Notas iniciais
Gente, obrigada a todos os que comentaram no capítulo passado! Fiquei feliz com o retorno que recebi de vocês! ♥ ~Enjoy

— Will

Nunca acreditei em destino ou carma, mas depois de hoje talvez quem sabe eu comece a acreditar. Nico não tentava esconder o desagrado ao descobrir que teria de dividir o quarto comigo e eu apenas sorria controlado.

Eu não podia pular e rir histericamente como queria porque seria extremamente estranho e suspeito.

Peguei minha mala e mochila e andei até a casa principal onde Tântalo nos guiou para pegar as chaves dos chalés. A casa era grande com telhados azuis e uma varanda proporcional, tinha uma mesa de madeira lá e algumas pessoas, provavelmente funcionários do acampamento, jogavam cartas.

— Ou isso foi muita sorte ou com certeza foi armação – escutei Matt sussurrar brincalhão. Apenas revirei os olhos.

— Isso, meu amigo, é o destino me mandando um sinal de que é pra ficarmos juntos – comentei sorrindo largo.

Matt gargalhou alto e fingiu limpar algumas lágrimas dos olhos.

— Destino... Aham, sei... – falava quase sem ar de tanto rir.

— Cala a boca Matt – ralhei xingando-o baixinho.

Peguei a chave do chalé 13 e agradeci o diretor de atividades do acampamento, Tântalo. O homem me sorriu torto, e um frio na espinha me arrepiou quando notei aquele repuxar de lábios finos e desidratados.

Nunca vi homem mais estranho... Era magro demais, pálido demais, esquisito demais!

A única coisa que notei de imediato no chalé 13 foi sua simplicidade. As madeiras negras polidas e lustradas tinham um brilho especial, o guarda roupa era grande o suficiente para acomodar minhas roupas junto com as de Nico e cama de casal era extremamente confortável.

O banheiro incluso era básico, Box de tamanho médio, pia e vaso sanitário.

Vi que a janela tinha a vista de frente ao lago do acampamento e inspirei fundo o cheiro salgado da água. Sorri um pouco quando notei que tinha um píer e que parecia bem firme para se sentar ou pular do mesmo.

Escutei a porta ser aberta e vi Nico passar por ela com cara de poucos amigos. Ajeitou sua mala negra perto do armário e suspirou pesado.

— Oi... – falei meio vacilante.

O moreno me ignorou e continuou a arrumar suas roupas em seu espaço no armário. O silêncio que se seguiu depois de minha falha tentativa de comunicação foi incomodo. Minha respiração parecia alta demais e por isso eu respirava cada vez mais devagar. Eu via as costas de Nico se movimentar pelo gesto quase robótico dele de guardar as roupas no armário e isso me agoniava.

Depois de quase quinze minutos no silêncio totalmente constrangedor e incomodo Nico se levantou e com uma muda de roupas e toalha, andou até o banheiro.

— Isso vai ser bem difícil – falei totalmente frustrado.

Resolvi sair do quarto e conhecer um pouco mais do acampamento. A área onde os chalés estavam dispostos era bem distribuída. Não contei ao todo quantos chalés eram, mas todos pareciam ocupados pelos estudantes da High Way School. Eu andava meio distraído, observando o local com certa admiração.

Os campos de morangos eram extremamente lindos, o cheiro gostoso da fruta estava presente mesmo de longe. Descobri que tinha uma arena no acampamento, bem ampla e espaçosa com arquibancadas de cimento e uma cabana um pouco mais longa que as outras, com uma cruz em vermelho e escrito ‘enfermaria’ logo abaixo dela. O refeitório era igualmente grande, com várias mesas longas (aquelas típicas encontradas ranchos e fazendas em filmes hollywoodianos) de madeira maciça, muito bem distribuídos e organizados.

Do lado de fora da construção era encontrado áreas para prática de arco e flecha, cavalgadas, canoagem, esgrima, havia também uma enorme parede de escalada e o que me chamou mais a atenção foi um espaço com uma construção rústica de pedra para fogueiras e um quase circulo formado por troncos de árvores em redor da suposta “fogueira”.

— À noite Tântalo faz uma roda na fogueira pra assar marshmallows? – brinquei imaginado a cena do homem esquelético e feições maquiavélicas, assando o doce.

Resolvi ir ao píer que eu havia visto da janela de meu chalé e, para minha sorte, ele se encontrava vazio. A construção era simples, a madeira estava um pouco desgastada, mas nada muito alarmante. As águas do lago eram cristalinas e calmas, o vento fazia leves ondulações na água que traziam pequenas conchas para a areia branca.

Mais para perto do barranco na divisa entre areia e gramado, estava uma árvore de tronco grosso e galhos altos. Fazia uma sombra refrescante para se descansar nos dias quentes e foi deitado ali, recostando seu dorso no tronco da árvore, que vi Nico de olhos fechados e respiração uniforme.

Sentei-me no píer e me arrumei numa posição para encarar discretamente (nem tanto assim) o moreno descansar debaixo da árvore. Como já era fim de tarde, o pôr do sol pintava o céu em tons vermelhos e laranjas, as águas reluziam o brilho magnífico e os últimos raios solares davam a Nico um ar quase angelical, o que era irônico devido ao seu sobrenome.

Eu contemplava completamente maravilhado a obra da natureza a minha frente.

Bastou seis meses longe de Nico para eu criar uma pequena obsessão em ficar encarando o moreno e amar cada pequeno detalhe daquele rosto angelical... Às vezes me achava até meio patético e extremamente deprimente e melancólico.

Olhei a tela de meu celular e soltei o ar derrotado. Minha proteção de tela era uma foto que tirei de Nico distraído numa das várias vezes em que eu o encarava descaradamente. Patético...

— Se tudo der certo, no final do acampamento nós já teremos resolvido todos os problemas pendentes – falei sozinho e ri comigo mesmo.

O que alguns meses sem a pessoa que se gosta não fazem... Até falar sozinho agora eu falo!

Levantei-me assim que o sol terminou de se pôr e andei despreocupado até meu chalé. Encontrei rapidamente com o pessoal reunido perto da casa grande e conversei poucos minutos com eles. Eu notava os olhares encorajadores de Piper e Annabeth sobre mim e aquilo já estava começando a me incomodar ligeiramente. Hazel e Frank estavam conversando um pouco mais afastados de nós e Leo, junto de Calypso, estavam junto dos irmãos Stoll e Matt numa conversa animada.

Despedi-me num aceno do pessoal e rumei até o chalé 13. Nico estava sentado confortavelmente na cama, lia um livro que não consegui identificar, e não levantou os olhos quando entrei no cômodo. Separei uma roupa leve e andei até o banheiro adjacente ao quarto.

A água gelada serviu para eu organizar meus pensamentos e tentar encontrar um jeito de me comunicar com Nico. O moreno nem fazia questão de me olhar nos olhos, evitava qualquer contato comigo e ainda por cima me ignorava completamente quando eu lhe dirigia a palavra!

Vesti minhas roupas e sai do banheiro, apenas para ver que Nico já não se encontrava por aqui.

— Foge de mim, como diabo foge da cruz! – exasperei-me jogando a toalha na cama.

Escutei ao fundo uma corneta tocar e levantei a sobrancelha. Eram sete horas da noite, porque uma trombeta tocaria nesse horário? Provavelmente deveria ser Tântalo querendo anunciar as regras e outras coisas do acampamento, ou querendo dar boas vindas mais apropriadas, ou apenas seria o toque de recolher.

Sai do chalé apenas para ver que o local de encontro seria no pavilhão-refeitório, alguns adolescentes andavam em grupos, todos fofocando e rindo divertidos. Encontrei por acaso, Percy e Annabeth e fui de encontro a eles.

— Sabem o porquê disso? – perguntei ao casal. O moreno de olhos esverdeados me olhou de cima a baixo, antes de sorrir e dar de ombros.

— Não olhou o cronograma que tem na casa principal? – Annabeth perguntou me fitando com seus olhos acinzentados.

— Não – confessei sorrindo constrangido.

— É hora do jantar, mais tarde será nossa primeira noite na fogueira – comentou sorrindo. Sua animação era quase palpável.

— Escuta Will – Percy parou de repente e me encarou sério. Annabeth apenas revirou os olhos e disse que ia andando na frente, beijou a bochecha do namorado e deu um tapinha leve em meu ombro quando passou ao meu lado.

Eu estava confuso. Percy me analisava de cima a baixo e aquilo estava ficando desconfortável. Olhei nervoso ao nosso redor e vi que quase já não tinha mais ninguém por perto.

— As meninas me contaram que estão armando pra te ajudar a voltar com Nico – revelou cruzando os braços e erguendo uma sobrancelha – Eu e Jason estamos com um pé atrás em concordar com essa ideia maluca delas... Não quero ver Nico novamente magoado porque você não sabe segurar tua língua dentro da boca.

— Sabe que eu não faria aquilo novamente! – me defendi ofendido por aquilo que Percy falou – Fiz por impulso, quase desespero, e sabe muito bem que me arrependo amargamente de um dia ter beijado Drew!

— Mesmo assim... – Percy estreitou os olhos.

— As pessoas erram Percy! – levantei os braços em sinal de frustração – Atire a primeira pedra quem nunca errou! Pelo amor aos deuses, eu sou humano! Erro como qualquer outra pessoa, então não me crucifique por isso!!

Notei que estava falando alguns decibéis mais altos (para não dizer que gritava) quando notei o senhor D vindo em nossa direção.

— Peter Jackson e Bill Solace, qual o motivo de estarem aqui aos berros? – perguntou sério. Sua cara levemente avermelhada demonstrava a irritação.

— Não foi nada senhor D, apenas estávamos discutindo um assunto importante – Percy falou revirando os olhos e ignorando o fato de o diretor ter errado seu nome.

O homem baixinho e de barriga protuberante bufou irritadiço e mandou-nos entrar logo no refeitório, caso contrário, receberíamos uma punição elaborada por si. Andamos calados até o pavilhão-refeitório e Tântalo já falava sobre algumas regras do acampamento.

— ...Não é permitida a circulação de campistas depois da meia noite. O cronograma de atividades está disponível para vocês na casa principal, peço que façam as inscrições com meia hora de antecedência a cada atividade para o instrutor manter o controle de campistas. E por último, mas não menos importante, depois das dez horas é proibido que meninas e meninos fiquem sozinhos no mesmo chalé – terminou com um sorriso nos lábios finos e pálidos.

Escutei alguns alunos rirem, Tântalo pigarreou chamando a atenção de todos.

— Agora que sabem das pequenas regras, espero que gostem do acampamento! Depois da hora do jantar, teremos uma noite na fogueira! – exclamou batendo palmas e sendo seguido por muitos adolescentes animados.

O jantar ocorreu tranquilo. Acabei encontrando o pessoal reunido numa mesa conversando todos empolgados, o clima estranho que se instalou momentaneamente entre eu e Percy foi dissolvido depois de ele ter me dito que “o que eu tinha falado fazia sentido, mas que continuaria de olho em mim”. Confesso que estranharia se não ficasse desconfiado...

Observei discretamente Nico o jantar inteiro. O moreno estava calado, pensativo, e vez ou outra respondia algumas perguntas que Reyna ou até mesmo Jason lhe faziam. Notei que seu olhar estava distante, sua testa estava levemente franzida e os lábios estavam crispados. Nico estava preocupado com algo.

No fim da noite eu não estava muito animado para participar da “cantoria na fogueira”, então apenas andei a passos lentos até meu chalé. Foi então que minha ficha caiu.

Nico estava preocupado sobre a questão de dividirmos o quarto! Teríamos que dormir na mesma cama!

Sorri faceiro e inspirei o ar puro do acampamento. A cada passo que eu dava em direção à cabana de número 13, mais embrulhado meu estômago ficava, meu coração acelerava e minhas mãos suavam. Repreendi-me mentalmente, parecia até que eu era um criminoso indo confessar o crime. Já na porta respirei fundo mais uma vez e entrei.

Nico já estava deitado, seu corpo magro estava completamente coberto pelo lençol e dividindo a cama ao meio, estava uma muralha de travesseiros e fronhas. Minha ansiedade e nervosismo se dissiparam no exato momento em que processei aquela cena. Suspirei indignado e vesti meu pijama (mesmo eu não estando acostumado a dormir vestindo nada além da cueca). Escutei o ressonar baixinho do moreno e tive vontade de puxar o corpo magro de encontro ao meu.

Tão perto e tão longe ao mesmo tempo...

No fim das contas, não dormi muito bem sabendo que Nico estava ao meu lado e eu não poderia tocá-lo.