Preto é a Cor do Amor
15 Eu nunca o amei
Notas iniciais
— Will
— Quem convidou Drew? – escutei Jason perguntar a Piper. A menina olhou raivosa para a irmã e respondeu o loiro.
— Ela deve ter escutado eu chamando Rachel pelo telefone – comentou a menina.
Eu estava parado ao lado de Nico. Drew o olhava como se pudesse perfurá-lo com os olhos, e ele apenas olhava para ela com descaso.
— Me deixa passar – falou Nico. Drew sorriu e colocou uma mão na cintura.
— Cadê a educação? – a asiática provocou. Nico bufou e revirou os olhos.
— Eu não te devo educação – respondeu ríspido. Drew inflou as bochechas e arregalou os olhos.
A morena estava pronta para bater na cara de Nico, mas nessa hora Percy e Annabeth apareceram sorrindo e rindo. Quando nos viram, vieram em nossa direção, notei que a roupa de Percy estava molhada e sua camisa branca estava colada em seu peitoral, ele havia pulado na piscina. Olhei Nico rapidamente e o moreno havia se retesado com Percy ao seu lado. Infelizmente quando voltei meu olhar para Drew, ela sorria maldosamente e seus olhos brilhavam malignos. Ela havia percebido que Nico gostava de Percy.
— Olha que interessante! – exclamou. Meu olhar desespero pousou na menina, mas ela apenas riu.
— Drew... – Piper tentou contê-la.
— Me admira descobrir que o pequeno emo gosta de alguém e que é gay! – comentou. Nico ficou tenso e seus olhos se esbugalharam, a música parecia até ter diminuído – Está tão na cara, que fico surpresa essa pessoa não ter percebido.
— O que você está falando? – tentei desconversar. Nico tremia de nervosismo e seu maxilar estava tenso.
— Você não sabe? – perguntou fingindo incredulidade – Nico gosta de uma pessoa que felizmente está aqui conosco, essa pessoa é...
— Chega Drew! Você está passando dos limites! – Piper cortou-a antes que pudesse terminar a frase – Vamos embora!
— Mas eu ainda nem me diverti – reclamou.
— Não quero saber, vamos agora! – Piper soou autoritária e Drew deu de ombros. Voltou seu olhar para Nico e sorriu ao perceber o estado do moreno. Ainda pude escutá-la sussurrar ‘bichinha’ no ouvido de Nico quando passou ao seu lado.
O moreno estava vermelho de raiva, seus punhos estavam fechados e seus olhos arregalados. Percy parecia não ter entendido o que Drew havia falado, mas Annabeth apenas olhava com os olhos cinzentos e opacos o caminho que asiática fez ao ir embora.
— Nico... – chamei-o e ele não me respondeu. Sua respiração estava acelerada e seu corpo dava levas tremidas.
Annabeth se aproximou de mim e colocou uma mão em meu ombro.
— Tire-o daqui, procure algum outro lugar pra ir com ele acho que isso diminuirá seu nervosismo sobre o que Drew disse— sussurrou em meu ouvido e eu olhei agradecido para ela.
Annabeth era uma menina muito inteligente, creio que deva ter percebido o estado de Nico e que o moreno não estava nada bem para continuar na festa. Peguei na mão de Nico, que estava tremendo levemente, e o puxei para fora da casa. Nico apenas me seguiu e não reclamou nenhum segundo por eu ter agarrado sua mão.
Andei apressado e empurrando as pessoas até conseguir chegar à minha moto, entreguei um capacete a Nico, que agora já não focava seu olhar em nada e tinha uma expressão meio triste no rosto, subi na moto e ele fez o mesmo. Sai acelerando sem rumo e Nico, mas uma vez, agarrou em minha cintura.
~*~
Sabe quando você só quer sair do local sem rumo, direção, mas conhece a cidade na palma da mão que fazer essa loucura é cabível? Eu já havia perdido a conta de quantas vezes havia feito isso em Malibu, mas eu já não estava lá, estava em Nova Iorque. Mas hora do desespero eu não lembrei que estava em Nova Iorque e que ao a conhecia muito bem.
E foi essa simples constatação que me fez parar a moto e ficar uns trinta minutos olhando as ruas movimentadas da cidade que nunca dorme, pensando em onde eu poderia ir com Nico.
— Pra onde a gente pode ir? – sussurrei aflito. Olhei de relance para Nico e o mesmo apenas encarava o chão, sem muita animação para nada.
Olhei para a extensa calçada com vários restaurantes e não muito longe de onde eu havia estacionada a moto havia um parque. Talvez levar Nico num parque e deixá-lo pensar um pouco o ajude a organizar a mente depois do que Drew disse.
— Ei Nico! – o chamei e ele me olhou desanimado – Venha aqui, vamos andar no parque.
Ele fez uma careta, mas me seguiu quando comecei a andar. Observei casais andando de mãos dadas e sorrindo bobamente, homens de terno e gravata andando apressados, pessoas com roupas caras e chiques entrando em restaurantes caros, e letreiros enormes fazendo propaganda de perfumes e outras coisas a mais.
As ruas eram muito bem iluminadas, o parque estava vazio, apenas um balanço balançava por culpa do vento, as folhas secas caídas no chão se arrastavam preguiçosamente e alguns poucos pássaros piavam nas árvores. Vi um banquinho abandonado no canto extremo no parque, quase imperceptível a olhos desatentos, e fui até lá. Nico continuou a me seguir a passos lentos.
— Ah! – exclamei assim que me sentei no banquinho de madeira – A noite está ótima, não acha?
Falei observando o céu limpo, sem nenhuma nuvem negra de chuva. Pude perceber alguns pontos brilhantes e sorri olhando as estrelas.
— Não – escutei a voz emburrada de Nico me responder.
Soltei um risinho pela atitude do moreno e me virei para encará-lo. Nico olhava fixamente para o balanço que se movia lentamente.
— Não ligue para o que Drew disse – comentei – Ela sempre foi de falar demais que não se deve.
— Ela disse a verdade – respondeu baixo.
— Claro que não. Ela apenas mostrou seu lado preconceituoso e mesquinho – revelei.
Drew sempre mostrou intolerância a homossexualidade. Até hoje me lembro do escândalo que ela armou quando viu duas meninas juntas em nossa antiga escola. As palavras de nojo, escárnio e extremamente pejorativas que ela usou devem causar pesadelos para aquelas meninas até hoje, fora a humilhação pública e bullying que elas sofreram simplesmente por amar alguém do mesmo sexo.
Um silêncio desconfortável caiu sobre nós e eu crispei os lábios, nervoso. Nico estreitou os olhos ainda olhando o balanço que se movimentava, mas reparei que já não ventava mais. Observei intrigado o balanço se mexer.
— Você ama o Percy? – perguntei de repente.
Vi seu olhar desviar sua atenção do balanço e me encarar de canto rapidamente, mas Nico preferiu me ignorar. Fechei os olhos entendendo sua decisão e me repreendendo mentalmente por ter feito uma pergunta tão indelicada.
— O que tanto você encara naquele balanço? – perguntei já ficando curioso com o tanto que Nico encarava o balanço se mexer.
— Estou apenas observando a menina – respondeu calmo.
Arregalei os olhos e movi meu olhar para o balanço. Observei ele parar de mover e então um vento fresco levantou as folhas do chão.
— Não tinha ninguém lá Nico – falei baixinho.
— Ah... É... – comentou desviando a atenção para a lua cheia.
— Você vê fantasmas? – perguntei realmente curioso.
— Não diria que são fantasmas... Mas sim, sou médium – respondeu finalmente me olhando nos olhos.
Tive que me esforçar muito para não me perder na escuridão misteriosa de seu olhar. Engoli em seco, e cocei meus cabelos ondulados.
— É de família... Meu pai vê, minha irmã via e eu vejo – comentou – Às vezes consigo até conversar com alguns espíritos.
— É por isso que seu pai é dono de uma funerária? – perguntei.
— Ele queria guiar as almas perdidas que o perturbavam, então antes da cerimônia que os familiares participam, ele faz o ritual de purificação da alma e a encaminha para a luz – contou.
— Nossa... – falei – Seu pai é tão legal!
Nico me olhou confuso e depois balançou a cabeça, sorriu discreto e olhou de novo para a lua.
— Você é estranho, Solace – disse sorrindo.
— Vamos andar! Quero aproveitar um pouco de NY – comentei levantando animado. Nico me olhou de esgueira e suspirou ao que parecia ele não queria andar pela rua afora.
— Eu não... – tentou falar, mas apenas tampei sua boca com uma de minhas mãos. Minha atitude repentina o assustou e o vi arregalar os olhos, surpreso.
— Vai sim. Hoje à noite você será meu guia turístico – ditei.
Tirei minha mão do rosto do moreno e me surpreendi ao notar um bico discreto em seus lábios. Sorri e passei meus braços ao redor do seu pescoço, escutei Nico resmungar alguma coisa e tentar me afastar. Logicamente eu não deixei que se afastasse de mim, seu corpo pequeno se encaixava perfeitamente com o meu, pelo menos era o que eu achava.
Contra sua vontade, eu comecei a arrastar o moreno pelas ruas de NY, e perguntava sobre os lugares que me pareciam divertidos para ir numa noite com os amigos, haviam restaurantes refinados, bares movimentados e populares, boates, e até uma praça enorme.
— E aquele é o Central Park... – Nico falou apontando para o ‘parque enorme’. Olhei de novo para aquele local e abri minha boca, claramente animado.
— Podemos ir lá?! – perguntei elevando alguns decibéis pela animação exagerada.
— Não – respondeu rápido – É melhor vir durante o dia...
— PIQUINIQUE! – soltei de repente e Nico se assustou – Amanha vamos chamar o pessoal e fazer um piquenique.
— O que? – o moreno perguntou, percebi que a ideia de fazer um piquenique não lhe agradou muito.
Comecei a falar sobre as várias possibilidades de diversões que podíamos fazer no Central Park, eu sorria feliz e gesticulava com a mão, ansioso para o dia seguinte. Nico apenas escutava tudo, com o rosto neutro e olhos tediosos, quando eu perguntava algo para ele, a resposta era sempre ‘hm’, ri com sua atitude indiferente.
— Sei que está animado com amanhã – falei subindo na moto, já pronto para levá-lo para casa.
Nico limitou-se a me olhar emburrado, mas com um sorrisinho no rosto, e revirar os olhos, também subindo na moto e segurando minha cintura. Senti seus dedos finos segurarem minha blusa e prendi minha respiração, nervoso. Meu coração falhou uma batida, e logo depois começou a bater freneticamente. Tive medo de Nico escutá-lo bater exageradamente.
— Vamos? – perguntei tentando não gaguejar.
— Hm – Nico respondeu monossilábico e então dei partida na moto.
Senti o moreno apertar um pouco mais minha cintura e sorri.
~*~
Já estávamos cerca de dez minutos em frente a casa de Nico, ao que parecia o moreno não sabia onde havia enviado a chave de sua própria casa. Eu já havia falado para ele simplesmente tocar a campainha e esperar que alguém abra a porta para ele, mas assim que terminei de falar isso o moreno me olhou com a maior cara de deboche e completou dizendo: “Ah ta, vou simplesmente chegar em casa duas horas da madrugada e tocar a campainha. Hades vai fazer meu funeral logo pela manhã”. Devo dizer que assim que Nico falou isso com o maior tom irônico que eu já vi o moreno fazer, me desmanchei em risos.
Era tão difícil ver Nico fazendo isso que chegou a ser cômico. O moreno me olhava com raiva e continuava a apalpar seus bolsos em busca da chave perdida, até que eu o vi sorrir aliviado e puxar a chave no bolso da frente da calça.
— Finalmente! – debochei do moreno, que me deu o dedo do meio. Seu sorriso pequeno estava emoldurando seus lábios finos e rosados, uma vontade enorme de beijá-lo me atingiu.
Nico fechou os olhos suspirando aliviado e balançou as chaves, olhei para seu rosto sereno e sorri abobalhado com a beleza do moreno, Nico olhou para mim e nossos olhares se encontraram.
— Então... – comecei meio nervoso, a vontade de beijar Nico apenas aumentava. Senti meu rosto esquentar e resolvi desviar meus olhos dos seus, que tentavam cada vez mais – Boa noite... Até amanhã.
— Até – Nico falou andando até a porta da casa.
Eu fiquei observando as costas de Nico se distanciar até chegar na porta, destrancá-la e abri-la. Dei as costas e comecei a empurrar a moto, desligada mesmo, até a frente da garagem de minha casa. Parei ao escutar a voz baixa de Nico, me virei para ele de novo e o moreno me olhava.
— O que? – perguntei sem entender o que ele havia falado antes.
— Eu nunca amei Percy – respondeu e meus olhos se arregalaram – O que eu tinha por ele era admiração, eu apenas confundi os sentimentos. Devo agradecer a certa pessoa que conseguiu me confundir emocionalmente... – após revelar isso, Nico entrou na casa.
Eu não sabia como reagir depois da revelação de Nico. Meu coração batia rápido e minhas pernas pareciam ser feitas de gelatinas, um sorriso bobo se formou em meus lábios e minha mente trabalhava como louca para tentar entender o motivo de Nico ter me falado isso tão de repente.
“Você ama o Percy?”
Escutei uma voz me relembrar da pergunta que havia feito a Nico naquela noite. Na hora o moreno havia me ignorado, mas durante a noite inteira Nico parecia pensativo e até um pouco distante. Ele estava pensando se realmente um dia já amou Percy Jackson. Soltei um riso feliz ao notar que Nico resolveu me responder e logo depois refleti sobre a última parte dita pelo moreno.
“Certa pessoa que conseguiu me confundir emocionalmente.”
Que seria essa pessoa?
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