Pretérito Imperfeito
30 Capítulo XXX - I Found Myself In Wonderland
Notas iniciais
Querido Diário,
Continuou tento pesadelos esquisitos, deveria estar me arrumando para ir ao colégio, mas simplesmente não consigo. Tenho que escrever antes de esquecer ou coisa parecida.
Na verdade o sonho desta noite não foi bem um sonho, foi uma lembrança dessa Dimensão que eu parecia estar durante o último mês da minha vida.
Bem, eu estava naquele campo gramado sem árvores com aqueles dois sóis, e de repente, do chão ao meu redor foram surgindo paredes. Você deve estar se perguntando se eu pirei... Para ser sincera não, nem me assustei. As coisas naquele lugar eram tão bizarras do nada que se passasse um elefante num monociclo eu poderia dar bom dia a ele e receber o cumprimento de volta achando a coisa mais normal do mundo.
Sim! Aí quando eu me dei conta o negócio já possuía teto e tudo mais, uma janela, uma porta... Até móveis!... O tempo passava naquele lugar de uma maneira diferente, parecia que eu estava lá a muito mais tempo do que um mês... Móveis! Você não fazia ideia do quanto que eu sentia falta de uma mesa, um sofá e uma cama – apesar de eu não sentir sono em momento algum – parecia que alguém estava me dando um presente, aquela cabana era um presente realmente!
Foi então que uma mulher surgiu, ela tinha uma pele morena como canela em pó e vestia roupas antigas como a anja de cabelos vermelhos, só que a roupa dessa senhora eram muiiiiito mais humilde.
Ela atravessou a porta e sorriu para mim... TODO mundo lá sorria para mim, naqueles momentos eu queria ter um espelho para saber se tinha alguma coisa engraçada na minha cara...
– Olá criança. – Disse a mulher, agora já eram 4 personagens inventados pela minha mente... O loiro de sotaque, a anja ruivinha, a minha mãe e agora essa senhora. Ela era quem mais aparecia para mim... Mas acho que essa foi mesmo a primeira vez que a vi.
– Oi...? – Eu respondi insegura.
– A senhorita não se recorda de mim, presumo. – Ela disse colocando suas duas mãos para trás.
– Não, eu não conheço a senhora... – Eu corrigi. -... Ou conheço?
– Acho que não... – Ela me respondeu e sorriu.
Okay! Ela era louca... Uma hora me conhecia na outra achava que não.
– Isso é para você! – Ela estendeu um objeto dourado na minha direção se aproximando.
– Uma chave? – Eu indaguei segurando o objeto e um pouco confusa.
– É desta casinha, ela é sua agora, enquanto estiver adormecida... – Ela explicou pousando agora suas mãos entrelaçadas no “pé” de sua barriga.
– Por quê? – Eu questionei mais confusa do que nunca.
– Porque necessitas de um lugar a salvo para encontrar-se com Ela. – Ela explicou com um pouco de falta de paciência como se aquilo que estivesse me falando fosse óbvio demais.
– Ela? Quem é Ela? – Eu perguntei inocente esquecendo-me que aquele povo que sempre vinha me visitar não mencionava nomes NUNCA.
– Ela, claro! – Okay! Aquela mulher só podia estar falando da anjinha foragida ou da minha mãe.
– A anja de cabelos de fogo? – Perguntei arriscando um palpite.
– Ela mesma... Mas escute bem o que vou te dizer, em hipótese alguma convide Ele para entrar! Caso contrário não adiantará nada eu ter feito essa casa... – A senhora tentava me alertar, tava na cara que Ele só podia ser o carinha do sweetheart.
– Você que fez essa casa? Como? – Eu fiquei assustada.
– Sim, fui eu... Contarei, mas não precisa ter medo, certo criança? – Ela indicou para que eu sentasse em uma das duas cadeiras da mesa, enquanto ela se sentava em outra.
– Sou o espírito de uma bruxa poderosa que faleceu a umas dezenas de anos, minha missão é usar o pouco de forças que tenho e te ajudar aqui, e quando eu estiver mais forte, lá no seu plano. – A mulher falou temerosa, parecia ter medo de minha reação. Mas por mim estava tudo bem, Se eu contasse que meu namorado na época era um vampiro de mais de 150 anos, acho que eu iria assustá-la.
– Onde é aqui? – Eu perguntei, não sei o porque, mas ela transmitia segurança, quase acreditava nas palavras dela, embora parecessem um pouco absurdas, afinal eu estava sonhando.
– Você está na união de três coisas diferentes... Seu subconsciente uniu o mundo do sol nascente com o meu auxílio, era para ser apenas esta fusão... Mas você tem muito mais poder sobrenatural do que pensa, e conseguiu sozinha fazer a união do seu subconsciente com o mundo do sol poente... – Ela tentava me explicar, só que um nó estava ficando cada vez maior na minha cabeça, apesar de sentir a tendência de acreditar nela, ainda não o fazia de forma homogênea.
– E o que são esses mundos? – Eu perguntei demonstrando interesse na história daquela mulher estranha.
– São mundos espirituais bem distintos, assim como Ele e Ela... – Ela disse, mas foi interrompida por mim.
– E qual o motivo dessa união? – Eu indaguei.
– Não posso responder todas as perguntas, essa é uma das proibidas... – Ela pareceu ficar meio tristonha.
– Tudo bem... Você falou que eu não podia convidar ELE a entrar, por quê? ELE é um vampiro, ou o espírito de um, sei lá...?
– Também não posso responder a essa pergunta. – Ela continuava meio cabisbaixa parecia se sentir um pouco inútil em não poder me contar o que eu queria saber.
– Por que você não pode responder a todas as minhas perguntas? – Eu estava um pouco irritada por ter tido duas questões que considerava esclarecedoras rejeitadas, mas não descontei na senhora.
– Porque o que acontecer aqui só pode interferir o mínimo possível na sua vida lá fora. – Ela se sentiu mais útil conseguindo responder essa.
– Certo... Você pode me dizer então o porquê da anjinha ruiva... – A mulher me interrompeu.
– Na verdade ela não é uma anja, é apenas um espírito puro de luz... – Ela me corrigiu e eu prossegui com a pergunta.
– Okay... Então você pode me dizer o porquê desse espírito puro de luz estar fugindo do cara loiro de aura negra – Eu consegui terminar sem ser interrompida.
– A resposta está em sua própria indagação. – Ela disse logo em seguida.
Eu fiz uma cara de frustração para a resposta dela.
– Sei que você quer uma resposta mais esclarecedora, não posso entrar em muitos detalhes... Tudo o que posso falar é que o espírito dele é impuro e se ele tocar nela pode contaminá-la... E Ele a quer desde que ambos não eram nem espíritos ainda... Mas se ele se redimir de todas as coisas ruins que ele fez enquanto era vivo, que não foram poucas, pode alcançar o mundo dela... Ela também já foi um espírito impuro, mas se redimiu... – Ela explicava as coisas e eu ficava com cara de paisagem sem entender bulhufas.
– Espera aí, isso é contagioso? E esse negócio desses mundos é tipo céu e inferno? – Eu torcia todos os músculos possíveis do meu rosto tentando entender alguma coisa.
– Digamos que é contagioso... O espírito puro é tão bondoso que automaticamente tocaria nele para dividir a dor que ele sente remoendo seus erros e malvadezas, voltando a ser impuro, mas é muito mais difícil se tornar puro com a infecção das impurezas alheias, como ela poderia se arrepender dos pecados dele?... Por isso ela foge, porque todo espírito puro é aconselhado a fazer isso... E sim! É tecnicamente parecido com o céu e o inferno dos humanos normais... – Ela ainda tentava me fazer entender.
– Mas a minha mãe? A anja... Anja não! O espírito puro... Ela tocava na minha mãe e a minha mãe... – Eu disse e isso a fez quase tomar um choque.
– Mãe? Que mãe? Sua mãe? – Ela se assustou.
– Sim... – Eu disse vagarosamente desconfiada da reação dela. -... Ela tinha uma aura cinza, e...
– Aura cinza? – Ela me interrompeu mais uma vez.
– Sim, cinza... Preto e branco misturado, sabe?! – Eu satirizei.
– Os seres de aura cinza são apenas ilusão da sua mente, não se preocupe... Não são reais. – Ela disse aliviada.
Eu comecei a rir gradativamente e quando dei por mim já estava em gargalhadas.
– O que foi tão engraçado? – Ela parecia desconcertada.
Peguei um pouco de ar e falei:
– Você não faz ideia do quão irônico é uma ilusão da minha cabeça se autodenominar real e ainda por cima acusar outra de não ser...
– Mas eu sou real, tudo aqui é real! Exceto os que tiverem aura cinza... – Ela disse séria ainda sem compreender meu motivo para o ataque de risos.
– Okay... Então digamos que “isso o que você está me falando” é verdade... Cadê sua aura? – Eu disse cética.
– Eu a escondi, claro! Consigo fazer isso, é que também não quero me encontrar com Ele, mas posso te mostrar por um instante... – A mulher disse e como um passe de mágica uma luz brilhante perseguiu sua pele se tornando um escudo em cada parte, assim como o da mulher ruiva, depois ela escondeu sua aura novamente.
– Eu não consigo entender nada do que você me explicou... Nada desse papo de subconsciente, dois mundos espirituais, e espíritos puros e impuros... – Eu disse cansada.
A senhora riu de mim humildemente.
– Não conseguiria nem se si esforçasse... Essas coisas não foram feitas para serem entendidas por pessoas vivas, não tente entender, apenas aceite as coisas que eu falei...
Agora não tenho mais tempo para isso, Elena está na minha porta berrando dizendo que ainda tenho que tomar café e vou acabar me atrasando para o colégio. Tenho que ir.
[...]
Juliana desceu até a cozinha após ter se arrumado para mais uma semana no colégio, Jeremy e Elena já tinham saído. Isso provou a ela que estava realmente atrasada.
– Bom dia. – Disse Jenna tomando seu café.
– Bom dia. – Juliana respondeu com um sorriso.
– Perdeu mesmo o horário, não foi?! – A mulher com cabelos em tom de ferrugem disse retoricamente.
– É... – Disse Juliana soltando um sorriso amarelo, enquanto a mulher a observava como se tivesse lendo sua alma.
– Olha, eu acidentalmente escutei a conversa de você e Damon anteontem de madrugada... – Explicou Jenna.
– Acidentalmente? – Juliana deu um risinho.
– É... Você não é a única que sente sede altas horas da noite. – Jenna riu também.
– Então... Você só quer me comunicar isso? – Juliana tentava adivinhar o motivo da conversa.
– Na verdade não é só isso... – Jenna começou a se explicar. -... Eu vou tentar ser bem direta, okay?
– Por favor. – Juliana disse se sentando.
– Eu já convivi o bastante com muitos canalhas na minha vida, e sei bem como reconhecer um... Quando eu conheci Damon meu radar de cafajeste apitou loucamente... – Jenna dizia.
– É... Seu radar tinha razão. – Juliana concordou.
– Ele nunca erra... – Jenna deu uma piscadinha. -... Mas minhas experiências com esse tipo também me proporcionaram outro dom...
– Qual? – Juliana indagou interessada enquanto mordia uma torrada com geléia de amora.
–... Eu sei identificar quando um está sendo sincero e falando a verdade, e... – Dizia a loiro-acobreada.
– E...? – A morena engoliu um gole de suco um pouco desconfortável.
– E... Que eu tenho infinita certeza de que Damon estava sendo sincero com você... Ele está verdadeiramente arrependido, não duvide das coisas que ele te falou. – Jenna dizia quando foi interrompida pela adolescente.
– Nunca pensei que veria você defender Damon, esperava isso de Alaric, mas não de você... – Juliana disse com uma cara risonha achando graça da situação.
– E você estava certa! – Jenna disse meio risonha também. – Eu NUNCA, NUNCA, NUNCA fuiTeam Damon... Sempre quis a distância dele com Elena, ou minha amiga Andie, e também nunca fui fã do seu relacionamento com ele porque gosto de você como da Elena e do Jeremy... Eu fui amiga da sua mãe na adolescência, sabia?... Mas graças a anteontem tenho que dar o braço a torcer um pouco... Aquele cafajeste falava a verdade...
– Você está sugerindo que eu devo perdoá-lo...? – Juliana deduzia um pouco insegura.
– Não é bem isso... É que eu gostaria de saber dessas coisas quando eu não sabia assim como você. Deu pra entender? – Jenna tentava explicar.
– Não muito... – Juliana disse e as duas começaram a rir.
– Se você vai perdoar ou não, a escolha é sua, mas em minha opinião ele merecia uma segunda chance, afinal, pelo que eu soube até esse deslize ele tinha sido o namorado perfeito... E bebida, você sabe, a pessoa perde o controle de si, com vampiros não deve ser tão diferente assim... – Jenna tentava explicar seus ideais.
– Mesmo que eu quisesse, não consigo perdoá-lo... – Juliana disse um pouco tristonha.
– Não consegue agora, mas talvez depois você consiga, os sentimentos bons geralmente falam mais alto... – Jenna a consolava. – Eu realmente falo por experiência própria, já perdoei coisas bem piores que o que ele te fez e para falar a verdade, em muitas eu voltei a ser magoada depois do perdão...
– E não se arrepende de ter perdoado? – Juliana se sentia tendo uma conversa de mãe e filha, como sempre sonhou em ter.
– Não, nem um pouco... Sabe por quê? Porque as coisas que eu passei me fizeram ser quem sou hoje, e sou muito feliz comigo mesma; hoje tenho uma pessoa maravilhosa ao meu lado... – Jenna também se sentia um tanto maternal, ela nunca tinha tido uma conversa assim com Elena ou Jeremy.
– Você mal vê a hora, para dentro de alguns dias, se tornar a Senhora Saltzman, não é?! – Juliana sorriu para a felicidade da tia emprestada.
– É... – Jenna disse e começou a rir como uma adolescente.
Depois a mulher voltou a se concentrar na garota de coração partido a sua frente.
– Se eu dissesse para seguir seu coração seria um clichê, e eu detesto essas coisas de adultos conservadores, então vou dizer para você fazer o que você quiser, quando quiser, sem sentir culpa... Se pensar em dar uma chance a ele, não precisa ser uma coisa imediata, pode ser gradativa, bem aos poucos... Vocês, ou você, que é o que importa mais, não precisa voltar a assumir um relacionamento com ele tão rápido... Você é jovem, tem uma vida inteira pela frente. Talvez ele seja a pessoa certa para você, ou talvez não... E sem querer te desencorajar: talvez você, como eu, precise ter seu coração partido em pedaços muitas vezes até encontrar sua alma gêmea... – A mulher de cabelos em cobre dizia.
– Não se preocupe não desencorajou. – Juliana sorria ternamente depois que interrompeu a mulher.
– É isso! Meu ponto de vista... Perdoando, não perdoando... Dando uma segunda chance a Damon ou não... Você tem que fazer o que se sentir confortável a fazer, pois nossa vida não temreplay e perder tempo com mágoa é um total desperdício. – Jenna concluiu.
– Então vingança está fora de questão? – Juliana disse e as duas caíram em gargalhadas.
– Completamente... – Disse a loira entre risadas.
Depois de pararem de rir, Jenna voltou a se pronunciar.
– Como devemos terminar essa conversa? Sei lá, estou me sentindo tão mãe, mas não faço ideia...

– Eu também estou perdida quanto a isso... Não sei como deveríamos terminar... Órfã de mãe, lembra? – Juliana confessou.
– Já sei! – Jenna andou até o lado da cadeira onde Juliana estava sentada e pediu para ela se levantar.
Quando a garota se levantou, a noiva de Alaric a envolveu com os braços e foi bem recebida.
– Era assim que a minha irmã fazia com a Elena... – Jenna disse soltando-a finalmente do abraço.
– Obrigada. – Disse Juliana.
– De nada. – Jenna sorriu.
– Você será uma boa mãe. – Completou Juliana.
– Ih! Não me elogia não se não eu me empolgo, quer ver?... Menina tome logo seu café, ou vai se atrasar mais ainda! – Jenna fingiu uma bronca. – O que achou?
– Muito convincente... – Juliana disse e uma sorriu para a outra.
As duas terminaram o café e continuaram conversando. Juliana saiu para o colégio super hiper mega atrasada para variar.
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