Preto é a Cor do Amor
6 Seu cheiro é bom...
Notas iniciais
– Will
Trabalhar na funerária não era tão fácil como eu pensei que fosse. Ainda mais com Nico. Logo no meu primeiro dia lá, um senhor de 50 anos já estava na mesa de ‘decoração’ dentro do caixão vermelho dele, apenas fomos informados que era para ele estar pronto logo no dia seguinte. Nico pediu para que eu começasse a vestir o defunto, enquanto ele recebia as flores para caixão.
Se fosse apenas ‘vestir o morto’ seria fácil. O problema que esse era um daqueles casos onde o defunto demorou a ser liberado do hospital e já estava com um estágio um pouco mais avançado de putrefação. Pedi a Nico para me ajudar e ele apenas trouxe uma mesa do tamanho do caixão, um pano, luvas, abriu as enormes janelas e pegou um daqueles potes da prateleira. Logo depois me pediu para tirá-lo do caixão e colocá-lo na outra mesa.
— Coloque as luvas, molhe o pano no líquido e passe em todo o corpo do defunto — disse me entregando o material — Passe bem, não queremos um defunto fedendo no meio da missa, queremos? — falou irônico e depois saiu da sala. Indo assinar a papelada que confirmava que as flores haviam sido entregues.
Murmurei alguns xingamentos ao moreno e comecei o trabalho de ‘molhar o morto’. Tive que passar em todos os locais mesmo, pernas, braços, orelhas, e até nas partes íntimas, e digo que não foi nada agradável. Depois de uma hora, simuma hora, passando formol no corpo, tive que esperar secar um pouco e só ai começar a vesti-lo. Era um terno preto bem simples e elegante e a gravata era de um vermelho sangue bem chamativo. Chamei Nico assim que terminei, colocamos o corpo de volta ao caixão e o moreno começou o trabalho com as flores, lindas rosas brancas, nesse meio tempo que o moreno entrou com o enorme carrinho com as flores, eu sentei e comecei a observá-lo trabalhando.
Nico parecia bem concentrado enquanto analisava o caixão e o senhor Edmonds, sim esse era o sobrenome do defunto, cada flor que ele distribuía dentro do caixão era milimetricamente posicionada e ajeitada. Nico crispava os lábios finos, olhava para como estava ficando e depois colocava mais flores perto do corpo. Seu corpo esguio parecia flutuar enquanto ele andava de um lado para o outro, seus cabelos presos num rabo de cavalo com alguns fios soltos emolduravam seu rosto fino e pálido. Suspirei e Nico, quando escutou, parou o que fazia e me olhou.
— Que está fazendo sentado ai? — perguntou me apontando uma rosa — Me ajude aqui, preguiçoso — brincou e eu ri me levantado.
— Não sou preguiçoso — falei e Nico apenas meneou a cabeça.
— Se você não é preguiçoso, eu sou o Batman — revirou os olhos.
— Está mais pra Edward... — comentei baixinho e ele escutou.
— O que?! — fingiu espanto, mas seu riso mínimo estava presente no canto dos lábios — Ah vamos terminar logo com ele, assim podemos sair daqui.
— Okay — concordei e comecei a ajudá-lo a colocar as rosas em seus devidos lugares.
~*~
— E como está o trabalho? — meu pai perguntou assim que chegou em casa e me viu largado no sofá, assistindo um filme de ação e comendo pipoca.
— Está bom, tirando o fato que eu tenho que usar uma calça preta por causa do uniforme, está bom — comentei e logo em seguida enchi a boca de pipoca, modos para quê?
— Hum... E a escola? — escutei seus passos chegarem mais perto e depois senti alguém sentado ao meu lado, ao menos tentando já que eu estava deitado no sofá inteiro.
— Está legal — falei — A galera é bem divertida.
— Que galera? — perguntou pegando um pouco da pipoca e começando a assistir ao filme também.
— Percy, Annabeth, Jason, Nico, Piper, Leo, Hazel, Frank... — comentei — Essa galera.
— Ah sim... — me entregou o pote de pipoca e se levantou — Já vi esse filme, ele morre no final — e saiu da sala.
— Ah pai! — falei fazendo muxoxo — Não acredito que me contou o final!
Depois da revelação, desliguei a televisão e resolvi subir até meu quarto. Em plena sexta à noite, e eu não tinha lugar para ir e também nenhuma festa. Nada. Devo dizer que eu já estava começando a ficar frustrado com toda essa situação. Eu não conhecia Nova Iorque direito então não tinha como sair por ai sozinho. Meu pai era tão conhecido que todo dia saia, voltava tarde e no dia seguinte ele sempre estava no topo daquelas revistas de fofocas como o “médico/modelo/cantor/ator/poeta mais sexy do mundo”. É, nem eu sabia que meu pai sabia fazer tudo isso, mas isso porque eu não fico procurando na internet sobre a vida dele.
Andei a janela e olhei o céu, que estranhamente estava estrelado, suspirei realmente frustrado e espiei a janela de Nico. O moreno estava com uma toalha enrolada na cintura, enquanto olhava o armário, não me surpreendi quando notei a tonalidade das blusas. A mais clara era azul escuro. Fechei a cortina e me joguei na cama. Foi quando meu celular tocou.
— Alô? — perguntei quando atendi.
— Hey Will! Se arrume logo, estou passando ai na sua casa — uma voz falou do outro lado da linha, animada.
— E quem é? — perguntei sem entender, mas já levantando da cama e rumando ao guarda-roupa.
— Não reconhece mais minha voz? Que insulto! — e a voz riu — Sou eu, Percy!
— Ah Percy... Tudo bem, fico pronto em dez minutos — falei olhando minhas roupas e analisando-as.
— Em menos, por favor. Já estou na frente da sua casa — riu e desligou.
Vesti uma blusa vermelha de gola V, calça jeans azul escura e all stars também azul escuro, parecia com preto, mas não era. Passei um perfume de aroma suave e dei uma leve bagunçada em meu cabelo. Desci as escadas correndo, peguei minha carteira, chaves de casa e gritei que estava saindo. Não fiquei para escutar a resposta nem de Apolo, nem de Martha.
Percy esperada dentro do carro balançava a cabeça de um lado para o outro e batucando os dedos no volante. Assim que me viu se esticou e abriu a porta do passageiro.
— Hey cara! — sorriu animado — Só esperar o Nico e já vamos.
— Ele sai? — perguntei surpreso.
— Claro — respondeu — Não tanto quando eu e o resto do pessoal, mas sai sim — riu.
— Hum... — disse entrando no carro e começando a curtir a música que tocava no rádio — Que música é essa?
— Sei lá cara, só sei que quando ligue tava tocando já — e riu de novo.
Ri com a animação dele e olhei para a casa vizinha. Nico já estava trancando a porta e quando viu o carro, correu em nossa direção.
— Foi mal a demora — disse entrando no banco de trás — Meu pai ficou fazendo muitas perguntas...
—Oh pobre cinderela, antes da meia noite você estará de volta — Percy disse imitando uma voz fina.
— Retardado — escutei Nico murmurar e ri. O celular de Percy vibrou e ele olhou a tela iluminada.
— O pessoal já chegou, falta só à gente — comentou — Apertem os cintos!
Dito isso, Percy deu uma arrancada com o carro e saiu cantando pneu. Nunca achei que fosse encontrar alguém mais perigoso no transito que eu, mas Percy me surpreendeu. Ele costurava o transito, avançava o sinal vermelho e as placas de pare e às vezes desviava os olhos da rua, por longos segundos, e ria divertido da cara de pânico que eu provavelmente estava.
Olhei para trás e vi Nico com uma expressão calma no rosto, olhava pela janela e vez ou outra mexia no celular. Fiquei tentado a perguntar por que ele não estava com medo, mas depois pensei que ele já deveria ser acostumado. Voltei a olhar para frente e depois de uma virada para a direita, meio brusca, Percy desligou o carro e sorriu para mim.
— Não se assuste — pediu — Eu só dirijo assim quando estou com pressa... Na maioria das vezes dirijo muito bem — riu me abriu a porta do carro.
Quando desci percebi que, milagrosamente, Percy havia estacionado muito bem, e a apenas alguns metros a frente estava uma boate muito bem iluminada e lotada de gente na fila para entrar. A entrada era modesta, simples e de tons pastéis, um segurança enorme de terno preto estava na entrada, com a cara fechada e com uma lista em mãos. Logo na calçada em frente à boate estavam Annabeth, Hazel, Frank, Leo, Jason e Piper. Sorrimos e fomos até eles.
— Hey galera — Percy cumprimentou — E ai? Conseguiram?
— A Piper é demais! Assim que disse quem era o seu pai, o segurança deixou ela e todos os seus amigos entrarem — Leo comentou animado — Vamos entrar logo!
Depois de nos cumprimentarmos, Piper apenas avisou ao segurança que estávamos entrando e ele abriu a catraca para nós.
A boate não era simples, muito menos modesta, e menos ainda em tons pastel. Assim que entramos tivemos que passar por um corredor e a iluminação começou a mudar ao longo do percurso. As batidas da musica eletrônica ecoava por todo o local e fumaça era expelida por sabe se lá onde. No portão de entrada, para o verdadeiro local da festa, estavam dois homens, que colocaram uma pulseira neon em nosso pulso e nos entregaram um copo de acrílico de 500 ml de cortesia. Sorri com aquilo e lembrei que as boates em Malibu não eram tão chiques assim. A decoração de dentro era escura, luzes pirotécnicas piscava freneticamente, o DJ que estava em cima de um pequeno palco balançava as mãos enquanto falava para o povo pular ao som da batida, alguns sofás estavam perto da parede, no canto do enorme salão lotado, estavam servindo de cama para alguns casais assanhados. Na parede de frente ao DJ estava um enorme balcão com bebidas dispostas e barmans espalhados servindo bebidas exóticas e de variados tipos. Escutei um grito animado ao meu lado e vi Leo correndo até o bar.
— Hoje é open bar — comentou Jason — Bebida a vontade. Aproveite.
E assim cada casal começou a dispersar e apenas restaram Nico e eu.
— Vamos ao bar — tive que falar um pouco alto para ele poder me escutar. Nico concordou em silêncio e me seguir enquanto eu abria caminho entre a multidão. Vez ou outra eu sentia mãos assanhadas alisarem meu corpo e eu também não ligava muito.
Quando chegamos pedi ao barman que preparasse duas das bebidas mais fortes do local e ele sorriu animado para mim. Nico olhava meio assustado para a multidão e eu ri abafado da cara que ele fazia. O barman colocou dois copos na minha frente e uma garrafa de absinto e sorriu se afastando para atender os outros.
— Tome isso Nico, vai te fazer relaxar — falei alto para o moreno que ergueu a sobrancelha ao ver o copo em minha mão.
— O que é isso? — perguntou pegando o copo e cheirando — É absinto? Eu não bebo...
— Bebe isso logo! — falei virando de uma vez o líquido dentro da boca.
O gosto do álcool, a sensação de queimação na garganta, tudo me era tão nostálgico que sorri bobamente com as lembranças que me vieram à mente. Bati o copo no balcão e enchi mais uma dose. Nico olhou para mim, meio incerto e fez o mesmo que eu anteriormente. Tomou tudo num único gole. E logo depois começou a tossir, e respirar fortemente.
— William Solace — falou tossindo — Você está tentando me matar?!
— De jeito nenhum! — ri tomando outra dose e enchendo o copo do moreno — Você acostuma.
Continuamos ali até terminarmos a quinta dose e percebi que Nico já estava um pouco animado demais. Ri dele e andei até uma morena que estava se insinuando deste que cheguei ao bar com Nico. Não foi preciso conversa ou cumprimento, nada. Apenas cheguei nela, peguei em sua cintura e tasquei um beijo feroz na sua boca carnuda e vermelha pelo gloss.
Ela não beijava tão bem assim, mas deu pro gasto para me tirar da seca que eu estava sofrendo. Começamos a dançar e ela fazia questão de esfregar sua bunda despudoramente em meu membro, ato que já estava começando a me deixar excitado, eu já havia perdido a conta de quanto eu já havia bebido no copo de 500 ml. Vi Percy e Annabeth se beijando no meio da pista de dança, Jason e Piper dançado enquanto riam animadamente e Leo que dançava sozinho. Não achei Frank e Hazel. Por um momento perdi Nico de vista, e isso me deixou meio preocupado. Ele era todo pequeno, franzino e de aparência frágil, não queria ter perdido ele de vista e o deixado a deriva nessa multidão.
Dei uma desculpa qualquer para a menina, que era quase um projeto de vadia e que eu nem sabia o nome, e comecei a procurar por Nico na multidão. Olhei o relógio e vi que eram quatro horas da manhã.
— Já? — falei surpreso, saímos de casa eram onze e meia da noite. Como as horas passaram tão rápido assim?
Escutei o som de um coro animado e logo fui em direção ao local. Vi umas pessoal reunidas envolta de duas pessoas, uma delas era um homem alto e musculoso, com muito esforço lembrei ser o barman que havia me servido quando cheguei, e a outra pessoa era um moreno, pálido, não tão alto, e meio magricela. Com espanto percebi se tratar de Nico.
— Bebe! Bebe! Bebe! — a multidão falava. Nico entornou uma garrafa de vodka e terminou de tomar o que tinha lá.
Então o barman, já sem a blusa branca do uniforme, deitou no sofá e uma garota colocou um pouco de tequila em seu umbigo, sal em todo o caminho do umbigo até o começo do peito e uma fatia de limão em sua boca. Depois de ‘prepará-lo’ chamou Nico, que já cambaleava, e apontou para o homem musculoso deitado no sofá.
O moreno deu um sorriso completamente bêbado, andou cambaleando até o barman e sugou o líquido no umbigo, passou a língua pelo peitoral do homem, mas quando foi chupar o limão, misteriosamente ele caiu da boca do homem e o mesmo beijou a boca de Nico, que também não mostrou nenhuma relutância em ser beijado por ele.
A multidão soltou um ‘ohh’ e depois começaram a gritar coisas aleatórias. Um bando de bêbados. Puxei Nico de perto daquele tarado aproveitador de garotos bêbados, escutei o barulho desagradável de bocas se desgrudando e vi um rastro de saliva ainda ligando a boca deles. Fiz uma careta indignada.
— Vamos embora — falei e sai puxando pela mão o moreno que não protestou. Comecei a procurar Percy em todo canto da boate, mas não o encontrei em lugar nenhum. Soltei rapidamente a mão de Nico para procurar meu celular e assim que achei liguei para Percy.
— Quem é? — escutei-o falar meio enrolado.
— Percy, vamos embora — falei — Onde você está?
— Sei lá onde estou... — riu — Ah... Ah... Ah...
Escutei Percy dizer e fique preocupado com o tom angustiado que ele disse.
— Está tudo bem? — perguntei.
— Prendi meu dedinho — choramingou — Annie, me ajudaaaa!
— Percy! Falei pra não mexer ai... — escutei Annabeth no fundo e depois disso o telefone ficou mudo.
Suspirei e agradeci por estar com minha carteira, no final eu teria de ir com Nico de táxi. Olhei para trás para falar com Nico, mas o moreno já não estava mais lá. Xinguei baixinho e voltei a procurá-lo. Depois de cinco minutos revirando o local atrás de Nico, encontrei-o no meio da pista de dança, pulava loucamente no ritmo da batida até que uma menina chegou nele e beijou-o. Nico outra vez não mostrou resistência alguma, e outra vez tive que arrastá-lo para longe da boca alheia. Todos de repente se tornaram aproveitadores de meninos bêbados e indefesos! Liguei para o táxi, arrastei Nico até a entrada da boate e esperei até o carro amarelo e preto buzinar me chamando a atenção.
Disse o endereço e logo depois o taxista começou a andar, já eram quatro e meia da madrugada e ainda tinha movimento nas ruas de Nova Iorque. Nico colocou a cabeça em meu ombro e fechou os olhos. Suspirou e logo em seguida me olhou.
— Seu cheiro é bom... — dito isso o moreno desmaiou.
Olhei assustado para o garoto, agora apagado em meu colo, e sorri. Dormindo parecia um anjo, paguei o taxista e peguei Nico no colo assim que chegamos à frente de casa. Pensei em levá-lo até sua casa, mas não conheço seu pai direito e ele poder discutir com Nico se o vir assim. Resolvi então, levá-lo para minha casa, coloquei o moreno em meu ombro parecendo um saco de batatas, e abri a porta devagarzinho.
Andei a passos rápidos e silenciosos até meu quarto, e quando entrei tranquei a porta rapidamente. Coloquei Nico cuidadosamente na minha cama e sentei na cadeira do computador, suspirei cansado e olhei o relógio, 4:58 a.m, resolvi esticar alguns lençóis no chão e dormir nele, do que na cadeira. E depois apaguei com uma única certeza.
A ressaca amanhã vai ser enorme.
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