Preto é a Cor do Amor
31 Colegas de quarto
Notas iniciais
— Will
179.
179 dias com Nico me evitando descaradamente.
Seis longos meses em que me fizeram perceber que eu estava no fundo do poço. Na época em que eu briguei com Nico e o moreno terminou o namoro, ao invés de eu ter escutado os conselhos de Matt eu acabei fazendo a pior merda de toda minha vida.
Naquele dia eu escutei além do discurso reprovador de Matt, Annabeth e Piper me darem um sermão digno de Oscar, um soco muito bem dado por Percy por ter feito “uma canalhice com o irmãozinho dele” e o olhar acusador de Jason. Confesso que eu realmente merecia tudo aquilo que eles fizeram comigo, eu entendi perfeitamente a atitude infantil e canalha que fiz. Até Hazel, uma das pessoas mais calmas e boas que conheci, me deu um tapa na cara na hora do intervalo!
Nico desde aquele dia evitava dirigir a palavra a minha pessoa, ele agora sentava junto de Reyna na frente da sala e meu parceiro agora era Rick (um rapaz bem na dele). A galera demorou um pouco a voltar a falar comigo, até Matt que morava comigo estava me ignorando! Naquela época eu falava apenas o necessário com Connor e Travis.
Meu amigo foi o primeiro a perceber o quão ruim eu estava e voltar a me dirigir a palavra. Minhas notas começaram a decair, e várias vezes Apolo teve te ser chamado na direção a respeito disso, minha pele já estava ficando pálida por conta das incontáveis horas que eu ficava debaixo das cobertas apenas olhando as paredes, meu cabelo loiro estava maior que o comum e minha barba estava por fazer.
Minha situação era deplorável.
Com ajuda de Matt e logo depois de Piper e Annabeth, eu consegui recuperar minhas notas, minha aparência voltou ao normal e consegui voltar a interagir quase normalmente com meus amigos, tirando o fato de que os meninos demoraram um pouco a me "aceitar" de volta. Claro que no início eu ainda podia sentir os olhares reprovadores deles quando Drew se aproximava e me abraçava por trás apenas por diversão (para ela apenas).
A menina no final das contas só gostava de ver o circo pegar fogo...
Já havíamos acabado as últimas provas do ano e agora estava apenas acontecendo às competições dos jogos escolares. Descobri que Annabeth e Rachel faziam parte do grupo de debate no dia da final, as meninas eram realmente boas no que faziam e acabaram levando o prêmio de primeiro lugar. Jason era o capitão do time de basquete (Matt não havia me contado esse pequeno detalhe quando entrou no time) e depois de um jogo acirrado com o time do colégio rival eles acabaram perdendo por um ponto e levaram o segundo lugar. Percy, capitão do time de natação, levou a equipe ao pódio do primeiro lugar com seu nado livre 200 metros.
Hoje era o último dia de aula, felizmente a grande maioria do pessoal dos terceiros anos conseguiu passar de ano e iriam viajar para o acampamento, que seria amanhã. Estávamos todos dos terceiros anos reunidos no ginásio do colégio, um palco improvisado estava de frente a arquibancada e o diretor, junto de alguns professores e o conselho estudantil estavam dispostos lá.
Nico discursava parabenizando os alunos que participaram dos jogos, mesmo tendo ganhado ou não, e diziam sobre a importância dessa participação dos alunos nos eventos proporcionados pela escola. Seus olhos já não tinham aquele brilho bonito nos orbes negros (elas já não brilhavam desde o dia em que terminamos nosso relacionamento), seu sorrisinho pequeno parecia forçado e sua pele parecia até mais pálida.
— Ele parece tão frágil... – pensei alto.
Matt que estava ao meu lado apenas encostou seu ombro no meu, numa forma de chamar minha atenção.
— Tenta disfarçar um pouco... Você está secando descaradamente o rapaz – brincou rindo e voltou sua atenção ao palco improvisado.
O homem baixo e gordinho, com roupas exuberantes e olhos injetados, mais conhecido como diretor D, subiu num banquinho oferecido a si e testou o microfone.
— Moleques! – começou chamando a atenção e fazendo o burburinho parar – Como sabem amanhã às sete horas da manhã, estaremos esperando vocês para podemos ir ao acampamento Meio-Sangue. Espero que nenhuns de vocês se atrasem! Até amanhã!
Os gritos de euforia do pessoal encheram o ginásio. Os alunos começaram a se agitar e caminhar em direção a saída. Sorri animado e procurei Nico com os olhos, mas o moreno já parecia ter ido embora.
— Will! – escutei Matt me chamar e andei até onde o pessoal estava sentado. O ginásio aos poucos indo esvaziado.
— Estou bem ansioso para esse acampamento. – Leo comentou e Percy e Jason concordaram.
— Eu estou receosa... Acampamento de escola quase nunca é divertido... Eu já fui num no fundamental e foi terrível! – Piper disse fazendo careta.
— Relaxa Pips, nessa escola nenhum passeio nunca é chato – Annabeth acalmou a menina.
— Vai ser divertido! Até porque todo mundo vai! – Percy sorriu – Nós, Travis, Connor, Katie, Nico...
Quando o rapaz mencionou Nico meu corpo tencionou e eu arregalei meus olhos.
— Nico vai? – perguntei meio receoso. Piper tocou meu ombro e afirmou minha pergunta.
— Vai. Talvez lá você consiga pedir desculpas pra ele... – a garota sorriu meiga.
— Não acho que ele vá me perdoar... – comentei baixinho e sai de perto deles, indo para meu carro e ignorando os chamados do pessoal.
...
Quando cheguei em casa e vi que Apolo já havia chegado do hospital eu logo imaginei que ele estava dormindo. E eu estava certo. Seu corpo estava deitado de qualquer jeito no sofá, os cabelos loiros e rebeldes estavam emaranhados e a barba loira que decidiu deixar crescer estava suja com migalhas do salgadinho que comia.
Revirei meus olhos com a visão e tirei o pacote vazio dos salgadinhos do chão, meu pai provavelmente só tinha comido isso desde que voltara de seu plantão noturno. Ele podia ser rico e modelo, mas ele realmente amava a profissão médica. Tinha orgulho do enorme hospital que começou com seu pai e prosperou consigo e se animava com a possibilidade de que eu possa seguir o legado da família e me torne um médico brilhante.
Suspirei cansado e subi as escadas até meu quarto. As janelas estavam abertas, o que fazia um vento fresco entrar no cômodo e balançar meus cabelos. Joguei de qualquer jeito minha mochila na cama e sentei no parapeito da janela.
A tarde estava agradável, o vento bagunçava meus cabelos e o sol estava escondido entre algumas nuvens. Analisei a janela de frente a minha e sorri entristecido ao notar as longas cortinas pretas bloqueando as janelas. Talvez nesses cinco dias em que ficaremos lá no acampamento Meio-Sangue eu consigo me reaproximar de Nico e pedir desculpas por aquela minha atitude imatura.
Por mais que basicamente seis meses tenham se passado, ter beijado Drew na frente da turma inteira três dias depois de ter revelado a Nico que eu estava apaixonado por ele, o magoaram muito, ao ponto de ele nem querer mais olhar na minha cara. Nico deve ter definitivamente achado que desde o inicio eu estava apenas brincando com seus sentimentos...
Vi a cortina do quarto dele se mexer e prendi a respiração em ansiedade.
— Ainda bem que você está ai, Will! – Hazel exclamou baixinho assim que abriu as cortinas do quarto do irmão e me viu sentado no parapeito.
— Oi Hazel – falei arqueando levemente as sobrancelhas – Vai amanhã ao acampamento?
— Vou sim! Estou tão animada! – sorriu – Nunca fui num acampamento, nem num passei escolar... Estou ansiosa!
— Parece que vai ser divertido mesmo – comentei respirando fundo. Hazel verificou alguma coisa no quarto e me chamou baixinho.
— Meu irmão também vai. Will, por favor, não faça besteira com ele de novo! – a menina pediu preocupada – Nesse acampamento nós vamos tentar te ajudar porque percebemos o quanto você se arrependeu.
— Vocês o que?! – perguntei meio exaltado. Me desequilibrei do parapeito e por pouco não cai janela a baixo.
— Nós temos certeza que Nico sente alguma coisa por você! Nesse acampamento você vai ter que se esforçar pra conseguir a confiança dele de novo.
— Eu prometo que vou!
— Ótimo! Agora eu tenho que ir porque Nico está terminando o banho – Hazel terminou de falar já fechando rapidamente as cortinas negras do quarto.
Sai do parapeito da janela e deitei em minha cama. Meu sorriso ia de ponta a ponta no rosto e a ansiedade por amanhã me deixava irrequieto. A mera possibilidade de conseguir me desculpar com Nico e tentar reatar nosso relacionamento me fazia imaginar como seria o acampamento.
~*~
Na manhã seguinte eu estava enérgico. Acordei às cinco e meia da madrugada e não consegui voltar a dormir depois. Revisei tudo o que estava na mala e fiz um check up para não esquecer nada, vesti uma roupa leve e sentei no sofá esperando Matt descer para irmos até a escola.
Isso tudo e ainda eram seis e quinze da manhã.
O tic-tac do relógio ecoava pela sala vazia e escura. Inspirei fundo e me acomodei no sofá. A luz da cozinha se acendeu e o barulho de passos arrastados se fez presente. Presumi ser Martha acordando para fazer o café da manhã e logo reconheci o assobiar característico da mulher. Levantei do sofá e andei devagar e silencioso até a cozinha.
— Bom dia Martha – falei me sentando a mesa.
— Bom dia Will – respondeu sorrindo meiga.
Como ainda tinha algum tempo até Matt acordar e se arrumar para irmos até a escola, resolvi conversar um pouco com Martha enquanto ela fazia o café da manhã. Até hoje me pergunto o motivo para eu gostar tanto dela, talvez porque ela me passa uma sensação de calma e tranquilidade. Martha é como a avó amorosa que nunca tive.
— Bom dia! – Matt entrou na cozinha todo sorridente e beijou a bochecha de Martha.
— Que animação toda é essa? – perguntei rindo da cara surpresa da mulher.
— Apenas acordei feliz – riu e se se sentou à mesa.
— Resolveu pedir Reyna em namoro? – brinquei e vi meu amigo me dar o dedo do meio.
— Já disse que eu e ela somos apenas amigos – falou sorrindo e despejando o café na xícara.
— Finjo que acredito.
Comi apenas um pedaço de pão e um copo de leite e levantei-me da mesa. A ansiedade não me deixava comer mais que isso.
— Vamos logo Matt – adverti – Nós vamos a pé para a escola, não demore.
Meu amigo apenas confirmou e então sai da cozinha. Fui até o quarto de meu pai e dei um leve beijo na testa do homem, hoje ele teria que cobrir a parte da tarde no hospital então estava tendo um tempo a mais para dormir de manhã.
Despedi-me de Martha e então Matt e eu fomos andando calmamente até o colégio. Meu amigo tagarelava animado sobre as expectativas desse acampamento enquanto eu tentava me manter calmo e centrado pela possibilidade de reatar alguma coisa com Nico.
~*~
Quando chegamos ao colégio, os três ônibus que nos levariam já estavam lá. O diretor D, junto do professor Quíron, anotavam os alunos que já haviam chegado e faziam o controle dos adolescentes.
Vi meu grupo reunido perto do portão e andei até eles.
— Bom dia pessoal! – falei sorrindo e recebi cumprimentos igualmente animados.
Escutamos o diretor baixinho pedir silêncio e tomar a palavra para si.
— Escutem bem! – exclamou – Não quero gracinhas dentro dos ônibus. Devemos chegar lá no final da tarde, então apenas diremos como ficou a divisão dos chalés e terão a noite livre. A partir de amanhã as atividades do acampamento começarão.
Aos poucos as turmas entraram em seus determinados ônibus e os professores faziam a chamada para se certificarem que nenhum aluno faltava. Toda minha turma do terceiro ano estava animada, as conversas paralelas e os risos altos denunciavam a animação de todos naquele ônibus.
Nico e Reyna sentaram-se nas poltronas da frente do ônibus, bem distantes de nós que sentávamos nos fundos.
— Eu sinto que esse acampamento vai ser bom – escutei Piper falar na poltrona atrás de mim.
— Eu também sinto – sussurrei fechando os olhos e me acomodando para dormir.
...
— Acorda Will – escutei Matt me chamar e chacoalhar meu ombro – Já chegamos!
Me espreguicei e observei a paisagem pela janela. Era um lugar que transmitia tranquilidade. Alguns morros com gramas verdes e árvores frondosas se estendiam pelo horizonte e mais a frente no maior morrinho da paisagem, se estendia majestosamente o mais bonito e enorme pinheiro que já vi na vida.
O sol já estava a oeste no céu, provavelmente faltavam alguns minutos para se pôr.
— Estão vendo o pinheiro crianças? – escutei Quíron perguntar lá na parte da frente do ônibus – Aquela é a entrada para o acampamento Meio-Sangue.
O ônibus estacionou no acostamento e então um por um os alunos foram descendo com suas malas. Quíron e o diretor D nos guiaram até a entrada do acampamento e um homem peculiar nos esperava encostado no enorme pinheiro.
O homem era pálido e terrivelmente magro, usava um macacão laranja desbotado. Tinha sombras azuis debaixo dos olhos, unhas sujas de terra e cabelos grisalhos.
— Sejam bem vindos ao Acampamento Meio-Sangue! – falou sorrindo e bateu suas mãos sujas no macacão desbotado – Eu sou o diretor de atividades do acampamento, Tântalo. Espero que gostem das atividades que temos aqui e me desculpem os trajes, estava nos campos de morangos.
— Tântalo, meu amigo! Sempre que te encontro tem terra nas mãos! – o senhor D se pronunciou cumprimentando o homem magro e rindo junto dele.
Depois de trocarem rápidas palavras, o diretor D se pronunciou.
— Os chalés têm quatro camas de solteiro, então cada um terá quatro alunos separados por sexo – explicou – Infelizmente como temos dois quarto para casais, dois alunos e duas alunas terão que dividir os chalés com cama de casal. Os grupos formados não poderão ser alterados e não quero escutar reclamação!
Escutei alguns alunos reclamarem e então a chamada teve inicio. Percy, Jason e Matt acabaram dividindo o chalé assim como Leo, Frank e Pollux. Reyna acabou dividindo com Drew e Rachel e tenho certeza que a asiática vai ter que tomar cuidado com o que diz com Reyna por perto.
Eu esperava pacientemente para meu nome ser chamando, enquanto brincava com um fio solto da minha calça jeans.
— E por último Will Solace e Nico di Angelo dividirão o chalé 13 – o diretor terminou de falar fechando o caderno de anotações e acompanhou Tântalo entrando no acampamento.
Tentei disfarçar o sorriso e engoli em seco quando vi a cara descontente do moreno.
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