Presente do Inverno
5 Oportunidade?
Notas iniciais
"A boa sorte é uma impostura. O verdadeiro sucesso exige sacrifício."
— A Marca de Atena
Anny abriu a boca, inacreditavelmente perplexa.
— Culpa nossa? Nós só queríamos um abrigo!
— Cães infernais? — perguntou Angelina.
— Há cheios deles por aqui — disse Henry. — mas vocês o atraíram com seu cheiro. Além do mais, eles nunca atacaram nossa vila.
— E por que você está nos ajudando? — perguntou Anny.
— Porque é meu dever.
— Então você é um sátiro, é? — disse Anny, sentada em baixo de um pinheiro. Ela observava as pernas peludas de Henry. — E somos semideusas...
Henry assentiu.
— Seres mitológicos, assim como aqueles cães.
Anny tremeu de frio, mesmo com sua jaqueta. Ela gostaria de fazer mais perguntas, pois aquilo deixava sua mente confusa; mas não havia nada mais a discutir.
— Sorte a sua Angelina — disse Henry, meio que querendo puxar assunto. — por não ter morrido quando aquele monstro lhe atacou.
Angelina estremeceu. Se Henry estivesse certo, May, sua mãe, só não havia mandado ela para o acampamento antes pois achara que ela poderia ter mais chances sobreviver sem saber sua origem; mas aquele era monstro era apenas um sinal...
Henry levantou-se, com os olhos fixos.
— Mais cães — ele olhou para elas. — precisamos ir.
Elas olharam a última vez para trás, vendo uma fumaça branca acima dos pinheiros, marcando o céu escuro cheio de estrelas, logo vindo da vila de Henry. Correram.
As pernas de todos doíam, enquanto eles andavam de um modo que só zumbis conseguiam.
— Sabe — disse Angelina, gastando energia. — Isso está me lembrando um desenho que uma vez vi em um livro. Eram os irmãos Baudelaire, de Desventuras em Série, quando eles passaram a noite correndo por obrigação do vilão.
— Você lê livros? — Perguntou Henry. — A maioria dos semideuses tem dislexia; não conseguem ler.
— Bem, eu não sou muito de ler livros, mas não por que tenho dislexia. Quer dizer, minha cabeça dói quando vejo essas minúsculas palavras, mas... — Ela esbarrou em Anny, que havia parado. Cambaleou para trás. — Ei!
Anny e Henry olhavam fixamente para frente, observando algo que Angelina não vira antes: cães e mais cães infernais farejando o chão. Era bizarro para um monstro, mas seus amigos estavam tentando fazer todo o silêncio possível, sem movimentos bruscos. Agachando-se, eles arrastaram-se até parecerem seguros, e se levantaram, suspirando em alívio. Até ouvirem um uivo.
— É um chamado — disse Henry. — precisamos correr.
E o fizeram, talvez tardia, pois podiam ouvir passos pesados atrás. Não, não, não, não...
Eles correram tanto que chegaram à um penhasco, onde um rio corria ali em baixo. Em um filme, eles seriam cercados sem saída, então alguém os salvaria. Mas eles não foram tolos, apenas viraram para o lado e continuaram correr até uma avistarem uma ponte. Quando a atravessassem, estariam nos Estados Unidos.
Foram cautelosos, pois a ponte era de madeira antiga, então estava fraca. Anny pensava que aquilo iria cair — não, ela tinha certeza. Mas não aconteceu, pois não estavam em um filme, por mais que parecesse.
Do outro lado, eles ficaram mais tranquilos, contudo sabiam que, se monstros não atravessassem pontes, teria ainda assim mais deles na redondeza. E eles tinham razão.
Em certo ponto, Angelina esbarrou em Anny novamente. A menina não repara que, a partir daquele momento que eles haviam atravessado a ponte, as árvores distanciavam-se, entre grandes espaços de uma para outra. E, agora, não eram cães que Anny observava. Era uma oportunidade.
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