Presos Por Um Olhar

143 Uma Promessa = Uma Realidade


Notas iniciais
Eu sei que estou demorando para atualizar, mas tenho um bom motivo, estou planejando o final da história e fazendo a pesquisa para o grande momento, assim, me perdoem o atraso. No mais, novo capítulo na área. Espero que gostem. Boa leitura.

Ainda saboreando a vitória de minhas sobrinhas retornei ao trabalho com força total, porém, tanto em minha casa, quanto em meu escritório, havia os sinais do que acontecera na Argentina. Pois em um lugar de destaque, estavam as fotos de Lena e Liv com seus respectivos cavalos e troféus. O mais impressionante foi o fato de que as fotos não foram as que tirei, mas sim outras que Ian tinha tirado e minhas sobrinhas tinham feito questão de me enviar, já no devido porta-retrato, com uma dedicatória escrita atrás, agradecendo não somente a presença ao lado delas na Argentina, como o apoio incondicional que sempre demos.

Além de mim, minha sogra e Alex também ganharam as fotos.

Agora, até mesmo no Rancho havia um enorme quadro com as duas campeãs, assim, o hipismo passou a ser uma conversa frequente quando a família Pierce se encontrava nas noites de domingo para o jantar em família.

E, no quesito vida profissional, tudo ia bem, a empresa vinha em uma ascensão no mercado, se tornando a líder absoluta de transporte no mundo, era ao mesmo tempo um aumento na responsabilidade de todos, mas também motivo de orgulho. A NT&S era um modelo a ser seguido e um local onde muitos passaram a querer a trabalhar. Nosso RH recebia inúmeros currículos todos os dias, mesmo que não estivéssemos contratando, éramos mencionados nos programas de negócios e, representada por Camila Grisson, nossa CEO, fomos capas das mais variadas e renomadas revistas de negócios do mundo.

Em resumo, tínhamos chegado no lugar onde a antiga administração queria, dessa vez sem passar ninguém para trás.

Outro ponto que chamava a atenção das pessoas era justamente o fato de uma empresa tão grande ser comandada por duas mulheres. O que para alguns analistas poderia ser motivo de desconfiança, para o mercado era segurança.

Ganhamos vários prêmios, desde administração de pessoal, com nossa política de salários e direitos iguais, além dos incentivos de desemprenho de direitos trabalhistas que eram inéditos em muitos países, como licença maternidade de dois anos, pagamento de salário integral nas férias, que eram de 45 dias por funcionário, horas extras e demais direitos dependendo do cargo ocupado. Nenhum trabalhador era excluído, não importa se trabalhava na limpeza ou na administração, se era das entregas, ou trabalhava nos nossos navios.

Com isso, as reivindicações dos portos mundo afora foram atendidas, nossas instalações foram melhoradas e atualizadas, assim como todos os equipamentos que usávamos. E, já mirávamos em um outro alvo, a emissão zero de carbono nos próximos anos.

Seria difícil? Claro, toda mudança é complicada. Mas não seria impossível. Era só trabalharmos duro. Como um único organismo.

E eu acreditava piamente que seríamos os pioneiros nesse quesito, também.

Estava sozinha em meu escritório, Milena já tinha ido embora, Wendy estava de férias, assim como Amanda, que assim que fez 18 anos, foi contratada como secretária júnior da administração, sendo uma das mais jovens contratações da empresa, porém, ela era um tesouro que não poderíamos perder, mesmo sabendo que o lugar dela não era necessariamente aqui, mas no mesmo departamento de onde vim, o de vendas e captação de recursos, mas até ela saber todos os macetes dessa função, estava treinando a garota por aqui. E, assim aproveitei para trabalhar até mais tarde e adiantar meu serviço, além de analisar a fundo se o investimento que fizemos com a Fórmula 1 já estava dando resultado.

Tendo Alex ido viajar com a turma do surf para Hawaii, aproveitando um pouco das férias longe de mim e, também, para fazerem a despedida de solteiro do Benny, não vi motivos para voltar cedo para casa, afinal, não tinha com quem conversar.

Coloquei a música um pouco mais alto, tirei meus sapatos e mergulhei nos números e relatórios da empresa, sempre fazendo as devidas anotações quando algo ou me agravada muito, ou me deixava desconfiada com o progresso do plano.

Concentrada como estava, não vi a hora passar, assim como não percebi que tinha companhia, e quando enfim levantei minha cabeça para descansar os olhos, e murmurei que precisava ir para casa, escutei o seguinte comentário vindo do outro lado da minha sala:

- Achei que não iria falar isso nunca! – A voz de Alex me assustou e eu quase que caio da cadeira.

- Não era para você estar no Hawaii? – Perguntei um tanto exasperada demais, tentando encontrá-lo nas sombras de meu escritório, já que a única luz acessa estava sob a minha mesa.

Ouvi sua risada em algum ponto à minha esquerda e, com um bater de palmas, acendi as luzes diretas.

- Não teve graça. – Acusei e arremessei em sua direção uma caneta, que ele pegou de primeira.

Alex caminhou calmamente até onde eu estava, colocando a caneta no porta-lápis que tenho sobre a mesa e só comentou:

- Confesso que não esperava essa recepção. – Ele comentou sobre o arremesso da caneta.

- Você está cansado de saber que eu não gosto de levar susto. Deveria saber melhor e esperar por isso. Agora, será que pode responder a minha pergunta? Achei que tínhamos combinado que você tiraria férias de mim por quase quinze dias.

- Esse foi o nosso combinado mesmo. – Ele me respondeu e deu a volta na mesa, parando do meu lado. – Acontece que eu não gostei tanto assim dessa liberdade que você me deu.

Foi a minha vez de rir e aproveitei e virei minha cadeira na sua direção.

- Sério? Achei que todo homem gostaria de umas férias longe da noiva, para poder curtir com os amigos.

- Também achei isso. Confesso que os três primeiros dias foram diferentes. Até porque aprontamos muito, no bom sentido. – Ele fez questão de completar assim que viu minha expressão de dúvida. – Só que ficou chato.

- Chato? – Questionei incrédula.

- Sim. Faltava alguma coisa. Faltava você. – Ele foi direto.

- Alex, era uma viagem para você surfar com a sua turma, como vocês faziam antes que cada um tivesse um compromisso. Você não pode falar isso! Além do mais, tinha a despedida de solteiro do Benny. Você tinha que ter ficado lá para isso, afinal, é o principal padrinho.

Ele deu de ombros.

- O Benny teve a despedida de solteiro que merece, não precisa se preocupar com isso. E te garanto que foi muito melhor do que a sua. E só esses três dias bastariam como férias.

- Juro que não te entendo. Você estava todo animado para ir...

- E você nem se importou que eu fosse.

- Não sou sua dona para dizer para onde você deve ir ou não. Do mesmo modo que eu tenho que viajar às vezes e você fica, você também tem esse direito. – Indiquei.

- Eu sei, Kat. Mas é como eu disse. Senti a sua falta. Depois de todo esse tempo do seu lado, parece errado sair sem você.

Levantei-me da cadeira e não resisti, tive que dar um selinho nele.

- Você deve ser o último romântico da face da terra, sabia? – Abracei-o pelo pescoço e fiz carinho em seus cabelos.

- Senti falta disso também. – Ele disse manhoso.

- E só para que você se sinta feliz, senti saudades de você também. Muita saudade. – Murmurei.

E ele ficou me fazendo companhia até que terminei meu serviço, e como veio direto do aeroporto para cá, saiu puxando a mala com uma mão e me abraçando pela cintura com a outra.

- E só um aviso. – Ele falou assim que as portas do elevador se fecharam.

- O que?

- Para o bem e para o mal, ainda estou no Hawaii, assim ninguém vai nos perturbar neste final de semana, tudo bem?

- Eu não tenho compromisso nenhum para os próximos dois dias. – Informei.

- Agora tem. – Ele disse com um brilho no olhar, e eu entendi a mensagem perfeitamente.

- Como queira.

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Estando tudo indo mais do que bem com a empresa, decidi que era hora de cumprir a promessa que fizera a mim, um ano e meio atrás.

Era hora de dar o pontapé inicial na Fundação.

A prédio da sede, bem como toda a infraestrutura necessária e, também, a parte burocrática já estavam prontos, minha mãe conseguiu reunir uma equipe multidisciplinar variada e com paixão por ajudar. Agora só nos faltava começar a ajudar efetivamente.

Depois de uma longa conversa por videoconferência com alguns dos voluntários e, também, com especialistas em fundações, ficou decidido que iniciaríamos os trabalhos na Inglaterra.

Injusto, eu sei, mas era por questão de logística. Não tinha como mandar pessoas para o exterior quando nunca havíamos trabalhado com pessoas em lugar nenhum. Como iriam nos procurar ou iriam confiar em nós se não tínhamos um histórico de ajuda?

Portanto, começar ajudando na sede seria nosso cartão de visita, e, com o passar do tempo, iríamos expandir para outras cidades e países. Ninguém começa dominando o mundo, não foi assim nem com a NT&S, não seria com a Broken Pieces Shine.

Assim, em meados de junho voei para Londres, onde depois de várias reuniões e apresentações, demos início ao meu sonho. A fundação foi aberta e o trabalho de acolher as mulheres vítimas de abuso se iniciava. Com os contatos de minha mãe e com a fama que ela já tinha como médica, foi fácil de se estabelecer conexões com alguns hospitais que, após conversas com as vítimas, seriam apresentadas à fundação, que as acolheria e a ajudaria no recomeço de suas vidas.

Nosso prédio principal consistia em dez andares. Os cinco primeiros de atendimento psicossocial e médico e os cinco superiores abrigo. Conseguimos montar seis apartamentos por andar, onde uma pessoa poderia se abrigar temporariamente com segurança e todo o apoio até que estivesse apta e mentalmente forte para voltar a guiar a própria vida.

Por questões óbvias de segurança, os andares de dormitório tinham a circulação restrita, somente podendo ficar lá quem tinha a chave dos dois portões de segurança e cadastro.

Tanto minha mãe, quanto eu, fizemos questão de acompanharmos a montagem de cada um dos apartamentos, e tentamos, através da mobília e da decoração, fazer com que cada um fosse o mais acolhedor possível, para que quem quer que fosse morar ali, se sentisse em casa e não em uma prisão. Visitei os andares no dia em que cheguei à Londres, realmente ficou algo bem acolhedor, bem família.

Minha mãe estava mais do que pronta para assumir essa nova responsabilidade, e acabou por me dizer que, se ela não gostasse tanto da medicina e de dar aulas na Universidade, poderia fazer da Broken Pieces Shine seu único trabalho.

- É uma escolha da senhora, mas eu ficaria imensamente honrada de tê-la em tempo integral por aqui.

- Quem sabe dentro de alguns anos... não posso exercer a medicina para sempre, Katerina. Uma hora os novos tomam o lugar dos velhos. E quando a minha hora chegar, eu já sei para onde vou. – Ela me garantiu quando nós duas paramos em frente ao prédio e olhamos, orgulhosas para a fachada. – Você não virou a médica que eu queria que fosse, contudo fez algo tão grande quanto salvar vidas, minha filha.

Tudo agora era questão de tempo, tempo e paciência, para que o que eu idealizei realmente se tornasse verdade.

Eu não vi motivos para tanto, mas minha família quis comemorar a abertura da fundação, e, em um jantar, cada um falou belas palavras, que eu não me lembro, porque chorava copiosamente diante do apoio de todos, inclusive de Elena que, na sua inocência, assim me disse:

- Täti, depois que ganhar todas as medalhas para a nossa família, e que eu tiver que aposentar Saint Etiennè, prometo que vou trabalhar na Broken Pieces Shine!

Outra comemoração que tivemos no mês de junho foi o primeiro ano de Sebastian.

Ele, claro, ainda não tinha amigos, na família não tinha ninguém que tivesse bebês, mas não deixamos a data passar em branco. Afinal, não comemorávamos somente o aniversário de Sebastian, mas a realização de Vic que se encontrou plenamente sendo mãe e que já falava em aumentar a família.

- Mas primeiro, — Ela me garantiu. – Eu tenho que por meu sono em dia e arrumar a minha casa.

- E como você acha que será a sua adaptação em Boston?

- Acho que será fácil. Pelo pouco que vi da cidade, já gostei. É arborizada, tem boas escolas, tem uma excelente infraestrutura. É uma cidade grande, por ser capital, mas nada como Londres. Foi uma boa escolha a que fizemos. Kim tinha outras opções para jogar e chegou até mesmo a considerar os Los Angeles Kings, mas a história dos Bruins pesou, assim como a própria cidade de Boston.

- Eu teria adorado ter vocês como vizinhos. – Comentei.

- Eu também teria adorado ficar na mesma cidade que vocês, mas sabe de uma coisa, por mais que eu ame calor, eu não virei fã de Los Angeles. Muita gente, muito movimento. Boston é mais tranquila em partes.

- Se foi uma escolha boa para os dois, quem sou eu para criticar. Só desejo que sejam muito felizes por lá, e sempre que quiserem, as portas de minha casa estão abertas para recebê-los.

- Sei disso. E, abusando, será que não é possível uma mãozinha com a mudança? Achei que conseguiria fazer sozinha, mas Seb não me dá muita paz para isso.

- Claro que sim! Em julho nós paramos para o feriado do dia 4, se quiser, voo para Boston e ajudo.

- Seria ótimo, e ainda melhor porque vai ser depois da inauguração do restaurante.

- Exato!

O restante da reunião de família mais os agregados sem noção da Melissa e Pietra e de Benny, acabou por virar uma enorme sala de conversação ainda mais depois que Seb e Elena caíram no sono. E só fomos nos despedir quando a madrugada ia alta.

Queria ter passado mais tempo em Londres e também no Haras, porém minhas funções de vice-diretora me esperavam em Los Angeles. E isso era algo que não dava para protelar. E com mais vontade de ficar do que de fazer o que o dever manda, me despedi de minha família e parti para Los Angeles, mais realizada do que nunca, sabendo que pelo menos um de meus sonhos tinha se tornado real.

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- Por que tão quieto? – Perguntei a Alex quando ele passou quase uma hora sem falar nada no voo de volta para casa.

- Pensando.

- Posso ajudar em algo?

E ele me deu um sorriso.

- É exatamente com isso que estou contando.

- Preciso ter medo?

- Aí depende.

- Sim, preciso ter medo. – Confirmei e me levantei da minha poltrona, indo em direção à minúscula cozinha do avião.

- Não vale fugir ainda, nem te falei o que é! – Ele falou.

- Vou me preparar psicologicamente para a bomba. Essa sua cara já me deu arrepios. – Respondi e coloquei a máquina para fazer meu chá.

Alguns minutinhos depois voltei e me sentei na frente de Alex, entregando-o uma xícara de café e colocando a minha de chá na mesa que estava entre nós.

- Querendo me comprar? – Ele perguntou debochado, quando viu a oferenda.

- Tentando te amaciar. – Dei um sorrisinho na sua direção.

- Não vai adiantar.

- Como diz Elena, pelo menos eu tentei, né? – Brinquei e ele deu uma risada. – Mas falando sério, o que você tem em mente?

- Férias. – Ele disse simplesmente.

- As suas estão quase acabando. – Mencionei ao dar uma olhada no calendário.

- Exatamente, Kat. E tirando a minha semana no Hawaii e nossas idas relâmpago para Buenos Aires e Londres, não passamos muito tempo juntos.

- Eu deveria ter programado minhas férias para baterem com as suas. – Murmurei.

- Eu ainda tenho quinze dias. Creio que podemos fugir para algum lugar por oito, dez dias. – Ele falou.

- Para onde? – Conhecendo Alex eu sabia que ele queria ir para algum lugar ensolarado e paradisíaco.

- Bem, tendo em vista que no ano passado fomos passear dentro dos EUA e depois te levei para Sant Barths, estava pensando em um lugar onde possamos descansar de verdade.

- Descansar? – Questionei.

- Sim. No melhor estilo de não se fazer nada. Ficar de bobeira.

Eu não fazia ideia do que se passava na cabeça dele.

- Tahiti. – Ele falou simplesmente.

- Quer viajar meio mundo para ficar à toa?

- Queria te levar para um lugar onde nem celular pega, Kat. Para que possamos descansar de verdade. Com comida boa, vista bonita.

- E talvez uma ou duas praias para que você pode surfar... – Completei.

- Nós! Nós possamos surfar. Você está melhorando nisso.

Tive que rir.

- Ainda em junho?

- Volto a trabalhar no dia 15 de julho, Kat.

- Paramos duas semanas em julho. Podemos combinar nessas semanas?

E Alex só abriu a tampa do notebook e me chamou para seu lado, quando parei atrás da poltrona, ele me puxou para que me sentasse em seu colo.

- Vamos escolher data e hotel. Sim, de uma vez ou a senhorita desiste.

Revirei meus olhos, mas me acomodei em seu colo. Pouco me importava que destino praieiro ele fosse escolher, se eu pudesse ter alguns dias de paz ao seu lado eu já estava feliz.

Alex olhou vários hotéis, comparou quarto, gastronomia, opiniões dos hóspedes e facilidade de chegada e partida. Como se tratava da Polinésia Francesa, seria complicado, precisaríamos do jato.

- Esse ou esse? – Ele me mostrou dois hotéis.

Trouxe o computador para mais perto de mim e, depois de dividir a tela, passei a observar os hotéis.

- Este aqui. Gostei da ideia da suíte ser sobre as águas. Nunca estive em local assim.

Escolhemos a data e, no feriado de 04/07, estaríamos bem longe dos Estados Unidos.

- Só digo que quando voltarmos eu vou para Boston ajudar Vic e Kim com a mudança. – Avisei.

- E eu não sou bem-vindo?

- Pelo que me falaram, vamos ter que dormir até no chão... você quer isso? E ser acordado com uma criança chorando?

Ele fez uma careta, mas confirmou com a cabeça.

- Avisado você está! – Alertei.

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E, enquanto nós dois planejávamos uma fuga de alguns dias, tinha um outro casal que estava se descabelando. Pois dois eventos estavam se aproximando na velocidade da luz.

Pietra e Benny estavam a mil, tanto com os preparativos finais do restaurante, que agora estava na fase final de decoração, quanto para o casamento que aconteceria dentro de dois meses.

- Agora eu entendo o seu desespero todo, Bionda. – Pietra comentou comigo em uma noite de quarta, já que eu havia passado no restaurante para ajudá-la. Alex estava por lá também, só que ajudando Benny com as mesas. – Sério. Por mais que eu tenha organizado tudo, toda hora surge um problema. Parece até que alguém jogou praga. Não é possível! – Ela jogou as mãos dramaticamente para cima, para dar ênfase ao seu desespero.

- O que foi dessa vez?

- Os músicos.

- Músicos? No plural?

- Sim! Meu quarteto de cordas deu para trás. Me abandonou, quem eu chamo agora? Você?

Dei uma risada.

- Não posso fazer papel duplo de madrinha e cantora.

- Vê?! É só problema! E eles tinham me garantido que iriam. Juro, não sei o que faço. Eu já tinha escolhido até as músicas.

- Isso qualquer quarteto de cordas pode tocar. – Informei.

- Eu sei, Kat. Mas faltam dois meses. Como eu posso contratar alguém assim, tão em cima da hora?

- Por que você não usa a influência do seu sobrenome um pouco? Duvido que alguém vá negar algo para um Agnelli.

- Não quero fazer isso.

- São medidas desesperadas, amiga. Como você disse, está em cima da hora.

Pietra ainda tagarelou sobre mais algumas coisas, pediu a minha opinião sobre alguns arranjos da festa, tanto de inauguração, quanto de casamento, dizendo que confiava no meu bom gosto e no meu senso, já que o dela já tinha ido pro beleléu há muito tempo.

- Com coisa que um dia teve algum senso! – Gritei do outro lado do restaurante e mesmo assim quase que ela me acerta uma colher no meio da testa.

Depois de colocarmos todo o mobiliário no lugar e também a decoração, era hora de limpar, algo que a própria Pietra falou que supervisionaria, afinal, uma empresa especializada fora contratada, já que na sexta-feira a equipe da vigilância sanitária viria dar o aval final de funcionamento do local e ela queria que tudo estivesse perfeito e nada como uma equipe de profissionais para fazer isso.

- Então sábado é o grande dia. – Alex comentou. E Benny e Pietra olharam para ele com cara de assustados. – A inauguração. – Ele teve que se explicar e eu tentei não rir da alienação dos dois.

- Ah! – Os dois se situaram. – Sim! Se tudo der certo com a fiscalização na sexta. – Benny completou e os dois homens foram andando na nossa frente.

- E se a Nonna aprovar o cardápio. – Pietra sussurrou do meu lado.

- Que dia ela chega?

- Amanhã.

- Precisa que eu faça algo? – Ofereci.

- Poderia pegá-la no aeroporto e distrai-la pelo tempo em que eu estou por aqui. – Pediu.

- Ela vai ficar com vocês?

- Não. Hotel. Exigência dela e que eu nem tentei mudar.

- Entendo. Depois me passa o horário do voo e o hotel onde ela vai ficar. Para que eu me programe para amanhã.

- Grazie, amica. Está me ajudando mais uma vez, nem quero ver quando essa conta chegar.

- Não se preocupe. Eu tenho a estranha sensação de que a Nonna vai aprovar o lugar e o cardápio sem maiores dores de cabeça. Pode anotar.

- Tomara que sim. Investimos muito aqui para que tenhamos que abandonar tudo.

- Só confia que vai dar certo. – Falei e tive que me despedir dela, afinal Alex já estava me chamando para irmos. – Ciao, Pietra!

- Até logo, Bionda!

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Na quinta, no meio da tarde, despedi-me das meninas e fui para o LAX buscar Nonna Agnelli.

Apesar de ter pegado um trânsito bem pesado, cheguei antes que o voo vindo de Milão aterrissasse, então pude tomar um chá enquanto esperava.

Demorou um pouco ver o avião da companhia italiana no alto do painel de chegadas e depois mais um tempinho até que visse a minha avó emprestada cruzando as portas da sala de desembarque e entrando no saguão principal do aeroporto.

- Nonna! – Chamei-a. – Benvenuto![1] – Cumprimentei assim que fiquei de frente para ela. E, em italiano ela me respondeu:

- Pietra te mandou para me buscar ou para me amaciar?

- Só para buscá-la, Nonna. Ela está vistoriando a limpeza do restaurante. – Informei e peguei o carrinho onde ela havia colocado as malas.

- Bene, bene. Così posso parlarti di tutto quello che sta facendo mia nipote[2].

E, assim fizemos durante nosso trajeto do aeroporto para o hotel onde ela ficaria hospedada. Tirei algumas dúvidas que ela tinha e elogiei muito, tanto Pietra, quanto Benny, pois sabia que isso era o mais importante.

E, quando deixei Nonna em seu quarto, informei que o casal viria buscá-la as 19:30.

- Você e o Alex estarão lá?

- Não. Só vamos no sábado, na inauguração.

- Mas já esteve lá?

- Praticamente uma vez por semana passo lá para ajudá-los.

- Se você e Pietra fossem irmãs não se dariam tão bem.

- E esse é exatamente o motivo pelo qual nos damos bem, Nonna. Por sermos tão diferentes uma da outra!

Despedi-me da velha senhora e fui para casa, certa de que Pietra me ligaria tarde da noite ou para chorar de tristeza ou de alívio no meu ouvido.

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Para meu espanto, Nonna Agnelli estendeu a sua visita até o domingo, estando presente na grande noite de inauguração do restaurante.

Por um lado, isso mostrava o apoio que ela dava à neta, por outro, deixou Pietra duplamente nervosa.

- Ela só está aqui para te ajudar. – Falei pela milésima vez para Pietra.

E ela lançou um olhar para fora do lavabo e depois suspirou.

- Eu sei, mas a presença dela está fazendo meu estômago dar voltas.

- Não, você está nervosa por dar esse passo importante, não porque ela está aqui. Não culpe uma pessoa que só quer o seu bem. – Corrigi.

Pietra respirou fundo, jogou um pouco de água no rosto e, depois de retocar o batom, ajeitou a postura e elevando o queixo, comentou:

- Que seja tudo ou nada hoje.

Depois saiu altivamente do banheiro para cumprimentar os convidados.

- Boa sorte para vocês. – Murmurei sozinha.

E, depois de terem pagado dívidas enormes, de terem brigado com fornecedores, se descabelado por conta do atraso na reforma, de terem ficado sem dormir por noites à fio, eis que o mais novo restaurante italiano de Los Angeles era inaugurado.

Como era de se esperar, toda a turma do surf e mais alguns amigos do parkour aparecerem, assim como Melissa, Vic e Kim. E, se lugar cheio é sinônimo de qualidade, quem não sabia sobre o restaurante ficou curioso sobre como era a estrutura e, claro, a comida.

Foi uma noite perfeita e, quando o último cliente se foi, sim, apareceram clientes e críticos na noite de abertura, Pietra veio com um enorme champanhe na mão e estourou, jogando a bebida para cima e ainda dando um banho em Benny.

O primeiro passo dos dois rumo a felicidade eterna tinha começado com o pé direito.

- Eu vim direto de Montreal para cá foi para ver isso mesmo! – Melissa comentou quando viu Pietra correndo atrás de Benny ainda espirrando champanhe nele.

- Uma comemoração que somente quem foi criada no mundinho da Fórmula 1 poderia fazer. – Vic respondeu.

- Só para confirmar, o próximo encontro do Bando de Loucas presencialmente será? – Pepper perguntou.

- No casório. – Informei.

- Nem acredito que ela vai se casar! – Vic falou rindo.

- Até que se prove o contrário, só acredito quando o padre abençoar os dois. – Melissa disse.

- Depois do que esses dois já fizeram, vocês ainda duvidam que eles não são feitos um para o outro? Por favor, né? – Reclamei e olhei na direção dos dois que agora tinham invertido os papéis e Benny, todo molhado de champanhe, corria atrás de Pietra, tentando fazê-la pagar pelo banho fora de hora.

- Nunca se sabe, né?

- Bando de descrentes. – Foi tudo o que eu disse. – E, vou deixar as três aqui e ir para casa, porque a semana foi puxada e eu estou precisando descansar. Só preciso achar meu noivo no meio desse pandemônio todo... Alguém aí viu um surfista que se julga ator de televisão dando mole por aí? – Perguntei para elas.

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- Então você veio direto da sua viagem de férias para me ajudar? – Vic me recebeu desse jeito assim que abriu a porta da frente.

- Pois é, voo direto. – Comentei. – E como vai a bagunça?

E minha cunhada deu uma risada.

- Bagunça é o que não falta. Pode escolher um cômodo para chamar de seu e adotá-lo pelos próximos dias. – Ela estendeu a mão para o interior da casa depois que entrei. – E só uma pergunta, onde está Alex?

- Ele ficou em LA. Adiantaram a mesa de leitura do primeiro episódio da próxima temporada.

- E por falar na série...o que foi aquele final? Eu fiquei sem fôlego pelo episódio inteiro!

- Nem me lembre. Perdi uma aposta e tive que pagar um jantar para Amanda! Aquela garota acertou todos os detalhes daquele arco! Não é possível!

- E como você perdeu? Sendo que mora com o ator principal?

- Simples, Alexander não quis me contar o que iria acontecer. Assim, perdi a aposta. E antes que você comente, sim, a Amanda riu bastante da minha cara por conta disso.

- E ela tem toda razão. Porque, cá para nós, você tinha a obrigação de ter acertado. O script fica dentro da sua casa.

- Só que eu não gosto de spoilers, assim nunca li uma vírgula daquilo.

- Boba... eu teria trapaceado.

- Grande apostadora é você.

- Com coisa que você joga dentro das regras... – Vic comentou e fez menção ao último jogo de hóquei que jogamos.

- Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. – Falei encerrando o assunto.

- Como queira. Agora, fique à vontade.

- Antes de qualquer coisa, onde está meu sobrinho?

- Dormindo. A cantiga de ninar que a tia Kat fez é excelente e ele apaga por várias horas. Então você só o verá quando acordar.

- Que mãe possessiva você é! – Reclamei. – E só por isso vou ficar bem longe do andar superior.

- Aqui embaixo está pior do que lá em cima. – Cantarolou Vic ao subir os dois lances escadas.

Meio perdida no meio de tanta caixa, que nenhum dos dois fez o favor de identificar de qual cômodo era, comecei pela cozinha. Arrependendo na hora quando vi quanta tralha Vic tem. Para que tanta vasilha de plástico? E porta coisas? Isso é realmente necessário? E mamadeira? E pratinho de bichinho? Sebastian não poderia ter somente um?

Passei o dia todo entre a cozinha e a sala de jantar. Organizando vasilhas, panelas, prataria, taças, copos... era tanta coisa que quando meu irmão chegou com o nosso almoço, um almoço bem americano, diga-se de passagem, eu não tinha nem forças para me levantar do chão onde estava.

- Está tudo bem aí? – Ele perguntou rindo.

- São duas da tarde e minhas costas já estão pedindo clemência!

— Bem, você se voluntariou para estar aqui e ainda escolheu onde queria arrumar... – Ele deu de ombros.

- Eu fiz duas mudanças em menos de um mês, Joakim, e nem eu, que todos da família clamam que é quem tem mais coisas, tinha tanta coisa assim! Vocês são acumuladores! – Reclamei.

E Kim, que estava para me entregar o meu sanduíche, levantou a mão e saiu do cômodo.

- Ei! Volta aqui! – Pedi. – Estou com fome!

- Trabalhador que reclama não come. – Ele disse simplesmente.

E, bem, não me levem à mal, ele é meu irmão, tenho que aturar essa criatura desde o útero da minha mãe, então, tudo o que eu faço com ele tem justa causa. Assim como teve a vasilha de plástico que eu arremessei na parte de trás da cabeça dele quando ele ia levando o meu almoço embora.

- Lá vem você! – Ele falou um tanto bravo.

- Trabalhadora que não recebe o almoço justo tem o direito de se rebelar e bater no patrão! – Retruquei e estendi a mão, querendo o meu sanduíche.

- E por se rebelar não vai almoçar. E ainda vai arrumar sozinha o closet da Vic.

- Eu posso ser a trabalhadora boazinha ou a má.

- E como seria a trabalhadora má? – Kim perguntou parando na soleira da porta e me encarando.

- Você sabe muito bem a altura que eu posso gritar, não sabe? E sabe também que tem um bebê de um ano descansando no andar de cima... some dois com dois. – Falei simplesmente e abri um sorriso angelical na direção de meu irmão e ele só arremessou o sanduíche na minha direção. – Que almoço mais fraquinho... carreguei caixas e mais caixas nas últimas quatro horas e só recebo um sanduíche... vou buscar meus direitos trabalhistas.

- Ou é isso ou é nada! – Kim perdeu a paciência e a esportiva.

- Chefe chato. – Ainda murmurei.

Kim sumiu para dentro da casa me deixando no chão da sala de jantar, murmurando o quanto eu estava com fome e como só um sanduíche não me sustentaria por muito tempo.

Algumas horas depois, consegui terminar a sala de jantar e tirar todas as caixas do caminho. Tinha agora a cozinha, que estava o caos, pois somente os vidros estavam guardados e, por ordens da minha patroa, eu ainda teria que esterilizar tudo o que pertence à Seb.

- Ter filhos dá um trabalho que eu não estou muito a fim de ter para mim... – Comecei a pensar sozinha.

E, enquanto eu guardava vasilhas e esterilizava outras tantas, o dia foi terminando.

- Será que dá para fazer um jantar nessa cozinha ou ainda é cedo para pedir isso? – Vic apareceu na porta do cômodo com Seb no colo.

- Se você quiser se prontificar a cozinhar, já dá para fazer algo, porque eu não tenho forças para encarar cozinha não. – Comentei e fui brincar com meu sobrinho.

- Não vai pegá-lo?

- Suja desse jeito? Limpei armário e vasilhas e utensílios o dia inteiro. Quem está suja agora sou eu.

- Bem, Seb é um garoto muito limpinho e não vai se juntar a essa sujeira que é a tia dele, então, deixe-me colocá-lo no cadeirão enquanto eu faço o jantar dele.

- E faz o nosso também. – Pedi.

- Kim foi buscar. – Vic me informou.

- Lá vai eu passar fome de novo!

- Para de show, até parece que cozinha todos os dias. – Vic brincou comigo e me jogou um pouco de água, algo que Seb achou bem divertido e deu uma risada.

- Eu faço sim. Cozinho o jantar e preparo nosso almoço. Todos os dias. Não sou de ficar comendo porcaria e consegui tirar essa mania de Alex também.

- Quando arrumar filho desiste disso.

- Pensando seriamente em não arrumar. Só de guardar e limpar tudo o que é de Seb já me deu um desespero. Acho que não quero esse trabalho para mim.

Vic me olhou curiosa.

- Sério? Achei que você queria filhos. Ainda mais depois de cuidar tanto de Tuomas, Liv e Lena.

- E este é o segredo. Já cuidei de três. Acabou a paciência e a vontade. E, além do mais, os Nieminen já têm futuro.

- Mas os Pierce têm?

- Que fique à cargo de Will e Pepper. – Dei de ombros e voltei a arrumar o último armário da cozinha. Já tinha limpado tudo agora era só guardar.

- Será que Alex vai ficar feliz com isso?

- Bem, ele diz que quer ter filhos. Já brincou que queria seis, mas com as nossas agendas corridas do jeito que são, comecei a me perguntar nesta tarde se isso seria justo com a criança. Ter filhos para uma babá criar e cuidar?

- Você tem uma licença maternidade de quase três anos. Não é essa a política da NT&S?

- Sim. É. Mas pense a longo prazo. Eu vou querer voltar a trabalhar, Alex não vai parar... teremos uma criança de três anos sem ambos os pais em casa... isso é justo?

- Nossos pais fizeram isso. Tanya e Ian fazem isso.

- E Lena e Liv são apegadas a quem?

- Você tem um ponto.

- A cada dia que passa fica mais complicado ter filhos. Não só no quesito tempo para cuidar e criar e dar o amor necessário, mas também relacionado ao planeta em si. Ninguém está conseguindo prever as mudanças climáticas, o que vai acontecer com a população... começo a pensar seriamente em não ter filhos.

- Bem, como uma mulher que sempre quis ter filhos, posso te garantir que é uma benção ter um. Foi a melhor escolha que fiz e não me arrependo nem por um segundo. Mas, e é um mas bem grande, eu fico em casa. Eu posso me dar esse luxo de criar meu filho sozinha, sem ter o dever de sair para trabalhar. Então, comparado com você, eu estou em uma posição muito melhor. Agora, como sua cunhada e amiga, como uma pessoa que te conhece há anos, eu acho que você nasceu para ter filho. Ter uma criança sua. Você, Kat, tem um instinto materno muito forte. Contudo, você sabe o que é melhor para você e para Alex, então, não vou dar uma opinião quanto a isso, porque essa decisão diz respeito mais a você do que a qualquer outra pessoa.

- Eu concordo com o que você disse. Já falei que queria ter filhos e mais de uma vez, todavia, agora, estou em dúvida, não sei se é o certo. Porém, darei tempo ao tempo, e verei o que vai acontecer... – Dei de ombros.

- Se tiver que ser, será. – Vic disse da bancada, onde ela já alimentava Seb. – Como você mesma me disse quando eu comecei nessa jornada.

- Veremos. – Respondi.

Passei sete dias em Boston ajudando meu irmão e Vic, na verdade, mais Vic, pois no segundo dia, Seb começou a chorar sem parar, chorava tanto que desesperou os pais, eu, desde o início, achei que ele estava com alguma dor, e, quando a noite caiu, intimei Vic a levá-lo ao pediatra.

- Ele não tem nada.

- Tem sim. Ou não estaria chorando tanto. Se você não levar, eu levo. – Bati o pé

Kim e ela saíram não muito tempo depois, e eu fiquei sozinha na enorme casa, dessa vez organizando o escritório de Kim, assim como os inúmeros troféus que ele tem.

Quatro horas depois, volta o casal, Seb bem mais calmo, porém ainda acordado.

- Veredicto? – Perguntei assim que escutei a porta da frente ser aberta.

- Ele está com inflamação no ouvido e na garganta. Foi sairmos daqui e ele começou com febre. – Kim explicou enquanto ajudava Vic com a bolsa.

- Mas ele já está medicado. Vai ficar tudo bem. – Minha cunhada me garantiu.

Só que o tudo bem só foi aparecer quatro dias depois. E, nesse meio tempo, nós três nos revessamos para cuidar do pequeno. Fizemos escala de horário, pois, assim, ficava mais fácil de olhar Seb e ainda acabar de arrumar a casa.

E, minha estadia que era para ser de no máximo três dias, se transformou em uma semana longe de casa. E, quando eu deixei a casa de meu irmão, tive a consciência tranquila de que tudo estava no lugar dentro do imóvel e que meu sobrinho estava 100% bem.

- Tem certeza de que não quer que te leve ao aeroporto? – Kim me perguntou.

- Tenho. Não fica tão longe assim e aproveite para descansar. Você terá dias agitados na próxima semana. – Brinquei com ele sobre a apresentação oficial nos Bruins. – No mais, sejam muito felizes na casa nova e vê se continua arrasando a concorrência na NHL, pelo menos alguém da família tem que ser famoso de verdade.

- Até porque você só se encaixa na categoria de famosa quando está do lado do noivo, não? – Vic perguntou debochada.

- Você teve o prazer de ver. – Desfiz do comentário, me lembrando do momento em que entrei em uma loja de decoração com Vic para comprar um arranjo e a atendente me olhou de cima a baixo e só falou com desdém: “achei que a tal da namorada europeia do Alex Pierce seria mais bonita pessoalmente”.

Vic só riu da minha cara.

- Isso que dá não saber escolher marido.

- Noivo. Não oficializamos nada.

- Já está passando da hora. Já têm o que? Um ano e meio de noivado? – Kim perguntou. – Se demorar muito vai acabar ficando encalhada de vez.

- Tem mais de um ano meio. E casamento é só formalidade no nosso caso. Não se preocupem, não vamos nos casar em uma capela em Vegas e só mandar um cartão postal para a família informando o ocorrido. – Garanti e fui em direção ao táxi que tinha chegado. – Adeus, e da próxima vez, vocês vão à Los Angeles.

- Nem pensar. Odiei aquele lugar! – Vic falou.

Deixei o casalzinho no seu novo e feliz lar e fui para o aeroporto, tentando calcular de cabeça a diferença de fuso de Boston para Los Angeles, só para saber se teria a desculpa perfeita para chegar em casa e já cair na cama, pois eu estava exausta.

O voo de volta, apesar de ter decolado com atraso, foi até bem tranquilo, fiquei bem quietinha no meu assento e consegui dormir, apesar de que tinha uma criança bem barulhenta sentada em algum lugar mais atrás e, como não avisei para ninguém que estava voltando, tive que pegar um carro de aplicativo para chegar em casa, só para lembrar, já na porta, que tinha deixado minhas chaves dependuradas no meu escritório, portanto, acabei ficando na rua.

- Tudo bem... hora de ligar para o salvador da pátria. – Murmurei e me sentei na calçada, pegando o telefone.

Esperei dois toques e achando que Alex estava ocupado demais, quase desliguei, quando ele atendeu.

- Ora, e não é que minha noiva finalmente se lembrou de mim! – Ele brincou e pelos sons de fundo da ligação, notei que ele estava dentro do carro.

- Não reclama, falei com você hoje de manhã. Ou pelo menos era manhã em Boston...

- E madrugada aqui. Bem tia da Olivia mesmo me ligar em horários não convencionais. Como agora.

- Está muito ocupado? – Perguntei.

- Estou parado no trânsito, pensando se vou passar no supermercado e comprar algo para comer, se vou pedir algo, ou se vou direto para a casa de meus pais e janto de graça.

- Seria muito bom que você viesse direto para casa. – Comentei casualmente.

- A casa está vazia, Kat.

- Sim, está. Mas não estaria se você viesse. – Destaquei o tempo verbal para ver se ele entendia. E ele demorou a cair em si.

- Viesse?

Quase gritei aleluia no meio da rua.

- Sim. Viesse.

- Você está em casa? – Ele pareceu genuinamente mais animado.

- Sim e não.

- Como assim, Kat?

- Estou na porta de casa.

- Então você chegou. Por que não me avisou que eu ia te pegar no aeroporto?

- Porque todas as vezes em que você vai ao aeroporto, nós saímos em alguma revista de fofoca. – Argumentei.

- Precisa que eu compre algo para você, por isso me ligou?

- Não, não preciso, Alex. Preciso que você venha para casa, porque eu estou sentada no portão, te esperando. Não tenho chaves. – Admiti.

E, primeiro fez um silêncio absurdo do outro lado, que eu acabei por achar que a ligação tinha caído, e, quando eu tirei o celular do ouvido para garantir que ainda estava conectada, eis que Alex dá uma sonora gargalhada.

- Não é motivo de riso! – Clamei.

- Sim, Kat, é. Porque eu te avisei para levar as chaves e você disse que não precisava. Está vendo o que dá quando você não ouve a voz da sabedoria aqui?

- Voz da sabedoria? Sério, Alexander? É você quem não me escuta! Se tivesse me escutado quando viajamos, não teria levado um tombo homérico e adicionado outra cicatriz para a sua vasta coleção. – Disparei. – E, para refrescar a sua memória, eu não fiquei rindo de você!

- Tudo bem. Você venceu. – Ele se rendeu. – Vou te deixar vencer essa só porque ficou toda preocupada comigo enquanto eu era suturado por uma enfermeira um tanto velhinha demais.

- Já está chegando? – Perguntei trocando de assunto.

- Vai levar um tempinho.

- Tempinho quanto?

- Uns quarenta minutos, Kat. Está tudo parado.

Suspirei frustrada. Eu estava cansada, com sono e morta de fome...

- Não tenho opção a não ser esperar, não é? – Falei derrotada e me escorei em minha mala.

- Quer ficar com a ligação conectada? – Ele perguntou.

- Não precisa. E, nem é bom, porque tenho certeza de que a minha bateria não vai aguentar.

- Vou ver se pego alguns atalhos, Loira.

- Tem certeza de que nem os atalhos estão congestionados?

- Alguns devem estar, outros não. Vou ver o que posso fazer. – Ele me garantiu. – Até daqui a pouco.

E o daqui a pouco levou quase uma hora, estava quase dormindo escorada na minha mala quando escutei o motor de um carro ficando mais alto e quando dei por mim, Alex parava o carro na rua e já descia. Não tive muito tempo para reagir, só sei que antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele me levantou do chão, me abraçou apertado e falou ao meu ouvido:

- Bem-vinda de volta, Rainha do Gelo!

- Oi para você também! – Respondi e roubei um beijo. – Senti a sua falta.

- Também senti a sua. Vamos entrar?

- Por favor.

Alex abriu o portão da garagem e eu passei por lá mesmo. Rapidamente ele estacionou o carro e veio puxar a minha mala, me contando cada uma das novidades do set que ainda não tínhamos tido tempo para conversar, como adições no elenco e como seriam os arcos dos personagens na nova temporada. E eu o atualizei sobre como estava a família de Boston, desde a adaptação até mesmo o perrengue que passamos com Seb.

- Mas agora ele está bem? – Perguntou-me todo preocupado.

- Sim. Os medicamentos estão fazendo efeito. Nem febre mais ele tinha quando saí de lá.

- E quando eles vêm para cá?

Fiz uma careta.

- Então... difícil dizer. Vic não gostou muito de Los Angeles. Assim, acho que não aparecerão por aqui nem tão cedo...

- Se quisermos ver o nosso sobrinho teremos que atravessar o país?

- Sim. Já fazemos isso para ver os três na Inglaterra... é só pensar que é metade do tempo de viagem. – Tentei soar otimista.

- É metade do tempo, temos sempre que ver o copo meio cheio, não?

- Isso aí. – Confirmei.

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Com o fim das férias de verão do escritório voltamos com força total, fizemos um balancete do meio do ano fiscal, só para saber se algumas das decisões tomadas no ano anterior tinham valido a pena, pelo que pudemos notar, sim. Não somente o escritório do Pacífico estava indo muito bem, como a empresa em si, a visibilidade com os investimentos na Fórmula 1 trouxe-nos novos clientes e uma incrível demanda pelo capital aberto da empresa nas bolsas de valores. Em seis meses o valor de mercado da NT&S tinha triplicado e, cabia agora tanto à CEO, quanto a mim, distribuir esse capital de forma a alavancar os serviços da empresa, melhorando os já existentes, investindo em tecnologia limpa e, também, nos colaboradores que tínhamos. Para isso, tive uma semana de reuniões direta com Grissom e com o Chefe do Conselho Administrativo.

As novas políticas aprovadas seriam estabelecidas até o final do ano, o que tornaria a empresa a líder em energia limpa e em direitos trabalhistas.

Wendy me perguntou se esse era o caminho certo a se seguir, confirmei na hora. Afinal, já tinha lido estudos de que quando o trabalhador é valorizado, a empresa lucra muito mais.

- Mas uma semana de trabalho de quatro dias? – Ela perguntou ao ver o rascunho do novo estatuto.

- Sim.

- Ficaremos fechados por três dias?

- Não. Funcionaremos os cinco dias e, em regime de escala, cada funcionário poderá escolher o seu terceiro dia de folga. Pelo que Milena e Amanda já andaram levantando por aqui, os dias mais concorridos serão segunda, quarta e sexta.

- Isso não soa nada certo.

Tive que dar uma risada.

- Calma. Faremos testes em dois escritórios, Brasil e Nova York, veremos como irá funcionar. Mas eu acredito que dará certo.

Wendy, esperta como só, me encarou e, por fim, disse:

- Última pergunta: você irá seguir essa escala?

- A princípio, não. Assim, peço que você e Milena se organizem de forma que uma sempre esteja por aqui. De certa forma, será bom, terei um dia exclusivo para a vice diretoria e um para esse escritório.

- Bem, já que é assim, vamos organizar para termos um final de semana estendido, uma folgando na segunda e a outra na sexta.

- Vocês escolhem! Eu estarei por aqui.

E, em um ritmo intenso, agosto passou e quando vi, chegava a semana do casamento de Pietra e Benny.

- Inacreditável como passou rápido! – Murmurei na sexta-feira que antecedeu a minha ida à Itália. – Passou rápido para mim, porque para minha amiga... parece que cada dia em que a data se aproxima, mais coisas erradas aconteciam.


[1] Bem-vinda!

[2] Muito bem. Assim posso conversar com você sobre tudo o que a minha neta anda fazendo.

Notas finais
Bem é isso (tudo!). Gostaria muito de agradecer a todos, todas, todes, que estão chegando para ler a história. Vi os novos comentários, mas como a funcionalidade de resposta ainda não está disponível, venho agradecer cada um de vocês aqui! Muito obrigada por lerem e tirarem um tempinho para comentarem! Vocês não fazem ideia do quanto o meu coraçãozinho fica feliz quando recebo o e-mail do comentário! Prometo responder cada um, quando puder! Mais uma vez obrigada por lerem esta história! Até o próximo capítulo!