—Sabe, quando você não conhece a pessoa, e não liga para o que ela pensa fica bem mais fácil de se abrir- disse antes de começar, Mack concordava sentado com perna de índio seu rosto escorado nas mãos e super atento em mim como uma criança, parecia realmente curioso -não é grande coisa, só queria contar.

Avisei já para que ele não pusesse fé demais na minha história.

—Minha família sempre foi bem unida, minha melhor amiga era minha irmã, meio que a causa de como vim parar aqui, estava tão preocupada com ela que nem pensei direito- ele me questionou sobre isso e contei da fuga dela, ouvi ele ironizar baixo sobre como isso era fútil mas ignorei -Enfim, mesmo com o que muitos definiriam como a família perfeita, também tínhamos problemas sabe. Meu pai é órfão, então basicamente eu minha mãe e minha irmã éramos tudo pra ele. Já minha mãe cresceu em uma família muito afetiva, tinha dois irmão e uma irmã, e cerca de dois anos atrás os três morreram em um acidente, como se não fosse o bastante, minha avó morreu alguns meses depois, e meu avô ficou louco, teve de ser internado e não reconhece mais ninguém, ou seja, no fim, viramos tudo pra minha mãe também. Quando soube o que teria possivelmente acontecido com minha irmã, temia que meus pais não aguentariam mais essa, e entrei em desespero. Ela sempre falava que éramos amaldiçoados, e passei a acreditar nisso depois de um tempo. Loucura né?

—Não- ele falou pensativo, mas sério- maldições realmente existem.

Fiquei calada esperando que ele falasse mais alguma coisa, mas foi só isso. Segurei a vontade de questiona-lo o porquê tinha tanta certeza.

—Enfim- depois de um tempo calados quebrei o silêncio- se minha família é amaldiçoada mesmo, eu vir para nesse lugar com certeza é parte dessa maldição, o que me deixa mais preocupada ainda sobre minha família lá fora.

—Ou talvez você aqui seja sua salvação. Ou deles.

Novamente esperei ele falar algo, mas nada. Apenas afirmações sem explicações. Abria a boca para perguntar, mas me assustei com ele pulando em minha direção e pegando meu celular descarregado ao meu lado no chão.

—Meu Deus- ele estava encantado- isso é um celular? Como funciona?

Ele apertava os botões de volume e desligar freneticamente, até que quando não teve resultados olhou para mim desapontado.

—Faz funcionar, eu quero ver- ele ficou me cutucando, mas eu estava perplexa demais para reagir.

—É só um celular, que fuzuê é esse?

—Eu nunca vi um, apenas li sobre.

—Você nunca viu um celular?

—Nunca, queria ver como funciona, o que faz mesmo. Nem acreditei que existiria. É um tipo de mágica né?

—Tá zoando com minha cara?- perguntei desconfiada, mas ele parecia tão honesto que não duvidaria.

—Não.

Foi ai que me ocorreu que ele poderia estar nesse lugar a vida inteira.

—Você tá preso aqui desde quando?

—Vim aos 19 anos.

O que?

—Mas você parece ter 19- aquilo não fazia sentido.

—Eu já disse, o tempo não passa aqui.

—Ainda assim, como nunca viu nenhum modelo de um celular tendo 19 anos?

—Talvez inventaram depois que vim pra cá- ele me jogou o celular decepcionado, se levantou e saiu andando.

—Não, não faz sentido- me levantei e fui atrás dele, o segurei pelo pulso- em que ano você nasceu?

—Hm, 1790.

—Para com isso- disse irritada soltando seu braço- não é possível, você nem estaria vivo.

Havia confusão em seus olhos, ou ele era um ótimo ator, ou realmente não estava entendendo nada.

—Como assim não estaria vivo? Você nasceu quando?

—Em 2001. Estamos em 2019.

Ele me olhou. Ficou calado por alguns segundos, e depois soltou uma gargalhada.

—Isso que não é possível. Essa gente inventa cada coisa.

E entrou pra casa, me deixando para trás com um enorme ponto de interrogação estampado na cara. O que estava acontecendo?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.