Preto é a Cor do Amor
3 Vizinhos?
– Will
Passei o resto dos três tempos fazendo anotações sobre a aula super animada de Quíron. Ele sabia como ensinar de um jeito novo e diferente, e pude perceber que toda a turma gostava dele. Infelizmente depois de dois tempos de aulas super divertidos de história a professora de matemática entrou e todos se calaram na hora.
Pensei que fosse sinal de respeito, afinal, quem conseguiria temer uma senhora baixinha, com os cabelos um pouco grisalhos presos num coque alto e com um óculos de armação simples? Não entendi o motivo de alguns alunos se encolherem na mesa e desviei o olhar da senhora por receio da atitude de meus colegas de sala. O único que não pareceu incomodado com a presença da senhora era a pessoa sentada ao meu lado. Nico di Ângelo.
Falando nele, eu tenho que admitir que nem por um segundo eu consegui deixar de olhá-lo, claro que de canto de olho para ele não perceber, nem que fosse para seus dedos um pouco inquietos que batiam a ponta do lápis freneticamente na mesa. Se não era pela professora, era por quê? Quando abri a boca para perguntar o motivo de tal nervosismo, a professora falou.
— Sou a senhora Dodds, professora de matemática — falou com a voz rouca devido à idade, mas mesmo assim percebi que tinha uma autoridade nela que ninguém contestaria.
— Por quê? Me diz porque ela? — escutei um aluno ali perto sussurrar com a voz melancólica.
— Um ano aturando esse diabo encarnado em professora... — lamentou a pessoa ao lado.
Fiquei ainda mais confuso com os comentários e resolvi perguntar para Nico qual era o problema dela.
— Ei... — sussurrei inclinando levemente meu corpo em sua direção.
Senti seu perfume amadeirado e sorri involuntariamente. Continuei a sorrir bobamente fungando o perfume do rapaz ao meu lado que quase não percebi quando ele se virou para minha direção. Quase.
— O que? — perguntou estranhando meu movimento rápido.
— O que é que tem demais nessa senhora Dodds que todos da sala tremem? — perguntei olhando-o.
E nossa! Que rosto lindo. Sua face era lisa e branca como mármore polido e não tinha nenhuma imperfeição, seus olhos negros como a noite tinham um brilho que eu nunca havia visto em ninguém, mas também possuíam uma tristeza enorme, seus lábios finos eram rosados e totalmente ‘beijáveis’ e seus cabelos negros um pouco longos, acima da altura dos ombros, bagunçados de um jeito rebelde o deixavam ainda mais bonito.
— Ela é a pior professora que temos sempre séria, passa livros e mais livros como dever de casa, nunca ninguém conseguiu agradá-la... — comentou desviando seus olhos do meu e, infelizmente, quebrando o contato visual que estávamos tendo.
— Hum... — respondi virando-me para frente e tentado focalizar minha atenção ao quadro cheio de questões sobre matrizes, ao invés de um moreno ao meu lado.
~*~
— Ei Will — alguém me chamou enquanto eu estava com a cara enfiada dentro da mochila tentando encontrar meu fone de ouvido. Na verdade eu nem se quer lembrava se tinha enfiado-os aqui dentro ou se continuavam no meu quarto. Olhei para o local onde pensei ter escutado chamarem meu nome e encontrei um rapaz moreno bronzeado, e de olhos verdes sorrindo simpático para minha direção — Venha sentar comigo e meus amigos no intervalo!
— Ahn... Obrigado — agradeci com o pedido inesperado. O sinal para o intervalo já havia tocado e mais da maioria da sala já havia corrido para não pegar uma fila muito grande e também lugar para se sentar.
— Que isso! — riu passando seu braço direito por sobre meus ombros — Você é novato aqui, e sei como pode ser estranho ser um novato...
— Entrou ano passado? — perguntei olhando-o de canto de olho.
— Não... — pareceu pensar um pouco — Se não me engano já estou aqui há quatro anos.
— Nossa! — falei — É daqui mesmo?
— Sou por quê? — olhou-me divertido.
— É que você é todo bronzeado, todo descontraído... Me faz lembrar meus amigos em Malibu — confessei.
— Ah, mas eu gosto de surfar — comentou — Já fui para lá e devo dizer que as praias são divinas!
— E eu não sei?! — rimos juntos e começamos a conversar sobre surfe até adentrarmos o refeitório que mais parecia um formigueiro.
Olhei ao redor e encontrei o que deveria ser o grupo do menino, que só agora reparei não saber o nome.
— Qual...
— Percy Jackson, prazer — riu cortando-me repentinamente e piscando logo em seguida — Percebi que não havia perguntado e que iria querer saber.
— Oe Percy! Pensamos que tivesse raptado o novato... — brincou um menino de cabelos loiros e um óculos de armação fina e elegante.
— Ai como se eu fosse fazer isso... — Percy rolou os olhos — Mas se bem que ele não é de se jogar fora! — riu divertido enquanto minha cara foi ao chão de vergonha.
— Pois é... Olha que olhos lindos ele tem! — um rapaz de cabelos cacheados também entrou na brincadeira.
A lata de Coca-Cola deveria estar sentindo inveja da cor que eu assumi quando escutei aquelas coisas. Tudo bem que eu brincava daquele estilo com meus amigos em Malibu, mas nós nos conhecíamos desde sempre! Esses eu não conhecia nem uma hora!
— Ai meninos o que é que vocês já aprontaram com o novato? — uma garota loira de olhos cinza chegou junto de mais duas, todas com lanches na mão e cada qual entregou para os rapazes que estavam sentados na mesa redonda.
Reparei que Percy, a menina loira, o rapaz loiro e a menina morena eram da minha turma, mas o rapaz musculoso que parecia ter descendência japonesa junto de uma menina negra com cabelos achocolatados e olhos dourados, e um rapaz de feições latinas, cabelos encaracolados e sorriso rebelde não estudavam conosco.
— Sou Annabeth — a loira de olhos cinza falou.
— Jason — o loiro ao lado da menina morena disse — E essa é a Piper.
— Frank — o japa musculoso sorriu, o que me fez lembrar-me de uma criança fofa quando sorria verdadeiramente — E Hazel minha namorada — disse sorrindo para a menina de olhos dourados.
— Sou o Leo — sorriu travesso o latino.
— Agradecido, sou o Will — sorri e sentei-me na mesa animado por estar fazendo varias amizades logo no primeiro dia.
— Frank, Leo e Hazel estudam na sala 3-B, por isso você não os viu na sala — Annabeth me explicou e eu olhei confuso para ela — Percebi quando cheguei que você olhava-os com as sobrancelhas erguidas.
— Ah... — falei analisando a mesa animada.
Sentei-me ao lado de Percy, porque era o único que eu já havia realmente conversado, e Jason, quando me sentei todos olharam para mim com alguns sorrisos no rosto e lanches na mesa.
— O que? — perguntei sem entender.
— Esse é o lugar do Nico — Jason comentou rindo fraco. Quase perguntei quem era Nico, mas um perfume amadeirado preencheu minhas narinas antes mesmo de eu formular a pergunta. Imediatamente lembrei-me de Nico.
— Não sabia que tinha lugar marcado — falei um pouco sem graça.
— E não tem, mas nós sempre nos sentamos de mesmo jeito... É tipo um costume já... — Piper explicou.
Quando fui levantar para dar lugar a Nico, escutei uma voz calma ressonar no local.
— Tudo bem, pode se sentar ai — disse Nico e eu sentei-me novamente no local.
Nico se sentou na cadeira de frente para a minha.
— E então... — Leo começou — Como é Malibu?
Eu sorri na hora, se havia algo de que eu adorava falar, era das praias de Malibu. E foi assim que o intervalo se passou, eu contando sobre as praias de Malibu, às vezes também sobre algumas façanhas minhas. Claro que também não fui o único a falar, Percy me contou sobre as várias vezes que ele esteve em metido em problemas, contou também que Annabeth estava em quase todas elas, cada um foi contando um pouco das aventuras vividas e quando menos percebemos o sinal do fim do intervalo tocou. Não pensei que pudesse encontrar pessoas legais e divertidas em Nova Iorque, sorri animado e quando fui me levantar para ir para a sala, notei alguém que ficou calado durante todo o momento. Nico di Ângelo.
— Hey Will — Jason me chamou e eu fui até ele — Sei que ia falar com ele, mas deixa assim.
— O que? — perguntei sem entender.
— Ele geralmente conversa mais, mas hoje não está sendo um bom dia para ele... — explicou — Sei que ficou curioso suas expressões faciais são muito fáceis de serem lidas.
— Ah... — olhei de relance para o rapaz em preto e depois virei para frente — Tudo bem — sorri.
~*~
— Como foi na escola? — Apolo me perguntou assim que entrei no carro.
Olhei pela janela e suspirei. Porque ele sempre tinha que querer puxar assunto?
— Foi boa — respondi depois de alguns minutos de silêncio.
Não que eu não goste do meu pai, é só que depois de quatorze anos sem contato nenhum, eu não me sinto a vontade para contar as coisas para ele. E agora ele vem todo animado querendo que eu saia contando até dos cachorros que um dia já tive, eu simplesmente acho isso forçado e falso demais. Ele pareceu perceber meu desconforto e suspirou cansado, ato que me fez olhá-lo.
— Will... Não é que eu quero forçar nosso relacionamento... — começou. Fiquei tenso e desviei meus olhos para a janela novamente — Mas poxa, eu sou seu pai! Eu quero que confie em mim, que me conte como está se sentindo, de quem está gostando...
Ele começou a falar com a voz triste e percebi que nós podíamos sim conversar e ter um relacionamento de pai e filho. Apolo estava disposto a isso, mas eu que não deixava nosso relacionamento evoluir.
— Tudo bem que passamos quinze anos sem ter contato, mas eu acompanhei seu crescimento de longe — comentou — Quem você acha que lotava sua arvore de natal todos os anos? Sua mãe? O papai Noel?
Fiquei espantado com a revelação e depois ri. Ri muito.
— Eu não acredito em papai Noel, pai — falei divertido — Eu nunca soube quem era, mas tinha certeza de que não era Nora.
— Porque chama sua mãe pelo nome? — ele perguntou-me subitamente.
— Nós brigamos — minha voz soou um pouco ríspida demais e olhei para minhas mãos em meu colo — Não quero falar sobre isso.
— Tudo bem — respondeu simplesmente.
Depois disso o caminho de casa foi calmo e silencioso. Apolo olhava diretamente para a rua, e eu olhava para a janela, mais especificamente para a nuvem negra de tempestade que cobria o céu azul. Chegamos num silêncio levemente agradável e fui direto para o quarto.
Joguei minha mochila no chão o lado da cama e deitei me esparramando todo nela. Sorri para o nada e lembrei-me dos meus novos amigos. Até que eram bem divertidos. Conversar com eles era divertido, sempre brincado, contando piadas, rindo e era tanta cumplicidade naquele grupo que eu quase me sem um peixe fora d’água. Mas Percy sempre arranjava um novo assunto para todos conversarem.
Olhei o teto e cocei meus cabelos loiros ondulados. Daria tudo para estar pegando uma onda nesse exato momento. Surfar sempre me acalmava e me ajudava a pensar, sempre. Levantei-me e andei até o banheiro a fim de tomar um relaxante banho de banheira.
Enchi com água morna e coloquei sais de banho para fazer espuma. Pode falar que isso é coisa de menina, mas me deixe aproveitar! Nunca tive uma banheira! Coloquei uma musica do celular para tocar e entrei dando um suspiro animado quando a água morna tocou minha pele nua. Já disse que banho de banheira é maravilhoso? Fiquei cerca de vinte minutos apenas sorrindo e aproveitando a água até ficar com os dedos das mãos e dos pés enrugados. Enrolei-me na toalha e sai secando os cabelos molhados. Suspirei quando olhei para o céu e vi que a tempestade se aproximava mais ainda da cidade. Escolhi uma roupa leve de algodão, joguei-me na cama, liguei a internet e comecei a falar com meus amigos de Malibu.
Não percebi quantas horas já haviam de passado, mas apenas reparei que já havia anoitecido quando um trovão cruzou o céu e iluminou meu quarto. Olhei para a janela e percebi que uma chuva forte caia e ventos quase levavam as árvores das calçadas.
— Nossa... — comentei olhando o céu negro.
Eu ainda não havia reparado na casa ao lado da minha. Era também uma casa grande, o pouco que eu consegui ver do quintal percebi que tinha uma piscina nele, e coincidentemente havia uma janela enorme em frente a minha. Olhei para dentro, o máximo que a chuva me permitiu olhar, e vi as paredes brancas com algumas decorações pretas, alguns cartazes de bandas de Rock na parede, e o resto não consegui ver direito. Mas o que mais me deixou surpreso, foi ver o dono do quarto sair por uma portinha parecida com a de um armário, apenas com uma toalha branca enrolada na cintura.
Seu corpo era parecido com mármore, e parecia até brilhar com a iluminação e as gotas d’águas que escorriam de seus cabelos negros molhados. Ele não era extremamente magro, tinha tudo em ótimas proporções para o seu tamanho e seus lábios finos e rosados estavam apertados numa linha reta. Parecia estar pensando em algo sério.
Meu vizinho de janela era ninguém menos que Nico di Ângelo.
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