Presos Por Um Olhar
148 A Festa
Notas iniciais
“I'm not afraid to say it, to say I do
Oh, I hope you know I will carry you home
Whether it's tonight or 55 years down the road
Oh, I know there's so many ways that this could go
Don't want you to wonder, darling, I need you to know
In this and every life
I choose us every time”
Carry you home – Alex Warren
Katerina
Logo após Alex ter citado a música de Foo Fighters, nossa atenção foi tomada pelo padre que deu início à cerimônia, assim, um tanto a contragosto, tive que voltar-me para o altar e tentar não me distrair com meu noivo.
Em uma pausa do padre, acabei por sussurrar no ouvido de Alex:
- A propósito, eu amei a surpresa do gazebo. Mais perfeito, impossível.
Ele só meneou a cabeça e vi que as pontas de suas orelhas ficaram um tanto rosadas.
Apesar de nos terem dado a opção de escolher as leituras da cerimônia, não o fizemos, até porque não éramos estudiosos das Sagradas Escrituras e, para evitar um fiasco total das leituras e do casamento em si, deixamos isso com o padre.
E, assim, depois de muito custo da minha parte, comecei a prestar atenção no que era lido e explicado pelo pároco. E ele não poderia ter escolhido um evangelho mais perfeito, nem o salmo que foi cantado.
E, após a prática, a música mudou, sendo a hora em que a nossa daminha entraria com as nossas alianças.
Eu ainda não vira nossa Dama de Honra, assim tudo era novidade para mim, e, quando me virei, vi que Elena estava paradinha no início do tapete, se balançando nos próprios pés, e parecia recitar algo.
Quando ela ouviu os acordes de “Here comes the sun” aprumou a postura, como se estivesse entrando na arena para uma competição de hipismo e logo começou a vir na direção do altar. E Lena, que não era mais tão baixinha assim, com seus oito anos completos, ora sorria para nós que nos viramos para vê-la, ora acenava para algum convidado a quem ela tinha um pouco mais de afinidade e, no tempo perfeito, parou aos pés do gazebo e nos olhou em dúvida.
- O que foi, Lena? – Alex perguntou a ver a carinha dela.
- Ixi, setä, a äiti disse para quem eu tinha que entregar as alianças, só que eu me esqueci! Para quem é?
Tive que conter a risada, pois ela estava realmente desconcertada com seu esquecimento e como a noiva não pega as alianças, Alex prontamente se dispôs.
- Pode ser para mim, Elena.
- Ah tá! – Ela respondeu aliviada e logo entregou a almofada onde estavam as alianças e logo eu vi que não eram somente as duas que escolhemos que estavam cuidadosamente colocadas no meio do veludo branco da almofada.
Levantei uma sobrancelha para Alex, como que perguntando que aliança era aquela, ele, muito discretamente, deu de ombros e logo se virou para entregá-las ao padre para que fossem abençoadas.
E, antes que elas fossem colocadas sobre a mesa do altar, o padre fez a pergunta definitiva:
- Quem está aqui para entregar essa mulher?
Meu pai deu um passo à frente e se apresentou.
Nessa hora minha garganta se fechou, o nervosismo tomou conta de meu corpo, pois a seguir viriam os votos e eu estava mais do propensa em não errar uma só palavra, mesmo que fossemos proclamar os votos tradicionais, pois teve alguém, durante os preparativos que disse que dava azar trocar os votos...
Virei-me para ficar de frente para Alex, ele logo pegou as minhas mãos trêmulas e senti que ele também estava igualmente nervoso, quando o padre perguntou:
- Você, Alexander Thomas Pierce, aceita Katerina Elizabeth Nieminen como sua legitima esposa, prometendo amá-la, respeitá-la e cuidá-la?
Alex nem titubeou ao responder um claro e alto:
- Sim.
- Você, Katerina Elizabeth Nieminen, aceita Alexander Thomas Pierce, como seu legítimo esposo, prometendo amá-lo, respeitá-lo e cuidá-lo?
- Sim. – Respondi de forma firme.
Nossas alianças foram enfim abençoadas e devolvidas a nós, sendo colocadas no altar para que pudéssemos proclamar os votos:
- Eu, Alexander Thomas Pierce, te recebo, Katerina Elizabeth Nieminen, como minha legítima esposa, — Ele começou a deslizar uma das alianças em meu dedo, aquela que eu não sabia que existia, que era cravejada de diamantes, e continuou olhando em meus olhos, enquanto proferia o restante dos votos. Prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias da nossa vida e por toda a eternidade. – Ele terminou com a voz embargada, tentando conter o choro, já eu, chorava sem vergonha nenhuma.
E sim, mesmo com toda a falação de que trocar os votos poderia trazer azar ao casamento, nós trocamos o último verso, afinal, nem mesmo a morte foi capaz de nos separar. Pois, mesmo depois de tantos passados, que nos separou de forma abrupta e inesperada, nós nos encontramos novamente.
Alex colocou a aliança de ouro maciço em meu dedo anelar, e, para finalizar a sua promessa, deu um beijo em cima delas.
Ao fundo, escutei alguém fungando, mas não distingui quem poderia ser, pois estava um tanto perdida no olhar de meu noivo.
O padre me estendeu a aliança que pertenceria a Alex e com dedos trêmulos a peguei e fiz os meus votos:
- Eu, Katerina Elizabeth Nieminen, te recebo, Alexander Thomas Pierce, como meu legítimo esposo. – Coloquei a aliança em seu dedo. — Prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias da nossa vida e por toda a eternidade. – Terminei segurando o choro, enquanto olhava para o rosto sorridente de Alex. Depois peguei sua mão e repeti o gesto de beijá-la.
Viramos de volta ao padre que perguntou para os convidados:
- Há alguém neste lugar que é contra este matrimônio?
Não se ouviu nem mesmo o farfalhar das folhas.
- O que Deus uniu o homem não separa. Eu os proclamo, marido e mulher! Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Se há apenas alguns segundos não se ouviu um murmúrio entre os convidados, bastou que fossemos proclamados casados que assobios e gritos ecoaram por todo o Rancho, demonstrando a alegria que sentimos e que nossos familiares e amigos compartilhavam conosco.
E no meio dessa pequena algazarra, o padre teve que falar um pouco mais alto:
- Pode beijar a noiva!
Alex não esperou uma batida de coração, me puxou pela cintura e me deu aquele beijo de cinema que me deixou sem ar.
Ao fundo as palmas, gritos de alegria e assobios ficaram mais altos.
Quando precisamos de ar, encerramos o beijo, Alex nos colocou de pé novamente e escorou sua testa na minha.
Pousei minha mão em sua bochecha e perguntei:
- Pronto para começar o restante de sua vida?
- Ao seu lado? Desde o dia em que você cruzou meu caminho em Venice Beach! – Respondeu e me levantou do chão, rodando-me no ar me colocando no chão de frente para todos os presentes, que batiam palmas com imensos sorrisos no rosto.
O cortejo de saída se formou e cada um de nossos padrinhos e madrinhas que passaram por nós nos felicitaram.
A festa seria em uma enorme tenda montada também no Rancho, do outro lado da casa, em um local mais plano que facilitaria a locomoção das pessoas e, também nos daria a chance de utilizar uma das portas laterais da casa para que pudéssemos fazer a nossa entrada.
E, enquanto todos se dirigiam para lá, Alex e eu voltamos para a casa de mãos dadas, perdidos na nossa pequena bolha de felicidade.
Claro que não fomos deixados às sós, até porque seria impossível, mas foi bom poder respirar um pouco, nos recompor dos efeitos dos votos antes que começasse a nova rodada de emoções que a festa nos traria.
- Eu acho que não tive a chance de te dizer o quanto você está linda. – Alex falou assim que entramos no meu escritório, que fora preparado para ser a base da noiva e do noivo durante a festa, me pegando pela cintura e me rodando como se estivéssemos valsando.
- Não, você não teve. – Respondi rindo. Aliás, creio que seria impossível que eu não sorrisse quando ele, ou qualquer outra pessoa, se dirigisse a mim nesta noite.
- Então deixe-me repetir, você está maravilhosa, Kat. – Roubou-me um beijo enquanto ainda me girava.
- Você também está lindo. – Murmurei quando colamos nossas testas e continuávamos a balançar.
- Será que podemos fugir agora para nossa lua de mel? – Alex perguntou depois de um tempo em que ficamos em silêncio.
- Nem pensar! Não passei os últimos seis meses planejando essa festa para não curti-la! – Reclamei.
- Seu desejo então é uma ordem, Senhora Pierce. – Ele respondeu todo sorridente e orgulhoso.
- Muito obrigada, Senhor Pierce. – Falei e apoiei minha cabeça em seu ombro, ficando ali, nos braços do meu porto seguro, do meu marido.
Pena que o momento não durou muito, pois logo Lauren veio nos chamar.
- Não é o momento ainda para entrarem na festa, mas gostaria de fazer algumas fotos no gazebo onde foi a cerimônia, sei que não planejamos isso, porém...
- Ficou tão bonito que devemos a aproveitá-lo. – Completei a frase.
- Sim.
Devagar Alex me guiou para o local onde havíamos sido declarados marido e mulher e eu vi a oportunidade perfeita para complementar o elogio que havia feito durante a cerimônia.
- Eu até desconfiava que você estava planejando algo, mas jamais pensei que fosse isso. – Comentei ao ver a gazebo de longe.
- Fico feliz que tenha gostado.
- Sabe que ele me lembrou um pórtico que temos no haras de meus avós na Inglaterra?
- O que passamos quando chegamos?
- Exato. Foi inspiração? – Perguntei curiosa, enquanto parava de frente para o arco de flores.
- Foi.
- E?
- E o que?
- Mais o que te inspirou? Porque o pórtico está claro, mas ele não é o único... – Instei Alex a falar.
Ele meio que mordeu a língua, mas depois que eu insisti no assunto, ele finalmente se abriu.
- Você foi a inspiração. – Ele retomou a fala. — Começou com o pórtico e quando vi, quando terminei o desenho, eu te vi ali. Então mostrei para Lauren e ela me falou das flores que você havia escolhido para a cerimônia e como poderíamos usar o gazebo para ser o nosso altar.
- Não era a sua intenção usar o gazebo?
- Não. Eu iria colocá-lo no mirante que você tanto gosta e depois fazer um balanço...
- Ficaria bom também. Agora...
Alex só levantou uma sobrancelha para mim.
- Posso ver o desenho? Sei que você desenhou os móveis dos meus escritórios, sei que ajudou a fazê-los também, mas você nunca me mostrou os croquis... posso ter esse?
- Você quer o desenho?
- Sim. Vou enquadrá-lo e colocar no meu escritório. Para me lembrar do presente que você me deu.
Alex ia me responder algo, porém Lauren nos chamou e começamos uma sessão de fotos.
Tudo ia bem, até que vi a necessidade de ter as nossas famílias ali também, demorou um pouco, mas quando vi, todos se organizavam para tiramos a foto perfeita, com a luz perfeita, no local perfeito.
E, após essa primeira sessão de fotos, foi-nos liberado curtir a festa.
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Alexander
Após a sessão de fotos improvisada debaixo do gazebo era hora da festa.
Não que eu não gostasse, ou estivesse animado para essa parte do casamento, era só que eu queria a minha esposa só para mim, mas Kat parecia um imã para todas as pessoas que convidamos, como se a felicidade que ela irradiava fosse o sol e todos os demais quisessem um pouco dessa alegria para si.
Entramos na tenda ao som de uma música que eu escolhi, Kat havia me dito que tinha mil e uma opções e não conseguia se decidir, assim, depois de ver a lista, ou melhor, escutar a (extensa) playlist que minha esposa tinha feito para músicas que tocariam na nossa festa, escolhi uma.
- Queen? – Ela me perguntou quando ouviu os primeiros acordes de I was born to love you.
- Você me deu carta branca.
Ela abriu um enorme sorriso.
- E você não poderia estar mais certo do que isso. Porque eu também nasci para te amar.
Atravessamos o salão, parando no meio da pista de dança, onde fomos apresentados como Senhor e Senhora Pierce e daí para frente, era só aproveitar a festa e as pequenas tradições que todos já conhecem, como jogar o buquê, cortar o bolo, tirar a cinta-liga, a primeira valsa...
Eu sabia que teria tudo isso.
Só não contava com uma tradição que eu não conhecia, que vinha da Finlândia.
O sequestro da noiva.
Estava tudo indo muito bem, tínhamos acabado de ouvir os discursos de nossos parentes e amigos, fizemos o brinde, quando a luz, sem aviso nenhum foi praticamente desligada, ficando só alguns pontos para não ser declarado escuro demais, e imediatamente busquei pela mão da Kat, para protegê-la desse apagão inesperado, eis que ela não estava mais ali.
- Kat? Katerina? – Procurei por ela e assim que me levantei, as luzes voltaram, e Pietra assumiu o microfone anunciando o seguinte:
- Conforme as tradições finlandesas, a noiva acabou de ser sequestrada, e só será devolvida, sã e salva, se o noivo passar por três provas, que demonstrarão se ele é ou não digno de tê-la ao seu lado. Caso ele não consiga completar as provas, a noiva será devolvida à sua família.
Eu jurei que Pietra estava inventando isso, até que vi meus cunhados, meu irmão e também Benny e Matt entrando na tenda com uma maleta nas mãos.
- Onde Kat está? – Perguntei.
- Calma aí, Tatuado. A noiva está segura e em um lugar onde você não vai conseguir chegar agora. – Pietra me disse. – A menos que...
- A menos que? – Perguntei.
Foi aí que notei que Pepper e Vic sorriam para mim, todos estavam apar do que iria acontecer e esconderam de mim por todo esse tempo.
- Sabe o que tem aqui? – Kim questionou quando colocou uma maleta preta na mesa na minha frente. Em cima ele colocou uma foto de Kat, vendada e sentada em uma cadeira em algum lugar.
Balancei negativamente a cabeça.
- Aqui dentro está o seu maior pesadelo. Minha irmã pode até ter dito sim no altar, mas isso aqui que vai selar a união. – Ele falou sério.
No fundo de minha mente comecei a pensar que Kat deveria ter me avisado sobre isso...
- Nesta maleta. – Ian continuou a fala do irmão. – Tem as provas que você deve fazer para provar que merece nossa irmã.
- E não ache que é coisa fácil, claro que não será. – Will completou.
Eu não fazia ideia do que me aguardava quando a maleta foi aberta, pensei sobre qualquer coisa impossível, mas não era pelo que passei.
De lá tiraram uma folha de papel, nela eu logo vi, tinha a monograma com as iniciais de nossos nomes, e um monte de palavras. A folha foi passada para Pietra que, agindo como mestre de cerimônias, começou a falar:
- Katerina Elizabeth Nieminen, que pode ou não ser Pierce, foi sequestrada! Para trazê-la de volta para a festa e para o lugar de honra – Ela apontou para a cadeira vazia a meu lado. – seu marido, deverá cumprir três tarefas. Se bem executadas, nós diremos onde ela está, se não... sinto muito, Alexander, ela será levada de volta para onde pertence e não é a Califórnia.
Dei uma olhada para os convidados, alguns estavam assombrados com o sumiço da noiva, outros estavam se divertindo com essa tradição que nunca tinham ouvido falar.
- A primeira prova é bem simples, somente para esquentar. Ouvimos dizer que você participou de uma franquia famosa de filmes, que foi o dublê de um ator famoso e, principalmente, fez uma cena que até hoje é falada entre os fãs. Assim, Capitão América, sinta-se à vontade para retomar o papel e mostrar para todos os presentes, como que você se livra disso.
Quando notei, estava sendo agarrado pelos ombros, puxado da minha cadeira e arrastado para o centro da pista de dança, não tive muito tempo de reação, só notei a desproporção entre o número de rivais que teria que “abater”.
- Não temos como remontar a cena em um elevador, mas, pode demonstrar na pista de dança mesmo. Você tem 90 segundos para abater todos os inimigos e buscar pela próxima prova, que está nas mãos da única pessoa que teve paciência para conversar com você antes da cerimônia. Para cronometrar essa prova, temos ninguém mais, ninguém menos do que, seu sogro. Senhor N, pode disparar o cronômetro.
Eu tinha que me livrar de toda a turma do surfe, mais meu irmão, meus cunhados e Brian, o primo de Kat, que era da Marinha Real em menos de 90 segundos...
Por falta de escolha, decidi tentar me livrar de Will primeiro, até porque era quem eu conhecia há mais tempo, não deu muito certo, e no meio da confusão, consegui libertar minhas pernas, assim, usei a tática de me jogar no chão, quase deu certo, só me esqueci de um detalhe, Kim é jogador de hockey e meio que está acostumado a apanhar, Will não me largaria nem tão cedo, Ian era quase tão forte quanto eu e Brian, bem, era meio jogo sujo ele usar o treinamento militar pra cima de mim.
Com muito custo tentei me arrastar para longe deles, o cronômetro não parava, e acabei por escutar:
- A täti vai matar vocês por estarem sujando a roupa do setä. – Liv falou bem alto.
- É você quem está com a próxima dica, não é Liv? – Perguntei um tanto engasgado, já que Will tentou me dar uma chave de braço depois que derrubei Ian, que ao desequilibrar, levou Brian.
Ela só balançou um pedaço de papel.
- Leia para mim! – Pedi.
- Então, setä, não posso, a menos que você derrube o tio Will... o tio Kim é fácil, tenho certeza que a täti já te falou como derrubá-lo.
- Olivia! – Kim xingou a sobrinha.
- Qual é, setä! Toda finlandesa sabe como derrubar um jogador de hockey... é tão fácil...
E foi quando eu me lembrei do jogo de hockey que jogamos no primeiro Natal e família, Kat realmente derrubara Kim, e olha que ele era quase uns vinte centímetros maior do que ela... minha esposa simplesmente parou na frente dele e, usando o corpo de aríete, jogou ele no gelo.
Não dava para fazer isso com Kim, mas Will era a vítima perfeita. Quando o levantei, sem quase esforço nenhum, decidi acabar com a brincadeira, jogando-o na direção de Kim. Os dois se desequilibraram e logo eu saí correndo para a perto de Liv. Foi a conta de pegar o papel em sua mão e meu sogro dizer que o tempo havia acabado.
- Onnea setä[1]! – Liv falou e saiu correndo dando risada.
Eu achava que nada poderia ser pior do que enfrentar a gangue que eu tinha enfrentado, mas isso?! Justo isso?
A próxima tarefa era até mais perigosa do que a primeira. Porque envolvia justamente o cavalo mais arisco de Kat, aquele que nunca foi com a minha cara.
Eu teria que ir até a baia de Filho do Perigo, montá-lo e sair declamando um poema, na verdade, era uma passagem de um dos livros favoritos de Kat. Henrique V de Shakespeare.
Isso, claro, se eu conseguisse montar em Perigo.
- Eu tenho tempo para isso também? – Perguntei em direção à Pietra.
- Cronometrado, não. Mas seria de bom tom não demorar a eternidade, sabe como é, tem uma festa rolando... e uma noiva desaparecida.
Fui em direção aos estábulos, pensando em como iria conseguir montar em Perigo, pois a única certeza que tinha era que esse cavalo não gostava de mim.
Não precisei nem entrar no estábulo, pois o cavalo estava do lado de fora, amarrado perto de onde tínhamos um bebedouro.
Com muito cuidado cheguei perto de Filho do Perigo, a única reação que ele teve foi mexer as orelhas.
Olhei para os lados, só para me certificar que não tinha ninguém por perto, e conversei com o cavalo.
- Então, amigão, preciso de um favor seu. Estou precisando recuperar a Kat de sei lá onde ela está, para isso preciso montar em você e incorporar o personagem Henrique V. Vai ser rápido, então só te peço que não me jogue no chão, tudo bem?
O cavalo não se mexeu, vi como um bom sinal, então peguei a rédea e soltei de onde estava amarrado, me preparando para o tombo.
Estranhamente Perigo me deixou montá-lo, mas conhecendo os animais de Kat, sei que nem todos são tão bonzinhos quanto Thor, então esperei um pouco, sem dar comando algum. Perigo não fez nada.
Quando me ajeitei na sela, notei o livro. Peguei e abri na página marcada. Era justamente a passagem que Kat vivia falando ou melhor declamando de cabeça.
A da Batalha de Azincourt.
E, ainda tinha um bilhete.
“O noivo deverá declamar todo o discurso enquanto cavalga em direção à trilha de motocross, com direito a sotaque inglês e muito convencimento. Ao final da trilha, haverá a instrução quanto à terceira e última prova.”
- Sotaque inglês. – Suspirei. Eu teria que dar o meu melhor diante da parte inglesa da família de minha esposa, incluindo sua avó que foi professora de literatura inglesa e inglês na Universidade de Cambridge.
- “À brecha novamente, meus amigos, ou de ingleses os fossos entupamos. Quando há paz, nada assenta mais aos homens do que humildade e a singular modéstia. Porém quando as rajadas dos combates vos soa nos ouvidos, é de urgência procurar imitar em tudo o tigre: os nervos enrijai, chamai o sangue; desfigurai a bela natureza com os traços de uma cólera violenta; aos olhos emprestai aspecto horrível, permitindo que espreitem de suas órbitas como canhões de bronze. Os supercílios devem cobri-los tão terrivelmente como o faz o penedo solapado que sobre a base enfraquecida impende pelo oceano selvagem circundada. Rangei os dentes, dilatai as ventas, sustai o fôlego e tendei o espírito quanto vos possível. Para a frente, nobres ingleses, cujo sangue é oriundo de pais postos à prova nos combates, pais que, como outros tantos Alexandres, de sol a sol nestas regiões lutaram, só embainhando as espadas por carência completo de pretexto para usá-las. Não desonreis as vossas mães; agora vos cumpre demonstrar que dais o nome de pais aos que, de fato, vos geraram. Servi de exemplo aos que têm sangue baixo, ensinando-lhes a arte dos combates. E vós, bons camponeses da Inglaterra, chegou o momento de nos dardes prova da pujança do solo em que crescestes. Vamos jurar que sois merecedores de vossa origem, do que eu não duvido, que até nos olhos do mais baixo e simples percebo um nobre ardor. Vejo que todos sois como fortes galgos atrelados, prontos para saltar. Aí vem a caça. Segui vossa coragem neste ataque gritando: Deus combata por Henrique! Inglaterra e São Jorge!”
Quando acabei de declamar a cena, eis que escuto gargalhadas.
- São Jorge! É o pior sotaque britânico da história! – Vic comentou.
- Pelo menos ele conseguiu ficar em cima de Perigo, agora como? – Mel falou.
Quando desmontei, realmente notei que Perigo estava bem mais calmo que o normal e, assim que procurei com os olhos o que teria acontecido com o cavalo, vejo o avô de Kat, George, me fazendo um sinal para ficar quieto, e seguir atrás da última pista.
Andei alguns metros dentro da trilha e avistei um pedaço de renda. Parecia muito com véu que Kat estava usando, e pregado nele com um alfinete estava escrito.
“Nem só de nobres ingleses e discursos épicos vivem os clássicos. Romance também embala os leitores, e para que este não tenha o mesmo final do mais famoso dos casais, Romeu, vá atrás de sua Julieta que te espera na sacada.”
Não havia sacada aqui no Rancho, a casa era térrea exatamente para facilitar a locomoção. Assim fiquei um tanto perdido na dica que tinham me dado.
Era claramente sobre Romeu e Julieta, mas não tinha como se encenar a tão famosa peça aqui, ou qualquer uma de suas cenas.
Novamente tive uma ajuda, quando achei que estava sozinho, pois, ainda parada perto das árvores, parecendo mais uma fada saída de “Um sonho de uma noite de Verão”, com seu vestido branco e violeta e as flores no cabelo, estava Elena.
- Não era para falar isso, mas como essas dicas estão difíceis, setä, só quero te dizer que você tem que ir atrás do seu violão. – Disse e saiu correndo, pois a avó a chamava.
Meu violão!? A coisa toda ficava mais estranha a cada segundo.
Segui para dentro da casa, passando pelo escritório de Kat e lá, encostado na parede oposta, estava meu violão e nele tinha outro bilhete, este em uma caligrafia que eu reconheceria de longe.
“Eu juro que não tenho nada a ver com isso, mas espero que você goste de Taylor Swift”. – Era o que estava escrito.
— Seu tempo está correndo, Tatuado! Vamos levar a noiva embora para a Europa! – Pietra gritou novamente.
Agarrei o braço do violão e voltei para o local da festa, ainda sem entender a ligação entre Romeu e Julieta e Taylor Swift.
Assim que entrei na tenda todos me olhavam em expectativa, como se eu fosse sair cantando a primeira música que eu conhecesse. O problema, eu não sabia que música eu tinha que cantar.
- E então, Alexander, já sabe o que tem que fazer? – Pietra perguntou.
Eu poderia dizer que sim, mas e depois? Ia fazer o que?
- Não. – Respondi simplesmente.
- Não?! – A italiana louca me perguntou.
Tornei a balançar negativamente a cabeça.
- Taylor Swift! Love Story! – Liv murmurou e logo depois escutei minha sobrinha reclamando de algo. Ao que tudo indica, alguém não gostou de ele estar me ajudando.
Continuei sem entender a dica sussurrada. Confesso que nunca fui fã da cantora e não sabia música nenhuma.
Não muito longe de mim, escutei alguém reclamando:
- Como não! Todo mundo conhece Love Story!
Eu conhecia essa voz, e mentalmente fiz um lembrete para agradecer à Amanda quando eu a encontrasse depois dessa festa.
- Mas quem assumiu o lugar de Fofoquita da festa? – Pietra perguntou quase irada, pelo visto ela não tinha escutado Liv me ajudando antes.
Ninguém abriu a boca, mas escutei outra pessoa sibilando na direção de Amanda.
- Fica quieta ou eu vou te fazer carregar todos os relatórios de salto alto assim que voltarmos ao trabalho! – Milena reclamou.
Bem, eu tinha a solução do mistério, eu tinha que cantar e tocar Love Story...
Mas, como tocava essa música e qual era a letra?
- Agora que te ajudaram, você tem três minutos para começar, Tatuado.
Empunhei o violão, fingindo que iria cantar, e pensando o que aconteceria se eu não cantasse, se eu não fizesse nada. Como essa brincadeira acabaria?
Assim que fingi que iria afinar o vilão para começar a cantar, escutei o som de outro violão sendo tocado.
- Isso pode produção? – Mel perguntou alto quando todos se viraram para a entrada da tenda para ver, e escutar, quem cantava do lado de fora.
E, cantando e tocando, Kat reapareceu na festa, o violão preto brilhante destoando o vestido de noiva.
Assim que me viu, enquanto entoava o refrão, me deu uma piscadinha, como se aquilo tivesse sido ideia dela, até que, com um movimento de cabeça, ela indicou para alguém me entregar algo.
Era a partitura da música, e pelo visto eu só tinha uma missão, cantar a ponte.
Ela começou a última estrofe da música, parando do meu lado, me fazendo acompanhá-la no instrumento, já que não era tão difícil assim:
“Romeo, save me, I've been feeling so alone
I keep waiting for you, but you never come
Is this in my head? I don't know what to think
He knelt to the ground and pulled out a ring”
E, quando foi a minha parte, ela me deu uma cotovelada, e tive que cantar
“And said, "Marry me, Juliet
You'll never have to be alone
I love you and that's all I really know
I talked to your dad, go pick out a white dress
It's a love story, baby, just say, "Yes"”
Assim que acabamos, Pietra, Pepper e Vic vieram correndo dizendo que não valia, que a noiva não poderia ajudar o noivo.
- Não é essa a tradição! – Falou Vic um tanto injuriada.
- Não, não é, — Kat falou e começou a rir. — Mas eu fiquei cansada de ficar presa dentro de um quarto enquanto vocês riam da cara do meu marido, e, se me lembro muito bem, eu acho que dei uma boa ajuda para o Kim, quando foi a vez dele de passar por isso. Assim, como é a minha festa, o meu casamento, eu faço as regras. Apesar do noivo ter sido um pouco lento para pegar as referências, hein, Capitão América? – Olhou para mim com cara feia, mas que logo se transformou em um sorriso.
- Eu só fiz o que me mandaram! – Tentei sair pela tangente.
- Se tivesse feito, não tinha ficado perdido. Eu te falei o que era para fazer! – Kat falou.
Eu tinha certeza de que não e ela leu isso na minha expressão.
- Você por acaso leu a parte de trás do bilhete que estava no violão?
E foi aí que eu tirei o bilhete do bolso e notei que logo embaixo da dica tinha, com uma letra pequenina, a seguinte palavra: vire.
Virei o bilhete para ver exatamente o que eu tinha que fazer. Kat realmente tinha me falado que eu deveria tocar a ponte de Love Story e, tinha ido além, e me falado que Liv iria me entregar a partitura.
Como todos me olhavam, tive que dar uma resposta, mas tudo o que eu vi foi minha esposa rindo da minha expressão.
- Posso só fazer uma pergunta? – Ela veio para perto de mim e tirou o violão das minhas mãos.
- Outra?
- Sim. Se você não tinha ideia do que fazer, o que planejou de última hora?
- Eu não fazia ideia do que iria fazer.
- Foi o que eu pensei. – Ela disse certeira. – E só um aviso: quem foi que te deixou todo desgrenhado? Filho do Perigo?
Um silêncio caiu sobre a tenda.
- Ah! Por que, Kim? – Ela foi logo reclamando com o irmão gêmeo.
- Não foi só o tio Kim, täti... – Elena disse.
- Como assim? O combinado era que fosse só o Kim! – Ela olhou para Pietra.
- Qual é, Bionda! Foi divertido ver o desespero dele tentando se livrar do Kim, do Ian, do Will, do Brian, do Matt, do Benny...
- Quantos foram!? – Kat olhou em volta.
- Bem... – Começou Vic.
- Você sabe.... – Mel completou.
- Não, não sei! – Kat falou e tentava colocar meu colarinho no lugar.
- Toda a turma, mais Will, Kim, Brian e Ian.
Kat abriu a boca para falar algo, depois fechou para então soltar a seguinte pérola:
- Nem com toda essa ajuda você conseguiu vencer do Alex, hein, Kim? Tá ficando velho mesmo. E só pelo Alex ter sobrevivo a isso e a Filho do Perigo, eu já deveria ter voltado para a festa há tempos. – Falou e me puxou pela minha mão até a nossa mesa, não sem me dar um beijo na bochecha. – Mas me conta, como Perigo foi com você? Porque não é novidade para ninguém que ele te detesta.
- Foi tranquilo. – Comentei. – Uma hora ele tinha que se acostumar comigo, não?
Kat não comprou a minha história, só riu, como se soubesse que alguém tinha me ajudado.
- Sei. – Foi tudo o que ela falou e depois procurou pelo avô entre os convidados, para então, murmurar no meu ouvido: — Creio que, mesmo depois de ter apanhado de graça e se motivo, teve muita gente que te ajudou nessas provas, não?
- Talvez.
Ela riu mais ainda e depois limpou uma mancha no meu rosto.
- Lembre-me de pisar com força no pé do Kim quando ele me tirar para dançar, por favor. – Pediu assim que conseguiu por um pouco de ordem no meu cabelo.
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Katerina
Apesar de saber que Kim não cumpriria com a palavra dele de não bater em Alex, eu não imaginava que todos os rapazes iriam tentar impedir meu marido de cumprir as provas que tinham inventado.
Sim, eu sabia de todas elas, afinal, quando, sem querer, Pepper deu com a língua nos dentes, eu só exigi que soubesse de antemão pelo que Alex passaria, mas não imaginei que eles iriam além do que eu sabia.
Mesmo assim, eu deixei algumas pessoas de sobreaviso para ajudá-lo, afinal, eu sabia que só de colocarem meu pai com o cronômetro na mão, já iria deixar Alex bem nervoso, e ele não precisava pensar no que tinham bolado, só não imaginaria que ele ficasse tão desorientado que deixasse de ler a última dica.
Quando minha vó Mina veio me contar que ele estava simplesmente parado no meio da pista de dança sem ter a mínima ideia do que tinha que fazer, tive que sair para ajudá-lo.
Era o certo pela tradição? Não, mas quem se importa! Assim, peguei o meu violão e fui ao socorro do noivo.
Parei na porta da tenda, um tanto nervosa de cantar e tocar para tanta gente, mas, no fundo, eram todos parte da família e logo eu teria que fazer isso mesmo.
Respirei fundo e tentei me lembrar do primeiro acorde de Love Story.
Assim que meus dedos deslizaram pelas cordas do instrumento foi fácil seguir o ritmo até o fim, ou pelo menos eu achava que seria, se não fosse a cara de embasbacado do meu marido quando me ouviu cantando e tocando.
Quase que paro no meio da música e pergunto o motivo da sua expressão, já que não era novidade nenhuma ele me ouvir cantando, afinal, quantas vezes ao chegar em casa, Alex já não tinha me ouvido tocar? E maior, já tinha até cantado comigo!
Com um menear de cabeça, sorri em sua direção e indiquei o que tinha que fazer, e logo ele empunhou o violão, pegando de primeira os acordes bases da música, e, terminou a ponte cantando comigo.
Não era o que estava planejado, mas para mim, foi mais do que perfeito.
E, agora, aqui sentada ao lado dele, começo a pensar que deveríamos era ter feito um dueto com outra música, tem tantas das quais gostamos...
- Pensando em que? – Ele me perguntou quando suspirei do seu lado.
- Que deveriam ter escolhido outra música pra você cantar.
Agora, mais calmo, e um tanto mais arrumado depois de ter dado uma escapada até a casa para se arrumar para as fotos finais, Alex deu uma gargalhada.
- Nem com toda a dica do mundo eu saberia cantar aquela música. Foi escolha de quem?
- Adivinhe?
- Pietra!
- Não.
- Elena?
- Quase.
- Olívia?!
- Sua amada sobrinha que te jogou na fogueira, quando quiser pode se vingar!
- E eu achando que ela estava me ajudando.
- Só te ajudou porque eu pedi, ela estava muito tentada em só fotografar o seu desespero. E eu acho que ela fez isso, teremos que esperar o álbum que ela está montando ficar pronto para ter certeza.
E, depois desse momento às sós, acabamos por nos levantar para conversar com os convidados mais uma vez, rodamos pela tenda, conversando, rindo e ainda tentando explicar que realmente existia a tradição do sequestro da noiva na Finlândia e que aqui foi um pouquinho adaptado, porque normalmente termina com o noivo em uma situação ainda mais humilhante do que hoje.
Quando terminamos a volta, e estávamos conversando com nossos avós, Lauren me chamou dizendo ser a hora do buquê.
Eu não arremessaria nenhum buquê, não é essa a minha tradição, mas sim, colocaria uma coroa de flores na cabeça daquela que eu acho que seria a próxima a se casar.
No momento, eu tinha duas favoritas para serem as escolhidas, mas como a noiva fica vendada e as solteiras fazendo uma roda ao seu entorno, eu não tinha como saber quem seria a felizarda.
Assim, todas as solteiras com idade para se casarem foram colocadas em roda ao meu entorno e logo minha avó Mina veio e me vendou, começando a me rodar. Minha preocupação nessa hora era não cair de cima do salto que usava e, quando ela me parou, eu sabia que era a vez das meninas rodarem.
Passaram-se alguns segundos quando me deixaram caminhar em linha reta, ou eu acho que foi em linha reta, até a felizarda da noite e coloquei em sua cabeça a coroa que era feita com as mesmas flores do meu buquê, sendo só depois disso que pude abrir os meus olhos para ver quem eu tinha escolhido.
- Creio que teremos mais um casamento no escritório! – Amanda brincou.
- E você será a minha dama de honra! – Milena entrou na onda e respondeu à nossa secretaria junior.
Sim, sem saber, acabei por coroar Milena.
- Essa tradição da coroa significa que você será a madrinha? – Ela perguntou brincando.
- Não necessariamente, mas estamos abertas a ofertas. – Respondi rindo.
- Bem, só não esperem um casamento relâmpago, preciso de férias para pensar só na data. A festa vem depois de outras férias.
- Não quer tirar uma licença de uma vez?
- Não. Ainda não é a hora de subir ao altar. – Milena disse sorrindo para o noivo. – Ou é?
Ele fingiu que não entendeu a pergunta e só pegou a mão dela.
Logo que todas as solteiras, que continuariam solteiras até o próximo casamento, voltaram aos seus lugares, era a hora de cortar o bolo, a parte da cinta-liga foi devidamente removida da festa por motivos de Elena e sua imensa curiosidade, e para evitar cenas (e perguntas) constrangedoras, decidimos que Alex só veria a cinta-liga na hora apropriada.
- Sem a parte da cinta-liga? – Alex sussurrou no meu ouvido quando me levou até a mesa onde o bolo estava.
- Quer explicar à Elena o motivo de você ter se enfiado debaixo da minha saia? – Respondi baixo enquanto sorria para um dos convidados.
- Melhor não.
- Também acho. E, além do mais, você terá tempo de ver. – Dei uma cotovelada nele quando paramos para mais uma rodada de fotos. – Confesso que já estou até ofuscada de tanta foto. – Comentei assim que pararam de bater a foto e Alex teve que me ajudar a me posicionar perto da mesa.
- Uma hora você se acostuma. – Ele foi sarcástico, pois mesmo depois de anos na indústria de Hollywood, ele odeia flashs.
- Assim como você se acostumou, não?
- Exatamente. – Ele disse com um sorriso e nosso momento de piada particular virou outra foto. – Agora, como se corta esse monstro que você chama de bolo.
- Não comece. – Alertei.
- Mas olha o tamanho disso, Kat!
Encarei meu marido e ele apontou para o bolo de quatro andares.
- Espero que você não tenha se esquecido que eu adoro doces e, o mais importante, você estava do meu lado quando escolhemos esse bolo.
- Eu me lembro de ter experimentado o sabor, mas não ter escolhido o tamanho.
- Acho que você ainda estava comendo quando nos deram a opção dos bolos.
- Eu me lembro de você estar comendo...
- Tudo bem, impasse. Nós dois estávamos comendo. Agora me ajude aqui.
Alex segurou a minha mão, ainda meio em dúvida se era aquilo mesmo que tínhamos que fazer. Eu fingi que era, porque também não fazia ideia, mas a parte principal era a de que o primeiro pedaço era nosso e que foi dividido bem no meio porque nós dois estávamos com fome, já que quando serviram o jantar, estávamos rodando pela tenda e conversando com os convidados.
Quando a última rodada de fotos acabou e o bolo foi levado para ser partido, finalmente foi liberada a pista de dança, ainda não era a nossa valsa, mas com certeza a festa ficou muito melhor quando o DJ começou a tocar a seleção que escolhemos.
- Que isso?! Sem heavy metal? – Meu irmão me perguntou quando cruzei com ele no meio da pista de dança.
- Passinhos de formiga, Kim. Começa calmo, depois a gente educa todas estas pessoas.
- Quero ver esse povo batendo cabeça, Kat! – Ele brincou.
- Já vamos colocar Seb nesse mundo? – Apontei para meu sobrinho que só se balançava ao som da música pop que tocava.
- Precisamos!
Dei uma risada e fui puxada por minhas amigas para dançar um pouco.
Os convidados foram servidos, elogios pelo sabor foram feitos e agora era o momento em que eu faria a minha homenagem ao meu marido, então, pedi um pouco da atenção dos presentes:
- Eu sei que agora todos querem é aproveitar a festa, porém eu só queria um momento de vocês. Como todos viram quando da cerimônia, tinha um belo gazebo que serviu como o nosso altar, aquela obra de arte foi um presente do meu marido para mim, e sim, ele quem construiu. – Falei toda orgulhosa. – Eu não sou talentosa a esse ponto de fazer algo do zero para te dar de presente, — Disse olhando para Alex. – Eu bem gostaria, porém, depois de tudo o que nós vivemos nestes três anos juntos, depois de tudo o que você já fez por mim, eu queria te dar algo especial, assim, eu espero que a letra dessa música signifique para você o mesmo que significa para mim.
Assim, eu me sentei no piano que tanto estranhamento tinha causado nos convidados quando chegaram, e comecei a tocar a minha versão de Sweetest Devotion de Adele, olhando para Alex e para mais ninguém.
Sei que a letra foi escrita para o filho dela, mas cada parte era a declaração de tudo o que eu vivi com Alex desde o momento que o conheci até aqui.
Os convidados ficaram em silêncio absoluto enquanto eu cantava e declamava meu amor pelo meu marido. Alex, por sua vez, estava estático na cadeira, apenas escutando e, como sempre, prestando atenção em cada uma das minhas expressões.
Quando a música ia chegando ao fim, ele se levantou e veio na minha em direção, parando ao lado do piano assim que a música terminou. Ele esperou só que eu recuperasse o fôlego, me pegou pela mão, me colocando em pé, e me abraçando apertado.
- Você também é o amor da minha vida, Kat. Mas eu não sei colocar isso em forma de música como você acabou de fazer. – Disse em meu ouvido e depois me deu um beijo.
O DJ que foi bem esperto neste momento, tocou uma versão orquestrada da música que toquei, e Alex não perdeu a chance de me levar para dançar, enquanto balançávamos ao som da música, eu ia cantando ao seu ouvido os versos que todos tinham acabado de escutar.
Com as emoções à flor da pele e ao som de palmas e assobios, deixamos a pista livre para quem quisesse dançar mais um pouco.
Para a minha família não era novidade que eu tocava e cantava, mas para a parte da família do meu marido, era, e logo que chegamos de mãos dadas perto da mesa, para que eu tomasse uma taça de água, Dona Ilsa, veio e me deu os parabéns.
- Tem uma bela voz, Katerina! Você já tinha mostrado mais cedo que sabia cantar, mas nesta música, você realmente se mostrou uma cantora e das boas.
- Obrigada, Dona Ilsa.
- Não sabia que cantava, Kat. – Dona Laura chegou falando e enxugando as lágrimas. – Que surpresa maravilhosa você fez.
E assim, aqueles que nunca tinham me ouvido cantar, foram me chamando e se mostrando surpresos com que tinham presenciado.
Dona Amelia não me falou nada, mas só o seu olhar de alegria em nossa direção já me mostrava que ela esperava, desse momento em diante, qualquer coisa vinda de tanto de Alex, quanto de mim.
Não houve mais surpresas, mas momentos emocionantes ainda estavam por vir.
O primeiro, claro, foi a valsa dos noivos.
Anunciada para que a pista fosse liberada, trouxe certa expectativa, afinal, depois de um gazebo, do sequestro da noiva, da falta de se jogar um buquê e da noiva ter cantado e tocado, qualquer coisa poderia acontecer.
Alex me conduziu até o centro da pista e tive que brincar com ele, assim que nos posicionou:
- Espero que tenha treinado para não pisar no meu pé!
- Estou mais preocupado em você não me chutar com o bico desse sapato. Tudo o que não preciso é de uma lesão de ligamento agora.
- Até parece que sou eu quem não sabe dançar aqui.
Endless Love de Lionel Richie e Diana Ross começou a tocar, valsamos no ritmo da música, para o encanto de alguns dos convidados, era a típica música de casamento é claro, porém, se não tivesse algo diferente, um toque especial, não era nosso casamento, e assim que o último acorde da canção ecoou, outro foi emendado pelo DJ responsável pelas músicas, e September do Earth, Wind and Fire, começou a tocar, levando a todos os convidados a invadirem a pista de dança e dançarem conosco, afinal, que graça tem de ficar só olhando?
E daí para frente foi só dançar e dançar e curtir cada um dos convidados e dos hits que tocaram sem parar até o dia clarear.
Claro que paramos para a valsa do noivo com a mãe, e da noiva com o pai. Momentos tradicionais de qualquer casamento. Mas também dancei com meus irmãos, meu sogro, meu cunhado, meus avós. Até mesmo com Tuomas que não é lá muito adepto de dançar, resolveu vir para a pista.
A certa hora da noite eu já tinha dançado com todos os convidados e sempre voltava para os braços do meu marido.
Sapatos de salto foram abandonados debaixo de mesas, trocados por confortáveis chinelos, paletós e gravatas foram deixados nas cadeiras, meu véu virou decoração quando cansei de ficar carregando-o no braço e o tirei, colocando no encosto da cadeira, e, os antes tão arrumados convidados que ficaram tão elegantes nas fotos de mais cedo, se soltaram e fizeram das novas fotos, as mais autênticas possíveis.
Agora que a festa já ia alta, que todos já estavam pra lá de à vontade, as fotos deixaram de ser organizadas e posadas, para serem espontâneas e muitas vezes carregadas de brincadeiras.
Seb e Elena sucumbiram ao sono no meio da festa, e não foram levados para os quartos a prova de som que tínhamos arrumado previamente, não, eles foram colocados em uma cama e berço improvisados com cadeiras e paletós, e dormiram por ali, aos olhos e cuidados de todos.
Dançamos ao som de temas de filmes, hits de discotecas, pop dos anos 90, baladas de rock, um ou outro rock que era possível tocar, pop atual, reaggeton, música latina e até k-pop, o que o DJ tocasse era festa.
Sabíamos todas a letras das canções que ouvimos? Não. Mas isso não importava nem um pouco, dançar e aproveitar a nossa festa ao lado das pessoas que escolhemos a dedo para estarem aqui nesse dia, ou melhor, nessa noite, era o que importava.
O dia raiou e ainda estávamos na pista, viramos simplesmente os inimigos do fim da festa.
O café da manhã foi servido para aqueles que resistiram até o sol raiar, e, foi só quando me sentei na mesa reservada para os noivos e para a família, depois de não sei quanto tempo de pé e dançando, foi que me dei conta que estava morta de cansada.
E, infelizmente eu não fui a única que percebeu isso, afinal, os convidados que vararam a noite, depois de se reabastecerem de cafeína, proclamaram o fim da festa e, um a um, vieram se despedir, nos felicitando e desejando todas as alegrias existentes ao nosso casamento.
Eram nove da manhã quando entrei no quarto para dormir. Eu tinha aguentado a cerimônia e a festa toda calçada com meus saltos e, mostrando que Miguel, Margot e Chelsea não brincam em serviço, meu cabelo e maquiagem estavam intactos.
Já a barra do meu vestido...
- Não pisaram no meu pé, mas no meu vestido. – Mirei a barra que estava imunda.
- Desse crime posso ser considerado culpado. – Alex falou. – Precisa de ajuda com os botões?
- Por favor.
Esse para ser o momento do início da nossa lua de mel, porém tínhamos aproveitado tanto a festa e dançado tanto, que mal conseguimos tomar um banho e caímos na cama.
- A gente tinha que fazer algo importante agora... – Alex murmurou ao meu ouvido, quando me puxou de encontro ao seu corpo.
- Usou o tempo verbal certo, tinha. Mas eu... – Não aguantei e dei um bocejo.
- Eu também quero dormir. – Ele falou. – Fica para Bora Bora.
- Isso. – Concordei.
- Boa noite, ou bons sonhos, Senhora Pierce. – Alex falou contra meus cabelos molhados. – Eu te amo.
- Eu também te amo, Senhor Pierce.
E assim, nos braços do meu marido, dormi feliz e realizada, quase que vivendo um sonho. Sonho não, a melhor realidade possível, pois estava casada com o amor da minha vida.
[1] Boa sorte, tio!
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