não, mas está na metade — sorri.
— Não pensei que fosse escrever mesmo — confessou, sorrindo ainda meio bobo — Por isso que te amo.
Pelo canto de olho, vi Nico se inclinar para mim e beijar carinhosamente minha bochecha. Sorri com o gesto dele, afinal, não tinha como não sorrir. Ver o quanto Nico estava confiante em si mesmo, a ponto de fazer abertamente demonstrações de carinho em público, sempre me deixava orgulhoso.
Estacionei na 6ª rua, apenas uma quadra antes da faculdade. Quando saímos do carro e eu fui pegar a mala do moreno, vi que Nico brincava com um fio solto da calça. Ele estava ansioso. Puxei o rapaz num abraço apertado e beijei-lhe os lábios com gosto de pasta de dente de menta.
— Vai dar tudo certo lá — sussurrei quando o beijo parou. Nossos lábios ainda estavam muito próximos, então senti quando ele sorriu, balançando levemente a cabeça.
Seus braços envolveram meu pescoço e o abraço se intensificou, assim como o beijo. Seria, também, a primeira vez que nos separaríamos desde a época do colégio. Talvez por isso Nico estivesse nervoso... Não temos boas lembranças de nosso tempo separado. Nico me beijava já com gosto de saudade, ia com calma e carinho.
A luz do poste piscou e nos fez separar as bocas, devido ao susto.
— Acho que me viciei mais um pouco pelos seus beijos — sussurrei confidente. Nico rolou os olhos e fungou meu perfume, quase ao mesmo tempo em que eu fiz o mesmo.
— Dessa vez você não vai precisar me esperar pra ir pra casa depois das aulas — brincou, cutucando meu peito.
— Nico, eu sempre vou te esperar. Seja pra ir pra casa ou qualquer outra coisa — a seriedade em minha voz fez Nico me olhar surpreso e sorrir apaixonado.
— Tenho que ir agora. Quando chegar lá eu te ligo — falou assim que viu uma mensagem no celular — Te amo.
— Também te amo — falei dando um último beijo nele e vendo-o correr e se encontrar com Silena, uma amiga de classe dele.
Acenei quando Nico se virou para trás e acenou para mim. Vê-lo ir cada vez para longe de mim, mesmo que por uma semana, não foi uma sensação boa.
~*~
Na manhã seguinte eu recebi a ligação de Nico, me dizendo que a viagem havia sido bem tranquila e que estava bem ansioso para o início do evento naquela tarde. Foi uma ligação bem curta e rápida, já que eu tinha de ir para a faculdade e ele tinha que se encontrar com Silena e o resto do pessoal para terminarem os últimos detalhes do projeto.
— Terra chamando Will — vi dedos longos e finos estalarem em minha frente e olhei para a pessoa que fazia este gesto, totalmente confuso.
— Ahn?
O rapaz apenas rolou os olhos e suspirou inconformado. Tyler e eu somos amigos desde que entramos na faculdade. Ele é um ano mais velho que eu e já é pai de uma menina de três anos. Não me lembro de como ou quando nós dois começamos a conversar, mas ele e eu já formamos uma dupla bastante sincronizada.
— Você ‘tava viajando legal aí, hein... — comentou dando de ombros — Perguntei como estão as coisas lá no hospital.
— Por enquanto estão bem... Ontem foi bem corrido porque minha supervisora teve que faltar, então fiquei a mercê de vários casos...
— Eita, cara, mas deu tudo certo? Não matou ninguém não, né? — encarei o cara para ver se ele falava sério e quase soquei o rosto sardento dele quando vi a seriedade nos olhos castanhos.
— Vá à merda.
Tyler riu uma risada bem esganiçada e barulhenta e abanou a mão, num movimento de puro descaso.
— E você, como vão as coisas? — perguntei. Não era necessário eu ter de terminar a frase para Tyler entender o que eu queria dizer com aquela pergunta.
— Complicado. A mãe da Becca não me deixa ver a menina, até nos fins de semana aquela louca me proíbe de chegar perto... Vou entrar com o pedido de guarda mais uma vez. Ela não pode negar minha participação na vida da minha filha.
Sorri complacente para Tyler. O rapaz estava há quase um ano brigando na justiça com Alyssa, a mãe da menina, pela guarda permanente da filha. O juiz, infelizmente, dava preferência para a mãe e por isso a mulher proibia, longe dos olhos da justiça, o encontro entre pai e filha.
Triste realidade...
— E você já terminou aquela música pro teu noivo? — perguntou, mudando de assunto.
— Já — sorri — Na verdade, eu to bem ansioso pra mostrar pra ele...
— Relaxa, ele vai gostar sim — senti a mão dele bater amigavelmente em meu ombro.
Tyler era aquele tipo de pessoa que não se apega aos conceitos e pensamentos moldados pela sociedade em que vivemos. Ele respeitava todas as pessoas, sejam elas de cores, etnias, classe social, religião e gêneros diferentes. Um fato curioso até, porque Tyler adorava malhar. Na adolescência ele tomava esteróides, mas depois que aquilo começou a prejudicar sua saúde, ele parou, então o corpo dele era forte. Ele tinha os cabelos castanhos em corte militar e uma tatuagem tribal no bíceps. Logo quando eu soube que ele simpatizava com a luta contra homofobia e também apoiava o feminismo, eu não acreditei no início.
Era um pouquinho inacreditável ver que aquele rapaz com a maior cara de preconceituoso machista lutava em causas contrárias a sua imagem.
— Bem, vou indo então, cara — disse Tyler.
Despedi-me dele e resolvi ir embora também. Como a aula do Sr. Colleman era a última do dia, não havia problemas de eu ir para minha casa. Eram por volta de cinco horas da tarde, eu não precisava ir para o hospital e tinha o resto da noite livre para estudar e terminar os relatórios do estágio. Era uma segunda-feira maravilhosa.
Nico com certeza estaria ocupado na conferência, então resolvi não incomodá-lo ou distraí-lo durante a apresentação do projeto dele, já que eu não sabia que horas ele apresentaria. Talvez mais tarde eu ligasse para ele, perguntando como havia sido o primeiro dia.
O silêncio da casa quando cheguei da faculdade era muito bem-vindo naquele momento. Coloquei minha mochila do sofá e fui para o quarto. Bem, os relatórios e matérias para estudo podem esperar um pouco... A cama estava tão macia e com o cheirinho de Nico nelas que acabei dormindo.
~*~
— Amanhã, no começo da manhã, nós pegaremos a estrada e por volta das sete da noite já devemos estar chegando à faculdade — Nico me explicou.
— Amanhã tenho aula até às seis horas, depois tenho que falar com meu professor sobre um trabalho... — comentei.
— Ah, me espere pra voltar pra casa, então — escutei a risada dele e sorri. Nico, sempre que podia, me pedia para eu esperá-lo pra voltarmos juntos para casa. Sempre.
— Assim como eu te falei há cinco dias, eu sempre vou te esperar, Nico — do outro lado da linha, Nico se calou por breves segundos.
— Eu sei — sussurrou — E eu também vou. Sempre.
— Tenho uma surpresa pra quando você voltar! — exclamei. Eu estava bem ansioso para mostrar a Nico a música já pronta.
— É a música?! Ahh, Will, isso não vale! Quero escutá-la agora... — Nico resmungou.
— Vai ficar querendo. Amanhã quando chegar você vai escutar — eu sorria matreiro. Escutei Nico xingar baixinho e suspirar.
— Tudo bem... — sua voz derrotada me deu mais vontade de rir, mas eu tinha que manter o silêncio para não ser descoberto.
— Infelizmente eu tenho que desligar agora, tenho que continuar minha ronda aqui no hospital. Se me pegarem no almoxarifado conversando no celular, nem sei o que pode acontecer — brinquei.
— Não se esqueça de me esperar pra voltar pra casa... Amo-te.
— Não vou. Também te amo — desliguei o celular.
Olhei a tela do meu celular e sorri para a foto de descanso de tela. Era uma fotografia de Nico que tirei sem ele perceber. Nela, o moreno estava apenas com uma bermuda de “ficar em casa”, seus cabelos estavam bagunçados e sua feição era leve. Era um domingo e estávamos juntos na sala, assistindo a um filme.
Durante esses cinco dias em que Nico esteve fora, eu aproveitei para terminar a música que compus para ele e também para adiantar todos os trabalhos e outras coisas da faculdade, porque quando o moreno voltasse não haveria “fim do mundo” nenhum que me faria ficar longe dele.
Já eram quase dez horas da noite e meu turno acabaria às dez e meia. Nesse período de tempo, o hospital estava bem calmo e parado, o que era uma bênção para a ala onde eu estava: Pronto-Socorro. Despedi-me brevemente de minha supervisora e quase corri para o estacionamento.
Tudo o que eu precisava era de um bom banho e uma boa noite de sono para amanhã.
~*~
O dia seguinte amanheceu bem nublado. Nuvens acinzentadas cobriam grande parte do céu e o vento forte trazia a promessa de chuva ao longo do dia. Eu estava terminando de vestir a blusa quando a chamada foi atendida, estava no modo viva-voz.
— Bom dia! — falei pegando o aparelho celular, depois de terminar de me arrumar.
— Bom dia, Will — Nico tinha a voz rouca — Estava terminando de arrumar minhas coisas na mala.
— Que horas vocês vão sair daí? — perguntei, indo até a cozinha.
— Daqui a quarenta e cinco minutos. É só o tempo de todo mundo se arrumar e comer alguma coisa. Tá caindo uma chuvinha bem chata por aqui...
— Aqui está nublado. Provavelmente quando você chegar, vai estar chovendo — comentei.
— Vou levar a chuva comigo — escutei a risada leve de Nico e sorri.
— Eu gosto. Foi na chuva que te pedi pra morar comigo.
— Não tem como esquecer aquele dia... Até porque depois eu e você ficamos bem gripados.
— Pois é — ri enquanto relembrava aquele dia, que parecia ter ocorrido ontem, mas na verdade já se passavam mais de dois anos.
— Tenho que desligar agora, Will... Silena está me chamando pra comer alguma coisa antes da viagem — suspirou.
— Manda um beijo pra ela. Boa viagem, amor — falei sorrindo bobo — Te amo.
— Também de amo — pelo tom de voz, eu percebi que Nico também sorria. Desliguei o celular e olhei a hora, para ver se dava tempo de comer alguma coisa antes de sair.
Mesmo sendo sábado, eu tinha que ir para o hospital de manhã e depois, à tarde, para a faculdade. Enquanto comia um rápido café da manhã, vi no noticiário matinal que a chuva pegaria todo o estado de Nova York e alguns estados nos arredores também. Crispei os lábios em preocupação com Nico viajando embaixo de toda aquela chuva. Infelizmente não havia nada que eu pudesse fazer além de rezar para que tudo ocorresse bem.
O trânsito até o hospital estava sendo infernal. Com a chuva, alguns carros diminuíam consideravelmente a velocidade. E o fato de ter acontecido uma colisão na avenida mais movimentada, logo no início da manhã, havia mobilizado o trânsito, ocorrendo um engarrafamento. Pelo rádio, escutei sobre a batida e fiquei aliviado em saber que não houve vítimas fatais, apenas duas pessoas com escoriações leves.
—
Cinquenta minutos depois, quase vinte minutos a mais do que geralmente levo, parei o carro no estacionamento do hospital. A chuva ainda caía firme e forte; não parecia que iria parar tão cedo. Infelizmente, em dias chuvosos, os índices de atendimentos no hospital tendem a aumentar. E como era ainda de manhã e a chuva permaneceria ao decorrer do dia, a ala de pronto-socorro seria bastante movimentada.
— William, eu preciso que você atenda o paciente no leito sete — falou Tânia, minha supervisora.
— Tudo bem — assenti, pegando a prancheta de suas mãos.
O caso havia sido bem simples até. Um rapaz de quatorze anos resolveu que seria uma ideia genial andar de bicicleta no meio da chuva, mas num determinado momento a bicicleta derrapou e, como ele estava em alta velocidade, acabou torcendo o pulso e ganhando vários hematomas e escoriações nos braços e pernas.
Depois deste primeiro caso que atendi, a manhã parecia nunca ter fim. Sempre quando eu achava que teria descanso, Tânia me chamava para ajudá-la em alguns casos. Casos esses que ela poderia fazer sozinha, mas como eu era o residente ali, ela preferia sempre me ter por perto e vez ou outra me deixar a cargo de alguns pacientes. Eu tinha que agradecer muito a ela, pois além de ser calma e paciente com minhas perguntas, ela também me deixava tomar o controle da situação, mesmo que isso não ocorrasse com certa frequência.
— Você foi bem hoje, William — Tânia sorria. Havíamos acabado de terminar um processo longo e cansativo de reanimação. O homem em questão havia sido atropelado quando atravessou fora da faixa de pedestre com o sinal aberto para os carros.
— Obrigado — sorri também.
— Gostei de como agiu rápido lá na sala. Deixei você fazer a massagem e controlar aquela situação pra ver como você reagiria numa situação de risco — eu provavelmente estava com uma feição deveras assustada, porque Tânia apenas deu três tapinhas em meu ombro e sorriu orgulhosa — Fique calmo, você tem um futuro brilhante, William. Com certeza puxou o dom de seu pai.
Sorri agradecido e me despedi dela. Felizmente a chuva havia dado uma pequena trégua e o transito fluía com um pouco mais de rapidez na hora do almoço. Passei em casa apenas para tomar um banho e trocar de roupas. Eu sentia algo ruim apertar meu peito, me sufocava e me fazia querer chorar. A ansiedade em ver Nico depois de cinco dias era demais.
Quando cheguei à faculdade, eram uma e meia da tarde. Estacionei o carro e corri da fina garoa que caía. O céu voltava a se fechar e nuvens cinza e trovões denunciavam que a parte vespertina do dia teria uma chuva mais intensa. Encontrei com Tyler no corredor do prédio; ele digitava algo no telefone, e passei a acompanhá-lo.
— Eae, Will — cumprimentou-me quando, enfim, desgrudou os olhos da tela minúscula.
— Eae... O Sr. Colleman bem que podia cancelar a aula hoje, né? Por causa dessa chuva toda... — perguntei, puxando o meu próprio celular e digitando uma rápida mensagem a Nico.
“E a viagem? Onde estão agora?”
— Eu to é rezando pra ele passar mais um daqueles vídeos chatos pra eu poder dormir — Tyler falou enquanto revirava os olhos e guardava o celular.
— Você está com aqueles textos que a professora Bianca mandou tirar a cópia ontem? — perguntei — Eu meio que esqueci que era pra hoje.
— Relaxa que eu tirei uma pra você. Toma — vi o rapaz mexer na mochila e pegar as folhas meio amassadas — Ela pediu pra ler as notas inicias e as notas finais, não importa o que aconteça.
— Okay, então — dei de ombros. Se ela havia mandado ler aquilo, provavelmente alguma coisa ela faria.
Quando as duas aulas seguidas do Sr. Colleman acabaram, era por volta das 15h10min da tarde. Tyler e eu íamos para a lanchonete mais próxima do bloco onde estávamos e apertávamos os passos para fugir dos ventos frios que a chuva trazia.
Assim que entramos, suspirei aliviado por finalmente estar num lugar seco e quente. Sentamo-nos perto da televisão e, assim que a garçonete se aproximou, eu pedi um cappuccino com chantilly extra enquanto Tyler se contentava com um simples café expresso. Olhei para a televisão e notei que era sobre a notícia de um acidente.
—...O acidente ocorreu aqui na interestadual 78, o ônibus vinha de Nova Jersey e tinha como destino Nova York. Os peritos afirmam que o motorista perdeu o controle do veículo por conta da forte chuva e capotou três vezes na pista. Dois carros que vinham em direção contrária a do ônibus colidiram com os destroços, seus passageiros... — a repórter dizia.
— Nossa, olha que merda — escutei Tyler comentar e concordei.
— Segundo nossas informações, os passageiros do ônibus eram estudantes, de dezenove a vinte e dois anos, de Economia da Universidade de Nova York que voltavam de uma conferência realizada no estado de Nova Jersey. Até agora seis mortes foram confirmadas. Os paramédicos estão tendo dificuldades para retirar as vítimas dos destroços, o Corpo de Bombeiros já foi acionado e já devem estar no local do acidente. Vamos acompanhar ao vivo com o repórter Michel Loran — então as imagens dos estúdios do jornal mudaram para um rapaz moreno de óculos, que vestia uma capa de chuva e tinha como cenário de fundo várias ambulâncias e destroços do acidente.
Eu observava aquela cena do jornal, mas já não conseguia escutar nada. Tyler alternava o olhar abismado entre mim e a televisão. Meu coração batia forte, minhas mãos tremiam e eu suava frio.
Aquilo não podia ser verdade. Podia? Seria aquele o ônibus que Nico estava? Não... Não pode ser...
Com mãos trêmulas, peguei meu celular e disquei o número de Nico. Caixa postal. Tentei novamente. Caixa postal. Ainda insatisfeito, tentei uma terceira vez, para mesmo assim cair na caixa postal.
— Logo mais, no jornal das oito, acompanhe a íntegra desta reportagem — a mulher nos estúdios se despediu e então os créditos do jornal começaram a subir.
Meu cappuccino esfriava na mesa e eu não podia me importar menos. Tyler parecia não saber o que falar naquela hora.
— Olha, cara... Vai ver Nico resolveu ficar mais um dia? — sua voz denunciava que nem ele acreditava no que havia acabado de falar.
Levantei-me da mesa e corri para fora da lanchonete. Ao fundo, eu escutei Tyler gritar meu nome e ignorei seus chamados. Eu queria correr, me certificar que aquilo não era verdade. Ver com meus próprios olhos que Nico estava bem e que chegaria aqui na faculdade às sete da noite como havia falado.
Aos poucos minhas roupas ficaram ensopadas e meus cabelos grudavam na testa. Já não me importava às gotas geladas da chuva, tampouco a possível gripe. Eu queria apenas ver, sentir, tocar meu Nico. Apenas isso.
Corri até meu carro e saí da faculdade cantando o pneu. Para onde eu iria? Para meu apartamento? Não queria ir para lá... Pensei em Matt, mas ele agora morava em outro estado. Não tinha para onde ir, me sentia perdido e sem rumo. Nico morreu, será?
Morrer... Hades provavelmente deveria saber alguma coisa sobre isso. Ele é o pai, então tem que ser notificado sobre alguma coisa. Mas... Eu sou o noivo. Eu também tenho que ser notificado sobre algo que aconteça com meu noivo, não tenho?
Olhei meu celular apenas para ver que estava sem rede. O desespero aumentou quando eu vi duas chamadas perdidas que antes não havia visto, de um número que não estava registrado, às uma e cinquenta da tarde. Eu estava em aula e não ouvi o telefone tocar.
A chuva persistia e os trovões eram abafados pelas janelas fechadas do carro. Meu coração batia cada vez mais rápido toda vez que eu avançava um pouco mais pelas ruas da cidade. Quando virei à esquina e passei a ver tanto a casa de Apolo quanto a casa de Hades, meu coração apertou e um nó se formou em minha garganta.
Estacionei de qualquer jeito na frente da casa de meu sogro e corri até a porta, batendo-a sem parar quando a alcancei. Assim que a porta foi aberta e eu pude ver os olhos vermelho de Isa, meu corpo tremeu.
— Menino Will, — arfou surpresa — Entre.
— Onde está Hades? — minha voz quase não havia saído.
— Na sala, com senhorita Perséfone.
A visão que tive quando entrei na sala foi desesperadora. Hades estava sentado no sofá, com o telefone celular sendo esmagado em mãos, e chorava. As lágrimas grossas e pesadas pingavam em sua calça social e manchavam o rosto do homem. Os soluços e o rosto vermelho denunciavam que ele tentava prender o choro; seu corpo tremia e vez ou outra ele tossia.
— Meu filho... — ele sussurrava e voltava a chorar mais ainda — Eu não posso perder ele, Perséfone. Não posso!
— H-Hades? — minha voz saiu gaguejada e lágrimas temerosas caíram sem permissão.
Quando seus olhos se focaram em mim, vi todo o medo e desespero que ele estava vivendo naquele momento. Vi a fragilidade em que Hades estava reduzido.
— Nico... Nico e-está...? — mal consegui terminar de perguntar e solucei prendendo o choro.
— Está vivo. Mas o estado dele é grave, muito grave — foi Perséfone quem falou. Hades estava em choque com a notícia — Ele está sendo levado ao hospital mais perto do acidente, assim que possível pediremos transferência para o hospital de seu pai.
Hades ainda chorava copiosamente e eu não o julgava por isso. Ele já havia perdido a mulher e uma filha, se ele perdesse outro filho, não tenho certeza se ele voltaria a se reerguer novamente.
Eu processava as palavras proferidas duas vezes mais lento. Meu cérebro parecia ter dado pane e recebia novas informações em slow motion. Nico estava vivo, então? Ele não estava morto? Eu ainda poderia ver meu Nico?
Respirar parecia uma tarefa extremamente difícil. Meu peito doía e meu corpo tremia pelo frio das roupas molhadas e por saber que Nico estava em estado grave. Escutei a porta da frente bater num estrondo e então Apolo surgiu desesperado. Isa provavelmente havia o avisado que eu estava aqui.
Estranhamente, ao ver meu pai ali na sala, eu senti que tinha alguém aqui por mim. Assim que seus braços rodearam meu corpo e me apertaram forte contra si, eu me senti acolhido por uma aura paterna que eu nunca havia experimentado. Quando seus dedos emaranharam-se em meus cabelos, eu tive a certeza de que era aquilo que eu precisava.
E então eu chorei desesperado em seu colo, por saber que o estado de Nico era muito grave.
~*~
Dois dias apenas se passaram desde o acidente e nove mortes foram confirmadas. Na turma de Nico, que eram vinte e cinco, nove era um número considerável. Os jornais sempre atualizavam as notícias sobre, como os estados em que as vítimas sobreviventes se encontravam e também sobre o motorista do ônibus, que já estava estável e se recusava a falar com a imprensa.
— Ele vai ser transferido hoje de manhã. Mandei um helicóptero equipado ir buscá-lo, e quando chegarem Nico vai ter o melhor atendimento do hospital — Apolo comentou assim que apareci na sala. Apenas assenti e sentei-me no sofá, os olhos vidrados no noticiário.
Era um pouco estranho para mim voltar a estar aqui, nesta casa. Mesmo que eu tenha morado aqui por um ano, muita coisa tinha acontecido ali, e muitas delas relacionadas com Nico.
Eu me sentia cansado. Não havia dormido na noite anterior e agora ela me cobrava o preço. Meus olhos ardiam e pesavam, por ter chorado demais na noite anterior, e minha cabeça doía como o inferno. Eu já havia tomado um remédio contra a gripe, tudo o que eu menos precisava agora era estar doente.
Meu celular apitou e vi o nome de Tyler no visor. Ele com certeza estava preocupado comigo. Dois dias atrás eu havia corrido desesperado para fora da lanchonete, logo após ver sobre a notícia do acidente, então era até compreensível que ele estivesse preocupado e ligando sem parar.
Entretanto, se fosse só ele ligando... Desde que a notícia se espalhou, nossos amigos têm ligado para mim, perguntando sobre Nico. Matt, Annabeth, Percy, Jason... Eu não queria ter que ficar falando ao telefone sobre o estado de Nico! Será que era muito difícil de entender? Desliguei a chamada e suspirei.
— Pai... Avise o Matt, por favor — pedi, entregando-lhe o telefone — Não quero falar com ninguém agora.
Levantei-me do sofá e deixei meu pai na sala, discando o número de meu amigo. Meus passos eram lentos e vacilantes. Subi as escadas e entrei em meu quarto; estava extremamente bem arrumado e limpo. A menina que fazia a limpeza da casa deveria entrar aqui todo dia para ele estar tão bem organizado depois quase dois anos e meio sem uso.
Deitei e me enrolei no edredom. Afundei meu rosto no travesseiro e dormi depois de cinco minutos, rezando para que tudo fosse um sonho.
“Estávamos nervosos porque havíamos conseguido marcar um jantar com nossas famílias e amigos na casa de meu pai, Apolo. Era dia 22 de novembro, dia de Ação de Graças, e todos, sem exceção, estavam presentes. Nico e eu iríamos falar abertamente que estávamos noivos, mesmo tendo já se passado algum tempo.
Hades e Perséfone conversavam amenidades. Matt contava para Apolo como era Providence e como estava sendo o curso de Arqueologia, enquanto Deméter vez ou outra puxava um assunto aleatório com Nora. Hazel apenas conversava ao celular com Frank. Todos sorriam e pareciam apreciar daquela noite agradável.
Nico e eu estávamos perto da porta, o moreno tinha um sorriso lindo nos lábios. Os olhos brilhavam e o anel de noivado parecia brilhar em seu dedo pálido.
— Pessoal — chamei a atenção de todos — Nico e eu temos algo pra falar.
Senti os olhares curiosos sobre nós e respirei fundo, entrelaçando nossas mãos e puxando Nico para mais perto de mim.
— Pedi Nico em casamento — falei, sorrindo abertamente.
— E eu aceitei — ele completou com as bochechas rosadas.
O grito animado que Hazel deu pareceu despertar a todos da surpresa. A menina correu em nossa direção e puxou Nico para um abraço apertado enquanto nos desejava tudo de bom e melhor. Meu pai foi o segundo a nos abraçar; eu percebi que ele estava bem feliz por nós e as palavras de incentivo e apoio dele me deixaram emocionado por receber a sua benção.
— Bem vindo à família, William. Não que você já não fosse — Hades comentou sério, mas logo depois sorriu pequeno, assim como o filho fazia — Pode me chamar de pai se quiser.
Escutei Nico rir daquilo e os braços de meu sogro me apertaram forte. Sorri e devolvi o abraço. Naquele dia, eu soube que aquele pessoal seria minha mais nova família. Foi ali que eu senti, pela primeira vez, que eu estava plenamente feliz e completo.
Nico mantinha um sorriso fácil, e quando nossos olhos se encontraram, no meio da bagunça que nosso pronunciamento causou, eu apenas reafirmei o quanto nós dois havíamos sido feitos um para o outro.”
Acordei com o gosto de saudade na boca. Passei os olhos no quarto e vi apenas o vazio nele. Pela janela notei que já estava escurecendo e, quando sentei, meus ossos e músculos doíam pelo tempo exagerado em que dormi.
— Ah, que bom que já acordou — meu pai falou quando entrou no cômodo e me viu já em pé — Preciso falar com você.
— Eu só vou tomar um banho rápido — minha voz rouca e grogue denunciou meu estado de letargia pós-sono.
Apolo assentiu. Eu queria apenas jogar um pouco de água no corpo para espantar o sono e já iria para o hospital. Nico já deveria estar lá e eu tinha também que falar com minha supervisora, Tânia. Saí do banheiro com a toalha enrolada na cintura e encontrei meu pai ainda me esperando no quarto. Segurava um conjunto de moletom cinza e tinha um olhar cansado.
Enquanto eu me vestia, Apolo digitava algo no celular.
— Ele já está lá — comentou de supetão — Will, eu... Eu não acho que você deva ver o estado dele agora...
— Como assim? Por que eu não deveria? — perguntei, já sentindo meu peito doer — É claro que eu vou ver meu noivo!
Apolo crispou os lábios e suspirou cansado.
— Hades foi pra lá assim que ele chegou... Eu nunca vi aquele homem tão alterado... — comentou. Seus olhos estavam meio perdidos, provavelmente lembrando a cena.
— Não sei se volto ainda hoje — comentei, ignorando meu pai e pegando as chaves do carro e minha carteira.
Saí sem esperar uma resposta de meu pai e dirigi depressa rumo ao hospital.
—
Quando cheguei, fui direto para a recepção ver qual era o quarto em que Nico estava instalado. Não me surpreendi quando escutei o número 501, um dos quartos destinado aos pacientes que tinha uma melhor condição financeira para a estadia aqui. Assim que o elevador parou no quinto andar, quase corri em busca do número 501.
Entrei sem bater e encontrei Hades sentado na cadeira ao lado da cama. Quando me viu entrar, não esboçou nenhuma reação. Seus olhos inchados e grandes bolsas arroxeadas embaixo dos olhos denunciavam as noites mal dormidas. Meu peito palpitava; minha respiração travou e meus olhos se arregalaram quando vi o corpo na cama.
Nico estava repleto de grandes hematomas roxos pelo corpo, sua bochecha direita tinha um corte que ia de cima abaixo a sua maçã do rosto. Uma parte de sua cabeça estava raspada e uma enorme sutura denunciava que ali tinha sido feita uma cirurgia. Seu braço direito estava enfaixado e suas duas pernas também.
— Quatro costelas trincadas — Hades falou de repente, seus olhos vidrados miravam Nico — Rádio e fêmur foram quebrados e teve a tíbia exposta. As vértebras T5 e T7 quebraram também... Mais o pedaço de ferro que se alojou no crânio, mas já foi tirada...
Solucei.
— Os médicos disseram que foi um milagre ele não ter morrido na hora — sua voz não passava de um mero sussurro.
O apitar do monitor de batimentos cardíacos tocava de forma fraca, porém ritmada.
— Doutor Richards disse que se ele acordar do coma pode ter sequelas, além do fato de estar paraplégico — terminou, apertando os punhos e cerrando os olhos.
Eu não confiava em minhas pernas naquele momento. Minhas mãos tremiam mais que uma pessoa com Parkinson. Parecia que minha caixa torácica iria rachar de tão forte que meu coração batia e eu sentia o sangue fugir de meu rosto. O estado dele estava pior do que eu poderia imaginar.
Nico, aquele rapaz de feições naturalmente sérias e sorriso pequeno, olhos pretos e brilhantes e uma inteligência única, estava agora reduzido a esse corpo frágil e quebrado deitado na cama do hospital. Com tubos e mais tubos interligando seu corpo às máquinas, para conseguir viver.
Aquele mesmo Nico, que superou duas depressões severas, o bullying e a negação de si mesmo, agora estava em coma, dependendo sua vida a uma máquina. Ele não acordaria agora e sorriria para mim, não sussurraria no telefone que estava com saudades, não me xingaria por deixar a toalha molhada na cama...
— Eu não tive coragem de ligar e contar para Hazel... — Hades falou de repente — Ela me ligou anteontem do intercambio, não acho que sabe sobre o acidente já que está do outro lado do mundo, no Japão... — suas mãos pousaram no rosto e suspirou pesadamente.
Peguei a mão de Nico e dei um leve aperto. O monitor continuava com o mesmo apitar.
Bip... Bip...
Hades então se levantou da cadeira e arrumou da melhor maneira que pôde seu terno e cabelos bagunçados.
— Vou deixar vocês a sós um pouco — comentou — Até, William.
Quando escutei a porta se fechar, puxei a cadeira para mais perto da cama e deixei que as lágrimas caíssem.
Eu queria abraçar Nico e chorar em seu colo, mas tinha medo de que eu pudesse machucá-lo ou quebrá-lo mais ainda se tocasse em qualquer parte dele. Sua aparência estava horrível, hematomas e cortes pelo rosto, braços e possivelmente no peito também. Seus lábios estavam pálidos e seus cabelos opacos.
As lágrimas caíam por minhas bochechas e pingava por meu queixo, coriza escorria por meu nariz e os soluços me faziam engasgar com o próprio ar. Olhar Nico naquele estado era devastador. Apoiei minha cabeça na cama, sempre segurando a mão de Nico, e passei o resto da noite chorando.
“— Will! — Nico gritou em meio ao riso — É sério, para!
Nós estávamos na cozinha, era sábado de manhã e eu estava tentando ensinar Nico a cozinhar um simples pão. O moreno tinha farinha de trigo por todo o avental e no nariz, suas mãos estavam sujas pela massa e eu fazia cócegas nele. Eu simplesmente amava escutar a risada do moreno.
— Eu não to fazendo nada — afirmei, saindo de perto dele — Você que não aguenta ficar muito tempo longe de mim e me persegue pela casa.
— Eu, né? — rolou os olhos.
Me apoiei na bancada e passei a observar Nico enquanto ele sovava a massa do pão. A feição concentrada, o morder no canto do lábio inferior e vestindo meu avental branco com vários abacaxis, todo sujo de trigo igual seu rosto, o deixavam extremamente engraçado e tiravam todo aquele ar quase estóico que Nico costumava usar.
— E agora? — perguntou depois de um tempo — Meus braços vão ficar dormentes daqui a pouco...
Dessa vez eu quem revirei os olhos.
— É só fazer o formato dos pães e colocar no forno. Eu já untei a assadeira — comentei, apontando para a assadeira em cima do fogão.
Nico suspirou cansado, mas continuou a fazer os pães. Quando terminou, tinha um sorriso satisfeito nos lábios.
— Nem foi tão difícil — falou puxando uma cadeira para sentar.
— Só espero que esteja bom isso aí que você fez — brinquei, rindo da cara que ele fez.
— Você vai ser o primeiro a provar — sorriu ladino — Agora, se me der licença, vou tomar banho porque estou cheio de farinha.
Ri da cara que ele fez quando viu uma mecha branca de cabelo e então foi para o quarto. Marquei o tempo na massa no forno e escutei Nico me chamando do banheiro.
— Preciso de ajuda pra tirar o trigo das costas! — riu divertido.
— Depois vem me falar que super aguenta ficar longe de mim — retornei brincando, mas indo para o banheiro também.”
Acordei sobressaltado quando a porta do quarto se abriu e uma enfermeira apareceu.
— Senhor Solace, o horário de visitas já acabou — comunicou — Terá de ir embora.
— Vou passar a noite aqui — respondi — Não se preocupe, eu tenho permissão.
Ela me olhou desconfiada e eu apenas mantive minha postura ereta, como se o que eu falava fosse a mais pura verdade. No fim, ela apenas deu de ombros e olhou Nico.
— Sendo assim, vou verificar o paciente.
Depois de aproximadamente dez minutos, ela se despediu e saiu da sala. Eu sentia meus olhos pesados. As olheiras provavelmente estavam começando a aparecer e a vermelhidão e inchado no rosto denunciariam que eu chorei a noite toda.
~*~
Uma semana se passou desde que Nico chegou ao hospital e estava internado em coma. O médico responsável por ele, Richards, havia me dito que vários órgãos dele haviam sido danificados com o acidente violento. Nico precisava de alguns transplantes e doação de sangue, mas eu, infelizmente, não era compatível com ele.
Minha última esperança havia sido Hades, mas descobrimos que ele também não era compatível e então nós dois nos desesperamos. Esperar na longa lista de espera para a doação de um órgão, que no caso do moreno seria mais de um, poderia levar anos, e anos era tudo o que Nico não tinha.
Cada vez que eu entrava no quarto que Nico estava internado, eu sentia como se eu morresse aos poucos junto dele. No início eu não estava acreditando que aquilo era real, que Nico era mesmo um dos envolvidos naquele acidente. Eu sempre achei que aquilo estivesse longe demais da minha realidade e agora, vendo Nico entre a vida e a morte, vejo que não. Aquilo poderia ter acontecido com qualquer um.
Em meio ao desespero e caos da semana, Matt havia voltado para Nova York e estava sempre ao meu lado, a postos para me confortar e me apoiar. Quando vi meu amigo entrar em meu quarto, depois de outra noite de insônia, quase chorei de alívio. Ele estava um pouco mais corpulento e tinha uma barba rala por fazer, mas mesmo assim, ainda me fazia me acalmar sempre que o via.
Naquele dia não foram necessárias palavras para expressar o quão desesperado eu estava. Matt compreendia, sabia o que eu estava passando, porque ele já havia perdido alguém que amava.
Havia perdido...
Nico não estava morto. Estava em coma. Os médicos, não só Richards, já falavam pelos corredores que o caso do moreno já não tinha salvação. Falavam que era questão de tempo até o corpo dele definhar naquela cama de hospital. Que Hades gastaria dinheiro à toa tentando salvar o filho que já não tinha salvação.
Falavam isso porque não era o filho deles. Não era o noivo deles. Falavam porque não eram eles a sentir o desespero e vazio. O medo.
Os grandes hematomas arroxeados no rosto e corpo aos poucos iam melhorando, os vários cortes superficiais já quase não eram notados e o corte em diagonal na bochecha dele cicatrizava lentamente, provavelmente deixaria uma fina linha branca.
Entretanto, Nico continuava mais pálido que papel, tanto que as veias do braço dele já eram vistas. O rosto estava mais magro e os olhos mais fundos. Doía só em olhar a vida dele se esvaindo pouco a pouco.
— Nico, eu sei que você tem forças pra superar — sussurrei, apertando de leve sua mão — Por favor, não desista.
Bip...
Meu desespero aumentava a cada novo soar daquela máquina. Meu peito apertava e meus olhos ardiam, meu coração quebrava em milhões de forma diferentes e a vontade de chorar era, agora, minha melhor amiga.
O bip soava de forma preguiçosa. Era agonizante ver que o coração dele já estava fraco demais para bombear sangue e a qualquer momento uma parada cardíaca podia levar o moreno de mim. Ver as agulhas nas veias frágeis dele me dava medo de que qualquer coisinha elas poderiam rasgas seus braços finos.
Frágil.
Essa era a palavra que melhor definia Nico agora. Frágil. E isso me apavorava, porque Nico nunca foi frágil. Ele poderia ter sofrido bullying, duas depressões severas e a perda da mãe e irmã mais velha, mas frágil nunca foi a palavra certa para defini-lo. Persistência, força, teimosia... Essas tudo bem, mas frágil não.
E agora lá estava ele, deitado naquela maldita cama de hospital, dependendo das máquinas para sobreviver.
Por que a vida era tão injusta? Nico era a última pessoa que merecia um destino tão cruel assim. Até Hades não merecia ver a família pouco a pouco morrer. Era cruel, era doentio. Que tipo de brincadeira era aquela?
— Você ainda não ouviu sua música — falei, fixando o olhar no rosto desacordado.
Eu queria poder ver mais uma vez aqueles olhos negros que ele tinha. Ver o brilho no olhar sempre que ele me olhava, ver o sorriso pequeno, mas sincero, toda vez que eu o mimava. Até sua feição de raiva me fazia falta.
Eu sempre tentava ir à faculdade e voltar a fazer as minhas obrigações, mas a mera possibilidade de que alguma coisa pudesse acontecer a Nico e eu estar longe me tirava à sanidade e me fazia entrar em desespero. O resultado era que eu sempre saía correndo e ia para o hospital ficar ao lado dele.
Hades vez ou outra me fazia companhia no quarto e observava o estado vegetativo do filho. Às vezes ele ia sozinho e só saía quando eu chegava, seus olhos sempre vermelhos e inchados. Ainda não havia tido coragem de comentar com Hazel sobre o acidente; ele tinha esperanças de que o filho acordaria e se recuperaria.
~*~
No início da segunda semana, Jason e Reyna apareceram no hospital. O loiro estava um trapo, tentava parecer forte e animar a menina, mas era nítido o desespero deles. Reyna chorava segurando a mão de Nico e, como no passado, aquilo não me causou ciúmes ou nada do tipo.
Não havia motivos para aquilo.
Quando vi os dois segurando as mãos de Nico e rezando a qualquer entidade divina existencial, eu pude sorrir minimamente. Nico tinha para quem voltar, não havia motivos para ele desistir de lutar pela vida. Eu, Hades, Hazel, Jason, Reyna e todos os nossos amigos estariam apoiando-o quando acordasse.
Eu me sentia cansado, tanto física quanto mentalmente. Na noite passada, Matt e Apolo haviam insistido para que eu voltasse para a casa de meu pai e dormisse lá. “Pelo menos uma boa noite de sono”, palavras de Apolo. Eu não conseguia dormir tranquilamente, não conseguia fechar os olhos e aguentar os constantes pesadelos sobre o acidente e Nico internado no hospital.
— Nico precisa te ver forte e saudável quando acordar, querido — fui tirado de meus pensamentos com a voz calma de Martha.
— Não tenho fome — respondi apático.
— Mas coma mesmo assim — Martha sorria complacente.
Olhei o prato de comia a minha frente e me forcei a ingerir pelo menos um pouco daquele alimento. O jornal informava novas informações sobre o caso do acidente que havia matado até agora treze pessoas.
Silena Beauregard, Charles Beckendorf, Luke Castellan, Ethan Nakamura, Michael Yew... Eu conhecia todos esses jovens, todos eram amigos de Nico e frequentemente iam a nosso apartamento, tanto para estudar quanto para apenas conversarem. E todos morreram naquele maldito acidente.
Eu havia ido visitar as vítimas vivas no hospital onde receberam os primeiros socorros e onde estavam internadas. Noah era uma dessas pessoas e, quando descobri que ele estava tetraplégico, fiquei triste pelo rapaz. Mesmo que eu não gostasse dele, ele não merecia todo aquele sofrimento que estava passando. Ninguém merecia.
Vi a mensagem de Apolo perguntando onde eu estava e ignorei. Já era tarde da noite, eu tinha acabado de voltar do outro hospital onde as vítimas estavam e não queria ir para a casa de meu pai. Mesmo eles não tendo a intenção, eu me sentia sufocado demais naquele ambiente. Matt sempre estava por perto, perguntando se eu estava bem e tudo mais, e Apolo, quando voltava do hospital, fazia as mesmas perguntas que meu amigo. Era sufocante.
Contei até três tentando acalmar minha respiração acelerada e desci do carro. Cumprimentei o porteiro do prédio e, quando entrei no elevador e apertei o botão do andar certo, fechei meus olhos, sussurrando meu mais novo mantra para me acalmar. Seria a primeira vez que eu voltava para nosso apartamento desde que Nico sofrera o acidente.
O silêncio que me recebeu foi o choque de realidade que eu temia perceber.
Eu sabia que Nico não estaria me esperando sentado na sala, enquanto assistia ao noticiário. Sabia que ele não sorriria para mim e me falaria “Oi, amor” com aquele seu sorriso pequeno. Não iria pedir para que eu me sentasse ao seu lado no sofá e não apoiaria sua cabeça em meu peito, enquanto perguntava como havia sido meu dia.
Ao invés disso, apenas o silêncio aterrador. De repente, a ficha caiu.
Nico está internado. Vida ou morte. Estado grave. Coma.
Senti como se estivessem dado um nó em minha garganta; respirar era uma tarefa muito difícil de ser executada e minha vista embasou. Meu nariz ardia e as lágrimas só serviam para embaçar minha visão.
O sentimento de desespero aumentou e, mesmo sendo tarde, não me importei em gritar desesperado. Agarrei a blusa na direção de meu coração e caí de joelhos no meio da sala. Doía. Parecia que ele estava se quebrando por dentro e eu nada podia fazer. Perceber que Nico poderia nunca mais acordar, que ele não estava em casa, só aumentava meu medo de perdê-lo.
As lágrimas manchavam minhas bochechas, eu respirava com dificuldade e meus soluços eram altos. A sensação de vazio preenchia a sala e me sufocava. O medo da perda me assombrava. Eu via o corpo de Nico à minha frente, todo ensanguentado, e nada podia fazer para ajudar. A impotência diante aquilo reforçava o pavor que eu sentia. Meus gritos em meio ao choro eram doloridos e esganiçados. Eu estava sem rumo.
Sem Nico, o que é que eu faria?
~*~
Depois que eu de fato percebi qual era a real situação em que Nico estava, não havia uma noite em que eu não dormia depois do cansaço do choro sofrido. Minhas olheiras estavam muito mais profundas, e meus cabelos bem mais desgrenhados.
Nem me lembro em qual dia da segunda semana em que Nico estava internado, eu me surpreendi em encontrar Leo e Piper parados na recepção do hospital, querendo saber o número do quarto de Nico.
— Me desculpa não ter vindo mais cedo, Will — falou Piper.
— Eu vim o mais rápido que pude — Leo comentou e, pela primeira vez, vi o rapaz com feições preocupadas e aflitas.
Expliquei resumidamente o estado do moreno e desviei o olhar quando Piper começou a chorar. Leo abraçou a menina, para tentar confortá-la, e eu respirei fundo. Não queria que os outros me vissem chorar, mesmo que meus olhos inchados demonstrassem que eu o fazia, e muito.
—
Logo no início da terceira semana, foi a vez de Percy e Annabeth aparecerem no hospital. Eles estavam descrentes de que aquilo estava mesmo acontecendo. As falas pausadas, demonstrando a confusão, apenas mostravam o quão chocado estavam. E o estado de Nico continuava a declinar.
Um dos rins havia parado de funcionar. O pulmão perfurado estava fazendo Nico ter complicações para respirar. O fígado demorava demais para se regenerar da perfuração que sofreu. O coração continuava a fazer seu trabalho, cada vez mais lento. Nico morria e aquilo doía como o inferno. Eu já não sabia se tinha mais lágrimas para derramar; minha apatia só aumentava e eu sabia que preocupava meu pai e Matt.
Eu não podia fazer nada. Ver Nico definhar lentamente naquela cama me matava aos poucos também.
Me olhei no espelho e suspirei para a imagem refletida. Minha cara abatida estava mais pálida que o normal, meus cabelos loiros estavam quebradiços e minhas olheiras marcavam ainda mais minhas noites de insônia. Minha imagem estava um caco. Deplorável, destruído, assim como meu psicológico nesses últimos dias. Voltei para a cama, mesmo não estando com sono e sendo início da noite, e deitei. Eu olhava o teto sem interesse. A mente viajava para Nico em coma naquele hospital e inconscientemente senti as lágrimas escorrerem.
Eu estava sozinho na casa de meu pai, por isso estranhei quando bateram na porta do quarto, mas reconheci a voz assim que ele se pronunciou.
— Hey, Will — Leo cumprimentou.
Não fiz esforço para me mover e olhar para o rapaz. Apenas continuei deitado, chorando silenciosamente. Escutei a cadeira ser puxada e então Leo suspirou.
— Olha, sei que você já deve estar cansado da pergunta “você está bem?”. Eu sei que você não está, mas ficar desse jeito não vai adiantar em nada, Will. Todos estão preocupados contigo... Continuar assim não vai te levar a nada.
— Por que você está aqui? A gente nem conversava tanto assim na escola... Nico nunca me disse que vocês eram tão próximos assim.
— Porque eu sou amigo de Jason, e ele era muito próximo de Nico — falou simples — Vim apoiar meu amigo nessa hora e tentar te ajudar, porque eu entendo essa dor que você está sentindo.
— Como pode saber? Você vivia sorrindo pelos cantos e contando piadas. Como pode saber a dor de ter alguém que ama entre a vida e a morte?!
Nesse ponto eu já mantinha os olhos fixos no latino. Leo meneou a cabeça e passou a mão pelo rosto.
— Will, você nunca chegou a pelo menos tentar me conhecer melhor, né? — perguntou retoricamente. O olhar abatido dele me pegou de surpresa — Você não me conhece pra dizer o que eu sei e o que eu não sei. Não sabe minha história e nem nada pelo que passei.
Tentei falar algo, mas me calei no momento em que ele pediu para não ser interrompido.
— Eu sei muito bem qual é a dor de perder alguém amado. Sabe... Eu nunca conheci meu pai. No passado era apenas eu, minha mãe e meu irmão gêmeo, Sammy, cuidando da nossa oficina lá no Novo México. Acho que nós tínhamos uns dez anos quando um incêndio na nossa oficina matou nossa mãe e quase levou Sammy também...
Olhei surpreso para o rapaz e notei que ele mantinha o olhar desfocado na parede.
— Nós então fomos parar na casa da nossa tía Callida. Estávamos até bem, mas Sammy desenvolveu uma doença rara, provavelmente da nossa família paterna, e nenhum médico soube diagnosticar o tratamento... Ele faleceu tem cinco anos.
Eu não sabia o que dizer. Leo tinha os olhos um pouco marejados, e depois de alguns minutos, suspirou ressentido e sorriu.
— Eu sei que é horrível esse sentimento de desespero e vazio que você está sentindo, mas Nico ainda tem chance de sair dessa. Você tem que estar ali ao lado dele, bem e saudável pra não preocupar o rapaz quando ele acordar — falou — Apenas fique ao lado dele, dando apoio e estando perto.
O rapaz se levantou, arrumou a roupa amassada e saiu, se despedindo brevemente. Eu estava sentado na cama, pensando sobre tudo o que ele havia falado e notando que, de fato, eu nunca tive a curiosidade em saber mais sobre Leo Valdez.
Foi então que no dia seguinte, na tarde de quarta-feira da terceira semana, eu havia decidido levar meu violão e cantar a música que compus e que Nico ansiava tanto em escutar. Talvez, se ele ouvisse, ele poderia milagrosamente se recuperar e abrir os olhos, sorrir para mim e sussurrar com aquela voz calma de sempre:
“Achou que fosse se livrar de mim tão fácil?” e depois riria e me beijaria.
Quando me viu entrar no quarto com o violão, Judith, a enfermeira responsável por monitorar os aparelhos de Nico, arfou surpresa e me olhou receosa.
— Senhor, não pode entrar aqui com isso — falou — É proibido-
— Eu não ligo — cortei-a, tentando não ser tão rude — Preciso que Nico escute isso e nada vai me impedir de fazer isso.
A mulher mordeu os lábios, indecisa se deixava ou não. Eu podia notar que ela queria, mas o medo de ser punida depois falava mais alto.
— Escuta — falei — Eu sou o filho do dono. Se alguma coisa acontecer, eu vou me responsabilizar. Não se preocupe.
Judith então se acalmou e relaxou os ombros. Seus olhos mostravam-me a tristeza que sentia de toda aquela situação. Os meus provavelmente estavam vazios e inexpressivos.
— Oi, amor — cumprimentei, beijando-lhe a testa — Vou tocar aquela música que te prometi, lembra? Eu já tinha terminado... Estava esperando você acordar pra me dizer se gostou...
Minha voz diminuía a cada palavra proferida. O bip do aparelho continuava constante. Comecei a dedilhar as notas no violão e engolia em seco, meu coração martelava no peito e meus olhos queimavam. Eu queria tanto, tanto, que Nico estivesse acordado para escutá-la...
As notas saiam extremamente tristes. Minha voz falhava às vezes e parecia que eu cantava com uma bola de pelos na garganta. Todas as palavras me traziam lembranças de tudo o que eu vivi com Nico di Angelo.
“Loving can hurt
Loving can hurt sometimes
But it’s the only thing that I know
When it gets hard
You know it can get hard sometimes
It’s the only thing that makes us fell alive”
Amar pode doer. Lembrei daquele dia em que deixou cair sem querer aquele seu diário escrito inteiramente em italiano, onde duas palavras se destacavam no final do caderno: Amar dói. Incrível como duas palavrinhas puderam mudar tudo e me fizeram prestar mais atenção em você. Quando li aquilo, senti tanta vontade de interpretar você por inteiro, Nico di Angelo. Quando li aquilo, eu já estava caindo no abismo de segredos e sofrimentos que eram seus olhos negros.
“We keep this love in a photograph
We made this memories for ourselves
Where our eyes are never closing
Ours heart are never broken
And time’s forever frozen still”
Nossa primeira foto juntos havia sido tirada numa tarde de completo tédio. Eu estava deitando no sofá da casa de Hades, com Nico em meu peito. Ele estava de olhos fechados, quase dormindo, quando eu tirei uma selfie nossa no sofá. O moreno só descobriu aquela foto uma semana depois, quando eu revelei e coloquei num porta retrato em meu quarto. Lembrei também daquela tirada no parque. Estávamos tão felizes, e qualquer um que olhasse aquela foto teria certeza do quanto nos amávamos.
Aquelas eram pequenas memórias nossas, que nos faziam querer que o tempo nunca passasse. Eram momentos que foram eternizados por uma fotografia.
“So you can keep me
Inside the pocket of your ripped jeans
Holding me close until our eyes meet
You wont ever be alone
Wait for me to come home”
Lembrei da primeira vez que o vi. As roupas pretas, anel de caveira no dedo e cabelos levemente bagunçados. Desde aquele dia, Nico havia chamado minha atenção. Jeans rasgados, blusas grandes para o corpo. Ele parecia tão sozinho que me peguei pensando em mil e um motivos para a sua solidão. Por isso quis me aproximar. Por isso persisti, apesar do jeito arisco e arredio dele. Eu queria conhecê-lo.
“Loving can heal
Loving can mend your soul
And it’ the only thing that I konw
I swear it will get easier
Remember that with every piece of ya
It’s the only thing we take with us when we die”
Aquele dia em que o encontrei no cemitério em meio à chuva, chorando a morte da mãe e irmã, eu sabia que eu podia remendar aquela alma quebrada. Eu senti que não queria mais deixar aquele menino sozinho. Foi ali que eu percebi que eu estava perdido. Eu havia me apegado de tal forma que eu queria protegê-lo do mundo inteiro, e então eu percebi que Nico mudaria minha vida por completo.
Eu cantava olhando para o corpo inerte do moreno. Cada nota, uma lágrima. Minha voz parecia um miado de tão fraca, e a tremedeira de minhas mãos tornavam a tarefa de tocar o violão quase impossível.
“And if you hurt me
That’s okay, baby
Only words bleed
Inside these pages you just hold me
And I wont ever let you go
Wait for me to come home”
Cada uma das brigas que um dia tivemos passou em minha mente como um flashback. As palavras proferidas na hora da raiva, as lágrimas de tristeza, raiva, agonia. Os gritos frustrados e as lágrimas de arrependimento. Não éramos um casal perfeito; tínhamos nossas brigas e discussões, falávamos coisas desnecessárias apenas para ferir os sentimentos na hora da raiva. Mas sempre superávamos juntos e sempre perdoávamos um ao outro.
“So you could fit me
Inside the necklace you got
When you were sixteen
Next to you heartbeat, where I should be
Keep it deep within your soul”
Nico sempre olhava as fotos dentro daquele colar e tinha um brilho nos olhos. O dia em que me mostrou a jóia, havia falado que ali dentro estavam as pessoas mais importantes para ele, e eu ainda lembro-me de seus olhos inchados e voz rouca enquanto me falava sobre ele. Aquela pequena jóia tinha tantos significados para o moreno. As fotos de Maria e Bianca di Angelo ainda enfeitavam a parte de dentro. Nico havia falado que, o dia do nosso casamento, ele me mostraria mais uma vez aquele colar.
“When I’m away
I will remeber how you kissed me
Under the lamppost back on 6th street
Hearing you whisper through the phone
Wait for me to come home”
As últimas notas ecoaram pelo quarto e foram se extinguindo aos poucos. As lembranças de dias nem tão longe assim se apossaram de mim e eu permaneci ali, chorando. Os lábios de Nico contra os meus, num beijo calmo e apaixonado, sua voz brincalhona me pedindo para que eu o esperasse pra ir para casa, de seus toques simples e carinhosos me fizeram sentir-me ainda mais triste e desamparado. O sussurro pela voz embargada de sono na noite anterior a viajem, confirmando a chegada às sete da noite e me pedindo para esperá-lo, ainda estava vívido em minha memória.
Fechei os olhos tentando refrear o choro dolorido e guardei o violão. Minhas pernas vacilavam a cada passo. Nico permanecia imóvel, pálido, morrendo.
Meus ombros tremiam pelo choro, as lágrimas pingavam na cama de Nico e o bip da máquina continuava lento demais, na minha visão. Seu corpo estava esfriando a cada dia e isso me fazia desesperar-me gradativamente. Nico não podia morrer. Era injusto, errado... Por que ele?
Depois de horas que pareceram minutos, onde eu apenas pedia aos céus pela melhora de Nico, Matt entrou no quarto acompanhando de Judith. A mulher se dirigiu quieta até os aparelhos e começou a analisar e ver como a situação estava.
— Will, — chamou Matt — Vamos embora. Você precisa descansar um pouco...
— Não — respondi, ainda segurando a mão imóvel de Nico.
— O horário de visitas já acabou, senhor — Judith se pronunciou, me olhando com cautela — O senhor Apolo me pediu para que não te deixasse ficar hoje.
Suspirei arriando os ombros e fechando os olhos. Por que até meu pai queria me afastar de Nico? Era muito difícil para eles entenderem que eu não queria ir embora?
— Amanhã bem cedo você pode voltar — Matt tentou.
Eu não queria ter que ir embora, mas eu sabia que eu devia para não preocupar mais ainda Matt e meu pai. Crispei os lábios e olhei o corpo inerte do moreno. Os tubos levavam soro para suas veias, outros auxiliavam na respiração e a máquina que monitorava os batimentos cardíacos trabalhava de forma lenta.
— Tudo bem — falei derrotado. Beijei a testa pálida de Nico e sussurrei em seu ouvido: — Eu te amo.
Acompanhei Matt para fora do quarto e, em silêncio, nós seguimos para a casa de Apolo. O ambiente estava vazio, Martha já estava dormindo e meu pai fazia plantão no hospital. Era apenas eu, Matt e o silêncio.
Escutei-o sussurrar um fraco boa noite e entrou em seu antigo quarto. A noite estava mais fria que o habitual e eu estava cansado, porém sem sono. Era quase uma hora da madrugada quando eu recebi uma mensagem de Apolo.
Nico deu sinais de melhora! E adivinha? Achamos um doador compatível com ele! Amanhã de manhã, perto das oito, os órgãos estarão chegando e levaremos Nico para a sala de cirurgia!
Meu riso feliz ecoou pelo quarto. Nico tinha chances de sobreviver! Meu coração palpitava em animação e meu sorriso era quase completamente aliviado. Eu estaria bem mesmo quando o moreno saísse da sala de cirurgia e se recuperasse perfeitamente.
Depois de dez minutos tentando fazer a felicidade dar espaço ao cansaço, eu dormi com um sorriso no rosto.
“Me vi sentado numa cadeira de balanço numa casa de veraneio. A vista para a praia era linda e a vento fresco que batia em meu rosto me fazia relaxar. De repente, Nico saiu da casa e parou à minha frente na varanda.
— Vamos? — perguntou me esticando a mão.
Agora andávamos descalços naquela areia branca e fofa da praia. Nossas mãos estavam entrelaçadas e eu me sentia calmo. Verdadeiramente calmo.
— Obrigado por ter me esperado pra caminhar — escutei Nico comentar, desviando os olhos para o mar.
Puxei o moreno para mim e abracei-o forte.
— Você sabe que eu sempre vou te esperar, Nico — falei, fungando o perfume de seus cabelos — É uma promessa. Eu sempre, não importa aonde, vou te esperar.
Nico suspirou e olhou em meus olhos. Seu sorriso era radiante.
— Então acho bom me esperar mesmo, viu? — brincou, sorrindo mais ainda — Eu te amo.”
No dia seguinte, eu acordei bem mais disposto. A lembrança daquele dia de férias em Malibu, numa casa alugada, me fez ter esperanças que o dia seria ótimo. Eram sete da manhã quando eu desci as escadas, pronto para ir ao hospital e ver como estavam os preparativos para a chegada dos órgãos doados e se Nico estava bem mesmo para a cirurgia.
Encontrei meu pai na sala, observava as próprias mãos, apreensivo. E então, quando me viu, se sobressaltou.
— Minha nossa! — assustou-se.
— Preocupado? Sãos os órgãos? Eles não vão chegar às oito? — perguntei, também já ficando preocupado.
— Falência múltipla dos órgãos — disse apenas isso.
— O quê? — perguntei confuso.
— Me desculpe, filho... Nico morreu hoje às quatro e meia da madrugada.
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