Preto é a Cor do Amor

40 Nico di Angelo


Notas iniciais
Não era pra eu postar hoje, mas eu vi que já faz dois meses que as postagens do Social estão paradas para que eu possa igualar os dois sites... Daí vi que eu tava judiando deles lá... Com esse, PCA fica igual tanto no Nyah quanto no Social. Na quarta-feira postarei o capítulo 41 já. As frases entre [frase] significa a tradução do diálogo. ~Enjoy ♥

— Nico

— Nico... Vieni qui... In questo momento... – o menino escutou a voz trêmula e baixa de sua irmã. [Nico... Vem cá... Agora...]

Os dois estavam encurralados num beco sujo e escuro, assustados e perdidos. Tinham corrido o mais depressa que conseguiram e mesmo assim, as perninhas infantis não foram suficientes para espantarem o enorme Pitt Bull que rosnava ameaçadoramente para eles.

— Andra’tutto bene – a menina tentou acalmar seu irmãozinho. [Vai ficar tudo bem]

— Bianca, ho paura! – a voz infantil do menino de dez anos, soou baixa e chorosa. Tinha medo de elevar a voz e aquele cão raivoso pulasse em cima deles. [Bianca, estou com medo!]

Mesmo a menina já tendo seus trezes anos, a simples visão do animal mostrando os dentes afiados, com a baba escorrendo pelo canto e os olhos esbugalhados, deixavam-na arrepiada. Ela amaldiçoava todos os deuses daquele jogo estúpido do irmão, afinal foi por culpa do jogo que eles acabaram naquela situação.

A menina de cabelos curtos e negros abaixou-se lentamente e pegou uma pedra que julgou ser grande o suficiente para desorientar o cão raivoso. Mas, no momento em que se preparava para atirar o pedregulho, um grito também infantil irrompeu no beco.

Nico olhava assustado para o menino de pele bronzeada e de incríveis olhos verdes, que carregava um pedaço de pau e avançava no cachorro sem medo de ser mordido. O garotinho, que aparentava ter a idade de Nico, bateu apenas uma vez na cabeça do cão, que saiu correndo assustado. Foi só então que Nico notou que o menino estava acompanhado. A menina de cabelos loiros e cacheados parecia não saber se repreendia o moreninho ou se falava com sua irmã.

— Resta qui, Nico – a voz de Bianca o despertou do transe que os recém chegados o causou – Obrigado... – ouviu sua irmã falar no idioma local. [Fica aqui, Nico]

Bianca, antes mesmo de saber que se mudaria para a América, já estudava inglês. Era o sonho da menina, um dia ser livre e independente e ir estudar no estrangeiro. Porém Nico ainda não falava nem o básico do inglês, sempre que saia tinha de estar acompanhado ou de Bianca, ou de seus pais.

— Nico, queste sono Percy e Annabeth, vivono nello stesso quartiere come noi – a menina disse para seu irmão caçula, que olhava o rapaz com seus olhos negros brilhantes – Vogliono essere loro amici. [Nico, estes são Percy e Annabeth, eles moram no mesmo bairro que nós/Eles querem ser seus amigos]

Quando Bianca disse aquilo, o sorriso que Nico deu para o casalzinho foi tão sincero e verdadeiro que merecia ser retratado numa fotografia.

O seu herói, o menino que irradiava confiança, lealdade e um estranho cheiro de água salgada, com o sorriso mais puro e iluminado que Nico já vira (não que tenha visto muitos sorrisos, tinha apenas dez anos de idade), queria tornar-se amigo de si e de quebra, ganharia também outra amiga. Sem dizer nada, o moreninho se limitou em apenas balançar a cabeça, realmente feliz.

E foi assim que eu conheci Percy Jackson e Annabeth Chase, quando tinha apenas dez anos.

Com onze, eu já sabia falar quase fluente o inglês, graças a Annabeth que mesmo tendo a minha idade, já era um pequeno prodígio. Os dois eram os melhores amigos que um dia eu imaginei ter. Éramos pequenos, mas nosso senso de lealdade e companheirismo já estava formado desde o dia em que nos conhecemos.

Com doze, Percy passou a confiar segredos para mim. Segredos típicos de pré-adolescentes entrando na puberdade. Foi nesta época que Rachel Dare apareceu em nossas vidas. Personalidade espontânea, cabelos cacheados e vermelhos, olhos verdes e expressivos e roupas constantemente manchadas com tintas.

E Percy só conseguia falar dela.

Com treze descobri o motivo de nunca ter me sentido atraído por uma menina. Foi com Dennis que percebi que era gay ao encontrá-lo nu no vestiário da escola, logo após a aula de educação física, e me sentir atraído pelo corpo masculino. Aquela havia sido uma constatação chocante e aterrorizante, pelo menos para mim.

A primeira coisa que pensei em fazer foi procurar Percy e perguntar se aquilo era normal. Quando o encontrei, no entanto, percebi que estava atraído pelo meu melhor amigo quando senti mágoa ao vê-lo beijar Rachel Dare.

Com quatorze eu já não era o mesmo de antes. Havia me afastado aos poucos de Percy, continuávamos a nos falar e sermos amigos, mas não éramos tão grudados como antigamente, e me martirizava pelos sentimentos confusos que estava sentindo. Toda vez que olhava Percy (ou qualquer outro rapaz que me atraía fisicamente), eu sentia apenas tristeza e repulsa.

Repulsa por conta das reações incontroláveis que meu corpo tinha todas as noites após sonhos eróticos tanto com meu amigo, quando com desconhecidos atraentes.

Porque isto tinha de acontecer justo comigo?

Entretanto, mesmo com todos aqueles pensamentos conflitantes e melancólicos, jamais pensei em dar fim a minha existência. Talvez um dia eu pudesse acordar e perceber que tudo não passou de um sonho... Bem, isso não aconteceu.

Ainda aos quatorze eu conheci o trio inseparável: Jason, Piper e Leo. Foi engraçado como os três se juntaram rapidamente quando descobriram que eram os únicos novatos da turma. Lembro que foi Annabeth quem primeiro conversou com eles e os apresentou a mim e Percy. A simpatia que senti com aquele trio foi impressionante, mas mesmo gostando deles, eu nunca me permiti ficar mais íntimo deles.

Aos quinze eu já estava conformado com minha condição. Havia decidido que não me relacionaria com ninguém, porque o medo que sentia do julgamento alheio ainda era muito grande. Minha irmã, Bianca, estava no primeiro semestre de medicina e estava mais feliz do que nunca, mesmo estudando horrores.

Foi aos quinze também, poucos meses depois de prometer a mim mesmo que jamais revelaria a alguém sobre minha sexualidade, que conheci Eros. O veterano que sempre foi metido a cupido na escola. Não consigo entender até hoje o motivo que levou aquele garoto a me fazer passar pelo inferno na terra.

Ele sempre me provocava e me colocava em situações constrangedoras. Foi o que acabou acontecendo naquele dia de quinta-feira, onde ele me encurralou no vestiário e ameaçou contar a todos meu segredo. Foram minutos de horror para mim, Eros tagarelava coisa sem sentido sobre o amor e que ele não era justo e muito menos gentil. Ele foi a primeira pessoa que descobriu, depois de muito terror psicológico, que eu era gay.

Infelizmente não foi a única. Não sei nem de quantas formas diferentes xinguei e amaldiçoei mentalmente Jason Grace por ter espionado a conversa alheia.

Nesta mesma época minha mãe decidiu adotar uma criança e apareceu com Hazel. Não sei dizer o que senti logo no início, talvez simpatia? Ou quem sabe, afeição? Quando a vi chegar em casa com o corpo encolhido e olhar perdido, eu soube que seria um irmão mais velho meio protetor demais. Lembro de ter comparado a menina com um pequeno animalzinho medroso e arisco.

Ela foi a segunda pessoa a quem mais me dediquei. Eu ficava feliz em ver que minhas irmãs se davam tão bem e, mesmo não tão diretamente, sempre procurei as proteger de tudo. Infelizmente descobri naquele mesmo ano que nem sempre nós conseguimos proteger a quem amamos.

Naquele ano minha mãe estava a bordo de um avião que caiu e matou todos os passageiros. Era engraçado como as pessoas diziam que viagens de avião são sempre as mais seguras e que era um risco de 1% de algum cair.

Minha mãe teve o azar de estar inclusa naquele 1%.

Fiquei tão abalado que me tornei ainda mais recluso em mim mesmo. Hazel e Bianca se apoiaram uma na outra e enfrentaram a situação de cabeça erguida. Meu pai passou um bom tempo trancafiado no quarto e sempre tinha um ar melancólico nele.

Ele demorou a aceitar a morte de mamãe, mas teve que voltar a rotina de trabalho.

Eu, por outro lado, nunca fui bom com perdas. O psicólogo que passei a frequentar, depois de ser obrigado por meu pai, afirmou que se tratava de depressão. Disse que aquilo era compreensivo e que eu poderia melhorar se quisesse. Depois disso, comecei aos poucos a voltar para minha rotina e a conversar com o pessoal.

No meu aniversário de dezesseis anos, meu pai me presenteou com um colar que ele e mamãe deveriam ter me dado juntos. Era de ouro e tinha um pingente retangular feito especialmente para se guardar duas pequenas fotos dentro.

— Sua mãe queria que você guardasse ai dentro as fotos das pessoas mais importantes da sua vida — lembro que meu pai disse com a voz suave e um sorriso melancólico.

Dentro estava apenas uma única foto de mamãe com Bianca. Por mais que eu já amasse Hazel, aquelas duas mulheres na fotografia foram e sempre seriam as mais importantes para mim. Minha mãe, que sempre me amou e que me criou, e minha irmã que me protegeu e mimou como apenas irmãs mais velhas poderiam fazer.

Poucos meses depois de meu aniversário de dezesseis, Bianca faleceu.

Não consigo lembrar aquele dia, sem que a dor e o desespero me afoguem. Era madrugada de um domingo do dia 15/09/13, eu assistia a um filme com Hazel e meu pai dormia no quarto dele. Tudo estava tranquilo até que eu senti uma dor e aperto no peito, meus olhos se encheram de lágrimas e eu chorei.

Chorei como nunca havia chorado em minha vida.

Obviamente Hazel ficou desesperada com aquilo e correu para acordar meu pai. Eu balbuciava o nome de minha irmã repetida vezes e tremia pelo choro angustiado. Vinte minutos depois meu pai recebeu uma ligação vinda do celular de Bianca. Mas não era ela ligando.

Minha irmã havia sofrido um acidente de carro. Um bêbado desgovernado invadiu em alta velocidade a pista contrária. A batida havia sido tão violenta que os jornais não mostraram a fotos do estado do carro, o bêbado havia fugido e minha irmã e o taxista morreram na hora. Zoe Doce-Amarga, a amiga de Bianca, morreu ao caminho do hospital.

O resto eram apenas borrões confusos. Lembro de ter passado noites e mais noite chorando, não ia mais a escola, não conversava, não comia... Minha depressão havia voltado mais forte e nem o psicólogo estava conseguindo me ajudar.

Foi apenas quando eu fui internado por desnutrição e anemia que percebi o que estava acontecendo. Foi quando vi o rosto cansado e preocupado de meu pai e a aflição no olhar de Hazel que percebi não estar sozinho. Surpreendentemente Jason me visitou todos os dias no hospital e eu não acreditei quando o vi parado na soleira da porta com um ar de preocupação.

— Moleque irresponsável! Tem noção do quanto ficamos preocupados contigo?! Nunca mais faça isso! — foi depois desse discurso reprovador e do sorriso aliviado por me ver bem, que eu dei espaço para que o loiro finalmente entrasse em minha vida.

Depois que saí do hospital, Jason fez o favor de garantir ao meu pai que, pelo menos na escola, eu estaria muito bem vigiado e cuidado. O loiro se esforçava para ganhar minha confiança e amizade e, aos poucos, confesso que fui me apegando ao teu jeito certinho de ser.

Foi no ano em que faria dezessete que conheci Reyna. Garota centrada, exemplar e esperta. Eu mesmo fiz questão de começar uma conversa com ela e não me arrependo da minha escolha. Ficamos ainda mais próximos depois que descobri que partilhávamos de dores semelhantes.

Reyna era a melhor amiga que eu poderia ter.

Com a ajuda de Hazel, Jason e Reyna, aos poucos fui erguendo minha vida. Ainda vestia preto e falava pouco, mas já estava consideravelmente melhor. Até meu pai parecia ter melhorado depois de minha reviravolta na depressão.

Tudo estava bem até ele chegar.

Garoto abusado, enxerido, prepotente e simpático demais. Will Solace era tudo o que eu não gostava numa pessoa. Era o típico estereótipo de garotinho mimado e mulherengo de filme hollywoodiano.

— Nico... O novato está te olhando. Sorria e acene quem sabe você não sai da seca? — foi o que Reyna me falou no primeiro dia de aula onde Will se apresentou. Apenas sorri minimamente e neguei com a cabeça, revirando os olhos.

Tentei ao máximo evitar contado com aquele ser envolto de luz própria. Cedo ou tarde suas atitudes infantis e imaturas apenas confirmariam minha suspeitas de que ele era apenas mais um tipinho que logo se perderia para a bagunça e popularidade da escola.

Ledo engano.

Suas tentativas de se aproximar me tiravam do sério. Mesmo com as respostas atravessadas e expressões de desagrado, Will Solace nunca desistia de se aproximar de mim. Eu me afastava porque aquilo era estranho para mim.

Ele simplesmente chegou se apossando da minha vida, sem nem ao menos pedir licença, como se tivesse o direito de bagunçar os meus sentimentos.

Eu ficava extremamente confuso quando ele estava por perto. Aos poucos eu me peguei conversando amigavelmente com ele e me repreendia por isso. Perdi as costas de quantas vezes me vi sorrindo sozinho depois de ler uma mensagem dele, ou quando ele ia embora lá de casa, depois de uma tarde sem fazer absolutamente nada.

Acho que depois do dia em que ele me pegou chorando o aniversário da morte de Bianca, eu abri uma brecha para entrar e fincar uma bandeirinha em meu coração, demarcando o território. Depois daquele dia, Will Solace foi ficando tão presente em minha vida que acabou desestabilizando todas as barreiras que formei ao redor de mim desde meu quatorze anos.

O dia em que confessei gostar dele, quando meu pai fez o favor de convidar a todos e anunciar que estávamos namorando as escondidas, eu estava com o coração na mão. Nunca havia planejado aquilo! Nunca previ que um dia eu conheceria alguém capaz de me fazer bambear e ficar sem rumo com apenas um olhar carinhoso e sorriso safado.

Lutei tanto para não me apegar, não me apaixonar, que quando percebi estava tão entregue aquele namoro que me assustei.

Nossa primeira vez havia sido meio desajeitada, levemente alcoólica e totalmente inesperada. Tudo por culpa do ciúme que eu sentia, e que jamais admitiria, por Drew. Mas mesmo sendo inesperada, havia sido perfeita. Foi naquele momento que eu percebi o quanto estava apaixonado por ele.

Lembro de cada toque receoso e cada sussurro. Mesmo sendo numa festa e inesperado, para mim havia sido perfeito.

No dia seguinte minhas inseguranças vieram à tona e brigamos. 179 foram os dias em que não nos falamos por minha culpa. Guardo rancor com muita facilidade e ver Will beijar justamente a Drew, havia sido a gota d’água para mim. Fiquei possesso de raiva, ciúmes, mágoa, ressentimento... E tristeza. Muita tristeza.

Foi Hazel que me convenceu a ir aquele acampamento da escola e aposto que foi ela junto com Reyna que tramaram as organizações dos quartos. A chance era mínima de eu e Will ficarmos no mesmo quarto, e mesmo assim tivemos que dividir o chalé 13.

Hoje fico feliz que elas fizeram isso, porque foi graças a essa convivência forçada que nós fizemos as pazes. Depois de esclarecermos todo o mau entendido e de uma tarde realmente angustiante para mim, eu finalmente havia percebido que Will Solace já era fundamental para mim. Um pilar para minha sanidade.

Talvez naquela época eu já amasse aquele loiro, mas como eu não era bom com palavras só fui me declarar meses depois. Quando eu tinha plena certeza do sentimento nutrido.

Faz pouco mais de um ano e meio que estamos vivendo juntos. Nesse meio tempo eu havia feito amizades na faculdade, assim como Will. Entretanto vivíamos discutindo a respeito dos ciúmes que ele sentia de meus amigos, na verdade de um em específico.

Não consigo entender o motivo que o leva a ter tanta desconfiança e ciúmes, já que pela lógica eu era para ser o ciumento exagerado. Nossas discussões sempre se baseavam nos ciúmes desmedidos dele, entretanto poucas vezes confesso que as brigas vinham de mim sempre que via Will conversar simpático demais com alguma menina do curso, ou até mesmo da universidade.

De fato nessas horas meu ciúme e receio falavam mais altos e quando percebia, estávamos brigando por algo besta.

— Olha quer saber?! Não dá pra mim! Cansei! — escutei os gritos dele e então a porta da sala bateu com uma força exagerada.

Arriei meus ombros e a passos trôpegos, descansei meu corpo exausto na cama de casal. Olhei o relógio na escrivaninha e fechei os olhos, contendo o décimo suspiro da noite. Will provavelmente passaria o resto da noite fora e, se voltasse, não dormiria aqui no quarto.

Mais uma vez havíamos discutido.

Will às vezes não conseguia disfarçar o ciúme e isso acabava se refletindo em suas atitudes precipitadas, principalmente com meus amigos da faculdade. Noah era o que mais sofria com os ciúmes de Will, o rapaz de cabelos e olhos marrons vivia sendo vitima das grosserias desmedidas provocadas pelo outro.

Não sei quanto tempo havia se passado desde que Will saiu batendo a porta e eu fiquei apenas deitado encarando a parede. Levantei devagar da cama e destranquei a porta do quarto. Há passos cautelosos, eu fui para a área de serviço e peguei a vassoura para limpar a bagunça causada. De pedaço a pedaço, fui catando os cacos de vidro espalhados pela sala, minha visão começou a nublar e solucei, percebi que chorava sentado segurando nossa foto amassada.

Escutei a porta abrindo e não tentei esconder o que acontecia ali na sala. Por mais vergonhoso que seria eu não tinha nem forças para tentar parecer forte e rebater as acusações dele para cima de mim.

— Nico? — sua voz vacilante quebrou o silêncio da sala.

O olhar dele era desolado a me ver chorar. Ele sabia que eu apenas chorava a morte de minha mãe e irmã, apenas para isso. Sabia que eu odiava chorar. Tentei levantar, mas escorreguei e cai apoiando minha mão num caco de vidro. Não me importei com a dor e nem com o sangue pingando no chão.

Tentei me desvencilhar de suas mãos trêmulas. Tentei não olhar em seus olhos e ver ali o arrependimento. Tentei parecer forte e impassível, recolocar aquela máscara de indiferença que tanto usei quando nos conhecemos.

Mas Will já me conhecia bem demais para saber desarmar uma a uma, todas as minhas barreiras.

Deixei-me guiar até a cozinha, onde ele gentilmente lavou minha mão na água corrente e correu para buscar a caixa de primeiros socorros no banheiro. Vi pelo relógio pendurado na parede que eram duas horas da madrugada, mas não senti aquela curiosidade em saber onde ele estava. Não tinha cheiro de bebida muito menos um perfume desconhecido. No fundo eu sabia que Will jamais seria capaz de me trair.

Quando voltou não olhei em seus olhos e fiquei quieto todo o tempo em que ele cuidou de minha mão ferida. Mesmo quando terminou o curativo, depois de vários minutos num silêncio verdadeiramente incômodo, eu apenas saí andando até o quarto e fechei a porta, deitando mais uma vez na cama tentando, em vão, dormir e esquecer o que havia acontecido.

Quando acordei na manhã seguinte, minha mão doía um pouco, mas nada que fosse de fato incomodar. Encontrei Will na cozinha, sentado a mesa e encarando uma xícara de café.

— Acho que precisamos falar sobre ontem — escutei a voz rouca.

— Temos?

Will suspirou e apertou a xícara entre as mãos. Sentei-me de frente a ele na mesa e esperei-o começar a conversa. Sabia que tínhamos que falar alguma coisa, mas não seria eu a começar.

— Me desculpa... — falou me olhando suplicante.

— É sempre assim... Nós sempre brigamos porque você não sabe controlar o ciúme. Já parou pra pensar se isso tem futuro do jeito que está? Isso é difícil, desgastante... Cansa Will — falei pausadamente, procurando as palavras certas.

— Eu sei. Eu tento fazer o meu melhor, mas tenho muito medo que você encontre alguém melhor, que você deixe de me amar e me abandone!

— Pelo amor de Deus, Will! — esbravejei me levantando da cadeira, descrente com as palavras que saiam da boca dele — É difícil pra você entender que eu não vou te abandonar?! Para de ficar pensando essas bobagens sem sentidos! Não tem ninguém melhor do que você e, se houver, dane-se! É você que quero!

Ri com desgosto e esfreguei as mãos em meu rosto. Quanto mais tempo eu passava ao lado de Will, mais expressivo eu ficava. Se fosse antigamente, duvido muito que eu falaria todas aquelas coisas tão abertamente.

— Você tem que confiar mais em mim e em você mesmo — falei amenizando a voz e me aproximando do loiro.

Will crispou os lábios e assentiu devagar. Seus olhos mostravam um brilho determinado e seu sorriso, mesmo pequeno, parecia feliz.

— Eu realmente não gosto daquele garoto — comentou soltando uma risada fraca.

— Noah tem uma namorada muito gentil e bonita. O problema dele é que ele é carinhoso demais — comentei revirando os olhos e afastando o corpo dele do meu — Espero que o que aconteceu ontem não volte a se repetir.

— Não vai — falou envergonhado — Tenho que comprar outro porta-retrato...

Concordei e beijei rapidamente seus lábios. Por mais que Will falasse que não iria ter seus acessos de ciúmes, eu sabia que não seria bem assim. Seria difícil tanto para ele, quanto para eu conseguir superar a briga de ontem à noite, foi a mais séria em toda nossa convivência juntos. Fui até o quarto para guardar a foto sobrevivente e meus pensamentos se voltaram mais uma vez na noite passada.

Meneei a cabeça tentando desviar meus pensamentos a respeito da briga e respirei fundo. Will já estava preparando o almoço, vestindo um avental ridículo que ele insistiu em comprar e cantarolando uma música que eu realmente não conhecia.

— Que música é essa? — não queria saber de fato qual era a música, perguntei apenas para tentar amenizar o silêncio grotesco em que a cozinha ficou.

— Ahn... N-não é nada não — sua voz gaguejada denunciou. Ergui minhas sobrancelhas em descrença e sorri de canto.

— Ah! É a música que eu pedi tem quase sete meses!? — Will tencionou os ombros e suspirou derrotado.

— Era pra ser... Mas estou com um bloqueio. Não consegui sair nem do começo dela — riu sem graça.

— Não tenha pressa, não vou a lugar algum mesmo — dei de ombros rindo baixinho.

O resto da manhã e tarde foram tranquilos. O clima estranho e inconveniente foi desaparecendo aos poucos conforme nós íamos conversando e agindo normalmente. Brigas acontecem num relacionamento e geralmente eram com elas que o casal vai ser fortalecendo e aprendendo.

~*~

Sabe quando você sabe que a pessoa sabe que você sabe o que ela tentou esconder? Então...

Quando eu contei a Jason que eu sabia que ele estava tentando seguir em frente, depois de passar vários meses deprimido pelo término com Piper, saindo com uma colega de faculdade, ele ficou extremamente envergonhado e depois quis me matar quando eu disse que sem querer contei a Will, que contou a Matt, que contou a Reyna, que contou a Percy, que contou a Annabeth, que contou a Piper...

Enfim, todo mundo acabou sabendo.

Eu descobri porque mesmo estando em estados completamente diferentes, eu ainda sabia o que meu melhor amigo (Percy que me desculpe) andava aprontando.

Ainda não entendo como você ficou sabendo! — Jason resmungou.

— Tenho contatos, até parece que não sabe — mesmo sabendo que ele não podia ver, dei um sorriso sarcástico.

— Só espero que Piper não esteja ressentida comigo... Eu realmente gosto dela.

— Ah relaxa. Soube que ela está curtindo bastante, se não me engano está namorando um cara por lá também — comentei casualmente e ouvi Jason do outro lado engasgar e tossir — Ei, ‘tava só brincando.

Merda, Nico! Quase que morri aqui! — esbravejou — Mas seria injusto se eu quisesse cobrar alguma coisa dela... Relacionamentos são complicados...

Concordei com a cabeça, mas lembrei que ele não podia ver. Decidi então ficar quieto e esperar ele puxar outro assunto. Escutei ele arfar surpreso e dar uma risada.

Dois anos, uh? Parece que foi ontem que meu bebê ‘tava todo confuso por causa do Solace!

— Nem me fala... Nunca imaginei que um dia estaria comemorando dois anos de namoro — comentei ignorando completamente o “bebê”.

Eu estou bem feliz por você, Nico — vi Will sair do quarto já pronto para sairmos e estranhar eu estar falando no telefone. Respondi que era Jason quando ele involuntariamente ergueu uma sobrancelha.

— Manda um oi por mim — comentou sumindo, de novo, pela porta do quarto. Provavelmente procurava a carteira ou chave do carro.

— Obrigado Jason — sorri.

Até mais Nico.

— Até, Jason — desliguei o celular ainda com um sorriso feliz no rosto e vi Will voltar já com uma pequena mala em mãos.

— Está pronto? Fiz essa malinha pequena, vamos ficar lá só por um dia mesmo — comentou me entregando a mala.

— Mala? Pra onde vamos? — estreitei os olhos e Will sorriu travesso.

— Sur-pre-sa — ditou divertido.

Apenas rolei os olhos e deixei que ele continuasse a fazer o pequeno mistério.

~*~

Fiquei genuinamente surpreso quando Will me acordou no final da viajem e percebi que estávamos no acampamento Meio-Sangue. Perguntei para Will o que fazíamos ali e ele apenas me disse para ter calma que eu já descobriria.

Assim que atravessamos o portal do acampamento, nós nos dirigíamos para a Casa Grande e encontramos Tântalo jogando pinochle com um grupo de pessoas trajadas com blusas do acampamento, os funcionários talvez.

— Boa tarde a todos — Will cumprimentou.

— Boa tarde — Tântalo respondeu levantando olhos para nós dois — Você deve ser o rapaz que alugou o chalé 13, certo?

— Isso mesmo.

Após assinar o check-in do acampamento, quando nós viemos com a escola quem fez isso foi Dionísio, Will dispensou a ajuda do funcionário afirmando que já havia vindo para cá e se lembrava do caminho.

— Eu não acredito que você me trouxe pra cá! — exclamei olhando o chalé que não havia mudado em absolutamente em nada.

— Falei que iria se surpreender — deu de ombros e me puxou para perto, me beijando logo em seguida — Agora vamos tomar um banho e descansar um pouco, mais tarde quero te mostrar uma coisa.

— Sabia que você estava me escondendo algo — acusei tentando fingir indignação.

Acordei pouco tempo depois com Will me sacudindo pelo ombro e me chamando incessantemente. Falou apenas para colocar uma roupa que ele queria me levar num lugar.

Durante todo o percurso, eu notei que Will estava mais nervoso que o costume. Tentei perguntar o que estava acontecendo, mas ele apenas me dizia que estava bem e que já iria passar. Entramos na floresta e então percebi onde Will queria me levar.

— No riacho? Porque lá? — minha curiosidade agora era quase estratosférica.

— Você já vai saber.

Assim que chegamos, foi impossível esconder minha cara de surpresa. Perto do pequeno riacho, Will estendeu uma toalha de piquenique e disposto sobre ela tinha lanches do Mc Lanche Feliz e latinhas de Coca-Cola.

— Não acredito nisso — falei incrédulo. Escutei Will sussurrar que ainda tinha mais e me puxou para perto dos lanches.

Sentamo-nos e então Will pediu para que eu abrisse o lanche a minha frente. Primeiramente vi o pacote do brinde, mas não prestei muita atenção nele, já que era um brinquedinho qualquer, e peguei direto o sanduíche. Will me olhava com expectativa, e certo receio.

Foi então que vi. Escrito com o gergelim que vem no pão, tão perfeitamente organizado como se ele tivesse escrito gergelim por gergelim (o que não duvido) que me chocou. Uma única pergunta que fez meu coração quase saltar pela boca e meus olhos lacrimejarem.

Vuoi sposarmi?

Vi Will pegar o embrulho do brinde e de lá ele tirou um boneco do Jack Sparrow segurando uma aliança. Will sorria nervoso quando me entregou o boneco.

— Eu devia era te pedir em namoro, já que não chegamos a oficializar em palavras... — brincou rindo nervosamente — Decidi que aqui seria perfeito porque foi exatamente nesse local que nós dois percebemos a profundidade dos nossos sentimentos.

Minhas mãos tremiam e minha voz tinha sumido.

Como Will conseguiu fazer tudo isso?! Sem que eu ao menos desconfiasse de nada?! O pedido de casamento em italiano conseguiu deixar o momento ainda mais especial. Lembrei-me de minha mãe e então um sorri. Já não tentei esconder as lágrimas de felicidade.

Sì amore mio — respondi deixando que ele colocasse a aliança em meu dedo.

Há muito tempo eu tinha dito para minha mãe que eu não me apaixonaria e que, se algum dia eu me apaixonasse, seria para sempre. Que não havia meio termo para mim, entregaria meu coração por completo, amaria por inteiro. Por isso nunca quis namorar, por isso guardava meus beijos. No fundo, eu era apenas um rapaz romântico demais que parecia ter nascido na década errada.

Will Solace havia definitivamente quebrado minhas barreiras e ganhado meu coração de bandeja.

“When I fall in Love
It will be forever[...]

When I give my heart
It will be completely[...]

And the moment
I can fell that
You fell that way too
Is when I fall in love with you”¹

Notas finais
¹ Música "When I fall in love" - Nat King Cole feat. Celine Dion. Segue o link da letra traduzida se quiserem ver: https://www.letras.mus.br/nat-king-cole/67499/traducao.html Estou de fato, in love com essa música e esse capítulo! ♥ Se não perceberam, eu tentei conciliar tudo o que Nico fazia ao longo da fanfic (e que era na visão do Will) desde a risada do Nico que o Will descreveu no capítulo dois até a insistência do mesmo. Nada falarei da notória queda de comentários... Apenas saibam que me deixam extremamente triste e frustrada. Mas obrigado a todos os que continuaram a comentar! ♥ E assim, aquela minha meta foi cumprida e já posso postar o tão esperado capítulo 41 tanto aqui, quanto lá no Social! Só dando um pequeno spoiler, ele tem mais de dez mil palavras! *-* ♥