Abri os olhos e me assustei ao ver aquele quarto luxuoso. O que? Não é possível. Isso era real? Pra mim não havia passado de um sonho. Me recordei das minhas tentativas de sair daquele lugar, que duraram quase a noite inteira. Mack ficou sentado o tempo todo me observando, e em todas as minhas falhas ele falava “Você pode tentar o quanto quiser, esse lugar não tem saída”. Depois de muito tempo que nem mesmo sei me rendi, sentei no chão e suspirei.

—Tudo que tem como entrar, tem como sair.

Disse determinada, mas já estava tão cansada que não iria continuar tentando. Não naquela noite.

—Sim- disse Mack me levantando de cara mal humorada- mas há coisas além da sua compreensão, pra toda regra tem uma exceção, e esse lugar é uma delas.

Ele me levou até o quarto e prometeu me responder a todas as minhas perguntas quando eu acordasse, mas tive o sentimento de que ele apenas disse isso para que eu o deixasse em paz, ele parecia não gostar da minha presença naquele lugar.

Me levantei e comecei a olhar em volta, estava tão cansada a noite que nem reparei no quarto, apenas fui direto pra cama. O lugar era gigante, a cama era aquelas exageradas de contos de princesa, havia uma penteadeira, uma janela gigante de frente para a cama, estava frechada com uma gigantesca cortina que quando abri, apesar dos meus olhos doerem com claridade, me encantei com a vista para o lago que a janela tinha. Haviam três portas no quarto, abri a primeira e deu para um closet muito maior que até mesmo a cozinha da minha casa, o closet estava lotado de roupas, vestidos glamurosos, roupas de montaria, de festas, bailes, e até mesmo uns pijamas que quando toquei me assustei ao sentir um tecido tão confortável. Enfim, tinha de tudo naquele lugar. Me deparei com um espelho e percebi o quão suja estava. Suspirei.

Abri a segunda porta, essa era a saída do quarto, e não. Não era a que queria. Fui para terceira, e agora sim. O banheiro, esse era maior que minha cozinha e meu quarto juntos. Tirei a roupa e resisti ao meu desejo de tomar banho na banheira, fui para o chuveiro, seria mais rápido e estava com pressa. Achei tudo necessário para minha higiene pessoal lá, terminei e me vesti, com um short e uma blusa qualquer, estranhamente tudo naquele lugar era do meu tamanho.

Sai do quarto, e sinceramente, nem preciso dizer o quão grande era essa casa, castelo, mansão ou seja o que for esse lugar. Como iria achar Mack aqui? Olhei em volta sem ter nem ideia de por onde começar, então fiz o que qualquer pessoa normal faria. Comecei a gritar. Pra caralho. Com toda a força que tinha.

No meio da gritaria ouvi uma porta batendo e dei um sorriso, indo em direção ao barulho encontrei um Mack de cabelo bagunçado e cara inchada de quem acabou de acordar.

—Sabe, eu sou uma pessoa que aprendeu a viver sozinho, e gostou. Você quer saber o porquê?

—Porque você pode fazer o que quiser, óbvio.

—Exatamente, e isso inclui dormir até a hora que eu quiser, sem ninguém pra me encher o saco.

—Você tem noção de que horas são pra ainda estar na cama? -disse olhando em volta em busca de um relógio, já que aparentemente ali não tinha energia para carregar meu celular -mas sério, que horas?

—Aqui não tem isso de horas.

Respondeu estressado coçando o olho e virando pra voltar para o quarto mas eu o segurei.

—Não, eu tenho dúvidas, você disse que iria responder.

—Menti, mudei de ideia, perdi a vontade.

Me pus na frente da porta e abri meus braços.

—Você nem imagina o quão irritante eu posso ser, e o quão insistente. Você vai responder a todas as minhas perguntas ou não vai ter nem um misero segundo de paz enquanto eu estiver aqui, o que pelo visto meu amigo, vai ser um bom tempo se você não me ajudar a descobrir como sair.

—Desce as escadas e vira todas as direitas que vai chegar na cozinha, lá vai ter o café da manhã -ele disse me empurrando- quando eu descer respondo o que quiser.

Sai saltitando da frente dele mas ouvi ele falar um “demônio de menina” alto o bastante para que eu pudesse ouvir. Fiquei puta mas só até chegar a cozinha e ver aquela mesa gigante cheia de comida algumas que nunca nem vi na vida. Não ia nem mesmo dar pra provar de tudo de tanta coisa que tinha. Catei um prato e fui colocando as comidas aleatórias até não caber mais.

Depois de um tempo Mack desceu, já todo arrumado e me assustei ao perceber que encarava ele de boca aberta e com metade de um donuts na mão em direção da mesma.

—Ham- disse colocando o donuts de volta na mesa despistando minha cara de encanto- hum, quando foi que você fez tudo isso?

—Começa com as perguntas cedo ein -respondeu colocando algumas coisas no prato dele- eu não fiz nada disso, as refeições só aparecem ai, feito mágica. Exceto quando tem alguém no cômodo, já fiquei horas esperando pra ver acontecer e só apareceu quando eu sai.

—Olha, você pode estar levando na brincadeira, mas pra mim é sério, se for responder a tudo o que eu perguntar dessa forma nem...

—Eu não tô brincando, você pode testar por si própria -falou enquanto enchia seu copo de suco- acredite no que quiser. Próxima pergunta?

Suspirei. Não que eu acreditasse, mas também não estava duvidando.

—Como eu saio daqui?

—Já disse, não tem saída, tento sair desde que cheguei.

—Você tá preso aqui?

—A essa altura do campeonato achei que pelo menos isso já teria percebido.

Quanto mal humor. Mas senti pena dele.

—A quanto tempo?

—Aqui existe dia e noite, não sei o tempo ao certo. Uns cinco ou seis anos. Ou sete.

—Sozinho?

—Você realmente não escuta né? Sim, sozinho. A madame é a primeira a chegar aqui.

Como ele aguentou?

—Por que eu?

—Esperava que você fosse me responder essa.

—Mas eu não sei.

—É, já notei -ele fez pouco caso e continuou comendo, para ele a única novidade nesse lugar era eu, a qual ele não aprecia muito animado com.

—E sua família? -ele olhou para mim na hora parando o que estava fazendo- eles não te procuraram? Não fizeram nada? Como veio parar aqui assim?

A expressão dele mudou, ele estava totalmente sério, com um brilho sinistro nos olhos.

—Vim parar aqui do mesmo jeito que você, alguém me empurrou- ele levantou irritado- perdi o apetite.

E assim ele saiu, me deixando sozinha naquele lugar com comida o bastante pra alimentar todo o meu bairro por uns bons dias. E sem responder a minha pergunta.

Depois de terminar o café fui andando pela casa, mas sem mesmo olhar em volta. Acho que esperava trombar com Mack. Não perguntaria o que aconteceu nem nada assim, também não pediria desculpas apesar de algo em mim insistir que devia. Que eu saiba, não fiz nada e errado. O surtado era ele. Mas ao mesmo tempo decidi não fazer mais perguntas pessoais a ele, meu único foco era sair dali. Assustei ao ver que já estava no hall de entrada, e não fazia a mínima ideia de como havia chegado ali, mas ainda assim sai da casa, e me deparei com aquela parede de mato que nos cercava a distância, fui caminhando até lá.

Me ajoelhei na frente e coloquei minha mão no arbusto, esperando por algum milagre que ele se abrisse de novo. Nada. Abaixei minha cabeça e suspirei, que raios de lugar era esse? Peguei meu celular do bolso, novamente à espera de que algum milagre fosse acontecer e sua bateria recarregaria sozinha, novamente, nada. Fiquei parada com o celular em uma mão e a outra na parede, e me assustei ao sentir uma lágrima escorrer. A limpei as pressas, mas quanto mais eu pensava na minha família, mais elas escorriam. Minha irmã havia voltado pra casa? O que aconteceria se ela descobrisse que agora a desaparecida sou eu? E meus pais, perder duas filhas no mesmo dia? E se eu nunca for capaz de escapar daqui, nunca vai haver uma despedida? Sim, eu vou ser só mais uma dor no peito daqueles que amo, só mais um cartaz de desaparecido, só mais uma pessoa que sumiu, e ninguém nunca vai descobrir para onde fui, é um péssimo destino, e não importa o quanto pensava, não conseguia entender o motivo de acontecer algo assim comigo, por que esse lugar me queria aqui? Eu estava tão perdida.

No meio dos meus soluços senti uma mão no meu ombro, sabia quem era. Mas não queria me virar.

—Sabe -ele disse enquanto o ouvia se sentar atrás de mim- os primeiros dias são os piores mesmo.

Que belo consolo.

Não falei nada, apenas fiquei ali parada com ele atrás de mim, por tanto tempo que nem mesmo sei. Quando me acalmei me virei para Mack, encostei minhas costas nos arbustos, e o encarei.

—Ter alguém pra conversar as vezes é bom, desabafar sabe.

Ele me encarou, com uma cara de desentendido.

—Na verdade não -suspirou- isso é banal, com o tempo você aprende que a única pessoa que precisa é você mesma.

—Claro, viver sozinho aqui com certeza te mudou. Dá pra ver nos seus olhos, não existe mais esperança em você.

—Não se preocupe -ele riu- seu destino é o mesmo.

—Você que me desculpe, mas eu nunca vou desistir enquanto tiver algo lá fora por que lutar. Eu não sou tão fraca como você -ele deu de ombros e começou a se levantar, porém fui mais rápida e puxei seu braço pra que ele se sentasse de volta- mas também não sou tão forte quanto.

Ele me olhou sem entender, expliquei.

—Eu não consigo viver assim, sozinha. Não consigo deixar pra trás, parar de me importar. E também não consigo aguentar sozinha- suspirei- então, você não quer ouvir o meu fardo?

Calado e sem entender muito, ele apenas acenou com a cabeça.