Notas iniciais
Sei que faz tempo, mas eu não abandonei essa história! A falta de tempo que não tem me dado chance de aparecer. Espero que gostem. Boa leitura.

Estava parada no meio do jardim dos fundos, mãos na cintura, pano de prato no ombro, a imagem da dona de casa tradicional, enquanto observava Alex e o Sr. Pierce discutindo algo sobre a sauna.

A dupla tinha começado a montar o ambiente, a inspiração não era outra, senão a sauna que temos na Finlândia, até aí sem problema nenhum.

A dúvida que pairava no ar, pelo menos para eles, era onde ia iria ficar o braseiro.

Um falava uma coisa, o outro discordava, e estavam nisso há quase meia hora, e eu chamando os dois para o almoço.

Esperei mais um tempo, tendo me sentado em uma das redes, enquanto os dois ainda teimavam com uma coisa tão simples.

Por fim, cansada de esperar a boa vontade dos dois para virem almoçar e morta de fome, tive que intervir.

- O braseiro é móvel. Depende de quem está na sauna. Normalmente fica do lado oposto ao da porta, por motivos óbvios. Agora seria possível virem almoçar? – Disse exasperada já na porta da cozinha.

- E como... – Alex começou.

- Eu nasci onde, Alexander? – Encarei meu noivo com um pouco mais de raiva do que seria necessário.

- Se a Kat falou, está falado. – Meu sogro concordou na hora e veio para dentro.

- Não precisa fazer essa cara de brava, Loira. Nem demoramos tanto assim. – Alex falou ao passar por mim, me dar um beijo na bochecha e tentar pescar algo na travessa.

Estreitei meus olhos na sua direção e dei um tapa em sua mão.

- Tem uma hora que estou chamando os dois. E não toque na comida com as mãos sujas!

Alex recolheu a mão na hora e foi lavá-las. Alguns segundos depois escutei meu sogro comentando:

- Amelia tem uma substituta à altura. Diria que a Kat é ainda mais brava do que a sua mãe.

- É que ela invocou o lado executiva poderosa. Por isso aquela cara. – Alex respondeu ao pai.

E foi por muito pouco que eu não gritei para os dois virem logo.

Almoçamos em silêncio, os dois não seriam malucos de discutirem a montagem da sauna na minha frente. E o silêncio só foi interrompido, já na hora da sobremesa, quando o telefone de meu sogro tocou.

Alex levantou uma sobrancelha, curioso com quem ligava para o pai, e olhou para mim

- Sério?! – Murmurei e ele deu de ombros, porém, a curiosidade dele foi logo satisfeita quando escutamos a voz de minha sogra.

- Não acredito que você montou acampamento na casa do Alex e da Kat! – Ela falava do outro lado, provavelmente era uma ligação de vídeo para ela ter feito tal comentário.

- Viu, sua mãe. Pode ficar tranquilo agora. – Comentei com Alex e me levantei, para terminar de arrumar a cozinha.

- Eu estou te deixando na mão hoje, não? – Alex falou ao colocar a louça do meu lado.

- Não tem problema, quando a sauna estiver pronta, você assume a cozinha sozinho. E só avisando, daqui a pouco eu vou sair.

- Posso saber aonde vai?

- No cabeleireiro e depois na massagista. Vou deixar você e Sr. Pierce batendo cabeça sozinhos durante a tarde, para montarem essa sauna.

E, uma hora depois, peguei minha bolsa e fui me dar o meu presente de aniversário. Uma tarde de puro relaxamento. Livre de falação e de barulho. Somente envolta do silêncio e de uma relaxante massagem.

E como eu estava precisando disso...

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Maio trouxe minha mãe de volta para casa, e, bem, o susto que ela tomou quando viu minha sogra de treinadora das netas foi impagável.

Segundo fontes seguras, que me ligaram rindo – meu pai – minha mãe chegou toda feliz querendo um abraço das netas que estavam passando mais tempo em Cambridgeshire do que em Londres. E, assim que colocou os pés no Haras, ao invés de se deparar com a própria mãe tomando conta das bisnetas e treinando-as, deu de cara com a minha sogra toda trabalhada na pose de treinadora linha dura.

A pobre da Dona Diana, que ainda estava um tanto área depois de ter viajado por quase um dia, não entendeu nada e soltou uma senhora pérola, ao se virar para o meu pai:

- Jari, nós estamos na Inglaterra, não?

Desnecessário dizer que até meu avô, caiu na gargalhada.

E minha mãe só foi se inteirar de todas as novidades, no jantar, quando as netas se sentaram ao seu lado e contaram, detalhadamente, o que fizeram na ausência da avó.

Meu pai me ligou rindo, um pouco depois do jantar, e disse que iria sempre trazer à tona a incredulidade da minha mãe e a pergunta que ela fez, todas as vezes que ele se lembrasse, só para que ela ficasse ainda mais desconcertada do que ficou quando Dona Amelia respondeu que era ela quem estava longe do país dela, não minha mãe.

E essa era uma cena que eu me arrependia profundamente de ter perdido, e Alex também, porque quando contei a ele, quase que meu noivo morre de tanto rir.

O mês de maio também trouxe as férias de Alex, bom para ele, nem tanto para mim, já que eu não poderia abandonar o escritório por agora. E, com o fim das gravações, restava somente alguns episódios para o fim da primeira temporada da série, que, até o momento, estava garantida para mais dois anos.

- E agora temos o que? – Perguntei para Alex, quando ele foi me buscar no escritório.

- Como você é uma assídua telespectadora do show, vai ter que esperar pelo final da temporada para saber o que vai acontecer. Já eu vou esperar os números finais da temporada para ter uma ideia se o público gostou ou não.

- Você ainda acredita que o público não agradou da série? Já viu os números semanais? – Perguntei.

Alex só deu uma risada.

- Eu não vi, mas parece que alguém está muito interessada neles.

Dei de ombros e só falei:

- Não só eu, como as meninas também!

- Liv e Lena?

- Não, seu bobo, nossas sobrinhas estão mais interessadas no torneio de daqui a quinze dias do que com a série, e não brigue com elas, por favor. As meninas são Milena, Wendy e Amanda.

- Vocês quatro ficam discutindo a série ao invés de trabalharem?

- Correção, no almoço de segunda tiramos o tempo para conversar sobre o último episódio e isso sempre leva aos números de audiência... vai dizer que não é uma boa forma de se distrair do trabalho?

- Vocês quatro juntas não prestam para nada...– Alex falou brincando. – E, só por curiosidade, o que acham que vai acontecer no final desse arco?

E por que ele foi perguntar? Cada uma tinha uma teoria ainda mais doida que a outra... e Alex foi ouvindo cada uma até que chegamos em casa.

- Tudo bem, entendi. Ou melhor, eu não entendi foi nada.

- Mas me diga, alguém acertou algo?

Alex, que me ajudava a descer do carro, somente me encarou e falou seriamente:

- Vão ter que assistir ao episódio para saberem.

- Isso não é justo! Eu, como a sua noiva, tenho o direito de saber um ou outro detalhe que o público não sabe! – Clamei enquanto ia andando atrás dele.

- Estranho, duas semanas atrás, quando eu estava te pedindo ajuda para uma cena do episódio final, você me falou que não iria me ajudar porque não queria spoilers... agora vem com essa?

- É porque nós apostamos. E, eu não estou a fim de perder.

- Apostaram o que?

- Um jantar.

- Uma venceu. As outras três que guardem o dinheiro para pagar a conta.

- Quem venceu? – Perguntei aflita.

- Em três semanas você fica sabendo, Curiosa! – Ele me respondeu, deu um peteleco no meu nariz e depois me roubou um beijo.

- Você joga sujo, Alexander. Muito sujo. – Reclamei enquanto ia deixar minhas coisas no escritório.

Somente escutei a risada dele ecoando pela casa.

Reclamei o restante da noite, inclusive continuei reclamando depois que voltei do pilates e quando ele se deitou do meu lado, eu ainda tive que reclamar mais um pouco.

E não adiantou a falação, ou o fato de que eu deliberadamente ignorei a sua presença ao meu lado, Alex não me contou quem tinha ganhado a aposta.

O veredito seria somente quando o último episódio fosse ao ar. O que eu continuava a achar totalmente injusto! De que valia estar noiva do protagonista quando ele não quer me ajudar uma mísera aposta sobre o fim de um arco importante?

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E enquanto eu esperava para saber quem havia ganhado a aposta dentro do escritório, minhas sobrinhas estavam com os nervos à flor da pele na Inglaterra. Não tinha chá, conversa ou distração que acalmasse as duas.

Faltando somente uma semana para o torneio, Tanya decidiu por pedir uma antecipação das provas finais das duas para que elas pudessem viajar sem ter a preocupação de terem que voltar e ainda fazerem as provas de final de ano letivo.

Assim, mesmo em semana de provas, a duas não conseguiam esquecer os cavalos, nem a viagem para a Argentina.

E, na semana do torneio, acabaram por viajar mais cedo, sendo que os cavalos das duas, quem teve que providenciar o transporte fui eu. O que não era novidade nenhuma. Ainda bem que eu conhecia o pessoal do escritório da Argentina e tinha uma ótima relação com eles, o que facilitou a chegada e o transporte dos animais no país.

Minha família chegou em Buenos Aires na segunda cedo, eu, por outro lado, só poderia chegar para as finais de sexta e do final de semana, o que não quis dizer que não fui atualizada a cada segundo do que acontecia na cidade e no torneio.

E, na quinta-feira, partimos para a Argentina, em voo comercial, já que o jato ficou para a família.

Claro que isso foi motivo de risadas de Alex, que brincava comigo e me explicava, em um tom muito sarcástico, como funcionava um voo longo em companhia aérea, ainda mais com escala, que no nosso caso seria em Miami.

- Pensa bem, Kat, você vai conhecer um pouquinho da Costa Leste. – Ele brincava comigo.

- Claro. – Era o que eu respondia.

Assim, cruzamos o país de costa a costa, ficamos algumas horas no aeroporto de Miami e eu vi a maior concentração de crianças com orelhas do Mickey fora da Disney da minha vida, indo e vindo pelos corredores do aeroporto, além de pequenos bruxos, super heróis e princesas e me dei conta que minhas sobrinhas, e meu sobrinho também, quando eram crianças, nunca se interessaram muito por essas coisas, nem mesmo Lena, que sempre gostou da Barbie, nunca quis se vestir como uma, sua grande paixão sempre foi a sua única camisa do Capitão América, que hoje nem servia mais.

- Pensando em que? – Alex, que estava tentando se camuflar no mar de gente, usando óculos escuros, boné e até mesmo cobrindo a cabeça com o capuz do moletom, me perguntou.

- Que minhas sobrinhas nunca foram muito de se interessarem em se vestir de princesa, ou de Minnie ou de qualquer personagem. Sempre optaram mais pelos esportes de inverno ou pelos cavalos.

Alex ficou um tempo calado e depois voltou a me questionar:

- Quanto tempo vocês as deixavam na frente da televisão?

Tive que pensar.

- Umas quatro horas por semana, se foi isso tudo.

- Então está explicado. E, só por curiosidade, como conseguiram dar conta?

- Livros, música, jogos de tabuleiro que incentivavam o raciocínio... mas a verdade é que ninguém na minha família é muito fã de televisão.

- É, eu percebi. Principalmente na primeira noite que passei no apartamento onde você morou temporariamente.

- Você percebeu que a TV não estava instalada direito, não é?

Alex riu.

- Eu tive que configurar tudo.

Dei de ombros.

- Mas os livros estavam no lugar. – Garanti.

- E continuam a chegar mais e mais, não? – Ele apontou para o que eu carregava em minha mão.

- Isso aqui? – Levantei o livro. – Sempre vai chegar mais. – Garanti.

Caminhamos até a sala VIP do aeroporto e ficamos quietos em um local mais afastado, esperando que chamassem nosso voo, para que pudéssemos partir para a segunda parte da viagem.

- Eu vou chegar morta em Buenos Aires. – Comentei quando finalmente embarcamos e tomamos nossos assentos.

- Deixa de ser fresca, Kat. É só uma viagenzinha. – Alex falava comigo e fazia questão de bagunçar o meu cabelo. – E ainda estamos na primeira classe. Olha esse espaço!

- E ainda tem a volta! Tinha me esquecido da volta! – Choraminguei ao pensar que teria que passar por essas horas intermináveis de conexão em um aeroporto abarrotado de pessoas chegando e partindo para as suas férias de verão.

A risada de Alex, diante do que eu falara só não foi alta, porque estávamos em um local cheio de testemunhas.

- Pensa bem, Kat, você vai ter umas doze horas de sono direto agora. É só relaxar no assento.

Encarei Alex, e desisti de reclamar, passando a prestar minha atenção no comissário que dava algumas instruções.

- Ninguém presta atenção ao que ele fala. – Alex murmurou no meu ouvido. – Eu já devo ter ouvido isso sei lá, umas mil vezes?

- Você pode ter ouvido, eu não.

- Ah, me esqueci que você é rica e tem jato... só que emprestou para o conforto das sobrinhas e da família.

- E da sua mãe! – Retruquei.

- E ela vai voltar com a gente, então não foi lá um empréstimo muito completo. – Ele brincou comigo.

Por um tempo, durante o voo, Alex foi me perturbando, fingindo que me ensinava como me comportar dentro de um avião, e, toda a falação dele, chamou a atenção do nosso vizinho, do outro lado do corredor e, para minha vergonha total, meu noivo só comentou assim, diante dos olhares que ele nos lançava:

- Não liga muito, é a primeira vez dela dentro de um avião, minha noiva só está muito emocionada de estar voando, não é amor? – Ele pegou minha mão e a beijou, como se me desse conforto e não o real intento dele, que era rir da minha situação.

E tudo o que eu fiz foi dar aquele sorrisinho padrão de quem estava com vergonha e, quando notei que o casal não nos olhava mais, dei uma cotovelada nas costelas de Alex e reclamei com ele em finlandês. Se ele entendeu tudo o que eu falei, não sei, mas uma boa parte, ele entendeu!

Algum tempo depois, o tédio de se ficar muito tempo sentada e à toa me pegou e eu comecei a ler, só para cair no sono não muito depois, acordei com o aviso de que estávamos passando por uma turbulência.

- Finalmente tenho alguém para conversar! – Alex comentou quando levantei minha cabeça de seu ombro.

- Dormi por muito tempo? – Perguntei.

- Umas seis horas. Acho que seu tédio se transformou em sono mesmo, ou esse livro é tão ruim que você preferiu dormir a saber o que acontecia. – Ele indicou o meu livro que estava aberto em seu colo.

- Pode ter sido isso também. Mas, você está lendo?

- Não tinha mais nada para fazer. – Ele deu de ombros. – E só para te avisar, o livro não é ruim. A história é arrastada, mas é boa.

- Espero que tenha marcado onde eu estava. – Avisei.

Ele só me sorriu como se dissesse que não.

Rolei meus olhos e olhei pela janela, nem sei o motivo de ter feito isso, não era como se tivesse alguma placa me avisando onde estávamos.

- Estamos sobrevoando onde? – Perguntei a Alex.

Alex indicou o mapa que tinha no encosto do banco da frente.

- Brasil. Na verdade, quase o Paraguai. Isso é bom, já estamos quase chegando. – Comentei ao dar zoom na tela e ver exatamente onde o avião estava.

- Isso se a turbulência que o piloto anunciou não nos jogar no chão.

- Turbulência não derruba avião. – Avisei e me ajeitei na poltrona, pois a aeronave começou a sacudir com violência. – Está de cinto?

- Claro. Não tive como tirar, tinha uma dorminhoca quase no meu colo por metade da viagem...

- Exagerado.

A turbulência forte que atravessávamos durou até quase na hora do pouso, e eu só fui entender o motivo, quando aterrissamos, já na capital argentina, e vimos que tinha chegado uma massa de ar frio que tinha derrubado as temperaturas na região e nos países vizinhos.

- Será que vai prejudicar o torneio? – Alex me perguntou assim que acabei de traduzir a notícia que passava na televisão de um dos restaurantes do aeroporto.

- Não sei. Até onde me falaram, seria um torneio em arena aberta. Desde que não chova, creio que ainda vai acontecer.

Passamos pela imigração, recuperamos nossas malas e fomos em direção à saída, onde pegamos um táxi até nosso hotel.

Além do torneio, tínhamos outro motivo para termos reunido a família, o aniversário de Liv que era para ter sido comemorado há duas semanas, mas não fazia mal celebrar com um pouco de atraso, desde que a família estivesse junta.

Demoramos um tempo até chegarmos ao hotel, e como não avisamos que já estávamos em solo argentino, fizemos surpresa à família que estava reunida em um dos restaurantes, aguardando o jantar.

- Tia! Tio! Vocês chegaram! – Liv comemorou assim que nos viu parados atrás de meu pai e veio nos abraçar!

- Antes de qualquer coisa, feliz aniversário! – Abracei forte a Loira Aguada.

- Obrigada! Recebi os presentes de vocês, mas acho que as suas presenças aqui são mais importantes do que qualquer coisa! – Ela me soltou e depois foi abraçar Alex.

Lena veio em seguida, já falando pelos cotovelos sobre o que não tínhamos visto do torneio.

Ainda com a baixinha em meus braços, fui cumprimentar o restante da família.

Claro que demorei muito mais com minha mãe, afinal, era um alívio tê-la de volta à família, sabendo que agora ela não iria mais se afastar por tanto tempo.

A conversa fluiu fácil e por muito tempo, afinal, não nos reuníamos desde as festas de final de ano, e muita coisa tinha acontecido.

Já era bem tarde, quando subimos para os quartos, dessa vez ninguém ficou no mesmo andar, e cada vez que o elevador parava, era um que se despedia.

A manhã de sexta começou cedo, Elena, que não sabia em que quarto estávamos, me ligou cedo para perguntar onde ela poderia nos ver.

Informei qual quarto e andar e menos de cinco minutos depois, ela batia e nos chamava.

Foi Alex quem atendeu a porta.

- Boooooommmmm diiiiiiaaaaaa, tio!! – Elena clamou e pelo som, deve ter pulado para abraçá-lo.

- Bom dia, Espoleta! – Ele respondeu fechou a porta e logo apareceu em meu campo de visão com a Pequena nos braços.

- A mamãe me deixou vir sozinha aqui!! – Ela disse toda feliz. – Falou que eu já sou quase uma mocinha e tenho que aprender a andar sozinha nos lugares!

- Nossa! É muita responsabilidade!! Mas ela não falou mais nada? – Perguntei ao chegar perto dela para lhe dar um beijo.

- Que eu tinha que avisar que tinha chegado aqui!

- E está esperando o que? – Alex a colocou no chão e entregou o próprio celular para que ela ligasse para a mãe.

Ela assim o fez e depois de pular na cama, começou a nos contar tudo o que tínhamos perdido desde a última vez em que nos vimos.

Ficamos com ela até que deu um horário decente para descer e tomar o café da manhã, pois, o restante do dia seria atarefado para a baixinha.

- Animada para hoje? – Perguntei enquanto descíamos até o restaurante.

- Muito! O Pula Nuvem está indo muito bem! Segundo a vovó Amelia, é porque eu estou guiando muito bem o cavalo, mas eu acho que é porque ele é muito inteligente. – Lena disse séria.

- Eu acho que é um pouco dos dois. Você tem talento e está muito bem treinada e Pula Nuvem é um excelente cavalo.

- Isso ele é sim! – Ela confirmou.

No restaurante vimos que Liv estava um pouco preocupada com o dia que teria pela frente. A mudança de temperatura de um dia para o outro não agradou minha sobrinha mais velha.

- O problema é que se eu colocar muita roupa de frio, posso ficar mais pesada, o que pode afetar no salto de Chocolate. – Ela dizia.

- Você sempre tem a opção de se aquecer antes. – Dizia Tanya.

- E entrar na arena toda suada e descabelada? Creio que eu perderia pontos no quesito apresentação...

Não tinha jeito, para cada opção que dávamos para Liv, ela contradizia com outra, o que só demonstrava o nível de ansiedade da garota.

Deixamos o hotel com destino à arena, com algumas horas de antecedência, temendo o trânsito do dia.

Por ser um torneio oficial, valendo pontos no ranking da Federação de Hipismo, não nos foi permitido entrar com as meninas até onde elas se preparariam para o dia.

Acabamos perto das arquibancadas centrais, conversando até que fosse o momento certo para ocuparmos nossos lugares.

- Espero que a senhora esteja animada com o seu novo emprego! – Brinquei com minha mãe quando ela me deu o braço, nós duas tentando nos aquecer e nos esconder do vento frio que cortava o local.

- Andei lendo os livros que você me mandou. Já aprendi muita coisa, mas creio que no quesito administração posso sempre buscar ajuda com você.

Tive que rir.

- Isso pode mesmo. E, por falar na Fundação, por onde a senhora acha que podemos começar? Em qual país?

- Estive conversando com alguns colegas meus, sabe como é, tentando buscar bons profissionais para nos ajudar, e todos eles concordaram que o Continente Africano é o melhor lugar. Etiópia, Gana, Sudão do Sul, depois, expandir para o Oriente Médio, claro se você tiver interesse.

- Interesse eu tenho. Se for possível, quero abranger o mundo inteiro, mas sei que devemos começar com pequenos passos.

- Também penso assim, minha filha. Escolheremos um país, começaremos por lá, e veremos até onde poderemos chegar.

O vento começou a castigar ainda mais o local, e tivemos que nos abrigar na arquibancada coberta, não ventava tanto assim lá, mas o frio estava de cortar.

- E eu acreditei na previsão do tempo. Vou acabar congelando por aqui. – Alex, que estava sentado do meu lado, reclamou.

- E depois fala que é quase um finlandês! Toma meu cachecol. – Desenrolei a peça do entorno de meu pescoço e coloquei no dele, afofando um pouco nas orelhas, já que estavam vermelhas.

- Esse é seu.

- É um cachecol preto, Alex. Por favor. Ninguém vai falar que é de mulher.

Ele ponderou, mas quando começou a se aquecer, esqueceu que era meu e só me abraçou de lado.

- E eu vou fingir que isso é demonstração de carinho e não você querendo se aquecer ainda mais. – Murmurei contra seu rosto e lhe dei um beijo.

- Neste caso são as duas coisas. – Ele comentou.

Passou um tempinho e a pista foi liberada. Os primeiros competidores do dia entraram para suas voltas. Sempre na ordem inversa da classificação do dia anterior. O que significava que minhas sobrinhas seriam as últimas de suas respectivas faixas etárias.

E, a cada segundo o tempo piorava. Quando Lena e Pula Nuvem entraram na arena, o vento tinha cessado, mas a temperatura havia caído consideravelmente.

- Para quem anda de motocross debaixo da neve, ela nem deve estar ligando. – Alex falou.

Desconfortável ela não estava, mas seu rostinho estava bem rosado por conta do frio. Do outro lado da arena estavam Dona Amelia e minha avó Claire, as duas muito bem agasalhadas, prestando atenção redobrada em tudo o que a Pequena fazia.

E a sua volta foi perfeita. Sem nenhuma falta ou penalidade para descontar na nota de partida e ela terminou o dia liderando a tabela de classificação.

Com Elena liberada, ela veio se juntar a nós nas arquibancadas, se sentando, ora no colo da mãe, ora no meu, sempre buscandoquem a aqueceria mais.

Olivia só foi para a arena no meio da tarde, uma vez que choveu no intervalo do almoço e acabou por atrasar as demais baterias.

Para o azar de minha sobrinha, ela, que foi a última de sua classe, pegou uma arena com areia molhada e pesada, o que influenciou no desemprenho de Chocolate.

O conjunto não cometeu faltas, fez uma volta limpa e com grande dificuldade nos saltos, porém, por conta do solo encharcado, o tempo foi um pouco mais alto, o que tirou Liv do primeiro lugar geral. Ela terminou o dia em segundo, e não gostou nada disso. Nem suas treinadoras. E sobrou para todos nós informarmos a ela que ainda tinha dois dias de torneio pela frente.

O sábado foi uma reprise da sexta, tempo fechado, arena gelada e areia encharcada. Os tempos das voltas aumentaram por isso, a única que conseguiu um tempo melhor do que no dia anterior foi Liv, assim ela empatou a série.

O domingo seria decisivo para ela.

Enquanto isso, Lena abriu uma vantagem tão grande na sua classe que já era considerada a campeã, o que atraiu olhares de diversos treinadores e patrocinadores, afinal, ela era considerada uma das mais novas na arena, já que a sua faixa etária variava dos seis aos oito anos.

É claro que ser considerava a favorita não queria dizer que ela era a vencedora.

A noite de sábado não foi das mais fáceis. Liv ora olhava para o tempo, ora para a classificação do torneio, fazendo contas e mais contas. E ela repetiu tanto estes movimentos que meu pai tomou o celular da mão dela e mandou que ela ficasse quieta.

E o resultado foi a garota se debulhando em lágrimas. Ela chorou tanto que assustou os homens da família, Elena que não entendeu o motivo, Tanya e a mim. As únicas que entenderam o rompante de lágrimas foram minha avó e sogra, que tiraram Liv de perto de nós e sumiram por quase uma hora.

- O que foi isso? – Meu pai perguntou para minha mãe.

- Pressão. Liv liderou o torneio até ontem, então o clima mudou e ela foi a mais prejudicada. Ela quer ganhar de qualquer jeito, treinou muito para isso, e viu as suas chances diminuírem por algo que não está dentro de seu poder mudar. Até parece que nunca viu alguém agir assim, Jari! – Ela respondeu e olhou diretamente para mim.

- O que eu tenho a ver com o rompante de Liv. O máximo que eu fiz foi oferecer um chocolate para ela! – Defendi-me.

- Só falando que você já fez exatamente o mesmo que Olivia. Aliás, até nisso ela é parecida com você. Algo não sai da maneira como vocês planejaram, e vocês planejam os mínimos detalhes, e o que acontece? Vocês entram em desespero e qualquer mínimo acontecimento é motivo ou para chorar ou para brigar.

Encarei minha mãe e depois me lembrei do meu rompante no ano passado, quando minha família, com o claro intuito de me proteger, contratou motorista e segurança para me levarem até o julgamento de Cavendish e eu agi como uma adolescente mimada de 14 anos, brigando com todo mundo. E, assim, fiquei calada.

Acabamos que fomos dormir sem ter visto Olivia novamente, Tanya, obviamente foi atrás de Liv e eu acabei de babá de Elena.

- Täti, — Ela me chamou, enquanto pulava na cama e não me deixava pentear seu cabelo recém lavado. – A Liv vai ficar bem, não vai?

- Vai sim. É só nervosismo para a final de amanhã.

- E por que eu não tô nervosa?

- Primeiramente é estou. Estou nervosa. Segundo, cada pessoa reage de maneira diferente às situações da vida, Leninha. E essa foi a reação de Liv.

E minha sobrinha se jogou no colchão e me encarou, tentando entender o que eu falava.

- Será que o que a Liv tá sentindo é dor de barriga, tia? Porque toda vez que eu penso no que vai acontecer amanhã, a minha dói.

Olhei para a garotinha que agora me encarava com a cabeça tombada.

- Pode ser que seja.

- Então é só falar para ela ficar quietinha que passa. Será que eu posso falar para ela?

- Não hoje, Elena. Nem amanhã antes das finais. Você só poderá perguntar para a sua irmã o que ela está sentindo hoje quando chegarem em Londres, tudo bem?

- Tudo, mas será que eu vou me lembrar? – Ela me perguntou e eu tive que me controlar para não rir da inocência dela.

- Vai. Você vai sim. – Afirmei e olhei para o outro lado do quarto, onde Alex saía do banheiro, tentando não rir da falação da garotinha que seria a nossa companhia pela noite.

E nossa sobrinha, como previsto, dormiu a noite inteira, nem um pouco preocupada com o resultado do dia seguinte, essa era uma das vantagens de ser criança, não entender o peso das coisas que faz porque gosta, apenas vai e curte o momento, como se fosse a melhor das brincadeiras.

No domingo pela manhã, ninguém comentou com Olivia sobre a noite passada, nem mesmo Lena. As conversas foram bem tranquilas e sem mencionar as finais de hoje de tarde.

Como ainda faltavam várias horas para o início do último dia, resolvemos passear com as meninas por alguns lugares históricos de Buenos Aires, tanto para que elas pudessem conhecer um pouco da cidade, quanto para distrair as duas do que estava por vir.

Olivia foi caminhando do meu lado, prestando atenção nos prédios e, algumas vezes nas pessoas que passavam conversando do seu lado, estranhando a velocidade com a qual falavam.

- Eu sei falar espanhol, me virei muito bem por aqui, porém, os argentinos falam rápido demais. E já reparou que eles primeiro te olham de cima embaixo, para depois te responderem?

- Não posso dizer que são as pessoas mais simpáticas que já conheci. – Concordei com ela.

- Escutei a equipe do Brasil falando que os argentinos acham que vivem na Europa, por isso toda essa marra. – Liv continuou a falar. – E claro, eles riram muito quando comentaram isso.

- Cada um que pense o que quiser, mas não sei o porquê dessa mentalidade.

- Mania de grandeza, talvez?

- Vai saber... – Dei de ombros.

Voltamos ao hotel e, cada passo que dávamos até nosso destino, Liv ia ficando mais e mais nervosa.

- É um torneio, Olivia. Não uma sentença de morte. Vá e aproveite a sensação de se fazer o que gosta ao máximo. Se preocupe com você, em fazer o seu melhor e não com o resultado.

Minha sobrinha fez uma careta, porém, respirou fundo e concordou comigo.

Nossa parada no hotel foi rápida, apenas para que as meninas trocassem suas roupas e pegassem seus equipamentos de segurança, quando fomos para o carro, Liv pediu que fosse comigo, ninguém se opôs e ela se sentou no banco de trás, comentando, não sobre a competição, mas o vindouro casamento de Pietra, para o qual os convites já tinham começado a serem enviados.

- Nem acredito que a Louca vai se casar... e em um castelo! Um castelo! É muito surreal. E eu vou estar lá para ver! Se for tão icônico quanto ao convite, esse casamento entrará para a história.

E ela foi tagarelando sobre o que ela achava que veria, como nunca estivera em Miramare, nem imaginava como seria se casar dentro de um castelo de verdade.

Apesar de cansativa, a conversa serviu para distrair Olivia, e, também por acalmá-la um pouco e, quando chegamos à arena, ela estava serena.

Minha avó e Dona Amelia levaram as meninas para os estábulos e nós fomos para nossos lugares nas arquibancadas. Hoje, diferente dos demais dias, seria mais rápido. Com poucos conjuntos para se apresentarem, logo a categoria de Elena foi anunciada.

Ao meu lado Tanya agarrou a mão do marido, ela não estava somente temendo pela segurança de Elena, mas também nervosa quanto ao seu desempenho.

E a Pequena não decepcionou. Sem se preocupar muito com notas, mas somente em se divertir, deu uma volta perfeita, sem nenhuma falta e confirmou o favoritismo que haviam lhe empregado, vencendo com folga o torneio para as crianças da sua faixa etária.

O hipismo tem seus costumes e tradições, portanto, nada de gritaria, pulos ou assobios, mas as palmas eram permitidas e quando Elena deu a volta de encerramento e passou perto de onde estávamos sentados, nos levantamos e batemos palmas o mais alto que conseguimos. Ela, claro, nos viu e somente pode nos acenar. A comemoração mesmo ficou para quando ela desmontou de Pula Nuvem e abraçou forte tanto Vó Claire quanto Dona Amelia.

Noventa minutos se passaram desde a vitória de Elena, ela, que já estava na arquibancada conosco, balançava nervosa as perninhas, ansiosa para ver a irmã entrar em ação.

Liv não era a favorita de sua categoria. Longe disso, era vista somente como uma estreante com sorte, que tinha se metido no meio da briga das duas grandes promessas da nova geração. Assim, a responsabilidade de uma boa volta estava toda na mão dos conjuntos da Itália e dos Estados Unidos e a disputa ali estava tão cerrada que eles nem se dignaram a observar a volta de Liv.

Mas eles deveriam. Porque ela, livre da pressão de ganhar depois que viu quem eram os grandes favoritos, entrou na arena como se fosse um treino que ela fazia no Haras ou no Rancho, algo prazeroso, algo que ela fazia para se distrair.

E a volta foi um show.

Dessa vez o tempo colaborou, estava frio, é verdade, mas não chovia ou ventava quando foi a sua vez de competir. E ela foi perfeita, ainda mais do que Elena. Liv se mostrou uma amazona confiante, não somente em si, mas em Chocolate, que não era somente um animal que ela domava, parecia que fazia parte dela, tamanha era a sincronia dos dois.

Não teve jeito, foi uma volta nota 10.

Agora era só aguardar o conjunto italiano.

E cavaleiro e cavalo eram bons, davam a impressão de serem uma parceria mais velha, porém, no esporte, além da dedicação, às vezes temos que contar com sorte também.

E hoje não era o dia de sorte dos italianos. Tudo ia bem, até a metade da volta parecia que teríamos um empate. Ninguém respirava na arquibancada, os treinadores tentavam manter a postura e controlavam para não ditarem regras, até que o vento recomeçou. Forte e impiedoso. Chapéus voaram das cabeças dos espectadores, lenços, cachecóis, cachemiras, tudo que não estava preso, foi levado. As pessoas vestiram seus casacos e na arena, o cavaleiro tentava se equilibrar no lombo do cavalo, pois a rajada fora tão forte que o desiquilibrara quando do salto, fazendo com que ele desse um comando contrário em sua montaria e o cavalo acabasse por derrubar um pedaço do obstáculo.

Era uma falta grave, com um grande desconto de pontos.

A vitória era quase de Liv, bastasse agora que o italiano encerrasse a volta.

Com a ventania aumentado, o cavaleiro teve que escolher entre ficar preso à sela ou buscar a vitória arriscando um tombo. Ele preferiu a primeira opção e passou a fazer saltos de menor complexidade, baixando sua nota de saída quase que pela metade.

E, ao final do torneio, Olivia se saiu vencedora, para a incredulidade de todos os presentes que a tinham como uma zebra.

Liv estava nos estábulos quando a nota de seu rival saiu e ela foi proclamada vencedora, acabando por chegar um pouco atrasada na premiação, mas nada disso tirou o enorme sorriso que ela tinha estampado no rosto.

Nem no de Elena, que comemorou mais a vitória da irmã do que a dela própria.

Já a nossa comemoração teria que esperar, afinal, poucos minutos depois da premiação, uma chuva torrencial atingiu o local das competições, adiando para o dia seguinte o restante das categorias.

Comemoramos em um jantar o desempenho das duas, e ainda pudemos ligar para minha avó Mina, meu avô George e para o senhor Pierce, que comemoraram conosco a primeira grande vitória das garotas Nieminen no hipismo. Que agora deixavam de ser as desconhecidas no esporte e passavam a ser as promessas da vez.

Mas, para nós da família, elas sempre seriam as grandes estrelas, seja na vitória, seja na derrota.


Notas finais
Muito obrigada a quem chegou até aqui e está acompanhando a história! Prometo tentar postar com um pouco mais de frequência. Até o próximo capítulo. xoxo