Notas iniciais
Eu já nem tenho desculpas para demorar tanto para atualizar a história, então, aproveitem o capítulo. Boa leitura!

O nosso dia começou cedo, enquanto Liv tentava se acalmar andando de um lado para o outro, ela foi expulsa do estábulo porque, nervosa do jeito que estava, acabou por agitar todos os cavalos, eu e Dona Laura pegamos para preparar Athena e Hal. Conferimos as ferraduras, passamos o cabresto, freio e, na égua, já colocamos a sela e os estribos.

Como se tratava de hipismo, até mesmo a aparência do cavalo contava pontos, motivo pelo qual me peguei penteando e trançando a crina de Athena e, como Liv tinha insistido em comprar, acabei por colocar um pequeno acessório na testa da égua, que imitava um arquinho e era cravejado de strass.

Quando nos demos por satisfeitas com a preparação, levamos os cavalos para o transporte, que Dona Laura fazia questão de guiar, o que causou estranheza em meu sogro.

O local da competição ficava um pouco mais ao norte, uma viagem de duas horas de onde estávamos, assim, para garantir que não iríamos nos atrasar, saímos com quatro horas de antecedência para o início do torneio.

Liv foi com Dona Amelia e meu sogro em um carro, eu levei além de Elena, que estava devidamente trajada como uma mini amazona, Dona Ilsa, que assim que ficou sabendo que Liv iria participar, fez questão de ir.

Alex, Will e Pepper não puderam vir na sexta, e só apareceriam no sábado, caso minha sobrinha passasse nas classificatórias. Assim, a torcida estava um pouquinho desfalcada hoje.

Chegamos ao local, conseguimos colocar os equipamentos onde nos foi indicado e nos restou esperar. O que não foi uma boa ideia, nem para Liv, nem para Lena.

E, no horário marcado, deram início à competição. Como Liv era uma das estreantes, ela foi chaveada para competir no início da tarde, no horário de maior calor. Então, nossa preocupação era a de que tanto ela, quanto Athena, estivessem bem hidratadas para o momento em que entrassem na arena.

As horas pingaram, e nesse meio tempo, toda a família ligou pedindo atualizações de Liv e de como eram os demais conjuntos.

Dona Laura proibiu minha sobrinha de ver quaisquer saltos, de conversar com os familiares, simplesmente pediu que a garota se concentrasse no que ela tinha que fazer e, que, enquanto aguardava, que ouvisse suas músicas favoritas.

Liv se sentou em um canto, colocou um enorme headphone sob as orelhas e tentou se esquecer de onde estava.

Eu, depois de conferir tudo, levei Lena para ver como era uma competição oficial.

Sentamo-nos na arquibancada e, de lá, mostrei para minha sobrinha como ela deveria se portar, o que poderia e não poderia fazer. É claro que ela não gostou, afinal, que criança gosta de ficar sentada debaixo do sol vendo outras saltarem com seus cavalos.

E, quando deu o horário de Liv entrar na arena, estávamos de volta ao seu lado.

— Vai dar tudo certo, Liv! – Lena cumprimentou a irmã.

Eu estava conferindo a joelheira, capacete e até mesmo cotoveleira que ela deveria usar como itens de segurança, tudo estava bem firme e no lugar, e Dona Amelia conferia a sela de Athena.

— Está tudo pronto, Olivia. Agora é só fazer o que você sabe. – Ela falou com minha sobrinha.

Onnea pikkunen[1]. – Murmurei em finlandês quando a abracei.

Seu nome foi chamado e ela montou em Athena, nos dando um simples aceno de cabeça quando colocou a égua para trotar.

— E conserte a postura! – Falei mais alto e ela jogou os ombros para trás.

Corremos para perto da área de salto, somente Dona Laura e Dona Amelia poderiam ficar ali, assim, nos restou um lugar na arquibancada.

Peguei o celular e comecei a gravar tudo, desde o momento em que Liv entrou dando a sua volta de apresentação até o seu salto final.

Como tia, é claro que eu fiquei mais nervosa do que tudo, tinha medo de algo acontecer, mesmo sabendo que Liv sabia dominar um cavalo muito bem, mas para mim ela sempre seria uma garotinha que mal tinha tamanho e queria montar em um pônei que nem dava altura.

Murmurei algumas instruções, mesmo sabendo que ela não ouviria, mesmo sabendo que, se ela ouvisse, seria uma falta, já que o treinador não pode dar dicas para o conjunto durante a execução dos saltos.

Foram os minutos mais agoniantes da minha vida, porém, quando ela enfileirou Athena para o último obstáculo, um conjugado de altíssima complexidade, tudo o que pensei era que a égua não poderia refugar agora, ou tudo o que fora conquistado até aqui seria perdido.

Prendi minha respiração quando Liv ficou de pé nos estribos, agarrei meu celular com mais força, do meu lado, meu sogro chegou seu corpo mais para frente e quando notei, ela deu o comando para que Athena saltasse.

Eram pouquíssimos segundos saltando, mas pareceu que o tempo parava, até que as patas dianteiras de Athena tocaram o chão, o salto foi concluído com perfeição, já que não encostou na barreira nem pisou no lago.

Era motivo de comemoração, porém, não é esse o procedimento do hipismo, assim, só batemos palmas de forma educada e baixa.

Liv comemorou a volta, dando batidinhas no pescoço de Athena e erguendo o braço.

Sua nota saiu antes que ela pudesse desmontar e um belíssimo 9.8 foi mostrado a todos os presentes.

Era a maior nota até aqui e ela liderava a competição nesse momento.

Assim que nos encontramos fora da área de competição, comemoramos propriamente e Dona Laura, foi a primeira a parabenizar Liv, mas, também, a primeira que puxou a orelha dela, já falando o que ela deveria corrigir para o dia seguinte.

Às dezessete horas, o dia foi encerrado e Liv ficou em uma belíssima terceira posição geral, se classificando para a prova de sábado.

A notícia foi logo espalhada, mesmo que já fosse tarde na Inglaterra, enquanto esperávamos que Athena fosse vistoriada pelo comitê organizador.

Como regra, os cavalos permaneciam no local de competição para o dia seguinte, sendo que eles eram tratados pela equipe do competidor e depois guardados sob a vigilância de todos, que assinavam uma ata confirmando que tudo estava bem com o animal.

Voltamos ao Rancho para encontramos com Will e Pepper já por lá, e eles quiseram saber os detalhes da volta de Liv e de como ela estava se sentindo.

Alex ligou e disse que iria se atrasar, uma vez que ele tinha que finalizar o episódio hoje, já que viajaria para a Europa na próxima semana. Pediu que ninguém o esperasse, pois não tinha horário para voltar, porém garantiu que no sábado de manhã estaria pronto para nos acompanhar.

Todos foram dormir e eu acabei por esperar por meu noivo sozinha na sala, trabalhando, enquanto ele não chegava, afinal, eu tinha ignorado todos os problemas do escritório para estar com Liv hoje.

Alex foi chegar em casa já passava das três da manhã, estranhou que a luz ainda estivesse acessa no quarto e reclamou que eu não deveria estar trabalhando até tão tarde.

— Isso é o roto falando do esfarrapado? – Questionei a ele quando recebi um beijo. – Eu também senti saudades. – Falei.

— E pode guardando isso enquanto eu tomo banho, porque você tem que contar como Liv foi hoje.

Passamos quase a noite em claro, mas era por uma boa causa.

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Tendo o número de competidores reduzido pela metade no dia anterior, as voltas começaram um pouco mais tarde, o que nos deu uma manhã mais tranquila.

À tarde, todos estavam sentados na arquibancada, uma vez que somente duas pessoas eram autorizadas a ficarem ao lado dos conjuntos, então, acabamos por ver cada uma das apresentações.

— A Liv não vai entrar? – Elena me perguntou depois de ter visto uns quatro competidores.

— Vai sim, Pequena. É que hoje é na ordem inversa da classificação de ontem. – Informei.

— Ah! Grid invertido! A senhora deveria ter falado antes, täti! – Ela me respondeu simplesmente.

E como demorou para Liv apontasse na área. Lena tentou acenar para a irmã, porém eu impedi.

— Não pode, Elena. É falta de educação fazer isso durante a competição. Hoje só poderemos aplaudir quando tudo terminar.

E minha sobrinha se sentou do meu lado e começou a balançar as perninhas.

Will se encarregou de filmar a volta de Liv hoje, falando que eu fiz um péssimo trabalho ontem, pois meu vídeo tinha saído todo tremido. Quando ele entender que eu tenho o direito de ficar nervosa, vai perceber que a gravação saiu até boa demais.

O nome do conjunto foi anunciado e Liv deu sua volta de apresentação de forma até mais graciosa do que no dia anterior. Parecia, ao longe que ela estava mais tranquila hoje, pelo menos nesse momento.

E ela não decepcionou, fez uma volta ainda melhor do que a ontem, atingindo quase a total perfeição, com uma pontuação de 9.9. Só não foi um dez completo porque ela se levantou um pouco cedo demais em um dos saltos.

Assim, somando a nota de ontem com a de hoje, ela havia perdido somente três décimos. Teríamos que ver os demais competidores, mas a classificação dela para a fase final no domingo de manhã estava garantida.

E, depois que os primeiros colocados do dia anterior fizeram as suas voltas e tiveram notas mais baixas do que as prévias, Liv terminou o dia liderando o torneio.

O domingo seria decisivo e a noite longa.

Minha sobrinha só conseguiu dormir depois de tomar quase um litro de chá, e eu a mesma coisa, e, no domingo, ela clamava que não conseguiria comer nada. Algo que minha sogra logo provou o contrário, ao colocar uma pilha de panquecas na frente dela.

— E se eu passar mal? – Ela perguntou olhando para o próprio prato.

— Liv, por favor, você tem que se alimentar. – Falei. – Já são dois dias sem almoçar direito, pelo menos o café da manhã tem que ser reforçado.

Ela comeu sem muita animação e depois correu para terminar de se arrumar, ou melhor, me gritou para ajudá-la a fazer um coque no cabelo e não parou de falar até que abrimos as baias de Athena e de Hal, já no local onde seriam disputadas as finais.

Hoje seriam somente os cinco primeiros colocados, razão pela qual saberíamos o resultado antes do meio-dia.

Liv seria a última a dar a volta e eu não sabia o que era pior, aguardar todos darem as suas voltas já sabendo o resultado dela, ou esperar que ela entrasse na arena.

Batia minhas botas no chão em claro nervosismo, ao meu lado, Lena e até mesmo Pepper faziam o mesmo. Evitamos reclamar muito para não fazer barulho na arena e desconcentrar quem estava em volta.

Até que às 11:30, Liv entrou.

Foi um alívio e desespero novamente.

E eu não sabia se assistia a tudo, se começava a rezar ou se simplesmente me sentava, fechava os olhos e tampava os ouvidos.

Curiosa como sou, acabei por ver toda a volta, com os dedos da mão direita cruzados e pedindo que tudo desse certo.

Liv foi, na minha concepção, perfeita, não errou nenhum obstáculo, se levantou da sela no momento correto, dominou e controlou Athena com maestria.

A pontuação estava nas mãos dos juízes.

— Para mim, a Liv foi a melhor! – Disse Lena assim que viu a irmã desmontar e ir para perto de Dona Laura e Dona Amelia.

Pepper clamava que ela tinha que vencer, pois fez tudo correto. Will, Dona Ilsa e Alex também comentavam a mesma coisa e, eu, bem, estava de olho nos juízes e nas reações das duas treinadoras, por isso vi o sorriso de minha sogra antes que a nota fosse anunciada e comecei a comemorar antes de todos.

Sim. Ela tinha vencido.

Um redondo 10 na final, somado com o 9.9 e 9.8 das classificatórias, ela tinha desbancado competidores experientes e vencido o seu primeiro Torneio de Hipismo.

Isso tendo treinado muito pouco com Athena. Definitivamente Liv levava muito jeito para as competições de salto.

A comemoração da arena foi discreta, como manda o manual, mas, a partir do momento em que todos se encontraram já do lado de fora após a cerimônia do pódio, não tinha manual, não tinha regras que nos impedisse de comemorar em alto e bom som.

Liv estava em êxtase, e, ao ligar para os pais, desabou a chorar, o que fez com que Lena chorasse também, mesmo que ela não soubesse o motivo de estar chorando.

Tanya acompanhava as lágrimas da filha e meu irmão não se cabia de orgulho, a chamada que era para ser só com os pais, acabou virando uma chamada em grupo que foi uma mistura de felicitações em inglês e finlandês.

E, no meio de tantos sorrisos e lágrimas, ainda lembraram de Lena, que tinha torcido pela irmã durante todo o torneio e se comportado muito bem.

— A próxima agora é a Lena. E assim teremos duas campeãs na família! – Disse minha vó Mina, voltando ao inglês depois de ter felicitado a bisneta em finlandês.

A festa continuaria a tarde e, teria entrado noite afora, se não fosse pelo pequeno problema de que tínhamos um voo para pegar na segunda cedo de volta à Londres. O que não impediu que a família de meu noivo fizesse um jantar e tanto, com a desculpa de que poderíamos dormir na viagem e, assim, chegaríamos inteiros na capital inglesa.

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Se o final de semana foi de suspense e terminou em comemoração, nossa segunda começou com outra emoção rondando, nervosismo.

Não para nossas sobrinhas, que, mesmo que tenham dormido somente poucas horas, estavam eufóricas dentro do avião, com Liv ainda sem acreditar que tinha ganhado o torneio e com Elena fazendo a sua redação sobre como foram as férias.

O nervosismo, que pairava no ar e era imperceptível para as duas, vinha de Alex.

Para todos que se envolvem na carreira dele, essa semana era decisiva. A estreia do filme estava batendo na nossa porta, as críticas começariam a sair já na quarta-feira, e isso é que definiria de certa maneira, a bilheteria do filme.

Eu jamais imaginaria que as críticas fossem tão decisivas, porém, foi o que Alex me explicou durante a noite, quando, sem conseguir dormir, acabou por me chamar e, entre conversas sobre os rumos de sua carreira, como estava o set da série e, o que essa semana que começava poderia trazer, ele se abriu por completo e me disse que estava nervoso, com medo, até, do que os críticos iriam falar do filme. E foi só aí que eu entendi a importância da crítica especializada.

E, foi com todo esse papo de divulgação que eu comecei a temer também... eu não fazia ideia de que se um filme fosse considerado ruim ou excelente poderia ou não influenciar na carreira de meu noivo... e, assim, estávamos os dois nervosos com o futuro.

No meio do voo, a equipe de Alex entrou em contato com ele para fechar a agenda de Londres e, também da divulgação na Europa, ele pediu licença e foi para o fundo do avião e eu me concentrei em Lena e sua redação e, por incrível que se possa parecer, foi ensinando à minha sobrinha que eu consegui reduzir um pouco a minha ansiedade.

Como Elena havia me prometido antes de partirmos de Londres, ela escreveu três redações, idênticas, é verdade, mas que tinham destino certo, era uma para a escola, outra para Dona Amelia, que ela me fez prometer que eu iria entregar e filmar a entrega, e a outra era para mim. Ficamos ali sentadas, até que ela terminou tudo, tanto a redação, quanto os desenhos, e, o que teve mais destaque foi justamente a irmã mais velha com o troféu nas mãos montada em Athena.

— Eu vou contar para a escola inteira que a minha irmã é a melhor amazona do mundo! – Ela dizia ao terminar de colorir o desenho. – A Liv não é a melhor do mundo, tia?

— Com certeza, Leninha. – Acariciei os cabelos dela e depois olhei para o outro lado do avião, onde minha sobrinha mais velha dormia com um discreto sorriso nos lábios.

O restante da viagem foi bem calmo, com as duas dormindo para compensar o final de semana e com Alex ainda em reunião, aproveitei para por meu trabalho em dia e, também, para tirar um cochilo.

Nossa chegada em Londres foi com muita festa, afinal, a família inteira estava no aeroporto esperando por nós, e, com um objetivo claro, celebrarem a vitória de Liv e a estreia de Lena como atriz.

Enquanto Olivia ficou um tanto encabulada com tantos abraços e barulhos, Elena adorou a atenção e não poupou detalhes sobre a sua cena.

A celebração continuou na casa de meus pais, porém, mais cedo do que qualquer um poderia ter imaginado, Tanya tomou as rédeas da festa e anunciou que as filhas famosas tinham que ir para casa porque, no outro dia, tinham escola e elas já haviam faltado na segunda.

Ninguém discutiu com a mamãe ursa e nos despedimos das duas estrelas da família, já elas agradeceram um milhão de vezes pelas férias e já pediram se poderiam voltar em abril do próximo ano...

— Isso não é comigo... é com eles ali! – Apontei para Tanya e Ian que olhavam incrédulos para as filhas.

— Agora vai ser assim? Férias serão todas na Califórnia? – Tanya perguntou pegando Lena no colo.

— Mas mamãe! A gente pouco vê a täti e o setä! Só assim para ver os dois! E a vovó Amelia, o vovô Jonathan, o tio Will, a tia Pepper... eles trabalham demais! – Completou a garotinha um tanto injuriada.

— Trabalham muito para poderem passear com as duas. Agora vamos para casa. – Ian deu o comando e logo estávamos nos despedindo das duas na garagem.

Voltamos para dentro de casa e, quando fui ajudar minha mãe com a louça, ela me proibiu e, antes que me enxotasse da cozinha, perguntou:

— Por que os dois estão tão calados?

— Cansaço. – Respondi simplesmente.

— Cuidar de duas não é nada fácil! – Ela deu uma risada.

— Na verdade, não foi difícil. Elas ficaram praticamente todo o tempo no Rancho, complicado é essa troca de fuso.

— E, tirando isso, mais o que está deixando vocês dois assim?

Mordi o lábio, como minha mãe era perceptiva...

— A estreia do filme nesta quinta.

— Então é quinta-feira que tudo começa de verdade?

— Já começa amanhã com algumas entrevistas e uma participação em um programa.

— E você vai com ele?

— Não. Não tem necessidade. Mas quinta, essa é outra história.

— Você já arrumou tudo? – Quis saber minha mãe.

— Sim e não. Virei boneca na mão dos estilistas de Alex. Nem faço ideia do que aqueles dois aprontaram. Muito provavelmente verei amanhã, já que todos pediram o endereço de casa e vão fazer de lá a base de comando ou seja lá como chamam.

— E como Alex está com tudo isso?

— Nervoso. Até demais. Pela primeira vez ele conversou comigo sobre a própria carreira, sobre o que nos aguarda nessa semana. Ele tem consciência de que esse é o verdadeiro recomeço. E que as críticas podem influenciar no futuro... enfim, é a semana decisiva para ele.

— Não me pergunte como, Katerina, mas eu tenho a impressão de que tudo vai dar certo. Absolutamente tudo. Confie no que eu estou te dizendo.

— Obrigada, mãe. Estamos precisando de um pouco de pensamentos positivos. Na verdade, de muitos pensamentos positivos.

— Confie em mim, KitKat, vai dar certo. – Ela disse com uma confiança tal que eu nem sequer pude duvidar.

Ainda fiquei ali sentada por um tempo, mas quando o cansaço e o fuso bateram de vez, despedi-me de minha mãe e fui atrás de Alex que estava na sala com meu pai e avós, ou era isso que eu pensava.

— Onde está Alex? – Perguntei quando não o vi em lugar nenhum.

Meu pai só apontou para a escada.

— No segundo andar? Outra reunião?

— Ele disse que sim, mas já faz um tempo que subiu. – Meu avô me disse.

— Bem, vou ver se consigo arrancá-lo daquele telefone. – Comentei e subi a escada, procurando por ele. – Alex! Alex! – Fui chamando e batendo nas portas, até que, quando bato na porta do meu antigo quarto, noto que ela está encostada e que a luz está acessa. – Alex... podemos... – Comecei e parei, pois, escorado na cama, dormindo, estava meu noivo. O celular estava caído no chão e ele estava todo torto na cama. Peguei o telefone, conferi a bateria, tinha acabado e, depois de colocá-lo para carregar, chamei por Alex.

— Bem... acho que vamos ficar por aqui hoje, mas será que você poderia ao menos tomar um banho?

— Já estamos em casa? – Ele perguntou meio acordado, meio dormindo.

— Sim. Mais ou menos. O banheiro é por ali, eu vou pegar as suas coisas. – Informei e o ajudei a se levantar da cama. Com meu noivo quase apagado debaixo do chuveiro, desci rapidamente ao térreo para perguntar se tinha algum problema se ficássemos pela noite.

— Ele apagou lá em cima, não foi? – Vó Mina me questionou.

— Sim. Estava todo torto na cama. Espero que ao menos consiga tomar banho sem escorregar. – Comentei.

— Vocês são bem-vindos para ficarem. – Minha mãe veio falando. – E eu fico até feliz, porque estava duvidando que você conseguiria chegar em casa dirigindo, também está caindo de sono, filha.

— Pois é. Obrigada pela estadia! – Agradeci e desejei boa noite a todos, subindo em seguida com nossas malas.

Arrumei a cama e foi a conta de terminar e Alex saiu do chuveiro, estranhando onde estava.

— Aqui é a casa...

— Sim, estamos na casa de meus pais... – Confirmei.

Ele coçou a cabeça e olhou para a cama, depois para mim.

— Não, eu não tenho forças para dirigir até a nossa casa. Vamos dormir aqui. – Falei. E o seu pijama. – Entreguei para ele as roupas.

— Não acredito que vou dormir na casa do meu sogro... – Ele murmurou baixo, e, depois de se trocar, desmontou na cama.

— É inútil pedir que você me espere, não é? – Perguntei.

— Eu vou tentar. – Foi a resposta abafada que recebi.

E eu sabia que ele estaria no quinto sono quando eu saísse do banho.

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Se a segunda foi de festa, a terça foi de reuniões. Logo cedo, tomamos café com meus pais e depois fomos direto para casa. A equipe de Alex desembarcou em peso um pouco depois que nós chegamos, tomando conta de todo o primeiro andar e, antes que pudesse fazer qualquer coisa, como tentar fugir pela garagem e ir para o escritório mais cedo, sendo que eu só tinha uma reunião na quarta, Hillary e Vicenzo me cercaram e me arrastaram para o meio da loucura.

— O que é isso? – Apontei para as quatro araras que estavam bem no meio da minha sala de visita.

— Aquilo ali são roupas e nas malas temos sapatos e acessórios.

— Para o Alex, né? – Perguntei inocentemente.

E um silêncio caiu no cômodo, como se o ar tivesse sido sugado por um buraco negro.

— Não é para ele? – Murmurei.

— Finlândia! – Começou Vicenzo. – Você nos deu carta branca para brincarmos com os seus looks!. E foi o que fizemos.

— Vocês compraram toda as roupas de todas as grifes! – Esgoelei-me.

— Não. Pegamos emprestado mesmo. – Disse Hillary.

— E quantos vestidos tem ali?

— Uns oitenta. – Os dois responderam como se fosse a coisa mais banal do mundo eu ter à minha escolha oitenta vestidos de grife.

Olhei estupefata das araras para os dois e depois voltei para as araras e, quase em surto, olhei para Alex que estava sentado do meu lado, discutindo algo como que horas ele iria sair para a BBC.

— Nada de chamar o namorido! Vamos logo que temos que escolher o que vai ficar melhor em você. – Vicenzo falou e saiu puxando uma arara com uma mão e me arrastando com a outra, não me dando chance nem de pedir ajuda.

Eu, ainda em choque, mal reagi, apenas saí cambaleando atrás dos dois estilistas que iam criando combinações de roupas para a minha pessoa.

Sinceramente, eu nem sabia o que me esperava, mas tinha certeza de que eu viraria uma boneca em tamanho real nas mãos dos dois pelas próximas horas.

E, ao final do dia estava morta, só o pó! Eu tinha sido o manequim para mais de oitenta vestidos e sei lá quantos pares de sapatos, só sei que, no meio da tarde, eu já estava fazendo até promessa de que eu jamais iria infligir tamanho sofrimento a alguém nessa vida e, também me fiz a promessa mental de pedir desculpas ao meu pai por todas as horas em que ele ficou esperando sentado, jogado na cadeira de alguma loja, enquanto eu e minha mãe nos decidíamos por alguns pares de sapatos ou algumas peças de roupas.

— Acabou? – Perguntei até temendo que um deles viesse com a resposta de que havia mais umas seis araras de roupas me esperando do lado de fora.

— As roupas sim, agora temos que escolher efetivamente quais você gostou e quais não ficaram boas. – Hillary me explicou.

Isso foi fácil, eu já tinha separado as pilhas do que era “usável”, do que eu “havia gostado” e aquela pilha do que “eu não usaria nem se alguém me obrigasse”.

— Nada daquela pilha ali. – Apontei para os vestidos que eu havia dobrado depois de ter experimentado e não gostado.

— Mas tem um ali que você ficou maravilhosa! – Vicenzo foi até lá e puxou um vestido vermelho, sem alças e com uma fenda que ia até quase meu quadril.

— Não faz meu estilo. Achei justo demais, revelador demais. Para se usar esse tipo de vestido com essa fenda, tem que aceitar que alguma coisa a mais irá aparecer, e eu não me sentiria bem usando isso. – Fui sincera.

— Tudo bem. Já sabemos que você não é adepta das roupas muito sexies. – Ele bateu palmas e um dos assistentes apareceu e começou a pendurar os quase vinte vestidos em uma das araras.

— Então, vamos deixar as escolhas nas suas mãos. Serão duas noites de tapete vermelho. Uma aqui em Londres e outra em Los Angeles. O que você achou bonito, que te deixa confortável e que você usaria com confiança? – Hillary perguntou.

Olhei para a pilha dos vestidos que eu realmente havia gostado, um roxo escuro, de ombro só, com aplicações no ombro e na lateral da cintura contrária a alça, feito de veludo, achei interessante para Londres, por ser veludo e pela previsão do tempo não estar muito agradável para a noite da estreia e um preto, todo bordado com cristais, que tinha um decote discreto na frente e uma fenda na parte de trás.

Essas foram as minhas escolhas, sendo o primeiro tinha ficado tão certo em mim, que não precisaria nem de ajuste. Contudo, os dois, ao notarem mais ou menos os estilos dos vestidos, começaram a comentar sobre outros que não estavam ali.

— E se a gente trouxesse dois vestidos de uma grife inglesa para você olhar. Acho que ficariam bons, melhores até do que essas suas escolhas.

— Eu vou ter que vestir mais quantos?

— Uns cinco. E prometemos que se você só de olhar não gostar, seguiremos com as suas escolhas.

— Tudo bem.

Ajudei a equipe a guardar os vestidos nos sacos e depois dependurá-los nas araras e quando eles se despediram, notei que Alex não estava mais na sala e foi quando eu tive a curiosidade de saber as horas. Já eram quase 18:00. Ele deveria estar se arrumando para o programa que iria daqui a pouco.

Estava me virando para ir para o quarto, quando Hillary me grita.

— Katerina! Esquecemos a roupa do Alex! Entregue a ele, por favor. Aqui estão as roupas de hoje e as amanhã para as entrevistas com a mídia. E eu sei que você vai saber arrumá-lo direito! Deixe ele bem bonito! — Ela brincou e depois partiu.

Fechei a porta e pude ir atrás de meu noivo. Como eu imaginava, ele já estava se arrumando.

Dependurei os ternos no cabide e coloquei os sapatos ao lado da cama, apesar de saber que eles deveriam ter ficado no andar de baixo.

Exausta, mesmo só tendo servido de modelo por quase todo o dia, a cama me pareceu muito convidativa, porém, eu tinha displicentemente ignorado o meu trabalho, e, tendo em vista o fuso horário, era bem possível trabalhar interligada com o escritório mesmo daqui da Inglaterra. Assim, fiz meu melhor para ignorar a cama e, depois de avisar à Alex que se ele precisasse de algo eu estaria em meu escritório, voltei para o cômodo com o intuito de trabalhar até o horário em que o programa fosse começar. Afinal, eu poderia não acompanha-lo, como fiz algumas vezes quando a série estava por estrear, mas não significava que eu iria simplesmente deixar de assisti-lo na TV.

A quarta de manhã começou corrida, tinha prometido para Liv e Lena que as levaria para escola, e minha sobrinha mais velha fez questão me lembrar disso às cinco da manhã!

— É muito filha do Ian mesmo. – Reclamei quando encerrei a chamada.

— Liv? – Alex perguntou um tanto sonolento.

— Quem mais para ligar quando o dia nem raiou direito? Só mesmo a sua sobrinha! – Respondi e joguei as pernas para fora da cama.

— Já vai se levantar?

— Já. Vou dar uma corrida. Estou precisando disso.

— Nervosa com amanhã à noite?

Mordi o lábio e me decidi pela verdade.

— Sim. Nunca estive em lugares assim... não sei o que esperar... – Respondi sem olhá-lo, pois não queria que ele visse o medo e a ansiedade em meus olhos.

Alex se mexeu na cama e depois me abraçou.

— Eu acho que consigo entender a sua apreensão. Não vou dizer que não fiquei nervoso no meu primeiro tapete vermelho, mas eu já tinha ido com meus pais, sabia o que me esperava lá... você não faz ideia, mas eu serei eternamente grato por tudo o que você está enfrentando para me apoiar, Kat. E te prometo, nada de ruim vai acontecer e, a qualquer momento, se você não se sentir confortável, basta chamar por Russell ou pelos seus amados personal stylists, que eles vão te socorrer. Quer companhia para correr?

— Não vai te atrasar? – Perguntei de volta.

— Acho que não, mas se atrasar, que mal faz?

Ele pulou da cama, em um humor que contrastava com o meu e foi logo buscando por uma roupa.

— Mesmo esquema de sempre? Você arruma o quarto e eu faço o café?

— Pode ser, mas, por favor, faça um chá descente! Afinal, estamos na Inglaterra e eu sou metade inglesa! – Pedi já estendendo a cama.

— Sim, Madame. – Alex tentou imitar o sotaque britânico e falhou miseravelmente e saiu rindo pelo corredor a fora.

— E pode treinar esse sotaque aí... está péssimo! – Reclamei alto.

Após tomar um chá bem meia boca e fazer uma anotação mental de que nunca mais eu deixaria Alex pensar em fazer uma xícara que fosse, saímos para correr. Dessa vez o perdido era ele, que tentava acompanhar minha corrida e, ao mesmo tempo, observar onde estávamos.

— E aqui seria? – Alex quebrou o silêncio de repente

Saint James Park. – Respondi e lancei um olhar rápido em sua direção, vendo o reconhecimento em suas feições. – Sim, estamos perto do Palácio. – Confirmei.

Corremos por quase uma hora em um ritmo forte, como faríamos se estivéssemos em Los Angeles. E voltamos para casa a tempo de me arrumar e ir levar Liv e Lena para a escola.

Alex também se aprontou, a diferença era que ele ficaria em casa esperando até que sua equipe chegasse, e, claro, ele teve que me lembrar de algo:

— Ah! Hillary comentou que vai deixar alguns vestidos aqui em casa para você experimentar.

Parei no meio da escada, um frio se instalando em meu estômago e quase que Alex tromba em mim.

— Achei que você tivesse escolhido o vestido ontem... – Ele continuou depois de nos estabilizar no degrau.

— Tinha separado alguns, mas sabe, não ficaram assim tão bons, não sei explicar direito.

— E assim você deu liberdade para os dois correram atrás de mais vestidos para você?

— Mais ou menos isso... eles meio que se empolgaram um pouquinho.

— Claro, oitenta vestidos é só um pouquinho.

— Por favor, não me lembre disso. – Pedi quase em desespero.

E ele começou a rir.

— Não é para rir, é desesperador! – Levei minhas mãos para o alto, para enfatizar o meu nível de stress com tudo isso e saí quase que marchando até a porta da garagem.

— Tudo bem, não vou mais fazer isso. – Alex me prometeu. – Já vai sair?

— Sim. Tenho que pegar a desesperada da sua sobrinha, antes que ela me ligue dando um ataque histérico.

Alex me acompanhou até a porta, segurando minhas coisas enquanto eu calçava minha bota para encarar ao dia gelado. Assim que acabei de calçá-la, parei na sua frente, dando um sorrisinho.

— E o que você quer agora? – Ele perguntou desconfiado.

— Só um beijo, vou sentir saudades. – Fiz um biquinho e o encarei.

Alex me deu mais do que um beijo e me levou até o carro, sempre me abraçando e esperou que eu colocasse minhas coisas no banco de trás para comentar:

— Está bonita hoje.

E eu senti meu rosto esquentar na hora. Porém, tive o espírito para responder:

— Você também está! Por favor, não seduza nenhuma repórter.

Ele me deu uma risada.

— Impossível, nenhuma delas é você.

Encarei os olhos azuis que sempre me fitavam com adoração e devolvi o sorriso que ele me dava.

— E eu também vou sentir saudades de você, Rainha do Gelo.

— Eu te amo, Surfista! – Murmurei contra a sua boca.

— Também te amo. – Ele me respondeu e abriu a porta do carro para mim, esperando que eu me ajeitasse para fechá-la.

Segui para a casa de meu irmão pensando no que tinha para fazer no dia de hoje, não era lá muita coisa, mas já era uma preparação para o que me aguardava em dezembro.

Ao chegar, a primeira coisa que tive que fazer foi xingar Liv e a sua estranha mania de querer me acordar com o nascer do sol, ou no caso da Inglaterra, com o Big Ben marcando as cinco da manhã.

— Eu já pedi desculpas, täti! – Ela desceu as escadas falando, pois escutou o que eu havia comentado com seus pais.

— Mas às cinco da manhã, Liv? Não tem piedade da sua tia? – Ian questionou a filha mais velha.

— É que eu estava sem sono... e como ontem ela nem fez questão de conversar com a gente, eu tinha que ter a certeza de que ela iria nos levar...

— Isso não é desculpa, Liv. E, no mais, por que não ligou ontem? Sei que você ficou acordada até tarde para ver o The Graham Norton Show.

— Era o programa que o setä estava... eu precisava ver! Para saber o que esperar do filme! Já comprei até o ingresso para o fim de semana de estreia! Vai uma turma ver! Todos se empolgaram com o trailer! Afinal, é do jeito que a gente gosta, tiro, pancadaria, perseguição de carro e muita ação. – Ela se justificou, mas ao final não conseguiu controlar o enorme bocejo que deu, por ter ficado acordada além do horário e ainda ter se levantado muito cedo.

— Agora fica aí com cara de sono... Panda Albino. – Dei um peteleco em seu nariz e ela só fez uma careta.

— Mas eu tinha. E, tenho certeza, a senhora não me atenderia no meio do programa.

— Era só enviar uma mensagem durante os comerciais.

E Olivia parou imediatamente atrás de mim e bateu na própria testa.

— Lembre-se disso na próxima vez, por favor. Já é a segunda vez que você me acorda. Se fosse o contrário, aposto que você nem atenderia ao telefone.

— Não... eu não atenderia. – Ela confirmou.

— Agora vá pegar suas coisas que eu vou procurar por Lena. – Comentei e ela saiu correndo escada acima, murmurando que ainda tinha um monte de coisas para fazer antes de sair.

A caçula estava na cozinha, acabando de tomar café da manhã, falando mil palavras por minuto, já deixando a minha cunhada um tanto desorientada.

— Então, Elena, se apresse porque senão você irá atrasar a sua irmã.

— A täti vai nos levar mesmo? – Escutei-a perguntar.

— A täti já está aqui e só está esperando a Bonequinha acabar de tomar o café! – Falei atrás dela e a abracei, dando um susto na Pequena.

— Oi, täti! – Ela se virou e me abraçou. – Eu já estou terminando aqui, viu?

— Não coma depressa, ou você pode passar mal. – Avisei e fui cumprimentar Tanya.

Esperei que Lena acabasse de comer e fosse escovar os dentes, ela desceu a escada junto com Liv, que agora tinha a mania de querer passar muita de maquiagem para ir à Escola.

— E o que é isso aí? – Tanya perguntou vendo que ela estava de sombra e máscara e tudo o que tinha direito. Para mim, ela tinha exagerado.

— Maquiagem...

— E posso saber o motivo de alguém tão nova estar usando isso?

Ela deu de ombros, o que irritou Tanya.

— Vai tirar. Você não precisa disso. E é nova demais para usar.

— Mas, mãe! Muitas meninas usam!

— Você não é todo mundo! – Tanya falou de uma só vez e Liv olhou para mim, pedindo ajuda.

— Dessa vez sua mãe tem razão, Olivia. Você só tem treze anos. É nova demais para usar tanta coisa, ainda mais todos os dias. Maquiagem demais também estraga a pele. Deixe isso para uma ocasião especial. – Tentei apaziguar as coisas.

— Mas a senhora...

— Eu uso o básico do básico. Porque estou trabalhando e, com trinta anos, já começa a aparecer alguma ruga, algumas manchas, uma olheira que não me larga... você não tem isso. Sua pele é clara, bonita, saudável.

Liv nos olhou de forma atravessada e saiu marchando até o quarto. Voltou, uns quinze minutos depois. de rosto limpo e ainda reclamando que agora ela estava horrorosa.

— Não sei onde. Já parou para ver o tom da sua pele? Como você é harmônica entre tom de pele, cabelo e olhos? – Comentei assim que ela entrou no carro, batendo a porta.

— Não sou não. – Ela bateu o pé e no banco de trás Elena prestava atenção na conversa sem entender os motivos da irmã querer se maquiar.

Abaixei o quebra sol e abri o espelho. Mostrando o rosto de Liv a ela...

E minha sobrinha fez uma careta.

— Se você se acha feia, me acha feia.... – Falei de uma só vez.

— Não acho não! A senhora é linda! Tem a pele perfeita!

— Todos falam que você é minha cópia, Olivia. Se você se acha feia, eu sou feia, mas se você me acha bonita, você também é. Simples assim.

— Mas....

— Eu me cuido, Liv. Passo cremes, séruns e muito protetor solar, como eu sei que você também passa. Alguns tratamentos de beleza só são recomendados para certas idades. E, ainda não são para você. O que você tem que fazer, já faz. E, o mais importante, não se compare com ninguém, você é única e bonita. Cada um é belo do seu jeito.

— Eu queria ter a sua pele e já ter trinta anos.

Tive que segurar a risada.

— Vou te dar um dever de casa... – Cortei seus murmúrios.

— Dever de casa?

— Sim. Você vai assistir a um filme.

E ela me olhou cética.

De repente 30.

— Aquele filme com a Jennifer Garner e o Mark Ruffalo? Eu já vi.

— Veja de novo e depois me fale se realmente quer pular para os trinta.

— Mas veja bem, tia, você tem trinta e olha tudo o que tem!

— E você por acaso parou para pensar em tudo o que eu passei para conseguir o que tenho?

E aqui ela ficou calada.

— Todos tem fases, Olivia. Eu sei que às vezes parece demais, que tudo é novo e que ninguém parece te entender. Mas não é desejando ser mais velha que você vai conseguir tudo o que quer, ou acha que não terá mais problemas. Todos têm problemas. E eles sempre parecem que não têm solução. Que nunca vão acabar.

— Uma das meninas da minha sala falou que eu não tenho problemas porque não tenho espinhas...

— Espinhas são um problema... te garanto. E todo mundo tem, até adultos.

— Eu não tenho! – Lena deu a opinião dela do banco de trás.

— Sorte a sua, Leninha. São horríveis. – Respondi a ela.

— Minha pele será sempre linda assim. A senhora vai ver. – Ela falou passando a mão no rosto como se faz em comerciais de produtos de beleza.

— Com certeza! Pense sempre positivo! – Concordei.

Com pouco deixei a baixinha na escola e voltei a conversar com Liv.

— O que você ainda não entende, e vai levar um tempo para concordar comigo e com seus pais, é que em cada fase da vida, tem-se um problema diferente. Um dia, foram seus dentes que caíram, lembra do primeiro e do escândalo que você deu? E como você ficava apavorada a cada vez que um dente bambeava na sua boca?

— Sim.

— Depois foi o seu pequeno surto de crescimento e suas roupas que não cabiam...

Liv foi concordando comigo.

— Sua pele está mudando agora, Olivia. Assim como o seu corpo. É normal se sentir insegura, mas você não pode se esconder atrás de maquiagens, de roupas folgadas demais, desde que não sejam do seu estilo, é claro. Todas as meninas passam por isso. Vai ter dias em que você vai se achar linda. Outros que você é horrorosa. E acredite em mim, isso acontece até depois de adulta.

— A senhora tem dias assim?

— É claro! Além de não gostar do caimento de uma roupa no meu corpo, tem dias que me acho muito magra, muito gorda,

— A senhora não é gorda! Está muito longe disso.

— Do mesmo jeito que você não é horrorosa! – Citei o que ela havia dito quando entrou no carro. — Mas, a nossa visão de nós mesmas nos engana. Assim como os comentários maldosos de outras pessoas podem fazer com que tenhamos a ideia errada de quem somos e como somos. Acredite em mim, Olivia, nem sempre o que a nossa mente nos diz é verdade. A sua psicóloga deve ter dito algo assim para você.

— Disse. Mas não foi sobre aparência...

— Mas, se você fizer um esforço, pode ser, não pode?

E ela ficou em silêncio, creio que remoendo a conversa. E depois de um tempo...

— É, talvez possa. Mas, tudo isso é para me proibir de andar maquiada?

— Ninguém falou que você está proibida de se maquiar, nós só falamos que escola não é lugar de ir com tanta coisa no rosto. Pense comigo. Hoje pela manhã você estava com uma maquiagem completa, não estava?

— Sim. Desde o prime e contornos até máscara e sombra.

— Olhe para mim. Eu tenho tanta coisa assim?

E ela fez um bico.

— Não. Sua pele parece bem natural.

— É esse o ponto. Você não precisa de uma produção de festa para vir para escola. Na minha opinião, nem precisa de maquiagem, porque aqui não é lugar, mas veja bem, minha opinião. Maquiagem, para mim, é algo que se usa para esconder bolsas, olheiras, dar uma melhorada no visual, quando você não dormiu bem, ou está cansada demais. Porque algumas vezes no trabalho, a primeira impressão é a que fica e você precisa estar bem vestida e bem apessoada para alguma reunião. É algo que você usa quando quer se sentir bonita, para uma festa, um evento. Sair da mesmice, mudar um pouco. Como você bem sabe, se não estou trabalhando, eu não passo nem perto das minhas, porque eu quero uma pele saudável, limpa. Pense comigo, você tem treze anos, se começar a se maquiar agora, com tudo o que tem direito, um dia, quando for a uma festa, estará sempre com a mesma feição, não irá surpreender ninguém. E, o legal da maquiagem é a surpresa que ela proporciona aos outros quando nos produzimos. E tem outro ponto, por mais que limpemos a pele, muita coisa, todos os dias, acaba por sujar os poros e às vezes, não sai com facilidade... imagina todos estes resíduos dia após dia, se acumulando em você... como será que a aparência a sua pele estará quando tiver a minha idade?

Ela iria retrucar, porém eu continuei.

— Eu só quero que pense sobre isso e pesquise. Pense primeiro antes de reivindicar o uso diário de muita maquiagem. Depois nós conversaremos.

E minha sobrinha fez um bico, olhando para o espelho do quebra sol e depois para mim. E ficou assim até que nos despedimos na porta da escola.

Fui para o escritório pensando no que ela falou e no comportamento dela. Claro que uma hora ela iria se interessar por produtos de beleza, que garota nunca se interessou? Porém, eu ainda achava muito cedo para que ela usasse tanta maquiagem no rosto. O que Liv havia feito de manhã não era uma maquiagem bonita, ela simplesmente tinha passado uma quantidade enorme de reboco no rosto e perdido toda a sua identidade atrás de contornos, blush, pó, cílios postiços... E eu esperava que com uma conversa sensata e calma, pudéssemos chegar a um meio termo que fosse bom para todos.

E eu esperava também que meu irmão não desse um surto e saísse jogando nada que Liv havia comprado fora... não era do feitio dele, mas nunca se sabe como homens vão reagir quando são suas filhas usando maquiagem e andando bonitas por aí.

Entrei em minha sala, torcendo para me distrair o suficiente com o trabalho para esquecer os problemas domésticos e também o que aconteceria no dia de amanhã e toda a possível repercussão que traria.

Internamente eu ainda torcia para que Alex dissesse que era para que eu o esperasse dentro do cinema, que ele atravessaria o tapete vermelho sozinho, contudo, algo dentro de mim me falava o contrário. Que ele me queria ao seu lado o tempo inteiro e que também precisava desse apoio.

Respirando fundo, alonguei meu pescoço e me voltei para os relatórios dos demais escritórios pelo mundo, fazendo uma análise do que havia acontecido durante todo o ano e resumindo isso de forma simples e eficiente para distribuir a todos os conselheiros e também para a CEO. Era dado início ao que chamávamos de Pré-Conselho Administrativo.

Trabalhei direto, sem nenhuma interrupção. E só me dei conta de que o dia já passava da metade quando Grissom bateu na porta e me convidou para tomar um chá e discutir alguns pormenores que haviam surgido.

Ao fim do dia, tínhamos a pauta completa para a reunião do conselho e análise de metade dos escritórios pelo mundo. A outra metade, eu esperava, ficaria pronta até no máximo no fim da próxima semana. Com essa reunião encerrada, decidi ir para casa e trabalhar de lá, que seria mais calmo.

Minha volta consistiu em pegar as meninas na escola, sendo que peguei Liv primeiro e ela, agora, tinha um humor um pouco melhor.

— Oi, tia! Boa tarde! – Entrou sorrindo no carro.

— Boa tarde! Como foi a escola?

— Uma enxurrada de trabalhos, ensaios, pesquisas, deveres... acho que vou ficar doida da cabeça até o final de semestre. – Ela falou me mostrando a agenda onde ela havia anotado tudo. E sim, é tudo para este ano ainda.

— Boa sorte! E eu confio em você para dar conta de tudo.

— Acho que vou ter que fazer alguma coisa no final de semana... não tem problema. O importante é conseguir nota agora para poder ficar mais sossegada ao final do ano letivo, né?

— Era o que eu fazia.

— Então estou no caminho certo! E, tia... – Ela começou e parou.

— O que foi? – Lancei uma olhada em sua direção.

— Eu andei pensando no que a senhora falou, sobre maquiagem e escola... e sobre tudo o que eu passei no rosto.

— E?

— A senhora tem razão. Fica estranho vir com tanta coisa para a escola. Estava observando as meninas com e sem maquiagem... e, também, o meu rosto sem tudo aquilo... foi muito mais tranquilo. Meu olho não ardeu ou coçou, e eu não tive que ficar preocupada em não borrar ou transferir a maquiagem para meu uniforme. No fundo, realmente não dá certo. Vou passar somente protetor solar e um gloss para vir.

Mentalmente agradeci por Olivia ter o pé no chão e sempre pensar nos conselhos que damos.

— Mas não vou abandonar a maquiagem, só vou aprender a cuidar de minha pele primeiro e saber em quais lugares eu posso usar. Como a senhora, tudo tem hora e lugar.

— Fico muito feliz em saber que você tomou uma decisão sensata. E seus pais ficarão ainda mais felizes.

— Mas eu me baseei muito na minha mãe, na senhora, e na vovó... reparei, pensando, que vocês usam somente o básico do básico... e só se maquiam de verdade, quando tem um evento grande... na verdade, só me lembro de ver vocês produzidas ao máximo uma vez, no casamento que não deu certo.

— É, realmente, foi a única vez mesmo. – Concordei. – Bem, teve o casamento do Kim também, mas desse você não se lembra.

— Eu tinha sete anos, täti!

— E foi a dama de honra mais dorminhoca da história! – Falei rindo.

— Eu dormi onde? – Ela quis saber.

— Nós juntamos umas seis cadeiras, pegamos os ternos do seu pai, avô e bisavôs e forramos a cadeira, te cobrimos com um casaco e você dormiu como se estivesse na sua cama.

— Não conte que isso vai acontecer no seu casamento. – Ela mandou essa direta, antes que eu descesse para pegar Lena.

— Você me falou que seria a minha fotógrafa, já estou contando com este serviço, não vou procurar por nenhum serviço profissional, hein?

— Então a senhora e o setä... – Ela abriu um sorriso enorme.

— Não, Liv, não vamos nos casar. Ainda não. E nem sei se vamos. – Falei e desci para pegar Elena que já pulava como uma pipoca na porta da escola, pois tinha reconhecido meu carro.

Acabei levando a dupla para minha casa, Ian estava preso na estrada e Tanya em um atendimento de emergência no hospital, como eles não deram certeza de que horas chegariam em casa, elas passariam a noite comigo e, no dia seguinte, eu as levaria para a escola de novo.

Ao entrar em casa, elas correram para trocar de roupa e fazer as tarefas, e eu fui agraciada por mais uma arara com uns oito vestidos. Cortesia da Dupla Dinâmica da Moda.

— O que é isso? – Lena, que já tinha trocado de roupa e estava parada atrás de mim encarando a arara e os sacos brancos, perguntou toda curiosa.

— Vestidos.

— São seus? – Liv gritou do alto da escada e desceu correndo, doida para ver que tipo de vestidos tinha ali.

— Não. Hillary e Vicenzo deixaram aqui.

— E quem são eles? – Lena quis saber.

— Os estilistas de seu tio.

— E o que eles fazem?

— Arrumam as roupas que ele vai usar. – Expliquei por alto.

— E as suas também. Podemos ver os vestidos? – Olivia se empolgou pulando sem sair do lugar.

— Primeiro as tarefas. Depois o jantar. Aí vocês podem opinar sobre o que tem aqui. – Barganhei e as duas foram para meu escritório.

Rodei pela casa, ajeitando algumas coisas, adiantando o jantar e, sendo ainda um pouco cedo, acabei fazendo o mesmo que minhas sobrinhas, troquei de roupa por algo bem confortável e fui trabalhar. Nós três ficamos quietas e concentradas, cada uma em sua tarefa, mesmo que ao fundo estivesse tocando música, claro que não tão alto.

Quando deu um horário aceitável, corrigi as tarefas de Elena, expliquei o que ela tinha dúvida, perguntei a Liv se precisava de ajuda em algo, ela disse que não, mas me pediu para ler um de seus ensaios, para corrigir a gramática e a ortografia. Quando terminei, parti para fazer o jantar.

— Liv, me faz um favor e manda uma mensagem para o seu tio e pergunta se ele vem jantar em casa. Meu celular ficou no escritório e você sabe a senha.

Liv voltou pouco depois, comentando:

— Nem vai precisar, täti. Ele já falou que chega tarde e que não precisa esperá-lo.

— Então somos só nós três. Leninha, você ajuda a Liv com a mesa, por favor?

As meninas ficaram indo e vindo da sala até a cozinha e com os pratos prontos, comemos, tentando adivinhar o que tinha dentro dos sacos brancos que estavam dependurados nas araras. Fazendo apostas com a cor, se tinha brilho ou não, se era com margas longas, alças ou sem mangas.

Arrumamos a cozinha e fiz as meninas irem para o banho antes que eu começasse a brincar de desfile de moda.

E, uma hora depois, as duas estavam sentadas em minha cama, esperando que eu acabasse de vestir o primeiro de oito vestidos.

Desfilei para lá e para cá com cada um deles. Com direito aos sapatos também, e com o cabelo preso em um coque, exigência de Lena, que disse que era para que ela visse melhor o vestido, e elas deram suas opiniões, e ainda explicaram os motivos de um vestido era bom ou não.

Já era quase onze da noite, quando entramos em um consenso, isso depois que tive que repetir o desfile de três, só para que elas pudessem rever as escolhas. Separei dois vestidos “vencedores”, um que eu usaria aqui em Londres e outro, para o caso de ter que ir à première de Los Angeles também, o que eu torcia para que não fosse necessário.

Coloquei Elena na cama, pois ela capotou onde estava mesmo e depois acompanhei Liv também, estava conversando com ela, ainda com a porta do quarto aberta, quando escutamos Alex chegar.

Ele subiu a escada correndo e colocou a cabeça para dentro do quarto.

— E não é que temos visita! – Ele brincou com Liv.

— Boa noite, setä! E essa sua visita aqui já está quase dormindo!

— Estou vendo. E eu só acho que já passou da sua hora de dormir, não? Por que a sua tia te deixou acordada até agora?

— Acredita que ela me obrigou a ajudá-la a escolher o vestido para amanhã à noite? Escravizou eu e a Leninha! – Liv falou entrando na brincadeira.

Alex olhou para mim com cara feia e só falou:

— Da próxima vez, me liga que eu volto logo para casa para salvar vocês dessa tia maluca que te deram. – Brincou e depois deu um beijo na testa de Liv. – Boa noite, Liv!

— Boa noite, setä! Acho que amanhã poderemos conversar mais. – Nossa sobrinha falou escondendo um bocejo.

Dei um beijo de boa noite nela também e sai do quarto apagando a luz.

— Quer comer algo? – Perguntei para Alex que estava me esperando.

— Não. Estou com mais sono do que fome. – Ele me respondeu e fomos para quarto, não sem antes de ele passar no quarto de Lena e dar boa noite para ela. – Pelo que vejo já está pronta para dormir... – Ele comentou ao me ver de pijama.

— Já, te espero acordada.

— A última vez que você falou isso, apagou.

— Hoje é verdade.

E como prometido, esperei acordada por ele, que ainda vez um pouco de hora e tentou saber quais vestidos eu tinha escolhido.

— Isso, só amanhã à noite. – Falei quando ele se jogou do meu lado. – E como foi o seu dia? Espero que não tenha seduzido nenhuma jornalista! – Brinquei.

— Kat... eu tinha me esquecido como essas entrevistas são chatas e cansativas. Respondi a mesma pergunta umas quarenta vezes só hoje.

— Amanhã vai ser mais tranquilo?

— Durante o dia? Sim. À noite...

Tentei não me preocupar com isso. Estava vivendo uma hora de cada vez.

Para não surtar de ansiedade e cismar de sair correndo até a Finlândia

[1] Boa sorte, Pequena.

Notas finais
Bem, é isso. Espero que tenham gostado dos momentos de sobrinhas e tia! Muito obrigada a você que está lendo e acompanhando. Até o próximo capítulo. xoxo