Preparativos E Provocações

13 Capítulo XIII – Depois da Tempestade...


POV Hyoga

Eu abri os olhos preguiçoso, eles não abriam direito, estavam meio colados e eu os sentia inchados. Aos poucos fui me lembrando do que havia acontecido, principalmente quando mexi minhas pernas e senti aquela dor latejante no meu traseiro.

Aos poucos e com alguma dificuldade me sentei na cama e esfreguei os olhos, coloquei a mão na minha cabeça pensando em como eu podia ser tão idiota a ponto de fazer todas aquelas imbecilidades e acreditar que eu sairia impune?

Se arrependimento matasse, eu estaria a dez palmos do chão, com certeza. O fato é que eu percebi o quão imbecil eu fui em tentar separar os dois, eles se amam porra! E pior, o Milo é o único que tenta me ajudar o tempo todo... Talvez seja hora de eu simplesmente aceitar isso tudo e ponto.

E da onde raios apareceu o Isaac, assim, do nada? Ele não estava na Austrália? Bom, agora o real garoto problema havia voltado e acho que eu teria um pouco de sossego. Na verdade, era o que eu mais queria, sossego...

Sossego e... Shun! Eu queria ver tanto ele, mas tanto... Será que ele gostou do beijo? Ou melhor, será que ele está bravo por eu tê-lo beijado... Droga, será que meus pais vão me deixar de castigo? Eu preciso muito ir vê-lo, muito!

O cheiro de comida invadia meu quarto, ouvi a voz de Milo batendo na porta devagarinho, como quem não quer me acordar.

- Pode entrar – Eu disse baixinho.

- Oh, meu menino. Como você está? – Era Milo bagunçando meus cabelos e me olhando ternamente.

- Estou bem, na medida do possível. – Eu disse ensaiando um sorriso amarelo.

- Vem aqui, vamos comer, tem coisas deliciosas que acabaram de chegar. Pedi delivery daquele restaurante grego incrível aqui perto, sabe?

- Milo. – Eu disse meio envergonhado – Eu juro que não vou mais atrapalhar vocês dois.

- Eu sei Patolino, eu sei, agora vem comer antes que esfrie.

Milo me levou até a sala de jantar, onde estavam sentados Camus e Isaac. Logo tomei meu lugar, gemendo ao entrar em contato com a base dura da cadeira onde me sentei. Isaac me olhou como quem começaria a rir, mas logo parou quando Camus o encarou.

Nos servimos e comemos enquanto Milo falava sem parar para quebrar aquele gelo da mesa. Até que Camus resolveu cortar aquele blá blá blá, estava ridícula aquela cena.

- Bom meninos, eu quero conversar com vocês. – Disse ele apoiando os dois cotovelos na mesa e o queixo em cima das mãos.

Ambos olhamos preocupados, Isaac mais ainda.

- Como vocês notaram, muita coisa mudou aqui nessa casa. Primeiramente, Milo agora MORA aqui e é um membro da família como todos nós.

- Família? – Isaac perguntou baixo, meio sem entender.

- Sim, filho, família. Ao que parece eu não deixei isso muito claro antes. Bom, eu sempre alimentei vocês, vesti vocês, eduquei e protegi cada um de vocês. Perdi tempo ensinando as matérias de escola, os levando para os treinos, médicos e dentistas durante todos esses anos. Eu estava lá em cada gripe e cada machucado que qualquer um de vocês dois fazia. Eu estava lá nos momentos de dificuldade e dando tudo que vocês desejavam. Achei que não seria necessário deixar claro, mas sim, somos uma família e vocês são filhos para mim, sempre foram.

Isaac arregalou os olhos e olhou para mim, eu apenas dei de ombros e olhei de novo pro meu pai que agora externava mais os sentimentos do que antes. Milo segurou sua mão e eu ensaiei um sorriso, gostava daquela situação, gostava de ter uma família.

- Bom, Hyoga, Isaac, continuando. Eu gostaria de deixar algumas regras claras de agora em diante. Eu sei que vocês são grandinhos e espertos o suficiente para saberem o que é certo ou errado, mas depois não quero ouvir “eu não sabia”.

Milo começou a retirar os pratos sem fazer muito barulho, curioso do jeito que era, já devia saber do que Camus iria falar, por isso não estava colado na cadeira como nós.

- Prestem atenção, as regras aqui serão muito claras!

POV Camus

Eu queria deixar as regras muito claras e as consequências também.

“UM: Respeito mútuo entre TODOS da casa. EU NÃO QUERO VER FALTA DE RESPEITO AQUI DENTRO, SEJA COM QUEM FOR! Isso significa que não quero ver brigas, não quero palavras atravessadas e respostas malcriadas.

DOIS: Obediência às minhas orientações e às orientações do Milo.

TRÊS: Não admitirei, em hipótese alguma, qualquer tipo de MENTIRA!

QUATRO: Vocês dois têm que ser responsáveis, entenderam? Devem ir bem e não faltar aos treinos e às aulas.

CINCO: Para qualquer coisa fora da rotina de vocês, é necessária minha autorização ou do Milo e, claro, o toque de recolher é as dez da noite – nessa hora ambos devem estar aqui, salvo se deixarmos irem a outro lugar”.

Foi quando Isaac me interrompeu.

- Mas como assim? Que merda você fez enquanto eu não estava aqui, Hyoga? Mestre, eu não sou mais criança há muito tempo.

Milo automaticamente voltou da cozinha e ficou me olhando como quem está preocupado com a minha reação.

- Olha Isaac, você é um adolescente, e enquanto viver sob o meu teto, deverá seguir minhas ordens. Eu sei que tudo isso é novidade, mas você vai se adaptar. Hyoga aqui se adaptou na marra, mas aí acho que você será mais esperto não é?

Isaac se afundou no sofá com os dois braços cruzados.

- Bom, você me interrompeu. Aproveitando para explicar que SE VOCÊ OU OUTRA PESSOA USAR UMA DESSAS PALAVRINHAS LINDAS QUE VOCÊ ACABOU DE USAR, VAI TER A BOCA LAVADA COM SABÃO ENTENDEU? EU ODEIO PALAVRÕES E VOCÊ SABE!

Isaac revirou os olhos, Hyoga olhou para o chão e eu continuei.

- Me fiz entender?

- Sim senhor – Hyoga respondeu prontamente.

- ... – Isaac ficou quieto revirando os olhos, eu tinha certeza que ele me daria trabalho num futuro muito próximo.

- Bom, agora podem ir para os seus quartos. Isaac, eu e Milo já arrumamos tudo para você okay? Se precisarem de algo estamos por aqui.

Ambos se levantaram e saíram em direção aos quartos. Eu olhei para Milo e sorri.

- Agora são dois.

- Eu pensei que Isaac só voltaria no começo do ano que vem... Mas seus filhos parecem gremlins, se multiplicam com água.

Eu fiz uma careta boba para Milo que estava de mau humor por eu ter batido no Hyoga, com certeza.

- São nossos filhos... Vem aqui – Puxei meu escorpiano nervoso num abraço e fiquei lá, afagando a cabeça dura do meu noivo durante um tempo inestimável. Eu amava tanto o meu Milo, era tão certo tê-lo em minha vida e eu estava ansioso pelo casamento, não por uma festa, mas para ser marido de Milo conforme manda a lei.

- Camyu... Estava pensando sobre o casamento...

- Sim, Milo, eu também, quero falar com você sobre o casamento. Primeiro, preciso entender o quão falidos estamos e por que raios você gastou tanto com a porcaria de um chá de panelas.

Milo levantou do meu abraço e ficou sentado roendo as unhas, nesse momento tive a certeza de que o rombo era muito maior do que eu pensava.

- Segundo, eu quero adiantar a data.

Milo, que estava preocupado, quase pulou do sofá.

- O que?

- Eu não aguento mais esperar, quero ser seu marido logo. Me cansei disso de noivo, dessa enrolação toda. E eu jamais devia ter te dado tanto tempo para você gastar TANTO. Eu vou amanhã no banco e entender exatamente o que você fez e depois vamos marcar um data mais próxima com uma recepção que não nos impeça de comprar comida pelos próximos quinze anos.

Eu brinquei um pouco, estava preocupado com a situação financeira, mas a realidade é que queria me casar de vez. Esse longo noivado já estava me irritando.

Milo me olhava embasbacado, passou um minuto mudo até acordar de seu transe e pular histérico em cima de mim me beijando e dando gritinhos do quanto ele me amava. Eu sempre fazia cara feia nessas situações, mas a realidade é que eu amava tanto, mas tanto, aquele jeito explosivo e carinhoso dele ser.

Em pouquíssimo tempo ele já havia agarrado minha camisa e lascado um belo de um chupão no meu pescoço, coisa que é deliciosa, mas eu odeio por causa das marcas como ele bem sabe. Mas parecia que ele tinha essa necessidade latente de deixar marcas em mim e marcar território.

Aquele ciúmes bobo, logo fui atacado com um beijo que me tirou de meus devaneios. Ah, beijar Milo era a coisa mais deliciosa do universo. Eu estava perdido em seus lábios e abraços carinhosos quando percebi que Hyoga estava na sala.

Não posso dizer que me senti confortável, a última vez que ele nos viu nessa situação começou toda essa bagunça e revolta por parte do eu loirinho caçula. Eu afastei um pouco e carinhosamente o Milo e olhei para ele.

- Eu pensei que fosse para o seu quarto fazer seus deveres e dormir, filho.

Ele não nos olhava com raiva ou nada do tipo, o que me deixou muito aliviado.

- Não, é que...

Ele não sabia como dizer algo e, Milo curioso como só ele já começou a falar.

- Aaaaaah, o que que você quer? Pode ir desembuchando.

Hyoga sorriu do tom brincalhão do pai.

- Bom, é que... Sabe pai, o senhor não me disse se eu podia...

Então ele parou de falar novamente. Para alguém como Milo, era algo para sair do sério. Nunca entendi essa curiosidade do meu escorpiano. Eu jamais pressiono, se Hyoga não quer falar, que não fale.

- Fala logo Oga!

- Deixa ele Milo, se não quer falar, não fala. Hyoga, vá para o seu quarto terminar o que tem que fazer e dormir.

- Não, espera é que eu queria perguntar uma coisa.

Eu revirei os olhos.

- Hyoga, estamos ouvindo. Se quer falar, fale, senão você tem diversos deveres da escola para fazer.

Hyoga ajeitou a postura e finalmente começou a falar.

- Bom, é que o senhor não me disse se eu estava ou não de castigo... E eu queria muito sair...

- Você quer sair para que, Oga? – Milo perguntou.

- Quero ver o Shun... – Hyoga disse todo encabulado.

- Aaaah Camyu... – Milo me olhou quase implorando para eu liberar o menino.

- Olha Hyoga, eu não me oponho nem um pouco ao namoro de vocês. Mas hoje já está tarde e foi um dia cheio tanto para você como para ele, se quiser telefone, mas hoje você não sai mais. Aliás, você obviamente está de castigo – Ele fez uma cara que deu dó até em mim nessa hora – Mas poderá ver o Shun na escola, aqui dentro e na casa dele.

Quando ele ouviu que, apesar do castigo, ele estava livre para ver o amigo além da escola, abriu um sorriso enorme e veio dar um abraço tanto em mim quanto em Milo. O carinho repentino dele por Milo me surpreendeu, o que só corroborava minha tese de que ele nunca teve problemas com meu noivo, mas somente com si próprio e seus sentimentos.

Logo pudemos ouvir ele correndo para o quarto e telefonando para Shun como um adolescente qualquer apaixonado. Eu e Milo sorrimos, demos as mãos e caminhamos até o quarto para continuar da onde havíamos parado.