Notas iniciais
Eu sei que demorei horrores para escrever e postar esse capítulo, mas me perdoem, meu trabalho está consumindo até as migalhas de vontade que eu tinha de escrever. Assim, espero que gostem dessa água com açúcar extremamente doce que foi a lua de mel de nossos pombinhos!

Acordei e não fazia ideia de que horas eram, não entrava uma única luz no quarto e parecia que todo o lugar estava em um silêncio absoluto. Me remexi na cama e Alex, ao meu lado, só comentou:

- Está realmente acordada agora ou é outro alarme falso?

- Estou acordada. – Murmurei.

- Então muito boa tarde, Senhora Pierce.

- Que horas são?

Alex esticou o braço e pegou o celular.

- São duas e quarenta e oito da tarde.

- São Jorge!! – Exclamei.

- Creio que temos as melhores desculpas hoje, afinal, fomos para a cama já passava das nove da manhã, depois de termos virado a noite. E creio que não tem muita gente acordada ainda.

- Mesmo assim, Alex, quase três da tarde!

Joguei minhas pernas para fora da cama tentando me orientar e meu marido só deu uma risada.

- Não é para rir, estou realmente confusa aqui.

- Estou vendo.

Já de pé, rodei um tanto desorientada pelo quarto procurando por alguma roupa que fosse fácil de vestir e que eu não precisaria pensar muito, achei um vestido na minha bolsa e depois de lavar o rosto e dar um jeito no meu cabelo, que depois de ter dormido molhado estava um tanto impossível, consegui sair do quarto, Alex logo me alcançou no corredor e pegou a minha mão.

Aos poucos fomos ouvindo as vozes daqueles que já estavam de pé, e somente reconheci as de nossos avós.

- Nos levantamos com a terceira idade... – Alex brincou.

Entramos na cozinha e fomos recepcionados por todos com abraços e beijos, além de comentários sobre a festa que fizemos.

- Realmente foi um festão! – Comentei.

- Não sei como conseguiu ficar nos seus saltos até o fim. – Dona Ilsa falou.

- Esse é o superpoder da Kat. – Alex brincou. – Vem treinando para isso desde que comprou o primeiro Louboutin.

Dei uma risada.

- Até parece. – Dei um tapa no ombro de Alex. – Mas Dona Ilsa, voltando, o salto nem era tão alto assim, o sapato foi escolhido para ser confortável. Porém, não vou negar, meus pés ainda doem.

- Terá tempo para descansá-los na lua de mel. E vão para onde mesmo? – Minha vó Claire perguntou.

- Bora Bora. – Alex disse todo feliz.

- Foi você quem escolheu o destino, Alexander? – Dona Laura perguntou meio injuriada.

- Fizemos um sorteio, Dona Laura. Coincidência ou não, esse foi o único destino que os dois escreveram no papel...

- Vocês sortearam o destino?! – Dessa vez foi minha avó Mina quem perguntou surpresa.

Encarei Alex que me encarou de volta, como iríamos explicar que todo o arranjo do casamento começou a partir de um sorteio?

Meu marido foi o corajoso que começou a explicação

- Dona Mina, todo o início da organização do casamento começou com um sorteio.

- Além da lua de mel...

- A data, e iríamos sortear o lugar, mas chegamos em um consenso quanto ao Rancho.

- E se não chegassem?

- Escreveríamos e sortearíamos. – Alex completou o raciocínio.

Todos os cinco nos olharam espantados.

- Já que estamos falando da organização do casamento, podem dizer o que foi mais fácil e a última coisa a ser resolvida.

- A mais fácil? – Peguei-me pensando.

Alex foi quem falou.

- Para mim foi o bolo.

As risadas foram altas. Mas ele não estava de todo errado. O bolo e o buffet foram os mais simples.

- A última decisão? – O avô de Alex perguntou, e nessa hora meus sogros entraram na cozinha e pararam para ouvir nossa resposta.

- Essa eu não sei. – Alex falou e me encarou.

- Meu vestido. – Respondi de uma vez e pude escutar as mulheres arfando e meu marido me olhando incrédulo.

- Seu vestido? – Minha sogra parou perto da mesa, se segurando, como se não acreditasse.

- Por mais estranho e impensável, sim. Eu já tinha tudo praticamente pronto, só faltava o vestido, e eu não encontrava nenhum que me agradasse.

- E quando isso foi resolvido?

- Em abril.

- Kat, você está brincando, né? – Alex me questionou.

- Não. Pode perguntar a minha mãe. – Apontei para ela que entrava. – E para Liv. Quando elas vieram aqui, porque você as chamou, Alex, foi que eu encontrei o vestido.

Minha mãe recebeu todos os olhares, como que quisessem que ela confirmasse a minha história.

- Eu só posso dizer que quando cheguei, encontrei minha filha sentada no sofá, chorando e se afogando em um pote de sorvete.

- E eu achando que o vestido estava escondido no nosso closet desde o ano passado. – Meu marido se jogou na cadeira ainda em estado de incredulidade.

- Não estava, e quase que não tem casamento porque a noiva não tinha vestido. – Sentei-me ao lado dele.

- Com ou sem vestido, a gente se casava. – Foi tudo o que ele disse.

E depois dessa confissão sobre o vestido, passamos a conversar sobre a festa, e à medida que o pessoal foi acordando, cada um deu a sua contribuição sobre a festa, ou sobre um determinado momento que somente eles tivessem visto.

Ao final, juntamos todos na sala, pois Liv tomou coragem de nos mostrar as fotos e os vídeos que ela fez.

Não vou negar, foi muito emocionante rever todos os momentos pela visão da minha sobrinha, e claro, eu chorei como se estivesse vivendo momento novamente.

- Liv, ficou maravilhoso. – Falei quando as fotos terminaram, sendo a última, tirada ao amanhecer, quando Alex e eu caminhávamos de volta à casa, de mãos dadas, contra o nascer do sol.

- Eu ainda vou tratar as fotos, tem algumas que precisam...

- Por mim, estão perfeitas. – Alex comentou. – Principalmente, dos momentos em que eu não vi.

-Ixi, setä, mas tem outras que ficaram meio tremidas. Prometo que não vou exagerar em nada, mas preciso corrigir alguma luz, olhos vermelhos, coisa pouca, te prometo. – Liv falou assim que terminou de guardar a câmera.

Por mais que eu quisesse e precisasse de um descanso maior, não foi o que aconteceu, e infelizmente não pudemos passar a noite no rancho com todos, afinal, nosso voo decolaria cedo, tão cedo que seria madrugada, e ainda tínhamos que guardar algumas coisas nas malas.

Assim, as despedidas ocorreram ali mesmo, agradeci a cada um da minha família que cruzou o Atlântico e o país para estarem ali, agradeci aos avós de Alex por terem vindo, às minhas amigas que estavam hospedadas no rancho, aguardando a carona de volta para a Europa, e aos meus sogros por, não somente sempre terem me tratado tão bem, mas por terem nos emprestado o local onde o nosso casamento aconteceu.

Por fim, os últimos ajustes para a viagem foram resolvidos, com meus pais indo buscar nosso carro no aeroporto na tarde do dia seguinte e meus sogros ficando com o trio peludo por todo o tempo em que ficaríamos fora.

Enquanto eu ainda me despedia de meus pais, Alex foi buscar o carro na garagem, e quando apareceu, eis que alguém resolveu enfeitá-lo com fitas e balões e a famigerada frase: recém-casados.

- Ah! Por favor! – Chiei.

- Não achou que você escaparia dessa tradição, achou Bionda?

- Quem fez isso? Ou melhor, quando fizeram isso?

Foi Pepper quem entregou a história toda, falando que ajeitaram o jipão enquanto a gente ainda dormia.

Alex só ria da situação, pois para ele, hoje, não tinha nada que estragasse o dia. Já eu, pensava como iríamos viajar até Los Angeles, com o carro daquele jeito.

Meu marido, enquanto eu reclamava com as minhas madrinhas sobre o estado do carro, ainda se despediu pela última vez de todos, agradecendo presença, e, sem que tivéssemos pedido, todos eles, para encerrarem a festa, se enfileiraram e jogaram pétalas de flores sobre nós, e Alex, ainda no clima da festa de casamento, assim que chegamos perto do carro, me puxou para perto de si e me deu um beijo digno de cinema.

- Agora vão, ou se bobear, perdem o horário do voo! – Dona Amelia disse e minha mãe só concordou com uma risada.

Abri a janela do carro, hoje não haveria brigas sobre quem assumiria a direção, e mandei vários beijos para todos, vendo de longe o que a nossa união resultou, a junção de duas famílias tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo. E, olhando-os, eu não poderia ficar mais feliz de vê-los assim, juntos e acenando para nós.

- Alex, me faz um favor? — Pedi.

- É só falar.

- Reduz a velocidade, por favor, preciso tirar uma foto.

Ele só levantou uma sobrancelha, mas fez o que eu pedi, e eu, acabei por me sentar na janela do carro e eternizar a união de nossas famílias, dessa vez, pelos meus olhos.

- Mas o que você está fazendo, KitKat? – Meu avô gritou ao me ver.

- Só tirando mais uma foto dessa festa. Agora todo mundo, sorriam!!

E sim, eles fizeram pose, e eu guardei, não só em uma foto, mas na minha memória, aquele momento.

- Posso ver? – Alex me perguntou.

Mostrei a foto e ele comentou:

- Uma família e tanto que a nós temos.

- Não é? Não poderia ser mais perfeita. – Concordei com ele e depois roubei um beijo.

Voltamos para casa, sorrindo e, claro, como já era costume, ele pegou a minha mão esquerda, beijou-a, bem em cima das alianças, e a segurou por todo o tempo até que chegamos em casa.

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- Tem mais alguma mala para ser colocada no carro?

Escutei Alex me gritando lá da garagem, eram duas da manhã e ele não tinha um pingo de piedade dos vizinhos.

Parada no meio da sala, mentalmente contei as malas, as coisas que coloquei na minha bolsa, se tinha realmente pegado tudo o que era essencial.

- Kat? Está tudo lá?

- Meu sim. E seu? Lembrou de pegar o passaporte?

- Coloquei dentro da sua bolsa.

- Certo. Então eu acho que está tudo lá. – Confirmei.

Acabamos de fechar a casa, e saímos para a garagem, Alex fechou o porta-malas e depois assumiu o volante do meu carro.

Fomos ouvindo música e conversando ocasionalmente, a madrugada de domingo para segunda ainda ia preguiçosa quando estacionamos no aeroporto.

- Só um momento. – Ele me pediu, assim desci do carro.

- O que foi? Se lembrou de algo?

- Não. Só precisamos disso.

E por isso, ele quis dizer óculos escuros, bonés e um moletom de capuz.

- Mas é verão! – Reclamei.

- Kat, estamos no LAX, não se esqueça de que aqui é a casa dos urubus.

E foi quando eu entendi o que ele queria dizer. Proteção, ou melhor, disfarce.

Peguei as três coisas que ele me oferecia e vesti, tentando ficar o mais escondida possível por baixo do grosso moletom.

- Céus, está quente. – Falei quando saí andando atrás do meu marido, já que ele empurrava o carrinho com nossas malas.

- Quando entrarmos no hangar do voo particular, você poderá tirar. – Ele me disse e reduziu o passo para que eu o acompanhasse.

Andamos lado a lado até que entramos na área de voos particulares, e foi só depois de confirmarmos nosso voo, e de estarmos sentados na sala de espera, que eu abaixei o capuz.

- Se arrependendo de ter se casado comigo? – Alex brincou comigo quando amarrei o cabelo em um coque, mesmo de boné.

- Por conta de tudo isso? Claro que não. Mas temos que reprogramar todas as nossas viagens, já que temos que andar como bonecos de neve de qualquer jeito, seria muito melhor só sair do país no inverno, o que acha?

Alex deu um peteleco na aba do meu boné e me deu um sorriso.

- Nem pensar. Temos o direito de aproveitar o verão também. E não se esqueça, Kat.

Levantei uma sobrancelha para ele, para que continuasse a sentença.

- De nós dois, é você a rata de estações de esqui. Um pouco de sol não vai te fazer mal.

- Até parece que eu pego pouco sol nessa cidade... até parece. – Fingi um aborrecimento que não sentia e Alex me puxou para perto de si, me abraçando. E, mudando de assunto, perguntei:

- Então, nosso primeiro compromisso nessa viagem é?

- Nenhum. Não reservei nada de especial. Creio que o termo Lua de Mel é bem específico e, além do mais, não se esqueça, são também as nossas férias, afinal, no ano passado não paramos.

- Por que eu não acredito em você? – Levantei minha cabeça para olhar em seus olhos.

E como resposta ele apenas abriu um sorriso.

- Alex... o que você aprontou com essa reserva?

- Kat, é nossa Lua de mel, apenas aproveite. – Ele me respondeu. — E eu te garanto, você vai gostar.

Alguns minutos se passaram e pudemos embarcar, tomamos nossos lugares no jato, e aguardamos a autorização da decolagem.

- No dia em que eu precisar viajar de voo comercial de novo, eu não vou conseguir. – Alex brincou quando já estávamos sobrevoando o Pacífico.

- Digo por experiência própria, é difícil. Porém...

- Você mal voou de comercial na sua vida!

- Mea culpa. Mas não venha reclamar de ter se casado com uma mulher que conseguiu ter o próprio jatinho.

- De todas as compras que você já fez, essa com certeza foi a melhor.

- E pensar que você falou que não era para eu fazer isso... vai dizer que não é muito melhor toda essa privacidade?

Alex abriu um enorme sorriso e depois de me puxar para seu colo, apenas disse:

- Eu jamais poderia fazer algo assim, – me deu um beijo em meu pescoço. – dentro de avião comercial, sem sair em todas as páginas de fofocas existentes. – Continuou a me beijar.

E foi aqui que o clima de festa e alegria pelo casamento mudou, passando a ser exclusivamente voltado à lua de mel.

E, depois de dez horas de voo, chegamos ao aeroporto de Bora Bora, que só opera com aviões pequenos. Porém, ainda não era o nosso destino, afinal, tínhamos que chegar ao nosso hotel.

- E agora...nosso transfer, ou melhor, o barco que vai nos levar até nosso hotel. – Alex comentou assim que pegamos nossas malas e seguimos pelo pequeno aeroporto, até as docas, onde um barco nos esperava.

- Serviço exclusivo? – Perguntei, afinal era alto verão, e lógico que outras pessoas, de diversas partes do mundo, estariam viajando para este pequeno pedaço de paraíso.

- Não pedi por isso na reserva. – Alex comentou e logo que nos identificamos, fomos informados que por termos vindo em voo particular, este era um horário extraordinário para fazermos a travessia,

Embarcamos com a ajuda do capitão e nos sentamos onde bem quisermos, afinal, erámos só nos dois.

A cada onda vencida e à medida que cruzávamos a imensidão azul turquesa das águas da ilha, eu tinha a certeza de que não havia destino melhor de lua de mel.

- Pensando em que? – Alex me perguntou, me tirando da minha contemplação da paisagem.

Dei um suspiro.

- Na beleza desse lugar. Nunca tinha visto água tão azul, tão cristalina assim. – Estendi minha mão tentando tocar a água, ou pelo menos as gotas que eram lançadas pelo barco.

- Se você já está apaixonada com essa vista, creio que irá gostar do nosso quarto. – Ele falou todo misterioso.

Sim, era uma surpresa para mim o hotel, o quarto e o que nos reservava os próximos dias. Pois, Alex se encarregou de montar e planejar essa viagem.

Me recostei em seu ombro e aproveitei a companhia, a paisagem, o frescor da água salgada que era salpicada em meu rosto.

Não demorou muito e fomos avisados que iriamos atracar, e sem demora pudemos descer e para minha surpresa, tínhamos um recepcionista no deck nos aguardando, segurando dois lei, os famosos colares feitos de flores frescas e perfumadas.

- Sejam muito bem-vindos, Senhor e Senhora Pierce. É um prazer recebê-los em nosso hotel! – Falou assim que colocou os colares em nossos pescoços. – Por favor, acompanhem-me. Meu nome é Manuiti e serei o seu concierge durante sua estadia.

Agradecemos a hospitalidade e seguimos pelo pequeno porto até um carrinho de golfe, onde nossas malas já haviam sido colocadas.

Por todo o trajeto até a recepção, Manuiti foi nos explicando o funcionamento do hotel, os passeios que poderíamos fazer, além de contar histórias sobre o local, principalmente a rica cultura do povo polinésio, afinal, apesar de ainda serem um território extra marinho da França, a cultura do povo ainda era forte, como bem provava o seu nome, que tinha o significado de liberdade.

Nosso check in não demorou e logo fomos levados até...

- Você reservou uma vila!? – Perguntei um tanto abismada para o tamanho do chalé, assim que o carrinho parou nos indicando onde ficaríamos.

- Para nossa privacidade. – Alex murmurou no meu ouvido enquanto me ajudava a descer do carrinho.

Nossas malas foram colocadas dentro da vila, que era enorme e espaçosa, e depois de darmos a devida gorjeta ao nosso motorista, ficamos, enfim, às sós.

- E então? – Alex me perguntou enquanto eu caminhava pelo chalé que seria a nossa morada pelos próximos quinze dias.

- Você sabe que exagerou, mas... – Eu parei o que ia falar ao ser surpreendida pela parte de trás do chalé, pois, ao abrir as portas que davam para o deck e, consequentemente, para a vista do Monte Otemanu, não foi um deck para as águas calmas da lagoa que eu vi, mas sim uma piscina privativa.

- Eu exagerei? – Alex chegou perto de mim, me abraçando pela cintura enquanto eu ficava completamente sem palavras diante da vista.

- Esquece o que eu estava falando. Seria possível morar aqui? – Perguntei.

Alex deu uma risada.

- Achei que você iria gostar, afinal, tem muito daquele hotel onde nos hospedamos por uma noite em Cartagena. – Ele comentou casualmente.

O dia só estava começando em Bora Bora, e nós dois só estávamos no primeiro dia de nossa lua de mel, nada melhor do que aproveitar.

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Depois de aproveitarmos um ao outro e de termos descansado sob o sol desse paraíso, resolvemos passear pelo hotel, afinal, nem só de nossa vila, vivia esse lugar. Fomos de mãos dadas até o prédio principal, onde se concentrava a vida noturna.

Ao som de muita música local, acompanhada de danças e atrações típicas, jantamos sob a luz das estrelas e por ali ficamos até que resolvemos passear pela praia.

Quase às onze da noite não havia muita gente por ali, então foi fácil descalçar os sapatos e ficar vagando pela areia de mãos dadas, vendo a luz da lua se refletir nas águas calmas da baía.

- Inacreditável que a água ainda está morna! – Comentei.

- Vamos ver se pelo menos aqui você entra no mar sem reclamar.

- Nesta temperatura? Fácil.

Andamos até que um dos dois cismou de voltar para o quarto, já que depois de não sei quantas horas acordados, por conta da diferença de fuso, o cansaço bateu forte.

- Pode falar, Alex, eu sei que você programou alguma coisa para fazermos durante nossa estadia. – Falei diante do silêncio que estávamos.

- Talvez.

- Isso não é resposta. Agora diga. O que vamos fazer?

- Mergulho.

- E?

- Passeio de lancha até uma ilha aqui por perto.

- Com mais gente?

- Não, Kat, só nós dois.

- E, por acaso, você sabe pilotar uma lancha? – Indaguei até curiosa demais.

- Amanhã você irá descobrir.

Essa lua de mel ficava a cada segundo mais misteriosa, e, a única certeza era, pela bem ou pelo mal, teríamos muitas histórias para contar.

Assim que entramos me vi dividida entre ir dormir na enorme e confortável cama ou ficar sentada com os pés dentro da água morna observando a noite e as estrelas. Então fiquei parada no meio da sala, tentando decidir o que eu queria.

- E parou aí por quê?

Demorei alguns segundos para responder, porque até para mim, era maluquice admitir os meus desejos.

- Vai parecer loucura, mas não quero ficar presa dentro de um quarto quando temos tudo isso. – Apontei para as portas duplas que davam para o deck e para a piscina.

- E você quer fazer o que? Mergulhar na água à meia-noite?

- Nunca fiz isso. – Falei por fim. – Nunca tive o rompante de nadar no mar à noite. Até agora... – Deixei a frase no ar.

- Para tudo se tem a primeira vez. – Alex comentou e tirou a camiseta, jogando-a de qualquer jeito pelo cômodo. – Você deu a ideia, agora tem que vir junto! – Ele me puxou pela mão.

- Espera... eu não vou molhar esse vestido. – Tentei ficar parada, e Alex parou com um sorriso de canto.

- Então tira. – Foi tudo o que ele disse. – E nem comece com essa cara de quem não vai nadar sem roupa, nossa vila é a mais afastada, não tem ninguém por perto.

- Sério, Alex... eu... – Minha retórica estava na ponta da língua, mas ele simplesmente acabou de tirar a roupa, deixando em uma das espreguiçadeiras do deck e logo em seguida mergulhou na água. E vendo o que meu marido tinha feito, eu tinha duas opções, ou vestia um biquíni ou ia como ele. – Quer saber? Dane-se. – Tirei o vestido, tomando o cuidado de deixá-lo bem longe da água da piscina e depois tirei o resto de minhas roupas, mergulhando nas águas calmas e mornas do Pacífico Sul à meia-noite do jeito que vim ao mundo.

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Como era de se esperar, fomos acordados pelo sol que entrava pelas enormes janelas de nosso quarto, e, ao abrir os olhos fui contemplada com a vista da baía.

- É tão lindo. – Murmurei baixo, sem querer acordar o meu marido que estava deitado ao meu lado.

- Não mais do que você. – Ele falou me surpreendendo. – E muito bom dia, Senhora Pierce. – Completou e me deu um beijo.

- A vista pode até ser bonita, mas prefiro muito mais isso. – Falei contra seus lábios. – Bom dia para você também. – Cumprimentei-o.

Ainda ficamos fazendo hora para nos levantar, porém, como tínhamos compromisso marcado pelo apaixonado pelo mar, tivemos que sair da cama e desfazer por hora, a nossa bolha particular de felicidade.

Tomamos um café da manhã bem reforçado, voltamos para o quarto para poder pegar as nossas mochilas e pranchas e rumamos para o nosso passeio do dia.

De início, eu fiquei calada, mas, depois de um tempo curiosa com o nosso destino, resolvi por perturbar a paz de Alex um pouquinho:

- Então, Senhor Agente de Viagens, para onde nós vamos?

- Primeiro pegar uma lancha. – Ele respondeu sério.

- Isso é óbvio, eu li nas últimas, o que, vinte placas que nos indicavam a direção. Mas, e depois? Vamos para lá, para lá ou para o outro lado da ilha? – Emparelhei com Alex, já que ele tinha, de forma deliberada, acelerado o passo e me deixado para trás, na vã tentativa de não escutar as minhas perguntas, e ia apontando para as direções diversas, enquanto as citava.

- Para o norte. – Ele me virou na direção correta.

Fiquei na ponta dos pés, fingindo que procurava por algo.

- Não vejo tantas ondas assim vindo de lá... – Dei de ombros, como se eu realmente entendesse de ondas e de surfe.

Alex deu um sonoro suspiro e trocou a prancha de braço, colocando-a entre nós.

Eu, lógico, mudei de lado e, também troquei a minha de braço, assim poderia ficar do lado dele para lhe dar uma cotovelada.

- E então, lá no norte tem ondas mesmo, ou você só está se fingindo de entendido aqui? – Sorri para ele, pois sabia que ele me encarava por trás dos óculos escuros. – E não adianta ficar com essa cara de bravo, durante o nosso café da manhã você pegou no meu pé o tempo inteiro, chegou a minha vez de pagar pela simpatia. – Abri um sorriso ainda maior e fiquei na ponta dos pés para lhe dar um beijo na bochecha.

E meu marido, vencido pelo cansaço, ou só tentando me fazer ficar em silêncio, pegou a minha mão na sua e acelerou as passadas.

Não muito tempo depois chegamos à marina. Alex se identificou na recepção e deu os dados da nossa reserva, enquanto ele assinava pela locação, eu dei uma volta pelo deck para ver lanchas que estavam atracadas, tinha algumas ali que realmente pareciam velozes.

Estava um tanto distraída por uma das lanchas, quando notei que tinha companhia.

- E você encontrou a nossa. – Alex falou bem atrás de mim e deu um beijo na minha nuca.

- Essa aqui!? – Apontei para a lancha em questão que era preta com detalhes em prata, e tinha uma aerodinâmica que indicava que ela era veloz.

- É. Essa mesmo.

- Bem, posso pilotar? – Estendi a mão toda felizinha pedindo a chave.

Alex só levantou o braço mais alto, e fez o sinal de não, com o dedo. Encarei-o com olhos de cachorrinho pidão e um beicinho e tudo o que consegui foi ganhar um selinho.

Revirei meus olhos para a sua tática de me fazer aceitar as suas ideias e o segui até que o ponto que poderíamos subir na lancha.

Alex pulou primeiro, depois que ajeitou nossas mochilas e a prancha, pediu a minha e fez o mesmo, para logo em seguida, me estender a mão e me ajudar a entrar.

- Tentando se redimir por não me deixar pilotar? – Brinquei com ele ao aceitar a ajuda.

- Na volta você traz a lancha, Kat.

- Claro, porque você vai estar morto de cansado. – Dei de ombros e fui me sentar no banco na popa da lancha.

Alex assumiu o leme e logo deu a partida no motor, manobrando com maestria entre as demais embarcações, um pouco antes de deixarmos a área da marina, vi um enorme iate ancorado e juro, não consegui entender o motivo de alguém ancorar um iate em um lugar como esse...

Por incrível que possa parecer, nossa curta viagem foi feita toda em silêncio, Alex todo concentrado em pilotar e eu deslumbrada demais com a paisagem para tentar encontrar um assunto para preencher o tempo. Assim, peguei a câmera que tinha colocado na mochila e comecei a tirar fotos. Era um pouquinho complicado fazer o foco enquanto a lancha pulava pelas ondas, mas depois que peguei o jeito de me apoiar no assento, ficou mais fácil.

Demos uma meia volta no entorno da ilha e, a cada curva, a paisagem ficava ainda mais bela.

Alex notou o que fazia, até porque ele já tinha virado o meu modelo, e reduziu a velocidade, apontando para nossa esquerda, para que eu pudesse pegar o pulo de alguns golfinhos.

Sinceramente, esse lugar era um pedaço do paraíso.

- Aqui não tem píer, Kat. Então vou baixar a âncora e teremos que pular no mar. – Ele me avisou quando desligou o motor não muito longe da praia.

- Tem certeza de que conseguiremos subir na lancha na hora de ir embora? – Perguntei um tanto desconfiada.

E meu marido só me mostrou uma escada feita de corda que ele jogou para fora da lancha.

- Belo recurso técnico! – Elogiei. – E só agora entendi o motivo das bolsas impermeáveis que você fez tanta questão de colocar na mala.

Como iríamos cair na água mais cedo que eu pensava, foi a hora de tirar a saída de praia que eu usava e guardar na mochila, assim como a camisa e a bermuda de Alex.

Por fim, guardamos as duas mochilas nas bolsas impermeáveis, assim como a chave da lancha, pegamos as pranchas e jogamos na água, pulando logo em seguida nas águas mornas.

Peguei carona em uma onda para chegar até a praia em cima da prancha mesmo, assim pisei nas areias brancas antes de Alex.

- Achei que ia surfar. – Ele brincou logo que veio atrás de mim.

- Com mochila nas costas? Nem pensar, temos que evitar molhar nossas roupas e nosso pequeno suprimento de água e comida.

Andamos pela faixa de areia, não era lá uma praia muito grande, se muito tinha uns três quilômetros de extensão, a parte boa, não tinha mais ninguém por aqui.

- Por que tão vazia? – Questionei ao ver que as ondas eram realmente boas para o surfe e não tinha viva alma por aqui para aproveitá-las a não ser nós.

- É uma praia particular do hotel, Kat. Reservamos o tempo aqui sem ninguém.

- AH! – Foi tudo o que eu consegui exprimir.

- E está vendo aquele bangalô ali? – Ele me mostrou.

- Claro.

- Nosso ponto de apoio para as próximas horas. O pessoal do hotel vem aqui e o abastece para que quem quiser ficar por aqui o dia inteiro possa sem problema algum.

Humildemente encarei a bolsa que tinha trazido com alguns lanchinhos e fiquei até com vergonha.

- Poderia ter falado que o serviço era completo. – Murmurei.

- E estragar a surpresa? – Alex comentou e, colocando uma mão em minha lombar, nos guiou até o bangalô.

Não era uma construção muito grande, apenas dois cômodos, um banheiro e uma sala enorme, dividida em dois ambientes, uma cozinha e uma sala. E, assim como nossa vila, uma das paredes era uma enorme janela que aqui, dava para o pôr do sol.

- Aconchegante. – Comentei.

- Achei que iria gostar. – Alex passou atrás de mim e colocou nossas mochilas no sofá. – Pronta para o surfe?

- Pronta, pronta, não. Mas vamos lá.

Voltamos para a praia, antes de qualquer coisa, saímos para dar uma nadada, só para testar se havia corrente e para onde ela puxava. Não era tão forte, e sempre nos puxava para o lado onde atracamos a lancha, assim, dava para surfar sem medo.

Já as ondas eram outro assunto...

Diferente de onde a lancha estava ancorada, aqui as ondas eram muito mais altas e fortes. As típicas ondas excelentes para surfar.

- Sua opinião profissional. – Virei-me para Alex, enquanto estávamos passando parafina nas pranchas. – Preciso colocar meu macacão de Neoprene? – Apontei para uma onda particularmente forte que deu até um tubo.

Alex encarou meu biquini, que era aquele típico para surfe, com uma blusinha de manga comprida e a parte de baixo era um tanto maior do que a de biquinis tradicionais.

- Não, você não corre risco de sofrer nenhum acidente nudístico, como você fala.

- Estou confiando em você, hein? – Falei.

Terminamos de preparar as pranchas e Alex foi para água primeiro, com a intenção de testar a maré e a força das ondas.

Como fiquei em terra, e sabendo que mesmo que mar estivesse difícil, ele daria um show, resolvi por tirar fotos.

Demorou um pouco até que ele aprendeu onde as ondas começavam e logo que percebeu, se virou para a praia e se deixou levar por um de seus hobbies preferidos.

Eu poderia ter aprendido a gostar de surfar nos últimos anos, mas jamais eu demonstraria tamanha paixão e técnica como Alex. Ali, dentro d’água, era o habitat dele, era andando sobre as águas que ele realmente se sentia vivo. E, isso era perceptível só de ver como ele atacava as ondas, como conseguia fazer a mais complexa das manobras quando uma pessoa sem prática pensaria que a onda já estava acabando.

Assim que ele chegou na praia, balançando a cabeça para tirar o excesso de água dos cabelos, eu tive que aplaudir.

Ele, já acostumado comigo, nem se importou em perguntar o motivo das palmas.

- Fotos? – Foi o que ele disse quando focalizou a câmera em meu pescoço.

- Mas é claro! Uma paisagem dessa e você dentro d’água é uma combinação imperdível.

- Se importa se eu vê-las só à noite?

- Nem um pouco. E então, veredito? Como está água?

- Quente, do jeito que você gosta, assim não tem desculpa para não surfar hoje. – Ele começou com um sorriso.

- Sabe que não foi sobre a temperatura que eu perguntei...

- Está mais difícil do que na Califórnia. Mas nada que você não consiga. Vai estranhar um pouco, porque terá que ter mais controle da prancha, terá que efetivamente colocá-la na direção que você quer, fora isso, o de sempre.

- Tem certeza de que vai dar certo? – Questionei temerosa.

- Você vai tomar caldo. Vai cair. Muito provavelmente vai me envelhecer uns dez anos em cada tombo, mas vai conseguir surfar sim. Pronta? – Ele me estendeu a mão.

Guardei a câmera na capa e a coloquei em cima da toalha que tinha estendido na areia e ainda joguei uma saída de praia por cima, só para o sol não bater de forma direta, depois peguei a mão de meu marido e fomos para a água.

Assim como na primeira vez em que ele me levou para surfar, Alex foi remando do meu lado e quando chegamos na linha onde as ondas começavam, fez um sinal para que eu parasse.

Alinhamos as pranchas para o horizonte e ele começou a me explicar, de novo, o que eu tinha que fazer.

Ia concordando com a cabeça e observando como as ondas se formavam atrás de nós, virando quase uma parede, para ir quebrar perto da costa.

- Não se preocupe, não tem corais desse lado, assim, não tem risco de você se machucar. – Foi o que ele disse quando olhou na minha direção e deve ter visto o pavor que fiquei com a altura das ondas.

- Tudo bem? Quem vai primeiro? – Perguntei.

- Você. E não se esqueça, rack sempre para o bangalô. Pés firmes e aproveite a onda, Kat!

Inspirei profundamente quando direcionei a prancha para a praia, Alex do meu lado, segurava meu pulso, me mantendo no lugar, até que ele deu um empurrão na prancha, me soltando para seguir a onda que passava.

Remei por um tempo e assim que senti que a onda se formava alta debaixo de mim, fiquei de pé, de início um tanto dura, para então me lembrar de aproveitar o momento, relaxei meu corpo, mantendo a postura e fiz o que sabia, não eram manobras arriscadas ainda, mas dava para o gasto, dei uma cortada na onda, só para me ver dentro de outra, literalmente dentro da onda, pois ela formava um tubo.

Era o meu primeiro tubo e eu estava ao mesmo tempo maravilhada e apavorada, pois por um breve segundo fiquei com medo de ser engolida pela água, mas então, uma outra parte do meu cérebro tomou conta de tudo e eu me vi colocando a mão na água, deixando um rastro de espuma.

Desisti de fazer qualquer manobra, só fiz o que Alex me disse, aproveitei o momento único da minha vida.

Como estava cortando a onda na direção sul, sabia perfeitamente que quando saísse do mar, estaria um tanto longe do meu plano inicial, não liguei muito e quando o tubo se desfez e a onda ficou mais fraca, cismei de tentar dar um salto com a prancha.

Consegui também e, de tão feliz que fiquei, acabei por cair da prancha. Não me importei, e logo voltei à superfície, e levantei o braço, indicando para Alex que estava bem.

Deixei que o mar me levasse para a faixa de areia e depois caminhei um pouco até onde nossas coisas estavam.

Olhei para o mar, e era a vez de Alex de surfar, ele também pegou um tubo, mas, como ele já estava acostumado, ao sair, não caiu da prancha, mas continuou a surfar com maestria.

Assim que ele atingiu a faixa de areia, eu, ainda um tanto eufórica demais com a onda que peguei, corri até ele e só disse:

- Meu primeiro tubo! – Falei feliz.

Alex deu uma gargalhada. Creio que mais de alívio do que tudo.

- É, Kat, eu vi. Apesar de que fiquei um tanto aflito quando você sumiu de vista.

- Foi uma das experiências mais surreais que eu já tive. Não bate surfar uma avalanche, mas foi incrível estar dentro do mar e não estar ao mesmo tempo! – Eu ainda falava. – Queria ter gravado, ou tirado foto...

- Mas você gravou! – Ele me disse e apontou para a GoPro que estava presa na minha blusa.

Olhei para baixo e depois para ele.

- Não acredito!!!

E nesse clima de felicidade nossa manhã passou rápida. Um pouco depois de uma da tarde, paramos para comer algo, voltando para o bangalô.

Tirei o sal do corpo e do cabelo antes de me jogar na cadeira, ao lado de Alex, para comer o que quer que tenham preparado para nós aqui.

- Que horas temos que voltar? – Perguntei. Estávamos deitados na rede que tinha na pequena varanda, só escutando as ondas baterem na praia, quase que dormindo.

- Sol se põe às sete e meia. Levamos certa de trinta minutos para chegarmos aqui, mas tínhamos corrente contra. Com a corrente favorável, levaremos menos, então, podemos voltar às seis e meia, o que acha?

- Acho bom. – Murmurei com sono.

- Só não vale dormir. Isso a gente faz lá no nosso quarto. – Alex apertou a ponta do meu nariz.

- Não vou dormir, só estou descansando os olhos.

- Que desculpa de gente velha, Katerina!

Eu juro que ia respondê-lo à altura, mas acabei dando um bocejo.

- E não vai dormir... Melhor eu te levar de volta para praia. – Ele se levantou de uma vez e me puxou para fora da rede.

Depois de repassar o protetor solar e um bom creme no cabelo, voltamos para a praia, eu duvidava muito que iríamos surfar o restante da tarde, mas não custava aproveitar o mar.

Ficamos na água até que a maré subiu muito e eu fiquei com medo de ser levada pela correnteza quando caísse da prancha.

Alex ainda ficou um tempo na água, mas depois se juntou a mim na areia, se esticando na outra saída de praia.

- Lembra quando eu te falei para fugirmos para o México e abrirmos um bar na praia? – Ele começou do nada.

- Lembro.

- Era dessa vida que eu estava falando.

- Até onde eu me lembro, você teria essa vida, já eu iria administrar o bar...

- Não o dia inteiro. Claro que teríamos isso.

- E segundo você, mais cinco crianças. Aí eu te pergunto: teríamos essa paz com cinco crianças? – Tentei segurar a risada ao imaginar a cena de cinco crianças tão espevitadas quanto Elena, correndo em uma praia assim.

- Se eu não tenho paz quando você está em cima de uma prancha, posso garantir com certeza que não, não teríamos paz para ficarmos de bobeira assim na beira da água, tendo cinco filhos.

- Pelo menos nisso, nós dois concordamos.

- Mas acho que dois não dariam tanto trabalho assim... é só colocar boia de braço, colete inflável e amarrar uma cordinha para não irem muito longe...

Tive que rir.

- Alex, só uma cena para você.

- Qual cena? – Ele se interessou e se virou de lado.

- Elena em Venice Beach, correndo atrás de Stark chorando só porque ele pegou um caranguejo.

Alex parou e se lembrou das férias de verão onde tomamos conta de meus três sobrinhos na praia... e da famigerada cena de Elena.

- Melhor mais para frente, né?

- Entendeu meu ponto, não? – Roubei um beijo dele.

- Creio que sim. – Ele me puxou para perto de si e aprofundou o beijo.

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Deixamos a praia e o bangalô no tempo limite, aproveitamos tudo o que podíamos ali, e quando atracamos na marina, já no hotel, a noite já tinha caído sobre Bora Bora.

— É, eu tenho que dar o meu braço a torcer e dizer que você pilota lanchas melhor do que eu. – Alex comentou assim que me ajudou a subir no atracadouro.

Olhei bem para ele, esperando que continuasse.

- O que? – Respondeu espantado diante do meu olhar inquisidor.

- Só esperando que complete a sua frase, eu piloto lanchas e mais o que melhor do que você? – Perguntei com um sorriso.

E meu marido ficou calado, só me guiando até o local onde deveríamos entregar as chaves da lancha.

- Ainda estou esperando. – Cutuquei suas costelas.

E ele nada.

- Qual é Alex, eu já dei o braço a torcer e disse que você sabe surfar melhor do que eu, já até aceitei que eu não vou aprender os atalhos de Los Angeles igual a você, e que eu ainda me perco nas saídas dos viadutos, o que custa você admitir que eu sou melhor do que você em algumas coisas? – Questionei andando na sua frente, o que não foi uma boa ideia porque, estando de costas para o caminho que tomávamos, quase caí estatelada no jardim. Foi Alex que evitou o meu vexame e me colocou do seu lado, segurando a minha mão.

- Por favor, Kat, olhe para onde está andando! – Ele falou tentando segurar a risada.

- Não troque de assunto.

- Tudo bem, Katerina, você pilota lanchas, carros e motos melhor do que eu, feliz?

Dei um pulinho e aproveitei para dar um beijo na bochecha dele.

- Não doeu tanto assim, doeu?

Alex só apertou a minha mão e me guiou para nossa vila.

A noite foi tão espetacular quanto do dia, pois novamente aproveitamos o show que o hotel preparara e, mesmo cansados, fomos conhecer a casa noturna que tinha ainda dentro dos limites da ilha, voltamos para o quarto com a madrugada já querendo virar dia.

- É a segunda vez em menos de quinze dias que viramos a noite... já não temos idade para isso. – Alex comentou quando se jogou na cama ao meu lado.

Dei uma risada.

- Diga por você, eu ainda sou novinha. – Brinquei antes de me ajeitar.

Alex se sentou e me encarou com uma sobrancelha levantada, e eu fiz o mesmo.

- O que foi que a Madame disse? – Ele me perguntou.

- Que eu aguento virar a noite dançando, você não. – Interpretei a minha fala.

E foi aí que ele olhou bem para o que eu fazia.

- Aguenta mesmo? – Disse eu um tom sarcástico e pegou a ponta do meu dedão, já que eu massageava meus pés depois de ter dançado em cima de uma sandália bem alta.

Dei um sorrisinho na direção dele e tentei puxar meu pé.

- Meus pés não estão doendo. – Menti descaradamente. – Isso aqui é só a minha rotina. – Dei de ombros e novamente tentei tirar meu pé das suas mãos.

- Não estão doendo... sei. – Alex murmurou e começou a massagear meu pé dolorido e, meu corpo me traiu quando eu simplesmente suspirei de alegria por ter meu pé tão bem cuidado. E, claro que meu marido não deixou isso passar. – Kat, Kat, eu vou fingir que acredito em você.

- Mas é verdade. – Falei já totalmente relaxada e quase dormindo.

Alex ainda fez massagem em meu outro pé, e eu acho que deveria ter agradecido por ter sido tão mimada assim, porém, tudo o que eu consegui fazer foi dormir.

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Nossos dias passavam distintos, alguns nós simplesmente gastávamos em nossa bolha particular de felicidade, naquela fase doce e extremamente romântica que todo início de casamento tem, ou pelo menos eu acho que tem.

Eu sei que já morávamos juntos, sei que não havia nenhum mistério de lua de mel entre nós, mas, mesmo assim os nossos momentos juntos eram diferentes. Não sabia explicar como ou porquê, mas cada vez que nos amávamos era diferente daquela primeira vez, ou da nossa última noite antes do casamento.

Nada tinha mudado, mas tudo tinha mudado ao mesmo tempo.

E se eu achei que caminhar até o altar e dizer sim, ou assinar o termo de casamento na frente do juiz de paz não alteraria em nada nas nossas vidas, eu estava plenamente enganada.

Havia mudado.

E Alex era quem estava mais feliz com isso. Ele não se continha, não conseguia evitar o enorme sorriso de felicidade quando me chamava de "Senhora Pierce", ou quando, por algum motivo, tinha que me apresentar e falava, “minha esposa”, o sorriso era automático, aparecia na hora, refletia em seus olhos e fazia aparecer as suas adoráveis covinhas na bochecha.

E eu me peguei sorrindo junto, não pelo título recém adquirido, mas pela felicidade genuína dele.

E, lá no fundo, por certo orgulho também, porque ele era meu. Sim, meu. Ele poderia ter escolhido qualquer mulher nesse mundo, ainda mais com a profissão que tem, mas me escolheu. E mesmo com todos os meus problemas e inseguranças, ele me pediu em casamento, ele esperou até que eu estivesse pronta para dizer sim.

Alex era tudo e mais um pouco do que um dia eu sonhei para mim, na verdade, eu nunca sonhei com o príncipe encantado, nunca quis viver em um conto de fadas, porém foi isso o que eu ganhei.

Eu ganhei na loteria no dia em que nos conhecemos, e nem fazia ideia.

E agora, aquele Poseidon, que saiu do mar de Venice Beach depois de ser ovacionado por todos os surfistas que lá estavam, estava do meu lado.

Alex ainda dormia, um braço jogado em cima da minha cintura, uma perna em cima da minha, suas costas nuas e já bronzeadas recebendo o sol da manhã, sua expressão, mesmo depois das atividades nada bentas da noite, era serena e ele tinha um leve sorriso nos lábios.

Fiquei um tempo admirando o meu marido. Se eu já fazia isso quando éramos apenas noivos, agora eu poderia fazer pela eternidade, porque eu sabia, nossos votos se estenderiam para sempre.

Dei um suspiro e Alex se remexeu, tentando me levar para junto dele, fui de bom grado e ainda mais próxima a ele do que já estava, pude observar seu rosto, seu corpo, o desenho de cada uma das tatuagens que eu já sabia de cor e, se me pedissem, poderia desenhar de olhos fechados.

Eu poderia observá-lo por horas enquanto ele dormia, e não enjoaria, mas eu sentia falta daqueles lindos olhos azuis como o mar.

- Você sabe que encarar é falta de educação, não sabe? – Ele me surpreendeu ao falar, ainda de olhos fechados.

- Não estava encarando. Estava observando. – Murmurei.

- É a mesma coisa, Katerina.

- Não é. E, não é falta de educação ficar observando o meu marido. – Comentei. E, sem pensar muito, notei que era a primeira vez que eu falava em voz alta o que Alex era para mim.

Meu marido.

Ele, claro, notou isso antes de mim, e, ainda de olhos fechado, abriu um sorriso.

- Será que você pode repetir isso? – Pediu.

Dei uma risada.

- O que?

- As três últimas palavras que você disse antes.

- Que você é o meu marido? – Repeti devagar.

Alex abriu os olhos na mesma hora, e eu não estava preparada para a potência e a beleza que eles eram.

- Já te falei que você tem olhos lindos? – Comentei ao pousar a mão na sua bochecha e começar a acariciar seu rosto.

- Eu tenho que te apresentar um objeto chamado espelho, Katerina. – Ele falou. – Aí você vai saber o que realmente é ter olhos lindos.

- Não é sobre cor, Alex. Apesar do azul dos seus olhos ser algo particularmente lindo e quase único, não estou falando disso. Mas sim de como o seu olhar é lindo.

Para isso ele não teve respostas, ou melhor, palavras, pois a resposta ao que disse apareceu em suas bochechas e na ponta de suas orelhas, que começaram a ficar vermelhas.

E foi aí que eu sorri ainda mais, porque normalmente essa é a minha reação quando ele me elogia, e nesta manhã, eu tinha conseguido que ele ficasse corado.

- Sim, são os olhos mais lindos do mundo. – Tornei a falar.

E para tentar mudar o foco da conversa, ou melhor, para tentar tirar o foco dele, Alex me puxou para cima de seu corpo e começou a me beijar.

- Que tal se a gente continuasse o que não terminamos durante a noite, hein? – Perguntou ao mordiscar o lóbulo da minha orelha.

- Até onde eu sei, nós terminamos sim. – Comentei um tanto já entregue demais às carícias que ele fazia no meu corpo.

- Então, reformulando, que tal reiniciarmos aquelas atividades?

Ele não esperou por minha resposta, pois bem, a única que eu poderia dar, ele já estava vendo, pois estava à sua mercê e derretendo sobre o seu corpo.

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E entre dias gastos surfando, ou entre lençóis, ou só aproveitando a praia para tirarmos as mais diversas fotos, e noites de romance e jantares a luz de velas, a nossa lua de mel chegava ao fim.

- Nossa última manhã aqui. – Murmurei escorada no beiral da janela aberta, observando o monte e as águas da baía.

- Não pense você que vamos ficar à toa! – Alex surgiu do banheiro, enxugando o cabelo com uma toalha.

Dei uma boa olhada para o que ele usava, ou melhor não usava.

- Achei que iriamos aproveitar a privacidade dessa vila. – Comentei sorrindo.

- E depois eu sou o insaciável. – Ele disse parado na minha frente, sua altura fazendo uma sombra descer sobre mim.

- Acho que aprendi com você. – Arranhei seu peito com a ponta da unha, tentando ganhar mais um tempinho na cama com ele.

Alex segurou meu pulso e me puxou até que eu ficasse de pé na sua frente.

- Vou te levar para fazer algo que você nunca fez comigo, ainda.

Tombei minha cabeça e tentei pensar no que seria.

- Uma dica seria bem vinda... – Fiquei na ponta dos pés e rocei meus lábios nos dele, mas ele estava irredutível quando me respondeu.

- Ponha um biquini. Comportado, não esses que você tem usado perto de mim.

- Achei que estava gostando. – Dei um sorrisinho na sua direção.

- Gostar eu gostei, mas para o que vamos fazer, eles são pequenos demais.

- Vamos surfar aonde hoje? – Foi a minha resposta automática, já que eu tinha biquinis para o surfe e biquinis para a praia, e, bem agora, tinha biquinis para lua de mel também.

- Kat, não estrague a surpresa, por favor. – Alex colocou as mãos em meus ombros e me guiou até o outro lado do quarto.

Dei um suspiro e resignadamente fui tomar um banho.

- Última chance. – Parei na porta do banheiro. – Tem certeza de que não prefere meus “nada bentos biquinis” ou seus primos mais sensuais? – Perguntei e apontei para a cama.

- Kat.. Nós vamos mergulhar. E por favor, pare de tentar me seduzir, de novo, nessa manhã. – A cara de sofrido de meu marido me indicou que ele estava usando o seu autocontrole para conseguir cumprir com a agenda que ele havia planejado para o dia.

- Tudo bem. – Cedi e fechei a porta.

Estávamos indo em direção ao restaurante, onde iríamos tomar o café da manhã, quando me peguei nervosa.

- Então vamos mergulhar? – Perguntei um tanto eufórica e aflita demais.

- Nervosa. – Alex pegou a minha mão.

- Apesar de saber nadar, eu não sei mergulhar. E só de pensar que eu não posso respirar pelo nariz já me deixa um tanto ansiosa.

- Não é difícil, pode parecer sufocante no início, porém você se acostuma.

Balancei positivamente a cabeça e tentei tirar qualquer pensamento estranho de minha mente, me concentrando no café da manhã.

Alex, como sempre, parecia que comia por um batalhão.

- Vai comer só isso?

- Sabe que eu não tenho fome de manhã. – Encarei meu marido, que encarava nada feliz a minha salada de frutas.

- Kat, vamos ficar uma boa parte do dia dentro ou de um barco, ou dentro d’água, acho que você vai precisar de mais força do que essa salada pode te dar. Acredite em mim, você vai gastar energia hoje, tanto quanto gasta surfando.

Acreditei nele e dei uma incrementada no meu café.

E depois de Alex comer quase todo o buffet do café da manhã, rumamos para a área onde nos emprestariam os equipamentos de mergulho.

Confesso que a ansiedade de antes do café voltou, e mesmo acreditando nas palavras de Alex de que eu não sairia bem, comecei a pensar se isso era mesmo uma boa ideia.

Assim, quando chegamos ao local onde os equipamentos eram emprestados, eu tinha uma expressão de dúvida tão grande estampada em meu rosto, que até o rapaz responsável pelos equipamentos me disse:

- Não é nada complicado, moça, até uma criança consegue. – E me entregou o meu cilindro de oxigênio e uma máscara nova, além de pés de pato.

Fiquei grata em saber que não era necessário um equipamento muito pesado, afinal, não iríamos muito fundo.

Depois de uma aula rápida e bem instrutiva sobre o equipamento e o que iríamos ver, partimos com um grupo de mais quatro pessoas para o outro lado do resort, onde havia recifes de coral e as águas eram um pouco mais profundas.

- Entendeu toda explicação? – Alex me perguntou enquanto conferia se meu equipamento estava bem ajustado.

- Sim. – Falei com um entusiasmo maior do que eu tinha, só para acalmá-lo.

- Tem certeza?

Franzi o nariz e fiz uma pequena careta.

- Vai dar para me virar, Alex. Pode ficar tranquilo.

A escuna que nos levou até o ponto de mergulho parou, nosso instrutor deu os últimos avisos de praxe e nos liberou para o mergulho.

Esperei os demais, e mais apressados, casais pularem nas águas e depois olhei para Alex, como que dizendo, vai na frente que eu vou logo em seguida.

Alex mergulhou e me esperou.

Dei um pulo um tanto desajeitado por conta do tanque de oxigênio que eu carregava e nadei até o seu lado.

- Precisava humilhar? – Reclamei quando o alcancei.

- Você poderia ter mergulhado também, Kat, sabe nadar muito bem, por que não o fez?

- Estou carregando um trambolho nas minhas costas, acha que meu ponto de equilíbrio é o mesmo? O máximo que ia acontecer era eu me esborrachar no chão da escuna e virar motivo de piada. – Falei azeda.

Alex não se incomodou muito com a minha fala e já foi logo trocando de assunto:

- Pronta para ver o que temos por aqui?

Olhei para a água clara do mar e sem mergulhar já era possível ver alguns peixes, e me animei por saber o que teria mais no fundo.

- Vamos lá.

Coloquei os óculos e ajustei a máscara para poder respirar pelo tanque, de início me foi um tanto complicado não respirar pelo nariz e acabei por me atrapalhar um pouco, mas com o passar dos minutos, me acostumei com a ideia e pude admirar o fundo do mar, exatamente como Alex disse que aconteceria.

Como a água por aqui era muito limpa, os raios do sol chegavam até o fundo do mar, sendo possível enxergar tudo nos mínimos detalhes.

Nadávamos lado a lado, porém tinha horas que eu era obrigada a parar para observar com calma tudo o que via. E, em uma dessas paradas, Alex parou do lado, tentando entender o que tanto tinha chamado a minha atenção.

Como não podíamos efetivamente conversar, acabamos por nos comunicar com os olhos e por alguns gestos. Fiz o famoso sinal de esperar e apontei para uma parte do coral.

E, com pouco, um pequeno cardume de peixes coloridos passou por trás das pedras, e de alguma forma, em suas escamas refletiram a luz do sol na forma de um pequeno arco-íris.

Nesse instante, eu quis ter uma câmera em mãos, só para filmar a beleza do que via, mas como ando com a cabeça nas nuvens, deixei a Go Pro no quarto.

Com pouco, Alex me cutucou no ombro e apontou para a direção aposta de onde estávamos e logo pude ver um casal de peixes palhaço.

Dei uma risada interna ao lembrar de quando a minha família me encheu a paciência por conta dos meus tombos no surf, há quase três anos... um dos comentários era se eu havia visto do Nemo debaixo d’água.

Ficamos um bom tempo nadando por ali, sempre tentando não se perder nas cores e formatos dos corais, e, faltando um pouco mais de dez minutos para acabar o oxigênio de nossos tanques, começamos a subir, para podermos fazer a transição para o ar livre sem nenhum problema.

A primeira coisa que fiz assim que pude voltar a respirar pelo nariz, foi tirar o tanque das minhas costas e entregá-lo ao funcionário responsável por guardá-los, claro, agradecendo ao empréstimo.

- E então? – Alex perguntou quando se sentou do meu lado.

- Uma das coisas mais belas que já fiz e vi. – Falei e ainda tentei um último vislumbre das águas.

- Acho que vou ficar com ciúme... – Alex brincou, pois ele ainda tentava me falar algo, e eu, distraída como estava, não prestei atenção.

- De que? Do fundo do mar? – Perguntei ao escorar minha cabeça em seu ombro.

- Ou seja lá o que você viu lá embaixo.

- Não acho que você precisa ficar com ciúmes dos seus domínios. – Comentei casualmente e, lógico, pude sentir que Alex tinha estranhado a minha fala.

- Domínios? – Ele perguntou curioso.

E, como eu estava saudosa hoje, tive que me explicar, assim, me desencostei dele e encarei seu rosto.

- Sim. Seus domínios. Pois a primeira coisa que pensei quando te vi saindo da água, naquele sábado de manhã em Venice Beach, depois de você ter dado um show em cima da prancha, foi que você parecia o Poseidon, o Deus dos Mares.

Alex levantou uma sobrancelha, ainda tentando absorver o meu comentário.

- Estou falando sério. – Tive que reafirmar minhas palavras, pois ele ainda estava um tanto cético.

Alex coçou a cabeça e depois abriu um sorriso.

- O que foi? – Perguntei até temendo o que ele iria falar, pois, mesmo sem poder ver seus olhos, que estavam ocultos pelos óculos de sol, eu sabia que ele iria aprontar uma.

- Nada, Kat... só pensando que eu nunca ouvi história nenhuma em que o Poseidon se apaixona pela Rainha do Gelo.

- Definitivamente, os opostos se atraem, não é mesmo? – Perguntei e roubei um beijo dele.

- É. Isso daí é verdade.

Com pouco nosso piloto deu a partida no barco e voltamos para o hotel, o dia já passava da metade e, mesmo sem ter acabado ainda, eu já sentia falta desses dias de paz, tranquilidade e sem nada para fazer que passamos aqui.

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- E agora? O que você preparou? – Perguntei assim que ele me ajudou a descer da escuna, já no hotel.

- Almoço? – Ele respondeu com uma simplicidade tão grande que eu acho que ele não tinha preparado mais nada.

- Claro, por que seria outra coisa, sendo que você está sempre com fome? Porém...

- Lá vem você...

- Não sei você, mas eu preciso de um banho antes, e de arrumar o cabelo. – Puxei a ponta do rabo de cavalo, que depois de ter sido secado naturalmente pela velocidade da escuna, estava de dar dó, todo embolado e cheio de frizz.

Fizemos uma parada rápida no quarto e depois fomos para o restaurante.

- Abasteça suas energias direitinho. – Alex comentou quando viu o meu prato.

- E posso saber o que você tem contra a minha salada com peixe grelhado?

- Nada, só que você vai gastar muita energia surfando do meu lado agora de tarde.

- Achei iríamos fazer outro passeio de lancha e você iria demonstrar os seus dotes de piloto na água, que não mostrou no primeiro passeio, porque nós dois sabemos que pilotar no asfalto não é lá sua maior qualidade. – Brinquei com ele.

- Não pense que a sua ideia de ter virado a fotógrafa da turma só para evitar surfar vai colar aqui. Eu até te liberei de surfar as ondas gigantes em Portugal, porque não queria ficar ainda mais preocupado com você, já que você cismou que nos deixar no topo da onda e depois tirar as fotos era mais importante do que surfar, mas aqui, que não tem lá muitos perigos, você vai surfar.

Fiz um bico, achei que estava a salvo dessa ideia, afinal, eu já tinha surfado com ele e não estava tão afim assim de ser humilhada pelo talento dele dentro d’água.

E Alex deu um suspiro, respondendo ao meu pensamento logo em seguida.

- Eu preciso gravar você surfando agora, só para te mostrar o tanto que evoluiu nos últimos dois anos. Algo que você claramente não concorda. E, claro que nessa equação tem um fator muito importante. – Ele começou e parou.

Eu juro, tentei não dar munição para ele, mas Alex, mesmo diante do meu silêncio, continuou.

- Não quer saber o que é?

Baixe meu garfo e encarei-o.

- Não. Porque do jeito que você é, aposto que é algo muito maior do que realmente importa.

- Não seja estraga prazeres, Katerina, eu sei que está cheia de curiosidade.

- Ha! Mas é aí que se engana, não estou nem um pouco curiosa.

Alex me encarou, eu o olhei de volta e ele logo abriu um sorriso e disse:

- Você quer saber sim.

- Não, eu não quero.

- Dupla negação, significa que quer!

- Senhor! Que marido mais chato esse que fui arrumar!

- Sou seu chato preferido, Kat! Agora, você quer saber?

- Se for para você me deixar almoçar em paz, sim, eu quero saber. Qual é o fator determinante para eu ter evoluído tanto no surfe?

- Seu exímio professor. – Ele disse na maior cara de pau e eu fiquei perplexa. Tão perplexa que quase desisti de almoçar e voltei para o quarto.

- Sério? – Perguntei depois uns dois minutos calada, esperando que ele falasse algo realmente útil.

E Alex, que estava com a boca cheia, apenas meneou a cabeça. E eu me permiti não dizer qualquer outra coisa, porque já basta uma simples pergunta para seu ego já inflado ficar ainda maior.

- Se você ficou me enchendo a paciência de manhã falando que eu comi todo o buffet do café da manhã, o que eu posso dizer sobre a sua atuação na parte das sobremesas.

- Eu não comi tanto assim! – Reclamei.

- Você foi lá duas vezes. E me fez ir outras duas. – Alex disse.

- Não é minha culpa se aquele doce folhado estava tão bom. – Me defendi. – E, além do mais, eu vou gastar muita energia em cima de uma prancha de surfe agora a tarde, nada mais justo do que armazenar essa energia agora.

Alex deu uma risada e me abraçou pela cintura.

- Falou igualzinha à Elena agora.

E nossa última tarde no paraíso foi gasta dentro d’água, pela primeira vez eu não caí em nenhuma das minhas tentativas de surfar, cheguei inteira na praia e ainda peguei dois tubos.

Manobras eu não fiz, ainda não estava pronta para isso, mas confesso que me diverti muito mais surfando aqui do que já havia me divertido.

A luz natural já tinha quase acabado, éramos os últimos surfistas na linha d’água esperando por uma onda, quando Alex simplesmente me fez a seguinte pergunta:

- Que tal pegarmos essa onda juntos?

E eu só pude pensar na maluquice que era quando meu marido dividia a onda com Will, os dois sempre acabavam caindo da prancha e tomando um caldo tão forte que acabavam por passar mal.

- Tem certeza? Ou melhor, você não vai passar na minha frente e me derrubar da prancha, clamando que roubou a minha onda?

- Kat, eu só roubo ondas do meu irmão, não vou fazer isso com você. E então? Vamos juntos?

- Tudo bem... – Comentei um tanto incerta e virei minha prancha para a praia, Alex fez o mesmo e quando ele deu o sinal, comecei a remar, acompanhando os movimentos dele.

E, por mais incrível que possa parecer, nós conseguimos surfar lado a lado, sem ninguém cair, sem uma prancha esbarrar uma na outra, Alex ainda tentou me fazer copiar uma manobra que ele fazia, mas preferi ficar na minha e deixá-lo se divertir.

Chegamos na praia juntos e quando nos viramos, o sol se punha no horizonte, pintando o mar de dourado, laranja e rosa. Alex me puxou para o seu lado e antes que eu pudesse olhá-lo nos olhos, ele foi logo me beijando, feliz demais por eu ter aceitado surfar uma onda com ele.

- Se eu soubesse que você ficaria tão feliz assim só por dividir uma onda comigo, creio que teria feito antes. – Murmurei contra seus lábios.

A risada que ele deu foi a resposta que eu precisava, e me indicava que ainda faríamos muito isso.

- Vamos passar essa noite só eu e você dentro daquele quarto? – Ele me perguntou e em seus olhos eu vi o que ele realmente queria fazer.

- Acho uma despedida justíssima para uma lua de mel.

Pegamos nossas pranchas e de mãos dadas caminhamos até nossa vila enquanto o sol acabava de se pôr, fechando o último dia dessa viagem mágica.

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Nossa viagem de volta não foi direta, primeiro porque o radar indicava um mal tempo não prevista na ilha e segundo, tinha um passeio que eu queria fazer.

Assim, fizemos um desvio um tanto grande demais e paramos na Nova Zelândia.

Não pudemos ficar muito tempo, até porque essa viagem foi decidida de última hora, mas o que viemos fazer era rápido. E, nosso destino não era outro senão Queenstown, e seus três pontos de bungee jump. Porque se eu tive que surfar e mergulhar, além de ficar debaixo do sol por todos os dias, Alex também teria que fazer algo fora da sua rotina.

- Três pontos de bungee jump. – Ele murmurou da sacada do nosso quarto de hotel, o tempo aqui muito mais ameno do que em Bora Bora.

- Sim. Quer começar por qual? – Questionei toda animada enquanto prendia meu cabelo.

- Do mais baixo?

- Já quer tocar no rio? Porque nesse mergulhamos 43 metros e podemos tocar nas águas do Rio Kawarau.

- Se eu sobreviver a esse, a gente pensa nos próximos. – Alex falou.

- Até parece que um pulinho desses vai te matar do coração. – Comentei e peguei a mochila.

Passamos três dias em Queenstown, e cada um deles foi dedicado a um pulo diferente.

No último deles, pude jurar que alguém tinha reconhecido Alex, e tirado uma foto nossa, porém, não liguei, estava curtindo meu marido e uma das loucuras que vínhamos anotando que faríamos juntos um dia.

O voo de volta para casa foi tranquilo, enquanto Alex tirou um cochilo, eu me lembrei que era domingo de Fórmula 1 e dei um jeito de assistir ao Grande Prêmio da Inglaterra, pensando que essa era a primeira vez em anos que eu não estaria presente em Silverstone para ver a corrida.

- No ano que vem eu vou. – Falei feliz ao ver a mensagem que minha sobrinha me mandou, Tuomas todo feliz comemorando a vitória de Lewis Hamilton em casa, e também, da equipe na qual ele estagiava, a Mercedes.

Alex acordou não muito tempo depois, e entre rememorar o que tínhamos acabado de viver, começamos a fazer uma lista, na verdade a lista já existia entre nós, mas agora colocamos no papel, ou melhor, em um arquivo compartilhado entre nós, e não era outra a não ser todas as coisas que queríamos fazer juntos:

E entre ver a Aurora Boreal, pular de bungee jump em vários países, viagens de carro e pelo globo, fomos enchendo de destinos essa lista.

- Pelo visto, teremos que ter umas quatro férias por ano só para cumprir metade dessa lista. – Comentei quando as ideias acabaram.

- Não seria uma ideia ruim, mas acho que eu não poderia fazer isso. – Alex falou.

- E eu lá posso? – Perguntei.

- Também não, mas eu tenho certeza de que iremos cumprir essa lista, essa aqui é a nossa versão daquela famigerada “100 lugares para conhecer antes de morrer”.

E, eu não tinha dúvida, nós não só conseguiríamos ir a todos estes lugares, como acrescentaríamos outros, e ainda colocaríamos pessoas com que dividiríamos essas aventuras.


Notas finais
Bem é isso! Mais uma vez me perdoem pela demora em postar, o próximo capítulo está pela metade, mas não tenho data para postá-lo. Muito obrigada a quem não desistiu da história e mesmo sem atualização continua a ler, vocês não tem ideia do quanto isso me deixa com o caoração quentinho! Até a próxima atualização.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.