Notas iniciais
Então, leitores. A partir de agora, todos os capítulos serão escritos em terceira pessoa. A condução deles será de forma diferente, mas dará para se notar essa diferença, com o foco principal sendo o personagem do devido escritor. Isso não quer dizer que os todos os outros personagens não possam aparecer, porque irão. Este capítulo foi escrito por 483ViniKaulitz. Para um melhor aproveitamento das cenas com áudio, aqui estão os links para as músicas que serão apresentadas no capítulo: Kid Abelha - Como Eu Quero http://www.youtube.com/watch?v=X0XLbYaKy6Q Legião Urbana - Ainda É Cedo http://www.youtube.com/watch?v=XJcGd5PE_QY

Keth não acreditava que as coisas poderiam ficar ainda mais estranhas.

Encostada contra o sofá de seu apartamento, Keth assistia Jornal Nacional recontando as vítimas do acidente no Blue River Adventure Park pelo que parecia a décima vez naquele dia.

Ela olha pra mesinha de centro: os botões principais do controle remoto sujos de graxa de uma pizza recente, metade ainda intocada na caixa. Duas garrafas vazias de Heineken. A sala escura, relances azuis da luz da televisão, casualmente brilham pelas paredes, refletindo a sensação esquisita que a confusão e o pavor podem trazer.

O pavor de não saber o que irá acontecer.

Mil ideias desconexas vagavam por sua mente. Às vezes ela gostaria de poder ter um interruptor pra desligar aquilo e manter apenas os pensamentos bons e pelo menos os que fazem sentido.

A história sobrenatural do filme favorito do seu namorado, e dela também, tinha acontecido.

Pessoas aleatórias num lugar movimentado. Ok.

Lugar movimentado com riscos de acidentes. Ok.

Uma pessoa alega ter uma visão de um acidente. Ok.

Tal pessoa arrasta outras pessoas longe da linha de tiro. Ok.

O acidente acontece.

Ela ri sozinha, por um instante, a ironia terrível explodindo tão de repente, e mais uma vez em seu consciente. Ela coça a cabeça. Dá de ombros. Tomba a cabeça para trás e encara o ventilador no teto.

Só agora ela se dá conta do som do ventilador e entende o motivo de estar sentindo frio. Ali, ela se lembra de todas as vezes que já encarou aquele ventilador girando, — todas as vezes que pegou no sono ali mesmo, acordou encarando as hélices enquanto o sol fatiava pela cortina da janela, todas as vezes que abriu uma garrafa de champanhe e observou a rolha quicar no teto enquanto sentia o líquido gelado escorrendo pelas mãos. Todas as vezes que fez amor naquele sofá e no impulso de um espasmo, encarou o teto, só pra dar aquele efeito.

Agora ela sentia falta daquele tempo.

Fazia um pouco mais de uma semana que o Blue River tinha morrido e levado dezenas de vidas consigo. Uma explosão numa das máquinas que controlava o fluxo de água no encanamento do parque desencadeou uma sequência de acidentes e erros dignos de um blockbuster em 3D digital. Ela ainda se lembrava da cena horrível, esquisita: as pessoas caindo das plataformas, a água na cor do sangue, memórias não convidadas, queimadas, tatuadas no topo de sua semi-consciência.

– Ainda é cedo — ela sussurra mais para si mesma do que para alguém.

– Hm? – Vinicius estava caído no sofá ao lado, pernas pro alto e de ponta-cabeça. Bêbado, pelo menos muito mais do que ela. Ele era um pamonha para beber. Ela riu mais uma vez.

Ele entendia o tanto quanto ela. Mesmo após anos de envolvimento com as teorias mais loucas em relação aquela história que agora os assombrava, aquilo tudo não era o suficiente para deixá-los com algum tipo de certeza sobre o que poderia acontecer.

Ela o amava, de verdade, mas ele estava a enlouquecendo. Ela já estaria preocupada o suficiente se apenas conhecesse a série, agora ter um namorado que é viciado na história estendeu aquele estresse para outro nível.

Ele havia passado os três dias seguintes ao acidente revirando livros, páginas da Internet, tentando manter contato com os outros sobreviventes do acidente. Tudo da maneira errada. E então num acesso violento de esquisitice durante a quarta madrugada após o acidente, ele tinha coberto metade do apartamento com fita adesiva. Ela acordou com o som da porta da sala batendo, — ele havia acabado de voltar da loja de materiais de construção com duas sacolas cheias de fita isolante.

Ela precisou de paciência – e muitos tapas – para meter nele um pouco de realidade e sentido. Finalmente ele parecia estar voltando nos eixos. Ele a perguntou, aos choros, como ela conseguia se manter tão estável e firme. Ela não soube explicar.

Ela só sabia que um dos dois precisava estar forte no meio daquele caos. Uma casa não funciona com apenas um alicerce. Era aquele pensamento clichê que a mantinha sã.

E ela era forte. Porra, ela era uma garota forte. Ela havia anos de sua vida se perguntando onde estaria seu super-herói. Ela conheceu Vini. Ela o amou, ele amou de volta. Aquela dose de amor correspondido gerou uma urgência própria, pessoal, e ela passou a se conhecer melhor. Com ele ao lado dela, Keth finalmente se deu conta que ela era a garota mais forte que conhecia.

No fim das contas ela era sua própria heroína. E também a heroína dele. E ela precisaria continuar, caso a história sobrenatural seguir o roteiro.

Aquele retorno aos trilhos da parte dele trouxe uma calmaria pra ela. Ela não estava tão desesperada agora, só estava confusa. E agora que as coisas pareciam estar voltando aos seus lugares, ela se permitiu o luxo de voltar a beber com namorado, pra ver se um pouco do clima de pelo menos duas semanas antes poderia voltar.

Deitada no sofá, Keth riu mais uma vez.

E ficou ouvindo. Prestando atenção em cada um dos sons que vinham pela sala. A TV. O ventilador. O vento na janela. A respiração pesada e a batida acelerada do coração do namorado. A própria batida do coração, agora acelerando também.

E os ponteiros de um relógio tiquetaqueando. Cada vez mais rápido. O que é que aquele som parecia? Uma bomba?

Opa. Ou era uma contagem regressiva?

XXXXX

Vini encarou a tela do computador. O projeto do banheiro feminino de uma cafeteria local o encarava de volta. Ele simplesmente não conseguiria encaixar os espelhos no teto no ângulo em que o cliente queria – e também num ângulo que não refletiria as partes das moças para todos que estivessem no banheiro pudessem ver.

Ele não estava focado. Ele não conseguia se focar e não também não estava ligando muito.

Por vezes encarava o celular. Ora encarava o horário no canto da tela. Secava a testa e suspirava. Água. Por vezes ele se focava no reflexo da luz exterior na tela do monitor, enxergava as próprias olheiras não o deixando esquecer que algo estava muito errado.

O que se deve fazer quando a história sobrenatural que te seguiu como um hobby, um vício por uma vida inteira começa a agir contra você? Ele não entendia como é que um outro fã da franquia, Pedro, tinha sido capaz de prever o acidente no parque, e ele também não entendia como o acidente realmente tinha acontecido.

Mas tinha acontecido. Ele tinha sido salvo. E se as coisas continuassem seguindo o rumo que ele imaginava, então ele estava na lista da morte. E meu caro, se tu tá na lista da morte, não existe esperança que dure. Droga, ele conhecia tudo sobre a série e não conseguia pensar em algo cabível a ser feito. Ele não conseguia acreditar que aquela sequência, aquela lenda, aquela teoria conspiratória estava um passo de se tornar verdade. E levar ele junto.

Ele estava esquecendo os detalhes do acidente a cada minuto que passava. Aquilo era de fato esquisito. Durante todos os anos que haviam ido, ele se manteve firme na crença de que quando você assiste a uma tragédia dessas, os detalhes ficam em sua mente, assim como na mente de Keth. Parecia que com ele era o contrário. Quanto mais ele pensava, mais ele esquecia.

Ele levantou-se e andou em direção ao bebedouro. Sacou um copo plástico do suporte da parede e encheu-o de água fresca. Bebeu um mísero gole e arremessou o copo, ainda com água, em direção ao lixo. Ele observou a água esparramando na parede e escorregando no soquete da tomada. Faíscas caíram.

Ele fechou os olhos. Com força. Abriu. Voltou em direção a sua mesa. Encarou o computador. Ele precisava pensar.

Pensou em Keth. Pensou no que aconteceria caso ele a perdesse. Odiou o que pensou. Então se lembrou da conversa com Pedro uma semana antes.

XXXXX

Pedro estava encostado numa cadeira, na sala de espera de um hospital particular. Suava exageradamente e parecia como se já soubesse que alguém estava o perseguindo. A morte, Vini imaginou. Pedro sabia de mais coisas naquele instante. Ao longo da sala barulhenta, diversas outras pessoas esperavam. Alguns dos outros sobreviventes ali estavam.

Vini estava na mesma sala em outra posição, encarando seu próprio reflexo no vidro da janela, Keth fazendo uma massagem calma em seus ombros. Ambos estavam ali por um bom tempo. Ele vestia um roupão azul, mal sabia onde tinha conseguido aquilo. Por baixo usava apenas a ceroula de patinhos. Aquela memória que seria engraçada agora parecia um tipo de divisor de águas – o momento em que ele estava bem, o momento de agora, em que não estava. Ele observava os diversos arranhões nos braços, dos momentos em que se sentira obrigado a voltar pro parque aquático e tentar ajudar. Ele caíra nos escombros duas ou três vezes. Escorregara em sangue. Observava vestígios de sangue já secos em seu próprio rosto e cabelos. Virou-se e viu Keth já limpa. A abraçou. Pedro encarou diretamente pra eles e rapidamente recuou, meio que constrangido, incerto. Vini se levantou e andou em direção a ele.

– Velho, precisamos conversar.

Pedro o encarou, pareceu genuinamente assustado, então assentiu rapidamente e se levantou.

Vini saiu na frente, já não preocupado em ainda estar usando um roupão, Pedro o seguiu. O rapaz gesticulou para Keth seguí-lo, e ela veio.

O ar no estacionamento do hospital era muito melhor. Justamente por não ter aquele cheiro esquisito de hospital, Keth tinha pensado. Ela não gostava de hospitais. Ela achava que o peso que o hospital exerce nas emoções das pessoas era muito mais forte nela. Ela estava perdida. Lâmpadas nos postes lançavam raios amarelados sobre os carros ali presentes. Vini sentou-se num banco de cimento, Keth tomou o espaço ao lado e Pedro pegou o outro.

– Pedro – Vini disse cortando o silêncio. – Eu imagino que sua cabeça tá zoada pra caramba, mas vamos ver se a gente consegue entender um pouco dessa merda toda.

– Beleza, Vini.

Keth nunca tinha visto Pedro interagir com Vini na vida, mas pela expressão de ambos e a serenidade presciente naquele momento tão caótico, ela se surpreendeu. Sim, amizades virtuais existem.

– Você também não sabia que a panelinha dos Reapers ia naquele parque, certo?

– Eu só sabia do MV e do Lucas com a Mylla. – Houve uma pausa, parecida com o repúdio de algum pensamento. As lembranças daquele dia... – Ah! O Jo também.

– Ok.

– Cara – Keth interveio – como foi tua visão?

Vini lançou a ela um olhar de “calma Keth nós vamos chegar lá”. Ela ignorou. Ela não ia aguentar o tempo que Vini levaria pra desenrolar as coisas.

– Eu vi as coisas acontecendo na minha mente. – Pedro disse, a voz embargando. – Eu senti os ferimentos. Eu suei de verdade. Eu cansei, como se tivesse corrido por aquele parque inteiro.

– Tipo no filme.

– Igual os filmes. Eu sei que foi muito igual aos filmes, mas é muito difícil de lembrar agora. Foi como se eu tivesse um sonho muito forte, mas que você esquece depois de acordar.

– Poxa cara.

– Você já teve algum tipo de visão antes? – Keth perguntou, meio incrédula com o fato de que realmente estava fazendo aquela pergunta.

Pedro pensou.

– Viu ou não? – Vini interveio rápido. Sutil pra caramba, Keth suspirou.

– Se eu já previ um acidente? Claro que não. Você por acaso me viu por aí fazendo o que todo Reaper noob faz nos grupos de Premonição?

– Acho que não.

Keth virou os olhos:

– Mas tem que ter algum significado, tipo, isso veio do nada?

– Ah, eu sempre tenho sensações de Déja Vu, — Pedro disse e rapidamente lançando um olhar ao redor. – Mas essas eu acredito que sejam comuns. Eu também vejo muitos sinais por onde vou, mas acho que isso os Reapers enxergam em todos lugares.

– Isso é verdade – Vini disse. – Eu vejo sinais o tempo todo, mas não acontece.

– Que bom né galera – Keth concordou. – Se após todas as vezes que o Vini comentou de algum sinal comigo, alguma coisa realmente acontecesse, estaríamos mortos.

– Já teve alguma sensação tipo... Banshee? – Vini disse.

Keth tentou se lembrar onde teria ouvido aquela palavra.

– Tipo a Lydia em Teen Wolf? – Pedro balançou a cabeça.

– Isso.

Keth virou os olhos.

– Foco, rapazes.

– Banshee pode ser relacionada à franquia. Eles poderiam falar disso nos filmes. – Um sorriso inocente surgiu no rosto do Vini.

– Sim, — Pedro também sorriu. – Eles poderiam...

– FOCO, RAPAZES – Keth começou gritando, rapidamente abaixou o tom de voz. – Cara, quanta gente morreu e vocês só falam disso. Eu hein.

Vini calou-se. Pedro fez o mesmo. Keth sentiu um pouco de peso ao ver o semblante de ambos desmanchar mais uma vez, mas não recuou.

– É verdade. Mas se realmente alguma coisa acontecer, temos que estar preparados.

– Tipo a morte seguir a gente? – ela disse, o tom irônico subindo.

– Talvez.

Keth riu.

– Eu poderia ter salvado tanta gente – Pedro suspirou. – Droga.

– Nós morremos na sua visão? – Vini perguntou.

– O quê?

– Eu e Keth, nós morremos na sua visão?

Pedro parou. Suspirou. Franziu a testa.

– Eu, eu... não lembro.

Mas havia algo na expressão de Pedro. Algo que indicava que ele sabia de alguma coisa. E Keth tinha percebido que Vini também tinha percebido.

– Vini –


XXXXX

– VINICIUS!?

Vini virou-se repentinamente, de volta para o emprego. Uma semana depois. Surpreso por lembrar tão bem dos diálogos. A conversa com Pedro não tinha dado em nada e as tentativas de contato que aconteceram nos dias seguintes não tinham rendido muita coisa. Vini estava atento com as notícias do jornal, atento com o Facebook, procurando e fuçando para ver se todos os sobreviventes estavam bem. E eles estavam.

– CARA, você tá surdo?

Ele virou-se novamente. Willian, seu colega de trabalho, grande amigo, o encarava sério.

– Eu não uai. – A resposta veio num tom muito mais irônico que Vini gostaria.

– Velho, — Willian continuou — você tá nesse banheiro faz uns três dias. Que porra é essa?

– Hmm. Eu, eu tô?

Willian virou os olhos.

– Velho. Eu sei que essa merda te afetou. Mas tu não tá bem mesmo. Não tem condição tu vir trabalhar com a cabeça assim.

Vini concordou.

– Ok cara.

Willian voltou-se para seu computador, então virou-se de volta.

– Velho.

– Que foi.

– Você não tá achando que a morte vai te seguir né? Cara, é ficção.

– Ah não. Tô pensando em outras coisas.

E de fato ele estava. Pensava em Keth.

XXXXX

A porta do elevador abriu e Keth evitou pisar na divisória entre o chão do prédio e o piso do elevador. Aquele era um hábito esquisito que ela tinha pegado de Vini. Ela sorriu.

Diz pra eu ficar muda
Faz cara de mistério
Tira essa bermuda
Que eu quero você sério

Como eu quero, do Kid Abelha, tocava em seus fones de ouvido. Ela não se lembrava onde tinha comprado aquela música, então supôs que tinha sido Vinicius quem havia a enfiado em seu iPhone. Ela não reclamou. De fato ela até curtia aquela música.

Uma bolsa num braço, uma sacola de compras no outro, Keth havia acabado de voltar do trabalho. Uma olhada rápida no relógio do corredor do andar a deixou sabendo que eram seis horas da tarde. Vini já deveria estar em casa agora. Ela se perguntou qual seria a surpresa ao entrar em seu apartamento aquela tarde.

Tramas do sucesso
Mundo particular
Solos de guitarra
Não vão me conquistar

Posicionou a sacola de compras no chão e tateou até encontras as chaves de seu apartamento. Enfiou a chave na entrada e girou. O coração subitamente acelerando.

Uh! eu quero você
Como eu que-----

Ela arrancou os fones ao ver diversas caixas de papelão amontoadas por sua sala até o teto.

Vini tinha ido longe demais.

Diversos objetos de seu apartamento já estavam encaixotados. Premonição.

Ela andou por entre as caixas, o desespero crescendo.

Vini surgiu de repente atrás de uma caixa. O rolo de fita isolante na boca e uma tesoura na mão. Tesoura sem ponta. Ele estava usando apenas um short de dormir e as tatuagens do braço eram escondidas por pedaços pequenos de fita isolante. E ele estava sorrindo.

– Cuidado nunca é demais – ele disse sorrindo e cuspiu um pedaço de fita. – Eu estava te esperando pra me ajudar com os utensílios da cozinha...

– CARA – ela gritou. – QUE PORRA É ESSA?!

Ele pareceu ligeiramente golpeado na cara. Ela não ligou.

– Que que você tá fazendo com as minhas coisas velho?

– Eu tô é... eu já fiz isso no meu apartamento...

– Porque você fez isso?

– Porque cuidado nunca é demais. Eu te falei. Tem muita coisa perigosa por aqui...

– Vinicius – ela disse repentinamente. – Eu tô te ajudando desde aquele dia. – Ela pegou a tesoura e a fita isolante das mãos dele e jogou numa caixa próxima. – Não faz isso comigo POR FAVOR!

– Keth! Eu tô tomando cuidado por nós dois! Temos que pensar racionalmente pelo menos por um tempo! Não sabemos o que pode acontecer...

Ela andou pelo apartamento rapidamente, ele a seguindo com uma expressão curiosa. Ela abriu o próprio guarda-roupa – estava vazio. Ela abriu uma das caixas sobre a cama e viu todas suas roupas empacotadas ali dentro.

– OK ME DIZ O QUE MINHAS ROUPAS PODEM FAZER PRA ME MATAR.

Vini parecia um pouco envergonhado agora.

– Eu...

– Sai do meu apartamento.

– O quê?

– Sai. Do. Meu. Apartamento.

Ele pareceu realmente estapeado agora.

– Keth eu...

– Sai.

Vini coçou a cabeça. Ela estava chorando. O relacionamento de ambos nunca tinha sido daquele jeito. Pelo menos não antes do acidente. Ela naquele instante, considerou que talvez se Vini ficasse longe um pouco dela, ele pudesse entender que as coisas não eram tão graves e que a morte não ia atrás deles. Que merda, aquele filme.

Vini a abraçou em silêncio.

– Tome cuidado.

Ele vestiu a primeira camiseta que encontrou. Saiu andando do quarto e ela o seguiu. Ele tirou uma chave do bolso – a cópia da chave do apartamento dela – e deixou tilintar em cima da mesa. Aquilo chocou ela por um instante, mas ela continuou firme em sua posição, enxugou as lágrimas. Ela sabia o quanto ele conseguia ser dramático às vezes. Ele pegou a chave do próprio carro e saiu em direção à sala. Ela o seguiu.

Ele parou na frente da porta. Esperou ela dizer alguma coisa.

Ela não disse.

Ele saiu e fechou a porta.

XXXXX

Vini sentiu-se traído. Mas o arrependimento por ser cauteloso, bom, aquilo não viria. Ele estava certo. Ele se virou para sair andando – chutou alguma coisa – a sacola de compras. Várias latas saíram rolando. Ele abaixou-se e começou a juntá-las calmamente. Terminou e bateu na porta.

– Keth, as suas –

Ele ouviu o som da porta sendo trancada.

Fechou os olhos. Calmo.

Fique calmo. Ele abaixou a sacola de compras no chão e pegou uma barra de chocolate. Suflair. Saiu andando pelo corredor.

Enquanto entrava no elevador, ouviu os acordes iniciais de Ainda É Cedo, do Legião Urbana vindos do apartamento de Keth. Volume altíssimo. Deu de ombros. A porta se fechou.

XXXXX

Keth colocou a música no modo repeat e encarou as caixas ao seu redor. Aquela pausa com Vini seria temporária. O suficiente pra ele tentar enfiar algum sentido na cachola.

Ela soltou os cabelos do rabo que usava. Ligou o ventilador do teto da sala e observou a pilha de caixas balançar perigosamente com o vento repentino. Suspirou. Tateou até encontrar o celular no bolso.

Uma menina me ensinou
Quase tudo que eu sei
Era quase escravidão
Mas ela me tratava como um rei

– Miga? – Ela ouviu Gabriele, sua melhor amiga responder do outro lado da linha.

Oi Keth. Como vão as coisas?

– Miga, você quer sair hoje?

– Hm? Do nada?

– Preciso espairecer. Preciso pensar em outra coisa a não ser o Vini.

– De novo? Abaixa essa música pra eu te ouvir direito Keth...

– De novo. Você sabe de algum lugar?

– HAHA, eu vou pro Nemeton hoje. Música eletrônica e banda de covers.

– Ótimo.

– Eu passo te pegar as oito ok?

– Pode ser.

Keth desligou.

Ela fazia muitos planos
Eu só queria estar ali
Sempre ao lado dela
Eu não tinha aonde ir

Keth se apressou em direção ao banheiro. Tentando não pensar em nada, muito menos lembrar de Vini com aquela música tocando.Deixou a água cair na banheira enquanto voltava ao quarto pra tentar encontrar alguma roupa no meio daquela bagunça.

XXXXX

Vini estava cruzando o portão do edifício quando sentiu o calafrio. Aquele calafrio que as pessoas sentem quando algo ruim está prestes a acontecer.

– Keth.

Encostou o carro na rua mesmo e voltou em direção a entrada para pedestres do prédio.

Ele não ia deixar Keth.

XXXXX

Keth procurava um de seus trezentos shampoos no meio daquele monte de caixas. Ela queria aquele que deixava seus cabelos brilhantes, mas só um pouco brilhantes. Não muito.

Aquele que ele adorava.

– Foda-se! – ela gritou, e pegou o primeiro que encontrou. Entrou no banheiro e se encarou no espelho.

Ela também estava perdida
E por isso se agarrava a mim também
E eu me agarrava a ela
Porque eu não tinha mais ninguém

Ela não viu que o recipiente do shampoo estava partido e tinha derramado seu conteúdo no chão do banheiro.

XXXXX

Vini encarou a porta do elevador.

Nora. Premonição 2.

Ele correu em direção às escadas. Poderia ser tanto Keth quanto ele mesmo.

XXXXX

Keth ligou a chapinha na tomada, posicionou o aparelho na pia e se encarou no espelho mais uma vez. Secou as lágrimas e entrou na banheira.

Sentiu enquanto o calor da água chocava-se contra seu corpo. Ela adorava aquela sensação de mergulhar.

E eu dizia
Ainda é cedo
Cedo, cedo
Cedo, cedo

Ela estava cantando junto com a música agora. Não ouvia nada.

XXXXX

Vini nunca tinha notado o quanto o apartamento de Keth ficava no alto, pois sempre utilizava o elevador.

Décimo segundo andar. Décimo segundo. Poderia ser um décimo terceiro, mas é um décimo segundo.

Ótimo.

XXXXX

Keth abriu os olhos subitamente lembrando-se de alguma coisa. O sabão. Ela precisava do sabão.

Sei que ela terminou
O que eu não comecei
E o que ela descobriu
Eu aprendi também, eu sei

Ela saiu da banheira sentindo o frio tomar conta de seu corpo. Rapidamente pegou um roupão azul no suporte da parede e andou em direção ao quarto. Atrás do sabão.

XXXXX

Vini estava acabado quando pisou no décimo segundo andar. Suava, e ofegava. Lembrou-se de quando teve a mesma reação. No parque aquático. Ele correu em direção à porta de Keth e tocou na fechadura. Sofreu um choque térmico. Recuou da porta.

E ele ouviu:

Ela falou: "Você tem medo."
Aí eu disse: "Quem tem medo é você."
Falamos o que não devia
Nunca ser dito por ninguém

Ainda é cedo, ele pensou. Ainda é cedo.

Ele tateou atrás das chaves do apartamento. Ele tinha deixado na mesa num ato idiota. Tentando deixar algum efeito.

Idiota. Voltou a bater na porta.

XXXXX

Keth não ouviu Vini batendo na porta. Finalmente encontrou o sabão. Estava na prestes a colocar o pé na banheira quando observou a chapinha escorregando e caindo na água.

Veio uma explosão pequena – e ela gritou e se abaixou.

XXXXX

As luzes do corredor se apagaram e Vini ouviu o grito.

Seu coração parou. Ele começou a gritar e chutar a porta.

Ela me disse
"Eu não sei
Mais o que eu sinto por você
Vamos dar um tempo
Um dia a gente se vê."

Ele estava desesperado. Ele estava perdendo Keth.

XXXXX

Keth observou as luzes apagando. Piscando. Voltando. Apagando.

Ela suspirou. Levantou-se. O coração batendo muito forte contra o peito.

Ela observou aquela cena esquisita. A chapinha. Lentamente ela se levantou no escuro. Ela ficou com medo de esbarrar em alguma coisa e tomar um choque. Ela já tinha assistido filmes suficientes.

Ouviu Vini gritando.

XXXXX

Vini estava chutando a porta agora. Alguns vizinhos o encaravam, atônitos, lanternas apontadas para a cara dele.

– Ela tá levando um choque! – ele gritou enquanto continuava esmurrando. – Liguem pro 190! KEEEEEEEEETH!!!

XXXXX

Keth não iria deixar Vini arrebentar sua porta. Ela foi dar o primeiro passo e escorregou no shampoo do chão.

Ela viu sua própria vida passando diante de seus olhos enquanto caía em direção à banheira. Ela colocou os braços na frente do corpo e fechou os olhos.

Atingiu a água como um peso. Atingiu os dois braços em cheio na banheira. Nada aconteceu.

A luz tinha acabado. Era isso.

E foi aí que a luz voltou.

Keth percebeu que o banheiro tinha retomado a sua claridade então sentiu seus dedos queimando. Ela tentou gritar e não conseguiu – um fogo, um choque, uma explosão acontecendo no interior de seu corpo enquanto se retorcia violentamente — os braços na banheira.

XXXXX

E eu dizia
Ainda é cedo
Cedo, cedo
Cedo, cedo”

Vini ouvia a música ecoando pelo alto-falante. Com pilhas. E ele chorava enquanto a maldita porta resistia bravamente.

– É eucalipto. – Um dos vizinhos comentou. — Muito resistente a propósito.

XXXXX

Keth deu o último espasmo, curiosamente ainda consciente. Sentia o corpo inteiro ardendo. Doendo.

Sentia também o sangue escorrendo em seu peito e secando no roupão. A eletricidade tinha encontrado um local para sair de seu corpo.

E então ela começou a esquecer. De seu compromisso aquela noite. Do acidente no parque. Seu emprego. Esqueceu que era heroína. Do ventilador. De Vini. Esqueceu até o próprio nome.

Keth caiu no chão do banheiro.

XXXXX

A porta finalmente rompeu. Vini adentrou o apartamento como um tufão, derrubando caixas e dando encontrões com paredes e mais caixas.

Procurou pela casa toda, nesse instante já com dúzias de vizinhos curiosos em suas costas. Aí ele viu a porta entreaberta do banheiro e entrou.

Ele encontrou Keth caída no chão, abraçada por aquele roupão azul e misterioso que alguém que ele não sabia tinha dado a ele.

Tudo tinha acabado. Tudo. Keth estava morta.

Vini a tomou em seus braços, chorando. Ela estava gelada. Sem vida.

Os vizinhos reagiam chocados.

E eu dizia
Ainda é cedo
Cedo, cedo
Cedo, cedo

Não era cedo. Era tarde demais. Ele olhou pra longe. Para muito além de si e Keth. E gritou.

Notas finais
Não esqueçam de comentar, é importantíssima sua colaboração como leitor para a continuidade do projeto. Encontro vocês nas reviews!