Preto é a Cor do Amor
33 Gato e Rato
— Will
Primeiro Dia
Era óbvio para todos que me conhecessem, que eu estava frustrado. Muito frustrado, aliás. Desde manhã cedo, quando eu acordei e já não senti Nico ao meu lado, eu estou procurando o rapaz e parece que ninguém o viu. Como alguém pode sumir de uma hora pra outra?!
Meus pés balançavam displicentes sob a água cristalina do lago e minhas mãos apertavam com força a madeira gasta do píer. Minha vontade era de simplesmente me jogar na água e só sair dali quando tudo estivesse bem novamente! Mirei o horizonte e respirei fundo, talvez me acalmando e raciocinando com calma, eu poderia achar um jeito de conversar com Nico.
Escutei passos calmos atrás de mim e logo depois uma pessoa se sentou ao meu lado na beira do píer. Não precisei olhar para saber que era Reyna. O silêncio que se prosseguiu foi até agradável. Reyna era uma pessoa calma e paciente, não me admirava ser a melhor amiga de Nico.
— Sei o que está pensando – começou sem me olhar.
O vento da manhã balançava seus cabelos soltos e sua blusa roxa. Ela era bonita, seus traços firmes e olhos determinados nos faziam lembrar as atrizes antigas, na época onde era uma beleza natural. Fitei seu rosto e ergui uma sobrancelha, meio confuso. Reyna me olhou e sorriu simpática.
— Está se perguntando o porquê de eu estar aqui sentada com você – explicou calma e voltou a olhar o horizonte.
— Basicamente – brinquei olhando o lago.
— Nico está mal... Mas isso você já deve saber – deu de ombros – Afinal foi você que causou isso.
Suspirei cansado e esfreguei minhas mãos em meu rosto, me frustrado mais ainda. Daqui a pouco todos os deuses olimpianos desceriam do Monte Olimpo, apontariam o dedo em minha cara e falariam num coro divino: “você foi o babaca do ano!”.
— Eu sei – gemi inconformado – Mas não foi como se eu realmente quisesse fazer Nico sofrer... E ele também não me ajuda em nada pra melhor nossa situação... – sussurrei para que a menina não me ouvisse.
Reyna me analisou e tirou os cabelos que insistiam em tampar-lhe a visão.
— Eu sei – seus olhos analíticos ainda me olhavam e pareciam analisar todas as opções de reações que eu poderia ter, desde tentar explicar minhas atitudes até escolher não fazer nada.
Só que eu estava cansado demais de tentar me explicar para terceiros sobre minhas atitudes irresponsáveis. Oras, não era como se eu fosse a pessoa mais responsável do mundo... Eu ainda podia errar um pouquinho, ainda. E também Nico não era de um todo o santo da história. Eu não errei sozinho!
Escolhi não fazer nada e Reyna continuou.
— Percy me contou sobre a conversa de vocês – suas palavras cuidadosamente escolhidas me diziam que ela ou tinha um raciocínio muito rápido, ou já veio com um discurso pronto.
Eu olhava o horizonte enquanto Reyna falava. Vez ou outra me pegava divagando sobre Nico e me repreendia mentalmente sobre isso.
— Eu sei que Nico gosta de você, Will – disse e esperou alguma reação minha. Continuei olhando o horizonte e a menina suspirou conformada, desde que ela começou a falar eu só olhava para o lago – Ele está apenas magoado... Nico não sabia como reagir com os sentimentos novos que estavam surgindo, então de repente você beijou a Drew enquanto namoravam e isso bastou pra ele.
Abri a boca para protestar, mas não tinha o que dizer. Nico provavelmente não havia contado para Reyna sobre os detalhes que antecederam a fatídica manhã do dia 4.
— Nico se fecha para o mundo quando está magoado, é como uma proteção dele para não sofrer mais ainda – eu sentia o olhar atento de Reyna sobre mim – Mas eu tenho certeza que se você conseguir falar com Nico e for sincero com ele, talvez ele te perdoe.
Depois de terminar de falar, Reyna se levantou e ajeitou os cabelos embolados pelo vento. Eu ainda estava na mesma posição de quando ela havia chegado, a incredulidade por ela ter vindo conversar comigo sobre Nico não conseguiam me deixar pensar corretamente. Foi só quando me toquei que a menina já se afastava que consegui perguntar.
— Por quê? – perguntei me levantando rápido e a encarando.
Reyna se virou para mim e sorriu.
— Porque eu quero que meu amigo fique bem – falou cruzando os braços – E sei que você quer o mesmo e que pode dar isso a ele.
Vi, ainda um pouco chocado, Reyna andar até a arena e se encontrar com meu amigo Matt. Os dois começaram um conversa e depois sumiram dentro da construção. Talvez eu devesse fazer alguma coisa para distrair um pouco minha mente, lembrei que a atividade de arco e flecha era pela manhã e andei até a casa grande para e inscrever.
~*~
Foi apenas na hora do almoço que vi Nico. O moreno estava com o rosto neutro, observava Reyna e Matt conversando animados em sua frente (Matt em minha opinião andava muito com Reyna!) enquanto comia lentamente a pouca comida posta em seu prato.
Tentei ao máximo disfarçar minha frustração quando notei que Nico evitava, de propósito, interagir comigo. Eu encarava descaradamente a mesa onde ele se encontrava e resmungava baixinho sobre o quão injusto Nico estava sendo até ao me evitar até dentro do quarto!
O moreno correu de mim como o diabo corre da cruz, durante todos esses longos 179 dias separados! Se até hoje nós estamos brigados, não foi por faltas de tentativas de minha parte! Quando vi que não tinha jeito e que Nico não iria me perdoar tão cedo, foi que meu estado piorou e tive de ser ajudado por meus amigos.
Fora também que ele era mais teimoso que uma mula! Matt era o único que sabia de toda a história que antecedia minha atitude horrorosa, mas só contei para ele depois de algum tempo. Meu amigo no inicio pensou também que era culpa minha, me olhou com a maior expressão de “eu te avisei que ia dar merda” que ele conseguiu fazer e me deu um ‘tempo’ (prefiro pensar que o gelo que Matt me deu foi um tempo pra eu me reorganizar mentalmente, me recuso a acreditar que meu irmão teve tão pouca confiança em mim em relação ao Nico. Mesmo eu já tenho feito isso no passado umas duas vezes que não merecem ser comentado, ele devia confiar em mim!).
Depois do almoço frustrante, eu resolvi me focar um pouco mais nas atividades do acampamento. Fiz as aulas de arco e flecha, canoagem, escaladas e também tentei até esgrima. Tudo para me fazer redirecionar meus pensamentos de certa pessoa.
Agradeci um pouco aos céus que eu não vi Nico nesse meio tempo durante as atividades, o moreno parecia não ter se inscrito em nada nesse primeiro dia, então pude pensar com clareza sobre o que fazer para encurralar o moleque.
No fim da noite, quando todos estavam ao redor da fogueira, assando marsmallows e rindo verdadeiramente felizes, eu resolvi voltar para minha cabana e relaxar um pouco. Não vi Nico quando entrei no cômodo, mas mesmo se o moreno estivesse ali eu não tentaria nada.
Estava começando a cansar esse jogo de gato e rato que Nico me impôs.
Tomei um banho rápido e deitei na cama de casal. A última coisa que lembro antes de pegar num sono profundo foi ter sorrido satisfeito por ter decidido que amanhã Nico teria meu ultimato.
Ou parava com essa brincadeira sem graça e conversava como homem, ou começava a me tratar com um pouco de educação exigido pela etiqueta de ex-namorados.
~*~
Segundo Dia
Quando acordei na manhã do segundo dia de acampamento e não vi Nico dormindo, bufei irritado e levantei irritado da cama.
— Ele está dando bom dia pras galinhas por acaso?! — resmunguei pegando algumas peças de roupas e indo ao banheiro. Nico era a única pessoa que me fazia mudar tão drasticamente de humor.
Nunca fui de falar sozinho, mas se tinha uma coisa que eu fazia sempre quando estava irritado, era praguejar pelos cantos. Isso sim eu fazia com certa frequência. Assim como no dia anterior, eu não vi Nico no café da manhã e nem nas primeiras atividades em grupo. Minha curiosidade aumentava a cada minuto que Nico não aparecia.
No intervalo entre atividades eu resolvi procurar o pessoal e perguntar se tinham pelo menos conversado com Nico. Só consegui respostas concretas de Hazel, talvez por ela ser a irmã dele.
— Olha Will, meu irmão está dificultando nosso trabalho se escondendo desse jeito... — confessou frustrada — Eu e as meninas até agora não conseguimos pensar em muita coisa, Nico parece até sumir nas sombras!
Eu entendia completamente o que Hazel estava dizendo.
— Agradeço a tentativa de vocês, mas acho que sou eu quem deve resolver tudo isso — sorri pequeno — Eu fiz a burrada, mas Nico também não é inocente na história. Nós vamos conversar e de hoje não passa.
Hazel ergueu as sobrancelhas e me olhou surpresa. Vi um sorriso nascer em seus lábios e um brilho peculiar passou por seus olhos cor de ouro derretido.
— Espero que no fim, tudo termine bem — comentou sincera, logo depois pareceu se lembrar de algo urgente — Ah! Ontem à noite, Katie veio falar comigo sobre ela ter visto Nico se embrenhar nessa floresta e só voltar na hora do almoço.
A menina falava num tom eufórico e dava leves batidas em meu braço direito.
— Segundo ela, existe um riacho que corta a floresta. Nico provavelmente deve ir pra lá na parte da manhã... Ele sempre gostou de ficar em lugares silenciosos e pacíficos! — pelo sorriso que Hazel exibia, parecia até que tinha ganhado na loteria.
Sorri animado para a menina e envolvi seu corpo magro e pequeno num gigantesco abraço de urso. Dei leves beijos em sua bochecha e ri agradecido. A gargalhada que Hazel dava era bem contagiante.
— Obrigado cunhadinha! — brinquei pondo-a de volta ao chão. A menina tentava arrumar os cabelos bagunçados e diminuía aos poucos as risadas.
— Senti falta das suas brincadeiras e de ser chamada de cunhadinha — confessou ainda sorrido — Corre logo pra esse riacho e pega meu irmão de jeito.
Ri mais um pouco junto dela e beijei sua bochecha mais uma vez.
— Frank tem sorte em ter você! — falei me afastando rapidamente dela e rumando em direção a floresta do acampamento.
Como Nico teria descoberto esse riacho logo no primeiro dia de acampamento? Será mesmo que ele estava no riacho? Será que ele realmente queria voltar com nosso relacionamento?
Balancei a cabeça para espantar os pensamentos negativos e me foquei no caminho desregular. Quase cai três vezes por ter tropeçado em pedras e raízes expostas de árvores, me assustei com um esquilo que passou correndo por entre minhas pernas e amaldiçoei Nico por ter se embrenhado na floresta. Porque ele não podia se isolar no píer, por exemplo?
Quando escutei o barulho de água corrente, não consegui não suspirar de alívio. Apressei o passo e encontrei o pequeno riacho que cortava a floresta. Do outro lado das águas, estava um amontoado alto de pedras, que pareciam bem fixas no local, e sentado no topo dessas pedras, se encontrava Nico.
— Nico! — chamei assim que o avistei.
O moreno se assustou levemente quando me viu atravessar o riacho e parar nos pés do amontoado de pedras. Vi que seu corpo dava pequenas tremidas e pensei que talvez ele pudesse estar com frio.
— O que faz aqui? — perguntou se movendo lentamente para descer das pedras.
Pela cara que fazia, estava evidente que ele queria evitar conversar comigo. E isso me frustrou mais ainda. Aquelas malditas borboletas no estômago que estavam guardadas há longos 179 dias agora não paravam quietas, começando a me dar azia.
— Precisamos conversar — forcei minha voz a sair o mais firme possível. Não queria gaguejar e demonstrar que ainda me ele ainda me abalava. Não queria demonstrar fraqueza alguma perto dele.
Nico desviou os olhos do meu e abraçou o próprio corpo. Era claro que ele não queria conversar! O moreno se remexeu desconfortável e passou a mão direita pelos cabelos negros. Fez um pequeno movimento com a mão esquerda, pedindo para que eu prosseguisse o assunto. Senti minhas bochechas esquentarem de raiva. Nico nem sequer olhava nos meus olhos!
— Eu disse precisamos conversar então você para de babaquice e aja como um homem! — exclamei indignado com a reação dele.
Nico respirou fundo, de repente parecendo anos mais velho do que realmente era, e me fitou de volta.
— Realmente, precisamos conversar.
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