Premonição Chronicles
8 Capítulo 07: O Visionário - Parte 2
Notas iniciais
SWEEESH! O segundo cano explode, desta vez com força em um grupo de banhistas que corriam para ver o que tinha acontecido às primeiras vítimas. Esses projéteis começaram a atingir as estruturas dos tobogãs próximos. Todos começaram a correr. As pilastras que sustentavam o monumento começaram a tremer e ruir.
Quando percebo, nenhum dos meus amigos está ao meu lado. Estou apenas eu no meio da multidão atordoada. E completamente sem saída. Que droga! Eu sabia que tinha algo errado em vir pra cá hoje!
E então os jatos de água se transformaram em jatos de sangue e se permutaram ao fogo que saía do monumento. A bomba explodiu e causou as primeiras chamas do que seria a maior tragédia de um parque aquático de todos os tempos. Os outros canos decolaram quando a mesma os atingiu, caindo nos tobogãs e atingindo pessoas que corriam ali perto, procurando refúgio. E por fim, todo o monumento que bombeia água explodiu e as labaredas triplicaram.
Tapo os ouvidos e corro na direção oposta, mas tudo que encontro são pessoas desesperadas. Vários choram, outras sangram muito. Não sei o que eu faço!
Empurro algumas pessoas, na intenção de chegar a algum lugar, e de repente ouço um barulho, um rangido. Olho pra frente, a tempo de ver o grande balde de uma das atrações “Acqua Show”, que despeja 1.800 litros d’água de uma só vez, despencar de uma altura de aproximadamente dez metros em cima de uma jovem que teve o azar de estar no caminho dele. Antes que ela possa se tornar uma massa disforme no chão, reconheço seu rosto. A garota do sorrisão bonito, a que estava acompanhada do rapaz do calção de patinhos. Posso ver um de seus braços esmagados e uma parte de suas pernas e tronco, mas está tão retorcido que não consigo distinguir mais nada. O seu companheiro se afasta carregando uma expressão atônita e corre dali, concluindo que não tem nada que possa fazer pra trazê-la de volta.
Levo minha mão à boca e recuo. O parque todo treme diante de tantas explosões. Olho para todos os lados e o desespero dentro de mim só aumenta a cada passo dado. Minhas pernas estão bambas e meu coração palpita mais rápido. Pra onde devo ir? Gritos histéricos, choros de agonia e súplicas de dor se misturam à sinfonia fúnebre que o caos traz.
Esbarro em um adolescente. Ele chora muito e eu tenho a impressão de já tê-lo visto antes. Ele tenta falar, mas não consegue.
– Sabe onde ficam as saídas de emergência? – Minha cabeça gira demais pra ter a iniciativa de ajudá-lo. Soa egoísta, mas qualquer pessoa em sã consciência procuraria a saída a todo custo. É isso que estou fazendo. – Ou sei lá! Qualquer lugar que sirva como elas?
O garoto chora de olhos arregalados e ainda tenta falar, mas nada sai do canal oratório, a não ser arfadas agonizadas. Aquele rosto... Ele também é familiar, assim como todos que vi hoje, mas minha memória oscila e de tal forma, que não me lembro de onde o conheço. Talvez do facebook, talvez do whatsapp, não sei...
A boca dele se move e muito sangue começa a sair dali. Ele se engasga no próprio líquido rubro e cai de joelhos, ainda com lágrimas nos olhos. Só então posso visualizar o que não o deixa falar. Há duas fatias de cerâmica cravadas no seu pescoço e na sua nuca. Seu corpo tomba falecido para frente, espalhando a espessa poça de sangue nos meus pés.
O grito seguinte é resultado de um montante de desespero acumulado em meu corpo. Saio dali correndo, tropeçando no meu próprio pé e caindo mais a frente, sem saber a quem recorrer. Por que logo hoje? Por quê? Ouço o barulho do caos ao redor de mim, incluindo os “splashs” das pessoas caindo mortas nas piscinas, tingindo a água de um vermelho surpreendente. Estou no chão, sentado e lembrando-se do pesadelo desta madrugada. A piscina vermelha e cheia de corpos. ERA UM AVISO! PORRA, PEDRO, COMO VOCÊ FOI BURRO DE ACEITAR VIR!
Os estrondos que vieram logo a seguir me assustaram e uma pessoa caiu sobre mim, ao tentar passar pelo meu corpo parado, que servia como um obstáculo no meio daquela armadilha aquática. Após cair, ele se recompõe ao meu lado e grita:
– O que você pensa que está fazendo, seu idiota? Você não está vendo o que está acontecendo? Vamos morrer e você senta no chão feito um retardado? Corra! Faça tudo, só não me atrase, ta? – Está visivelmente alterado, de longe, bêbado ou tonto. Ele massageia a cabeça como se tivesse batido-a em algum lugar. Quando ele fica de pé novamente, vejo os ferimentos na sua perna esquerda. Sua panturrilha tem duas fendas com cartilagem penduradas, que não param de jorrar sangue, causadas por alguma coisa pontiaguda.
Ele passa a correr de novo, como pode, ainda que mancando. Na parte de trás da blusa que veste há um desenho de uma cobra bêbada, com os dizeres: “Bloco da Tereza”.
Um barulho irritante de ferro retorcido invade meus tímpanos, e instintivamente olho para o lado, vendo uma explosão atingir um tobogã e uma parte dele decolar na direção do garoto que mancava. O garoto bêbado (e com um cabelo engraçado, diga-se de passagem) não teve tempo de ver o que lhe atingiria, porque o pedaço do Red River Valley é mais rápido e encontra seu corpo de cheio, esmagando-o da cintura pra cima. Um pouco do sangue espirra sobre meu rosto e eu apenas fecho os olhos, erguendo-me do chão de imediato, mais uma vez saindo daquele lugar. Mas antes olho por cima dos ombros e vejo o braço do bêbado separado de seu corpo. Só então posso ver a taça de coquetel quebrada, entre seus dedos.
O meu estômago continua embrulhando e com o cheiro de sangue invadindo minhas narinas fica mais difícil ainda me locomover entre os corpos tombados e mortos. Passo a correr ao lado de uma das piscinas, desviando dos obstáculos no meio caminho, entre pedaços de ferro, tubulações e chamas.
No meio do caminho que sigo há outro enorme tobogã, em que o letreiro com seu nome está danificado e uma parte do mesmo acaba de cair. Ouço gritos desesperados vindos do brinquedo e procuro a origem da gritaria. Tem um adolescente pendurado entre uma parte quebrada do tobogã e outra. Entre ele e a continuação do brinquedo há um buraco enorme e se ele soltar, só irá parar quando encontrar o chão.
Bem à minha frente uma garota chora, pedindo que alguém ajude seu namorado. Oh, merda! Lucas e Mylla, são o Lucas e a Mylla! É difícil reconhecer seu amigo quando só se vê seu tronco e membros inferiores. Ele segura em algo firme, que não está em meu campo de visão e o aperto em meu peito só cresce.
Eu e Mylla ouvimos um barulho estrondoso e duas pessoas que correm próximos da garota são atingidos por um cano que vem na horizontal. A garota é inundada com vísceras, enquanto foge dali desesperada. Tão desesperada que esquece que seu namorado está preso na parte de cima de um tobogã, sem qualquer aparato para ter alguma esperança de salvação.
– Segura firme, Lucky! – Grito. – Vou te tirar daí! – Eu preciso fazer alguma coisa, nem que palavras de conforto não sigam como um alicerce pra ele acreditar na redenção.
– Peeh eu vou morrer, eu vou morrer! – Seus gritos tornam-se cada vez mais angustiantes. – Peeh, por favor, eu não quero morrer desse jeito! Eu não quero morrer tão jovem!
– Eu juro que vou tentar te tirar dessa, amigo! – Brado e dou meia-volta, indo em direção aos degraus da escadaria de madeira que me levarão até Lucas.
Mas antes que eu possa criar coragem para subir naqueles degraus frágeis de trêmulos, ouço o rangido que selaria a vida do meu amigo. Os resquícios da placa da atração chacoalham e caem sobre a parte do tobogã em que Lucas está e entortam a parte superior do tubo. Lucas escorrega e despenca de mais ou menos quinze metros, em queda livre. Solto um grito e corro para fachada do brinquedo, vendo por fim o corpo do adolescente atingir o chão violentamente, quebrando seus ossos ao mesmo tempo. O estalo de cada osso quebrando me trás a pior das sensações. Termino por vomitar ao avistar a maioria das costelas e coluna vertebral de Lucas saltarem para fora de seu corpo contorcido.
– Peeh! – Alguém chama pelo meu nome ao longe. Será a morte? Ela veio me buscar, assim como o Lucas? – Peeh, aqui! – É MV e ele está sendo seguido pelo João Victor. Os dois estampam um semblante de cansaço e medo em suas faces.
– Eu não vou agüentar correr mais. – Resmunga Jota, completamente suado. Percebo algumas gotículas de sangue em seus ombros. – Meu corpo todo dói. Não dá.
– Eu posso te carregar se você quiser. Tenho condicionamento, posso correr com vocês nas costas, sem problemas. – MV diz olhando para Jota com as mãos no joelhos, procurando fôlego. Certamente Márcio estava disposto a ajudar no que fosse preciso pra ver seus amigos bem. Qualidade admirável.
– Obrigado MV, mas eu acho que posso dar conta. – João responde convicto de seu condicionamento. – Aguento mais um pouco. – E mostra um positivo com o polegar, indicando que está tudo bem com ele.
Eu e MV assentimos juntos e passamos a correr os três juntos, com Jota dando as coordenadas. No nosso caminho várias mulheres de biquíni “fio dental” correm buscando refúgio ou qualquer tipo de abrigo que trouxessem para elas alguma segurança. Segurança? Pff, que piada! Todos estamos fadados a morrer aqui e hoje. Não importa o que façamos.
– Quanta fumaça. – Fala MV tossindo muito, enquanto passamos pela outra zona de quiosques. – Se não morrer com outra coisa, vou acabar morrendo com os pulmões entupidos de fumaça.
– Olhem! – Jota aponta para a frente e vemos um grupo de pessoas tentando escapar por uma fresta nas cercas de proteção. – É nossa chance!
De repente vejo um cigarro voando em direção ao grupo de fugitivos e ateando fogo no vestido de tecido fino de uma senhora que chora copiosamente no meio do grupo. Agora ela grita com as chamas cobrindo sua roupa e sua pele.
– AAAAAAAAAH!
– Meu Deus! – Grito e paro.
– Precisamos ajudá-la! – João Victor se manifesta.
– Tá maluco? E morremos queimados também? – MV retruca.
– Não importa! – João está decidido. – Antes eu do que essa pobre senhora.
– Bom samaritano agora não, Jota! – Márcio pede que façamos a curva e passamos pelo portão lateral.
– Eu vou ajudá-la! – João Victor parte na direção dos quiosques de trás e pula o balcão. Lá dentro há um bartender sangrando, ele agoniza e fecha os olhos devagar, morrendo segundos depois.
– Procurem um extintor! Aqui precisa ter um!
MV e eu permanecemos estóicos, sem saber o que fazer. Nossos corpos não respondem aos estímulos de “vamos lá! Ajudem-no!” que nossos cérebros ordenam. É como uma passagem extrema de êxtase sobre nós.
João está tão entretido em procurar um extintor no interior do quiosque que não nota a velhinha caindo inteiramente chamuscada no chão. Já sem nenhum de seus sentidos funcionando. Já morta. Consequentemente não vê a labaredas na parte dos fundos do quiosque.
– Jota Vê, atrás de você! Cuidado! – Grito.
MV ainda dá alguns passos, mas desiste quando Jota aparece segurando o extintor que tanto procurava. Poucos segundos até surgir uma parede flamejante atrás dele e o engolir em uma bola de fogo incandescente. Puxo MV para trás e caímos no chão. Atrás de nós uma imensa explosão atinge os dois quiosques numa reação em cadeia surpreendente, transformando sua estrutura em um amontoado de madeira e palha.
Projéteis advindos da explosão decolam sobre o Green Hype, a grande atração à nossa frente e, conseguintemente, as atrações Super Spiral e The River Emperor, que também são super famosas no parque. A ponta que fica acima do The River Emperor, o rio lento, fica completamente danificada, enquanto o Super Spiral gira com mais velocidade. Nota-se uma quantidade significativa pessoas ainda dentro do brinquedo. Pobre almas, não conseguiram nem sair antes da porra toda começar. MV ajuda-me a levantar, ao mesmo tempo em olho o desespero das pessoas dentro do Super Spiral. Uma parte do braço mecânico sobre a piscina entra em choque e ameaça aumentar a velocidade. A explosão do quiosque foi direta nos no alicerce da atração. Como num vulto, reconheço a garota ruiva de piercing e sua amiga ali dentro. Elas gritam tomadas pelo horror de ter a morte como última morada.
Como num flash rápido a proteção do assento da amiga desprende e ela é jogada para fora do brinquedo, batendo seu corpo franzino contra a borda da piscina, quebrando os dentes e o crânio com facilidade. Seu corpo escorrega novamente pra água e passa a boiar, tingindo aquela piscina com seu sangue. Outros corpos estão pousados sobre a água, deixando o cenário mais sombrio e macabro.
O assento da garota ruiva se desprende logo em seguida. Ela grita de imediato e tem o corpo arremessado na direção de uma grande farpa de madeira apontada na mesma direção, devido aos danos graves na ponte acima do The River Emperor. Na sua blusa tem escrito à mão, de tinta, o nome “Victorya”. Ela customizou a própria blusa... CÉUS! VICTORYA? VIC? NÃO BRINCA! Mais uma Reaper.
A ruiva põe os braços na frente do rosto, prevendo a fatalidade, mas não é o suficiente. Seus braços também se chocam contra a estaca. O impacto é tão grande que os braços e a testa são atravessados com a mesma intensidade. A ruiva fica ali, agonizando e dando espasmos por mais uns minutos, antes de seu corpo cessar completamente.
Que inferno!
Atrás de nós, as mesmas pessoas que tentavam escapar, agora estavam esmagadas por parte da estrutura de outro brinquedo. Dessa vez era um pedaço enorme de metal, cobrindo aquele amontoado de corpos.
– Vem, Peeh! – MV grita e me puxa na direção contrário.
Ainda ouço mais gritos e choros e agonia. Aquilo não tem fim, estou correndo de olhos fechados, sentindo minha face sendo encharcada com minhas lágrimas. Lágrimas salgadas. Lágrimas de arrependimento, as mesmas que não trazem nada de volta.
Um garoto passa correndo por mim e Márcio. Ele deixa os óculos caírem e não pára para apanhá-los. Quando toco o objeto, avisto um grupo de pessoas esbaforidas em nossa direção. Vejo quando parte delas tropeça e é pisoteada, empurrando o pobre jovem na piscina ao lado. Ele bate os braços, mas parece saber nadar. Outras pessoas também caem na piscina e antes mesmo de saírem, vêem o que as matarão.
Um poste de luz enfeitado com conchas e cavalos-marinhos chacoalha com os tremores das explosões dos canos e tomba sobre a piscina, lançando uma descarga elétrica contra todos que estavam imersos na água. Foram tostados de imediato, revirando os olhos e tendo as peles descascadas. O jovem dos óculos era uma dessas vítimas.
O que posso fazer pra cessar essa carnificina? Observar o parque ser tomado por defuntos? Só quero me salvar, é pedir muito?
MV corre ao meu lado, mas num relance um cano estoura bem ao nosso lado, ao pé de uma piscina e, como num efeito gêiser, ele arremessa um jato d’água contra nós. Ouço MV gritar e meu corpo ser jogado para trás. Bato a cabeça e apago de vez.
Quando abro os olhos e tento erguer-me, sinto minha cabeça latejar fortemente. Fico tonto e apoio meu corpo no joelho direito. Ponho a mão no chão e pisco algumas vezes. O sol acima de mim brilha cada vez mais. Olho para o lado e não encontro mais o Márcio. Ele deve ter sido atingido pelo gêiser também, mas onde ele pode ter ido?
– MV! – Grito, sem respostas. – MV!
Começo a tossir com o vapor causado pelas explosões sobre as piscinas.
– Peeh! – Viro-me e me deparo com Jo, com um ferimento na testa.
– Que bom que você está bem, cara. – Penso em abraçá-lo, mas antes que possa fazer isso, escuto outra voz chamar por mim. Bem ao longe. Poderia ser alucinação, mas eu tinha certeza que era do MV, e alucinação ou não, eu lhe acharia. – Precisamos ir atrás do MV, precisamos sair daqui o mais rápido possível.
– Claro! Tudo que eu mais quero é sair dessa porra de parque. Se soubesse que seria dessa forma não teria pensado em vir.
– Nenhum de nós, Jo.
Logo, percebo a presença de mais duas garotas. Eu não as conhecia, mas elas pareciam estar com Jo.
– Não estamos com tempo para apresentações, mas essas são Bacon e Laís, minhas amigas.
Elas sorriram meio acanhadas, mas sem descarregar a expressão de medo de seus rostos.
– Vejam! – Aponto para o lado, logo que avisto uma parte do muro que cerca a extremidade do parque, desmoronado. – Podemos sair por ali!
– Aquela fenda é muito alta. Não conseguiríamos alcançar aquilo tão fácil. – Jo comenta.
– É por isso que vamos usar as escadas do Green Hype, certo? – Pisco, com uma pontada de esperança.
Nós quarto corremos na direção do Green Hype, o mais rápido que podemos, saltando de corpos caídos no chão, repletos de sangue e vísceras. Muito gore pra mim!
Chegamos aos degraus de madeira rapidamente. Olho para cima e comprovo o quão alto é o Green Hype, e porque ele é considerado o brinquedo mais perigoso de todo o Blue River Adventure. Bacon e Laís pedem para ir primeiro. Elas só estão amedrontadas e ansiando sair daqui. Então elas começam a subir os degraus com cautela, temendo cair da estrutura. Jo vai logo em seguida, também com cuidado e atenção, segurando no corrimão molhado e com muitas farpas.
Conseguimos encontrar a altura ideal para alcançar a fenda. Estamos de frente para o buraco que era responsável por nos resgatar do inferno. Digamos que nosso novo paraíso. Meus olhos brilham ao ver o que há do outro lado, uma estrada. Bacon estica o pé, para alcançar a parte inferior da fenda, já Laís e Jo dão assistência a ela, enquanto eu olho para ver se consigo localizar MV no rio lento, que ficava bem ao lado do Green Hype.
CRECK! Um ruído de rachadura nos assusta. Bacon se apressa para conseguir alcançar o buraco. CRECK! Mais uma vez outro barulho de algo rachando, e logo depois mais outro. A parte da madeira onde Bacon e Laís estavam quebra e as duas entram em queda livre imediatamente. Os gritos de pavor só param quando as duas encontram o chão. Por sorte, não foi nada grave, mas Lais reclama de uma dor latente nas pernas, enquanto Bacon tenta levantá-la.
Outro quiosque continua pegando fogo bem próximo ao Green Hype. O mesmo quiosque em que todos estávamos minutos antes. De repente ele explode e lança um carrinho de picolé que estava ali para debaixo do Green Hype, com partes dele quebradas. Por pouco não atingira as duas garotas que caminhavam desesperadas para longe dali.
– Vocês duas, procurem um local mais seguro, eu já vou descer! Se é que existe algum local seguro nessa bosta. – Jo grita. – Não posso deixá-las sozinhas, Peeh.
– Ok. – Respondo e vejo MV no rio lento, embaixo da ponte. – Ei, Jo! Achei o Márcio! – Empolgo-me e passo a gritar seu nome e acenar, mas ele não escuta.
MV passa embaixo da ponte que matou a tal Victorya, enquanto afasta os corpos que boiavam na água. Eu posso ver a agonia rotulada no olhar dele. É ai que concluo que aquele lugar é o pior lugar que ele pode estar nesse momento. Ao subir em uma das bóias flutuando no Super Spiral, MV não percebe a ponte deteriorada acima dele. Ela começa a ruir e a jogar suas farpas. O corpo desfalecido da ruiva de piercing cai sobre ele, assustando-o. O corpo dela afunda e ele olha para cima, a tempo de ver os pedaços de madeira se soltarem e irem numa linha reta para ele. Os dois primeiros pedaços perfuraram seus ombros, enquanto os demais perfuraram seu peito e barriga brutalmente. Um de seus olhos é atingido em seguida e ele não tem mais como se mover, nem como sentir nada. MV está morto.
– Cara, vou vomitar... – Jo se apóia no corrimão de madeira da escada.
Num relance olho novamente para próximo do Super Spiral e vejo Felipe correndo e chamando pelo nome da namorada, Marina. Ele olha para os lado e faz cone com as mãos, na tentativa de aumentar o som dos gritos. Em diante ele parece saber que a namorada está morta e começa a chorar desesperado, olhando para um guarda-sol caído sobre uma garota. Marina... Então ele começa a correr feito um louco, até mais na frente escorregar e cair dentro de uma piscina, enquanto pessoas saem da mesma. Quanto mais gente morre, mais gente aparece para morrer, um verdadeiro horror!
Felipe começa a se afogar, tento gritar, mas sei que é em vão. Ele não me escuta de onde estou. Bate os braços freneticamente, mas parece se afogar cada vez mais. Até que ele alcança a borda e sai da piscina, todo vermelho, quase sem fôlego. Quando volta a escorregar no sangue de uma vítima de um dos canos e bater a parte frontal da cabeça contra a borda da piscina. Em cima de diversos cacos de vidro. Tapo a boca ao vê-lo tentar se levantar com os cacos de vidros encravados em pontos específicos de seu corpo magro e franzino. Inclusive um enorme sobre seu nariz.
Chemim tomba agonizando e com muito sangue sendo derramado dentro da piscina. Não há nada que eu possa fazer, pois ele morre segundo depois, pois um dos cacos deve ter perfurado muito fundo e alcançado seu coração.
– Vamos descer logo, não temos mais tempo! – Digo ao ver mais rachaduras nos degraus da escada de madeira.
CREEECK! Os degraus em que Jo está pisando cedem, mas sou mais rápido e consigo segurar seu braço, antes que ele tivesse o mesmo destino que o Lucas.
– Foi por pouco. – Fala ele aliviado.
Não é o bastante pra morte. Ela é insaciável, e como se não bastasse, a mão de Jo começa a escorregar.
– Peeh, não me larga!
– Não vou largar!
– Peeh, não to conseguindo segurar!
– Tá escorregando, Jo!
Não chego a soltar a mão do João, quando a parte superior da escadaria em que estamos não resiste e racha completamente, se partindo em vários pedaços. No susto, Jo solta a minha mão e eu tento me segurar na parte firme da escada. Vejo Jo cair, e tudo passa em câmera lenta, até o exato momento em que Jo cai de costas sobre o carrinho de picolé, tendo seu corpo fatiado na diagonal por uma placa de aço que estava disposta no transporte.
Fecho os olhos e respiro fundo, consigo ter força para segurar um pouco mais naquela parte segura da ponte. Olho para baixo e vejo as tripas do Jo escorregarem pelo seu corpo, até se espalharem junto com todo o sangue pelo chão. Vomito logo após ouvir o que parece ser uma discussão no alto do Green Hype. Aguço meus ouvidos para escutar melhor.
– Eu não posso descer, não quero descer! – Grita um jovem.
– Você vai descer sim, seu babaca! – Nenhuma das duas vozes eu reconheci.
– Já disse que não vou descer, aqui é mais seguro!
– Larga de ser burro, cara! Você acha mesmo que tem chances de viver? Escorrega logo aí!
Acabo desequilibrando-me e solto o que segurava. Caio de costas no chão e me contorço de dor.
– Porra!
Sento com muita dificuldade e olho pro topo do Green Hype. O garoto que discutia com os outros três é forçado a descer no tobogã, indo direto para seu destino final. Outro poste de iluminação, com seus fios soltos, arrastam uma árvore ao cair na piscina. A árvore bate no tubo verde e arranca aquela parte. Só então posso ver o que houve.
A árvore bateu com tanta força, que arrancou o tubo verde junto com os membros inferiores do garoto que desceu. Ele grita ao ver o que houve com suas pernas, que escorregam com o tobogã e a árvore até a piscina. Seu corpo cai logo em seguida, completamente tomado pelo sangue. Ele começa a se arrastar na direção da piscina, criando um rastro do líquido rubro por onde passa. O garoto parece selar seu destino ao deixar seu corpo entrar na piscina e misturar-se ao sangue. Ele submerge segundo depois, desistindo dos resquícios de vida que tinha.
Minhas lágrimas passam a aumentar e a cair sobre meu rosto. Também posso desistir da minha vida. Também posso largar tudo e deixar que a morte me leve da forma como ela quem entender. Já vi todos morrendo mesmo...
Até que alguém passa correndo por mim. Eu riria dele, se o cenário não fosse de completo caos. O rapaz com o calção de patinhos olha por cima dos ombros, ao me ver estático e eu o reconheço de imediato. VINICIUS! VINICIUS CAMARGO, DONO DO REST IN PIECES BRASIL! Quando resolvemos reunir os Reapers não pensei que ele também viesse. Ou soubesse da reunião. O fato é que começo a achar que não foi coincidência vários Reapers estarem reunidos no mesmo local, pra morte levá-los mais fácil. Brincar com a realidade era mais fácil do que com a arte. Concluo.
Mal dou alguns passos e o vejo cair em uma das piscinas, ensangüentado. Nesses poucos segundos que parei para pensar, não sei o que pode ter acontecido. Ele começa a se debater no líquido, engolindo muita água. Ele não sabe nadar! Corro na direção dele para tirá-lo de lá. Posso ajudar pelo menos ele, já que não o fiz com Lucas, MV ou Jo. Ou com as demais pessoas que toparam comigo nesta tragédia.
Antes de me aproximar um fio desencapado começa a chicotear na minha frente, vindo do mesmo poste de energia que arrancara as pernas do garoto do Green Hype. Recuo com vários passos e protejo meu rosto com os braços. Isso me faz lembrar a posição em que a garota ruiva, Victorya, morreu empalada por aquela estaca de madeira.
Vinicius cansa de bater os braços e engolir água, e começa a afundar. Seu corpo submerge lentamente, e a última imagem que tenho dele é vê-lo de olhos arregalados, enquanto a água invade seus pulmões, sufocando até que não exista oxigênio sequer para ajudá-lo.
Vejo as bolhas estourarem na superfície, até que tudo para. O tempo para e não avisto mais nenhum sinal de que Vinicius possa estar vivo. Fico dois minutos parado, apenas observando o fio chicotear na minha frente e a água da piscina ficar plácida. Vinicius também estava morto, assim como todos.
O mundo silenciou, sem nenhuma explosão, sem nenhum grito de pavor ou correria de pessoas buscando redenção ou até queda de tobogãs e canos voando por ai. Nada. Apenas meu corpo parado diante do inferno que tomou conta da minha vida nestes breves minutos. O caos era tão belo, quando poético. Resolvo ajoelhar-me e fechar os olhos, desistindo da minha vida, como o garoto do Green Hype. O fim é assim? Frio e solitário? Frio, solitário, vermelho e com cheiro de sangue? O fim é realmente o fim?
Abro um pouco dos meus olhos e avisto minha sentença de aproximar de maneira veloz. Um objeto aparece no ar girando numa velocidade absurda. Ele tem fogo contornando-o. Uma verdadeira lâmina flamejante e incandescente.
Apenas respiro fundo e deixo que a morte diga sim pra mim. O objeto rasga minha pele e meus órgãos. Eu sinto. Incendeia minha alma de forma rápida, sem que o fogo seja doloroso. Também sinto meu corpo dormente, como se uma anestesia forte tenha sido aplicada em mim. É isso, eu sinto a morte.
A morte.
Um toque de celular desperta-me.
Por mais doido que pareça está tudo normal. O parque está inteiro e todas as pessoas que morreram estão vivas e perambulando pelo lugar. Está lotado, sinto-me com falta de ar.
Jo atende e começa a conversar com alguém, ao que tudo indica a garota se chama Laís. Olho para o lado e vejo MV vidrado no movimento das pessoas que passam pelo local. João Victor vira-se para o bartender, pedindo um refresco de laranja. Lucas tira uma foto e passa a esperar alguém, decerto Mylla, pois ele chegara sozinho.
Isso não está acontecendo comigo... Não é possível... Comigo não...
E como num ato impensado, mexo meus lábios e solto num rompante:
– Temos que sair daqui...
MV se aproxima de mim e pergunta:
– Peeh, o que foi?
Tudo em que penso é tirar todos dali. Não importa se o que vi foi alucinação, um pesadelo ou se realmente eu tive uma premonição. O que sei é que meu lado Reaper não pode falhar agora.
– Eu vi... PORRA, EU TIVE UMA VISÃO.
Fale com o autor