Presente do Inverno
9 Sereias Humanoides
Notas iniciais
"Você condena aquilo que não entende."
— Assassin's Creed
Anny não acreditou. Começou a andar de um lado para o outro, com a mão na testa. Estavam realmente perdidos. Iriam morrer pelos cães, ou por fome, água ou pela sanidade que perderiam por estar em uma floresta imensa como aquela.
— Eu consigo me localizar bem — continuou Henry. — sou um sátiro, uma criatura das florestas. Então não estamos completamente perdidos — olhando para os lados, ele apontou à direita: — Está vendo aquela árvore? Se seguirmos por ali, daremos na estrada.
— Nos filmes — disse Lucy. — quando alguém olha para os lados e diz o caminho, quer dizer que não sabe. Ou seja, estamos realmente perdidos.
Alguma coisa cutucou o cérebro de Anny.
— Angelina! — a garota se levantou do chão, parando de desenhar algo na neve. — Você não tem um mapa? Eu te vi usando um uma vez...
— Ter tenho... — Angelina mordeu o lábio inferior, que estava rachado. — Mas não da floresta, apenas da estrada até Long Island.
Com a decepção abatendo-as, seguiram Henry para o caminho que ele apontara. E elas só tiveram a certeza absoluta que era o caminho errado quando névoa começou cobrir o local aos poucos, revelando apenas uma pontada do sol à distancia.
— Aqui deve estar cheios de monstros... — disse Angelina, hesitante. — Melhor voltarmos...
Anny a segurou quando ela deu meia-volta. Continuaram a caminhada sem perceber o que os olhos da artista vira: as árvores cortadas com garras, a neve diminuindo naquele local, o ar sombrio que pairava entre eles, e uma grande descida a frente, completamente escorregadia.
Mas algo que ela pensara estava errado: ali não havia mais cães infernais, e, apesar de ter medo, ela acostumara a vê-los: lembravam-lhe o quadro horroroso que um dia ela vira, e por isso, estavam começando a parecer irreais.
Henry, de repente, sumiu do campo de visão das garotas. Apenas perceberam a situação quando ouviram, não apenas seus próprios gritos, mas como dos outros. Eles sujavam suas roupas, cabelos e rosto, além de amassar suas mochilas e tudo o que continham ali dentro, enquanto rolavam morro abaixo.
Quando conseguiram parar, levantaram-se atordoados até para falar ou respirar. Pequenas galhos, terra e neve grudaram em seus cabelos, e agora fariam um esforço enorme para limparem-se. Olhando para cima, através da névoa, viram surpresos o tamanho da colina. Ali em baixo o um rio corria — provavelmente, o mesmo que interligava o que viram outrora. Em um de seus lados, o rio corria normalmente; no outro, ele batia em rochas e voltava, repetindo a cena diversas vezes. Contudo, as rochas que a água batia formavam uma caverna...
Henry as mandou esperar, para certificar-se que estava tudo bem. Assim que entrou e não sentiu cheiro de monstro algum — que, ao menos, não passavam ali há meses — mandou-as entrar.
O local era como qualquer outra caverna: escura e rochosa. Fazia uma curva no fundo, e quando Anny iria perguntar porquê estavam ali, viu o que chamariam de "luz na escuridão". Literalmente, a luz do dia refletia naquele local, e ela percebeu de cara que seria um atalho para o outro lado: A luz não estava escondendo sua clareza com o morro ou com a névoa, sendo assim, se andassem mais um pouco, chegariam mais rápido a estrada. Talvez Henry tivesse um senso de direção certo...
Eles deram apenas alguns passos quando seus corações dispararam ao ouvir algo se arrastando, semelhante a uma cobra escamosa. O sentido de Henry aguçou. As mãos de Lucy foram para a adaga. E a cabeça de uma menina vazou das rochas.
Poderia ser mais uma tripulante para a jornada daqueles semideuses, mas por mais que fosse ótimo, isso não ocorreria. Porque quando Anny andou em sua direção, pensando em se comunicar, ela viu a cauda da garota de se mexer. Deu vários passos para trás, com os olhos arregalados: uma sereia?
— Não se assuste! — disse a menina, esticando as mãos como se pedisse para parar, ou agarrá-la, ou seja lá o que tentasse fazer. — Não vou machucá-la.
A garota pousou as mãos no chão e se arrastou com a cauda na direção daqueles estranhos. Ela era loira, os olhos azuis como o rio que corria ali fora. Seus cabelos grandes tampavam onde em desenhos animados estariam estrelas-do-mar. Com sua cara redonda, aparentava ser uma sereia jovem.
— Meu nome é Maena — apresentou-se. — Vocês estão perdidos...?
— Por que? — Henry sacou o arco. — Se estivermos? Irá nos encurralar e nos comer?
Ela afastou-se em alta velocidade, escondendo-se atrás das pedras.
— É que... Desde que aqueles cães desabitaram o local, moro aqui. Depois, ninguém vem nessa caverna. Nunca veio.
— Como é que... — Henry esticou a cabeça, assinalando para as garotas passarem enquanto ele a distraía. — ... você come? Por que não está com seu bando?
— Elas atraem humanos e depois os comem; eu, por exemplo, só como os peixes do rio...
— Você precisa de água para sobreviver, mas vejo que você passa mais tempo na terra que na água.
Ela olhou por cima das pedras.
— Eu sou diferente. Veja...
Ainda com o arco apontando, Henry observou a sereia se levantar com dificuldades e se transformar. Bolhas emergiram ao redor de sua cauda, criando pernas cobridas por uma saia colorida, igual sua ex-cauda.
— Eu não vivo com elas, porque eu sou metade humana. Sendo assim, preciso viver mais na terra que na água — Henry engoliu um berro. — Se estão perdidos... Eu posso levá-los até a estrada.
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