Preto é a Cor do Amor
14 Eu o amo?
Notas iniciais
“- E se nós chamássemos todos para a sua casa? Pra você sabe... Lá tem uma piscina, uma casinha nos fundos... Bem afastada... – disse Piper.
– Ótima ideia, Pips – respondeu Jason.”
– Will
– Uma festa na piscina? – perguntei com a sobrancelha arqueada.
Jason nunca, durante o tempo (meses) que estive aqui em Nova Iorque, havia me chamado para ir em sua casa, ou mesmo em uma festa que ele organizava. Embora eu tenha escutado falar que os irmãos Pólux e Castor, ambos filhos do diretor Dionísio, é quem davam as melhores festas da região. Era esperado quase o ano inteiro para a famosa festa de Halloween que eles organizavam, apenas recebe convites para essa festa pessoas importantes e aqueles que são amigos dos dois. Quando descobri isso, consegui entender toda a animação de Percy para o mês de Outubro, o moreno era amigo dos irmãos.
– Sim! – Piper comentou alegre, abraçada no braço de Jason – Vai ter música boa, bebida, piscina, diversão... Tudo que uma sexta feira a noite pede! – sorriu abertamente, claramente ansiosa pela minha resposta.
Festa, bebida e música alta. Já não participava de algo bom desse tipo há muito tempo, eu necessitava de um pouco de álcool no meu organismo e de algumas, ou uma já que não posso exigir muito, menina para aliviar minha abstinência. Olhei para Jason que sorria amigavelmente e para Piper que me olhava esperançosa, parecia até estar tramando algo. Me arrepiei quando esse pensamento cruzou minha mente.
– Tudo bem – respondi e a menina deu um pulinho feliz. Ergui a sobrancelha, extremamente confuso.
Jason a olhou repreendo-a e envolveu sua mão na cintura da menina, a puxando para perto de si e sussurrando algo em seu ouvido.
– Er... Que bom que você vai Will... – disse ela, corada – Desculpa pelo mini surto, fiquei feliz que vai na festa... Quase nunca saímos todos juntos, sabe?
– Pois é – Jason complementou – Vai ser a primeira festa minha que Will vai participar! Quero ver o que ele vai achar. Aposto que vai ser melhor do que todas as que ele já foi em Malibu! – riu.
– Duvido... – comentei brincalhão e dei um soquinho no ombro de Jason. Vi Nico entrar na sala e o sorriso se alargou em meu rosto.
Nico estava com a cara fechada e um bico enorme no rosto.
– Ei Nico! – Jason gritou andando até o moreno, Piper andou até as meninas e elas começaram a conversar animadas.
Andei devagar até estar perto o suficiente para escutar a conversa dos dois. Não sou uma pessoa curiosa, mas desde que conheci Nico tenho uma vontade e enorme de saber tudo da vida do moreno.
– Tá a fim de ir lá em casa hoje? – Jason perguntou descontraído.
– Fazer o que lá? – o moreno perguntou desinteressado.
– Vou fazer uma festa. Aproveitar que Zeus e Hera vão numa viajem “romântica” – falou fazendo aspas na mão – E Thalia provavelmente deve ter um turno noturno hoje.
– Não quero – respondeu seco.
Jason suspirou e bagunçou os cabelos loiros. Ele olhou rapidamente para Piper e ela, quando percebeu, fez um positivo com a mão. Estranhei e passei a prestar mais atenção naqueles dois. Eles andavam muito estranhos ultimamente.
– Porque não Nico? – Jason perguntou visivelmente chateado.
– Porque não quero – desviou do moreno e andou até a sua carteira.
No caminho nossos olhares se cruzaram e eu sorri amigável para ele. Nico apenas crispou os lábios, aparentemente nervoso, e desviou os olhos. Não entendi sua reação e continuei a olhá-lo, embora eu sentisse quatro pares de olhos em minha pessoa.
– Vamos Nico... Sabe quem vai estar lá? – Jason tentou mais uma vez.
– Não quero saber – respondeu.
– Thalia vai estar lá! – sorriu sem se importar com a resposta anterior de Nico.
– Mas você não acabou de dizer que ela vai estar num turno noturno? – o moreno o fitou e Jason engoliu em seco, sorrindo amarelo logo em seguida.
– Eu posso pedir pra ela ficar... – comentou esperançoso. Nico bufou e se escorou na cadeira.
– Tanto faz – resmungou e Jason sorriu animado. Andou até Piper e a abraçou, mas estranhamente a menina sorriu radiante e deu outro pulinho feliz.
Observei os dois até me tocar que o professor de história, Quíron, já havia entrado na sala e eu era o único em pé. Andei até minha mesa, ao lado da de Nico, e peguei meu caderno. Sabe aquela vontade quase incontrolável de tocar, ficar perto, conversar e ver o sorriso de uma pessoa? Eu não conhecia isso muito bem até que comecei a sentir tudo isso com Nico. Quando estou ao lado dele durante a aula eu sinto uma sensação de paz, de conforto, e quando sinto o cheiro do perfume amadeirado dele nenhum outro se compara, eu me sinto em casa. Devo dizer que nunca senti isso por ninguém e toda hora durante a aula eu arranjo um jeito, mesmo que mínimo possível, para tocar a pele pálida e macia do moreno.
– Qual é o seu problema? – escutei Nico sussurrar, nervoso.
– Ahn? – perguntei distraído, copiando a matéria do quadro.
– Tira a sua mão de cima da minha! – esbravejou e só então eu notei o que estava fazendo.
Minha mão estava em cima da mão que Nico havia pousado na mesa, o moreno tentava puxar, mas eu segurava firme sem nem perceber. Corei e soltei a mão do moreno rapidamente, Nico olhou para sua mão e depois para mim e fechou a cara.
– Não faça isso de novo – resmungou e eu apenas balancei a cabeça, afirmando.
~*~
– Você fez o que?! – Percy perguntou rindo. Se eu não estivesse tão corando e envergonhado, algo que eu quase nunca fico, eu poderia até socar a cara dele, mas confesso que para outras pessoas a situação seria engraçada.
No intervalo eu chamei Percy e Annabeth para uma conversa séria e particular. Eu não sabia com quem conversar e eles não me pareciam pessoas ruins pra se abrir. Decidi então, pedir conselhos para os dois, porém não acho que tenha sido uma boa ideia chamar Percy também.
– É sério! – resmunguei – Eu não sei o que é isso! Toda vez que ele está perto eu me sinto feliz, completo, sinto um fogo aquecer meu coração, seu olhar quando encontra com o meu me tira de órbita, seu cheiro me alucina, seu corpo e movimentos atraem tanto minha atenção que só vejo ele...
– Will – escutei Annabeth me chamar e parei minha narrativa de sentimentos – Já sei o que é isso.
Ela olhou para Percy, que agora se encontrava sério e suspirou.
– É verdade que sente tudo isso quando vê ou fala ou até mesmo fica perto de Nico? – perguntou novamente e eu bufei frustrado.
– É claro! Eu não ia brincar com algo serio desse jeito! – falei de cara fechada. Percy se levantou e andou a passos pesados até minha direção.
– Olha só, Nico já sofreu demais e se você fizer alguma coisa que fará ele chorar, ficar triste ou até mesmo com o olhar desanimado eu te mato – falou sério com a mão em meu ombro.
– O que?! – meus olhos se arregalaram – Porque eu faria isso?! Alias o que eu tenho?!
– Já parou de bancar o irmão ciumento? – escutei a loira rir e Percy abriu um sorriso brincalhão. Minha cara deveria ser muito engraçada, pois o moreno começou a rir.
– Will você está gostando do Nico – respondeu minha pergunta que pairava no ar – Me atrevo a dizer que está completamente apaixonado por ele.
– Mas é serio, vou te matar se machucar Nico – Percy parou de rir novamente e me olhou sério.
Não liguei muito para suas ameaças e sai do local às pressas. O sol bateu em meu rosto, mas nem mesmo ele foi capaz de dissipar a confusão que estava na minha mente. As palavras de Annabeth não paravam de se repetir na minha mente, palavra por palavra, letra por letra, parecia até um replay infinito.
Minha cabeça girava e doía, a claridade solar começou a me incomodar. Suspirei pesadamente e só então percebi que estava na parte mais afastada no campus da escola. Era uma área média e havia apenas alguns alunos que estavam sentados no gramado apenas de olhos fechados aproveitando o sol, olhei para a única árvore do local e andei até ela.
– Eu não entendo... – falei comigo mesmo.
Como eu podia sentir tudo isso em tão poucos meses de convívio com Nico? Como ele com aquele jeito sério, misterioso, frio, calado, conseguiu me conquistar? Muitas perguntas rondavam minha mente, mas nenhuma resposta aparecia. Sentei ao pé da árvore e me encostei no troco dela, o vento bagunçava meus cabelos e alguns poucos pássaros cantarolavam nos galhos.
Olhei a tela do meu celular e vi que o intervalo estava prestes a acabar, mas eu não queria ter que voltar para a sala, me encontrar com Percy e Annabeth que sabiam de tudo e, principalmente, eu não queria ver Nico agora. Abri o WhatsApp e chamei Matt para conversar. Minha sorte foi que ele não prestava atenção na aula e me respondeu rápido.
“Que foi, cara?” perguntou assim que leu minha mensagem desanimada.
“Descobri que to gostando de alguém...” falei, eu confiava muito em Matt, ele nunca mostrou ser homofóbico nem nada do tipo. Já tinha até ficado com um rapaz, mas isso foi numa festa e ele já estava com um alto nível de álcool no sangue.
“Hum, e quem é a mina?!” perguntou curioso.
Fiquei nervoso em contar para ele que eu estava gostando de Nico, mas no fim eu suspirei e falei logo de uma vez.
“É um cara.” Falei.
“Veja só! Will Solace o cara mais pegador de Malibu, gostando de um cara?!” zombou de mim e eu me segurei para não xingá-lo.
“É sério isso seu imbecil! Eu não sei o que fazer! Nunca senti isso! Idiota, se fosse pra ficar rindo da minha cara eu não devia ter te contado!!”
“Ei ei, calma. O cara deve ser muito bonito pra você ter se atraído por ele... É só agir naturalmente, se desesperar e enlouquecer na frente dele não vai te ajudar. Conquiste-o, você tem um dom de conquistar os outros com apenas um sorriso, faça ele se apaixonar por você...” li tudo o que Matt havia escrito e suspirei. Ele poderia até ser uma “má” companhia, mas era o que mais me ajudava e aconselhava nas horas difíceis.
“Ele gosta de outro” lamentei.
“Então o faça parar de gostar desse outro. CADÊ O WILL QUE EU CONHECIA? ELE JAMAIS FICARIA SE LAMENTANDO POR COISA POUCA! DEIXA DE SER FROUXO! CORRE ATRÁS DO SEU HOMEM!”
“Valeu cara...” me despedi e levantei da árvore.
Matt sempre me animou quando eu ficava deprimido, e até agora mesmo estando longe, muito longe mesmo, ele ainda faz isso. Sorri lembrando do meu amigo rebelde irresponsável e voltei para a sala de aula.
A professora de matemática já estava na sala, escrevendo no quadro. Abri a porta devagar e pedi licença, ela apenas me olhou torto e permitiu. Vi de relance Nico copiando, sua mão estava no bolso do casaco, Percy e Annabeth sorriram para mim e eu desviei meu olhar direto para minha mesa. Senti alguém olhar para mim e não precisei nem pensar muito para perceber que era Drew me fuzilando.
– Ei – sussurrei assim que sentei na minha mesa. Nico se limitou a acenar e eu apenas suspirei – Que horas você vai pra festa do Jason? – perguntei.
– Não sei – respondeu – Por quê?
– Vamos juntos, te levo – sorri para ele, e Nico olhou para mim.
– Não precisa – respondeu.
– Passo dez horas pra te buscar – finalizei sorrindo. Nico revirou os olhos e voltou a anotar a matéria. Senti Percy me olhando e fingi nem perceber.
Sorrindo comecei a anotar a matéria.
~*~
– PAI! – gritei por Apolo na porta do meu quarto. Escutei ele falar alguma coisa na sala e gritei por ele novamente. Depois de alguns minutos escutei passos na escada.
– O que é criança?! – perguntou impaciente.
Fiz uma careta pelo apelido e andei de um lado para o outro do quarto. Hoje era um daqueles dias raros em que meu pai ficava em casa numa sexta feira a noite.
– Eu preciso te pedir um favor... Me empresta a chave da moto? – sorri amarelo.
– Você vai numa festa encher a cara e quer ir de moto? Tá doido? Acha mesmo que vou emprestar? – perguntou sério.
– Mas eu não vou beber, quero me lembrar do que vou fazer essa noite! – sorri. E por causa dessa minha frase, meu pai arqueou uma sobrancelha loira e me analisou dos pés a cabeça.
– Não quero ser avô tão cedo, ouviu menino?! – estreitou os olhos.
– Não vai ter problemas com isso, pode ter certeza – pensei, mas só depois notei que havia falado alto.
– Já entendi – Apolo sorriu e andou até a porta – A jogada da moto foi bem pensada, mas não o force a nada.
O olhei sem entender e quando vi seu sorriso malicioso e os olhos me encarando, percebi que ele já sabia da verdade. Corei, mas não falei nada, apenas olhei minha cama com a roupa estendida nela.
– A chave vai estar na mesinha da sala – comentou – Boa festa.
– Obrigado – agradeci.
Apolo saiu rindo do meu quarto e eu apenas desabei na cama, caindo em cima da roupa, e suspirei rindo. Minha relação com Apolo estava até melhorando, em pouco tempo, nós já conversávamos como pai e filho que se conheciam e conviviam desde sempre. Apenas minha relação com minha mãe que não havia melhorado, na verdade não falo com Nora desde que vim para Nova Iorque.
21:10 p.m.
Levantei da cama e rumei ao banheiro, liguei a banheira e coloquei sais de banho perfumados na água. Eu não queria pensar que eu estava me aprontando para chamar a atenção de Nico, mas era exatamente isso que eu estava fazendo. Lavei meus cabelos, esfreguei meu corpo e fiquei cinco minutos apenas refletindo sobre minha vida, agora já não tão movimentada.
21:30 p.m.
Eu já estava parado em frente a minha cama, com a cortina da janela fechada, e analisava a roupa na cama, uma calça jeans azul escura e blusa branca. Como eu queria agradar Nico, que gosta de preto, eu teria que usar uma blusa preta. Fiz uma careta com a ideia de vestir preto, mas rapidamente me lembrei que eu não tinha nenhuma roupa preta no armário. Andei até o quarto de Apolo e abri o guarda-roupa dele, minha boca deu uma leve caída quando vi roupas de grifes dobradas e organizadas. Procurei uma blusa preta, que coubesse em mim, no seu armário e encontrei uma social lisa com botões também negros.
Sorri e vesti a camisa, ajeitei no meu corpo, deixei os três primeiros botões abertos, mostrando um pouco do meu peitoral, e voltei ao meu quarto para calçar os sapatos e arrumar os cabelos.
21:50 p.m.
Eu olhava para o reflexo no espelho e sorria satisfeito com o resultado. O jeans justo realçava bem minhas coxas, a blusa preta com os primeiros botões abertos me dava um ar totalmente sexy, e os cabelos meio bagunçados me fazia parecer aqueles caras bad boys descolados. Tudo isso ficaria perfeito com a moto Harley Davidson de Apolo. Eu parecia até o antigo Will Solace que saia todas as noites e se arrumava assim todos os dias. Balancei a cabeça para espantar as lembranças do passado e olhei o relógio. 21:55 p.m. Eu deveria passar para buscar Nico, que coincidentemente, é meu vizinho.
Peguei a carteira e identidade e sai do quarto, pulando de dois em dois os degraus da escada. Escutei Apolo me elogiar e dizer que a moto já estava na frente de casa apenas me limitei a disser obrigado. Empurrei a moto até a frente da casa de Nico, já que éramos vizinhos, e esperei até que ele saísse de casa.
Não demorou nem dez minutos e vi Nico abrir a porta. Meu coração bateu forte quando o vi e me segurei para não dizer o quanto ele estava lindo. Sua calça jeans preta com detalhes rasgados era justa e marcava bem as pernas finas dele, sua blusa um pouco larga, preta, tinha detalhes em vermelho e seus cabelos rebeldes estavam com um ar de quem acabou de acordar. Nico chegou perto olhando para mim com uma certa curiosidade e depois para a moto, não pude deixar de notar sua avaliação geral para minha pessoa e muito menos o sorrisinho que ele tentou disfarçar.
– Preto? Pensei que não gostasse de preto – comentou pegando um capacete da minha mão.
– Acho que estou aprendendo a gostar – falei o olhando fixamente – Vamos?
Nico concordou e então eu liguei a moto. Esperei ele subir e se ajeitar, e dei a partida. Senti suas mãos me segurarem firme e meu coração enlouqueceu, Nico foi o caminho inteiro segurando firme minha cintura. Pude sentir o perfume amadeirado dele misturado com sabonete. Sorri.
A frente da casa já estava cheia de jovens com copos coloridos na mão e com a música eletrônica alta. Rapidamente estacionei a moto e senti a mão de Nico me abandonar e ele descer dela, sua cara não era uma das melhores, ele olhava para aquele amontoado de pessoas com o copo levantado e balançava a cabeça em sinal de reprovação. Se ele achava aquilo ruim, não vou nem contar para ele minhas histórias de quando eu ia pras festas e voltava pra casa só na manhã do dia seguinte parecendo um mendigo ambulante.
– Vamos – falei puxando o moreno pela mão. Nico não reclamou.
Demorou um pouco, mas no final consegui encontrar Jason e Piper no meio da sala, dançando ao ritmo da música. Conversamos um pouco e Nico parecia um pouco desconfortável em estar no meio de tanta gente.
– Jason, Thalia está aqui? – escutei ele praticamente gritar no ouvido de Jason. A música estava muito alta.
– Não! Ela teve que ir pro turno noturno – respondeu também quase gritando.
Nico bufou e se virou para ir embora, mas numa virada rápida ele acabou esbarrando numa pessoa. Quando notei de quem se tratava, minha vontade foi de puxar Nico e não deixá-la se aproximar dele.
– Olá, Nico – Drew falou com sua voz irritante e com um copo vermelho em mãos. Seu sorriso era maléfico, assim como sua personalidade, mas algo ali naquele sorriso fez todos os pelos do meu corpo se arrepiar.
Drew faria alguma coisa nessa festa, e algo dizia que não era uma coisa boa.
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