Premonição 4- Viver Não É Uma Opção
4 Capítulo 04-Decepções
Notas iniciais
As sombras mergulhavam sobre o quarto, deixando-o com um tom muito mais sombrio. Mas isso não assustava Carrie. Ela estava deitada em sua cama de casal branca. A única luz que entrava era da janela pequena em cima da cama, mas era fraca e iluminava apenas um pedaço do local, precisamente em Carrie. Uma pequena mesa com perfumes estava na parede paralela a cama.
A moça estava deitada com as mãos abaixo da cabeça, pois seu travesseiro de penas de ganso havia sido estraçalhado em um ataque de raiva dela própria. Seus olhos estavam vidrados no ventilador que girava no teto, sem pressa alguma.
Sob a barriga de Carrie estava a carta que chegara para ela a tarde. Mais uma consulta havia sido marcada. Mais sofrimento viria. Mais angústia. Mais dor. Não estava mais conseguindo conviver com aquilo. Ela sempre se sentiu podre. Mas agora era de outra forma.
Antes se sentia assim por causa dos assanhamentos diários com homens. Agora era por causa daquilo. Não conseguia culpar ninguém, nem ela mesma. Pegou uma mecha de seus cabelos negros e esperou eles deslizarem pelos seus dedos. Uma lágrima deslizou pelo seu rosto. Ela passou a mão rapidamente, não queria borrar sua maquiagem.
Carrie pensou sobre a confusão de manhã envolvendo o acidente e tudo mais. Ela foi uma das primeiras a querer sair do ônibus. Ainda usou uma desculpa esfarrapada de que havia visto rachaduras. Só ela sabia o verdadeiro por que. E teria que continuar assim. Ninguém poderia saber o que estava acontecendo.
Ninguém.
O jeito era ficar deitada em sua cama, no quarto andar de um prédio pobre e caindo aos pedaços, em um bairro suburbano da cidade, pensando no que ela tinha feito até agora em sua vida. Seu celular tocou. Carrie demorou alguns segundos até ver quem era no visor. Era um homem que ela conhecera em um bar e com quem iria sair naquela noite. Seriam assim os últimos dias de sua vida: saindo com homens e mais homens. Era o único jeito que ela sabia como aproveitar a vida. Levantou-se para terminar de se maquiar e sair logo.
A verdade era única: ela estava marcada para morrer já fazia um bom tempo.
***
Não existe nada melhor do que descobrir que seu colega de trabalho morreu e logo depois ser assustado por uma figura ironicamente sinistra. Mas não para Dan. O sujeito atrás dele era elegante, porém, sinistro. Tinha mais ou menos a mesma idade de Dan. Usava em seus pés sapatos sociais bem engraxados. O homem usava uma calça e camiseta sociais, com um casaco de couro por cima. Um sorriso torto e debochado mostrava seus dentes brancos, enquanto lentes de uns óculos escuros escondiam seus olhos.
O mais chamativo nele era seu cabelo. 70% do cabelo era loiro, enquanto os outros 30% tinham cores variadas entre preto, verde, vermelho e azul, fazendo-o parecer um arco-íris.
–Por favor, não fique me olhando com essa cara... –o homem pediu-Você mesmo sabe que é culpado.
–E você, quem é?-Dan retrucou desconfiado.
–Ah, pode me chamar de Jason... –o homem estendeu a mão para cumprimenta-lo, mas Dan não retribuiu, então a mão voltou para o bolso do casaco-Bem, você é Dan, o garoto que teve a premonição, eu creio...
–Como você sabe meu nome?-Dan perguntou franzindo a testa.
–Ah, eu tenho acesso aos artigos dos policiais... A propósito, eles vão te interrogar amanhã. –Jason disse sorrindo sarcasticamente como se aquilo fosse uma piada.
–E por acaso você é um policial?-Dan perguntou.
–Ah, não... –Jason disse virando as costas para Dan e começando a andar. Ele olhou para o rapaz por cima de seu ombro e disse-Pessoas vivas são complicadas demais... As pessoas mortas são mais interessantes, e logo você será uma delas se não fizer nada...
Jason caminhou pela calçada, até sumir na vista de Dan. Quem era aquele cara? Ele devia saber alguma coisa sobre a Morte para dizer aquelas coisas. Dan queria ir atrás daquele cara e força-lo a dizer certas coisas, mas seu celular tocou: era Nicole.
–Oi.
–Oi... –a voz de Nicole estava fraca e embargada-Preciso falar com você... Agora.
–O que foi?-Dan perguntou preocupado olhando a ambulância ir embora da casa de Will. Os curiosos iam se dispersando também.
–Só posso falar pessoalmente... –Nicole disse. Parecia que ela estava sendo perseguida.
–Tá... Estou indo para sua casa... –Dan disse, então ambos desligaram.
Dan começou a caminhar, se afastando da casa de Will. Uma brisa fria bateu contra ele, que sentiu como se alguém estivesse andando junto a ele, mas não havia ninguém. Logo após alguns minutos, apenas o rapaz estava na calçada, sendo iluminado por fracos feixes de luz lançados pelo poste de iluminação.
O que era tão importante que Nicole não podia falar por telefone? Dan se perguntou isso, até que viu a casa dela pegando fogo.
***
Adrian havia vestido seu calção de pijama e havia se esparramado no sofá, procurando alguma coisa que o distraísse na sua televisão de cinquenta e duas polegadas. O que não estava adiantando. Por alguma razão, o loiro estava usando o anel que ganhara de seu pai, mesmo com aquela frase que ele não sabia o que significava. Já havia passado pelo canal de natureza, de culinária, de filmes e até de desenho. Nada chamava sua atenção, e isso o irritava.
Começou a pensar em Emma. Será que ela estaria bem? Toda essa loucura de acidente estava mexendo com ela. Adrian ainda se sentiu insensível em um pensamento, mas já havia pensado: quem deveria estar maluco era eu, que sei que vamos morrer. Mas a loira deveria ter suas razões. E tinham que ser muito boas.
Umas batidas nas paredes ecoaram pelas paredes. Adrian duvidava que fosse código Morse com a resposta de tudo. Devia ser dona Virginia batendo na parede com a vassoura por causa do volume da televisão. Adrian pegou o controle e diminuiu o volume. Depois de alguns segundos decidiu desliga-la.
Virou-se e fitou o teto, que não tinha nada demais. Seus olhos ficaram marejados quando aquele dia voltou em sua mente.
–
Ele, Emma e Jake, pai de ambos, haviam entrado na casa para ver os biscoitos. A resposta é que eles estavam torrados. Adrian soube na hora que quem havia feito os biscoitos era o pai, que sempre os deixava queimar.
–Ih... Queimou. –Emma disse decepcionada e fazendo beicinho, enquanto encarava os biscoitos, que pareciam pedras de carvão.
–Ahn... Quieren cereal?-Jake ofereceu. O homem jogou a bandeja na pia e tirou uma caixa de cereal de um dos armários.
Adrian e Emma se sentaram à mesa. O menino se perguntava por que o pai estava tão estranho? Algo nele o incomodava. Jake colocou um pouco de cereal em duas vasilhas e as deu para os filhos. Emma comia feliz com sua colher cor de rosa decorada com flores, enquanto Adrian encarava o pai, que tinha os olhos cansados e confusos.
–Pai, aconteceu alguma coisa?-Adrian perguntou franzindo a testa, desconfiado.
–O que? Nada, mi hijo... –Jake respondeu bagunçando os cabelos do filho-Escutem crianças, vou terminar de fazer un trabajo lá nos fundos. Já volto...
As crianças concordaram e o homem saiu. Mas era mentira. Ele nunca mais voltou... Não com vida. O resto do dia era apenas alguns vislumbres nas lembranças de Adrian. Uma ambulância... Um corpo... Seu tio, irmão de seu pai, desmoronando por dentro, mas tentando parecer forte por fora para cuidar deles.
–
Agora o loiro estava de pé na janela de seu apartamento, vendo a movimentação do trânsito, doze anos após tudo aquilo. Por que essas lembranças estavam voltando com tanta força na mente de Adrian? As respostas de todas as perguntas que bombardeavam Adrian não apareceram, então ele decidiu ir dormir. Enquanto tentava dormir, a imagem de seu pai não saía de sua cabeça. Uma lágrima deslizou pelo seu rosto.
No dia seguinte iria cedo ver sua irmã e como ela está.
***
Ficar chorando horas deitada numa cama não fazia parte do plano de Lilian.
A morena havia aberto aquele pacote como um policial que tenta desarmar uma bomba: com medo que aquilo explodisse a qualquer momento. Quando tirou o conteúdo, era apenas uma caixa, que como o embrulho, não tinha nada que fosse interessante. Ao abrir a caixa, lágrimas caíram. Dentro dela havia várias fotos. Elas mostravam uma mulher linda, sorridente e duas meninas felizes.
Uma das meninas, a mais nova, era Lilian. A mais velha era sua irmã e a adulta era sua mãe, Raven. O dia em que as três tiraram essas fotos foi maravilhoso. Depois de vários dias consecutivos trabalhando, Raven havia conseguido um dia de folga para passar com as filhas e estava aproveitando ao máximo.
O sorriso estampado no rosto das duas meninas não era 100% verdadeiro. Naquela época, a desgraça já estava acontecendo. A mãe não sabia de nada. Nunca soube, na verdade.
Lilian não sabia por que a irmã lhe dera aquelas fotos, que serviam apenas para assombrá-la. Mas acabou vendo foto por foto, enquanto lágrimas escorriam pelo seu lindo rosto. Ela não tinha vontade de limpá-las. Após ver foto por foto, viu que no fundo da caixa encontrava-se um colar com a metade direita de um coração que tinha escrito “para sempre”.
Aquele colar já fora de Lilian, antes dela jogá-lo na cara da irmã. Ashley tinha um idêntico a ele, só que com a metade esquerda de um coração e com a palavra “irmãs”. Ao juntar as duas partes, formava-se um coração por completo com a frase “irmãs para sempre”, ou se invertesse, poderia ler “para sempre irmãs”.
A moça de olhos eletrizantes lembrava-se bem do dia em que ganhou aquele colar da irmã, quando tinha sete anos e sua irmã tinha doze anos.
–
Lilian estava encolhida no canto de seu pequeno quarto, chorando desesperadamente. Havia acontecido novamente. Ela ouviu passos subindo a escada, em direção de seu quarto. Encolheu-se toda, tentando parecer o menos visível possível, colocando a cabeça entre as pernas e cobrindo-a com os braços.
–Hey, Lily, sou eu... –era a voz de Miranda, quando ainda se chamava assim. Lily era um apelido carinhoso que apenas sua irmã e sua mãe usavam para trata-la -Tá, tudo bem...
–Não, não tá... –Lilian disse derramando mais lágrimas. A garotinha deu um pulo e abraçou forte a irmã.
–Calma Lily... Vai ficar tudo bem, eu prometo. –Miranda disse pousando suavemente suas mãos nas costas da garota, que continuava a chorar.
Vindo do andar de baixo, especificadamente da sala, o som de um jogo de beisebol era audível.
–Espera aqui, vou te dar um presente... –Miranda disse saindo do abraço e indo em direção da cama beliche aonde as duas dormiam. A garota subiu na cama de cima e depois desceu, voltando para perto de Lilian, trazendo consigo uma caixinha vermelha -Toma... –ela lhe entregou o presente.
Lilian hesitou, mas pegou a caixinha e abriu. Dentro dela havia um coração escrito “irmãs para sempre”. A garotinha fitou o objeto por alguns segundos, até ver que eram dois colares.
–Uma parte é sua e a outra é minha... –Miranda explicou -Assim, mesmo longe, estaremos perto uma da outra.
Essas palavras confundiam um pouco a cabeça de uma criança de sete anos. Miranda pegou um dos colares e colocou carinhosamente na irmã.
–Vamos sempre contar com a outra, para tudo. –Miranda incentivou. Lilian assentiu e colocou o outro colar na irmã mais velha.
As duas se olharam com os olhos eletrizantes que tinham e se abraçaram novamente... Um longo, caloroso e carinhoso abraço.
–
Ao se lembrar daquilo, Lilian largou as fotos no sofá, agarrou forte o colar e subiu para seu quarto, capotando em sua cama. Em sua mão esquerda estava segurando a pulseira com uma pomba prateada, que lembrava sua mãe, e em sua mão direita, segurava o colar, que lembrava sua irmã.
A única coisa que ela lamentava era não poder arrancar sua mente, que era a única coisa que a lembrava dele.
***
Já era o terceiro hambúrguer que Evan tentava fritar. Os dois primeiros haviam ficado torrados. O seu pequeno apartamento estava abafado e o calor vindo do fogão aumentava o calor. O homem estava apenas com uma bermuda preta e um colar com uma concha. Da sala, ao lado da cozinha, podia-se ouvir som de um filme de ação passando em algum canal qualquer.
O seu celular toca. Já era a décima oitava vez naquele dia que ela ligava. Evan não aguentava mais evitar. Atendeu.
–O que você quer?-Evan disse grosseiramente se aproximando da janela da cozinha, para se refrescar.
–Olá para você também, Evan... –a moça do outro lado da linha falou. Sua voz era fria, porém muito sedutora-Sabia que eu não vi nenhuma mudança na minha conta bancária?
–E nem vai ver... Estou entrando em contato com meu advogado. Resolveremos isso na justiça. –Evan disse querendo soar ameaçador.
A mulher do outro lado da linha soltou uma gargalhada.
–Você quer mesmo fazer isso de novo?-ela disse sarcasticamente-Você sabe que vai dar na mesma coisa...
–Isso é o que veremos. –Evan desafiou.
–Evan querido, você sabe que eu consigo tudo que eu quero...
–Abrindo as pernas, não é?!-Evan provocou.
–Agora você fala desse jeito, mas há dois anos adorava... –a mulher disse rindo.
–Você foi um erro na minha vida. –Evan disse-O maior de todos eles.
–Foi você que quis assim, baby, agora eu só estou jogando de acordo com as suas regras. –a moça deduziu.
–Regras? Verônica, isso não é um jogo. Uma vida está em risco. –Evan disse com os olhos marejados.
–Se você se preocupasse tanto, estaria aqui. –Verônica disse. Agora ela tinha certa raiva na voz.
Evan não aguentou: desligou o celular.
O rosto do rapaz estava vermelho. Em parte por causa do calor, em parte por causa da ira e raiva que lhe dava toda vez que via ou ouvia aquela mulher. Seu sangue fervia.
Mais uma carta de cobrança estava sobre a mesa da cozinha. A segunda parcela de sua conta estava atrasada há semanas. Verônica, sua ex-futura mulher, estava pedindo a pensão do filho (não que ela precisasse do dinheiro de Evan para sobreviver, mas só queria infernizá-lo). De filhinho de papai a um homem falido. Era isso que Evan era?!
Acabou ficando com raiva e bateu o punho com força na mesa, que fez um barulho estranho, mas nada com que se preocupar. Olhou novamente para o fogão e percebeu que mais um hambúrguer estava torrado. Desligou o fogo. Decidiu desistir de preparar a própria comida e ir a uma lanchonete. Ele vestiu uma camiseta e saiu do apartamento, com a dúvida se as coisas do lado de fora eram mais assustadoras que as de dentro...
***
Nicole concluiu que já não estava bem antes mesmo do acidente no viaduto. Agora, com sua casa se desmanchando aos poucos pelo fogo, estava pior ainda. Parecia que tinha uma faca presa em seu coração e em sua alma, e quando viu Dan todo preocupado com ela, sentiu mais dor ainda.
Um dia atrás, horas antes de ela ir à casa do namorado para dormir com ele, Nicole estava em frente ao espelho do banheiro de sua casa, tentando convencê-la de fazer a melhor escolha, que era a escolha mais dolorosa.
–Sério Dan... Sinto que não temos mais química – Nicole ensaiava. Ela já havia feito mais de dez discursos para terminar com Dan, mas nenhum a convencia, talvez porque ela não quisesse isso, mas porque era preciso – Não, esse é muito ruim. Dan, eu te trai... Pera, assim eu fico muito vadia. Dan, meu pai não aprova nosso namoro... Calma, isso vai ser mentira. Eles até foram pescar juntos uma vez...
Resolveu sair do banheiro e ir para o quarto. Lá, se jogou em sua cama com três ursinhos de pelúcia e ficou pensativa. “Dan nunca vai perdoar o que eu fiz” ela se lastimava.
Após alguns minutos, dormiu. Teve sonhos. Sonhos borrados. Ela estava no mesmo beco escuro de uma semana atrás. Ratos e baratas circulavam entre latas de lixo.
Quando acordou, se arrumou e foi para a casa de Dan. Lá, os dois namoraram, brigaram com Ben por ele ser tão intrometido (ninguém gosta de um adolescente metido debaixo de sua cama quando está fazendo coisas “particulares”) e jogaram Banco Imobiliário com Carly. A garotinha ganhou mais uma vez.
Antes de dormir, Nicole pensou mais uma vez no que diria para Dan. O jeito seria improvisar na hora certa. Ela havia decidido que essa hora certa seria no passeio para a empresa. Isso até a premonição dele. A morena sentiu que mais do que nunca o namorado precisava dela.
Mas a hipocrisia a consumia por dentro. Refletiu sobre isso. Não era hipocrisia total. Ela o amava, mas não podia ficar com ele.
Pouco antes de a casa queimar, Nicole estava na cozinha, preparando macarrão instantâneo. É, esse seria seu jantar. Enquanto o fogo esquentava seu jantar, Nicole sentou-se numa cadeira da cozinha e refletiu mais ainda sobre a vida. Sua preocupação não era só em Dan, mas também em seu pai. Ele era advogado, e a morena duvidava que a defendesse em seu caso.
Nicole estava completamente perdida. Mas mesmo assim viu que estava na hora de limpar o tapete que tomava conta da cozinha inteira. Ele estava sujo demais.
Quando olhou para o fogão, o fogo que deveria estar aceso estava apagado.
–O que...?!-ela disse se levantando e tentando acendê-lo novamente.
O fósforo estava contra ela. Enquanto tentava, lembranças tomavam a cabeça de Nicole. O beco escuro, aquele mendigo... E pensar que tudo aquilo ocorreu há uma semana. Quando ele acendeu, uma brisa entrou pela janela, mas não apagou a chama, apenas a contorceu, para que ela fosse na direção do dedo dela e o queimasse.
–Au!-ela gritou soltando o fósforo, que acabou caindo no tapete.
Logo as chamas tomaram conta do tapete, que percorria toda a cozinha. Nicole conseguiu sair de lá, mas sentiu que o pior ainda estava por vir quando sentiu o cheiro de gás vazando.
–Droga!-ela gritou e correu para a porta de saída.
No exato momento que ela se lançou para fora, caindo na grama fofa do jardim, chamas explodiram pelas janelas e a casa começou a ser tomada pelo fogo. Em poucos minutos, pessoas curiosas chegaram perto da casa para ver a situação.
Agora, Dan abraçava Nicole. Como ela poderia ser tão cruel a ponto de fazer o que ia fazer com o namorado? Ele era um príncipe encantado do mundo moderno. Lágrimas queriam rolar pelo seu rosto, mas ela sentia que até seus olhos estavam secos.
–Vai ficar tudo bem, Nicole... –Dan disse a abraçando mais forte e beijando sua testa.
Ela queria acreditar nisso, mais era mentira.
–Me leva para sua casa?-Nicole pediu-Depois falo com meu pai...
–Claro, claro... –Dan concordou.
Os dois saíram do local, ignorando todos os curiosos, bombeiros ou policiais. O pai de Nicole daria um jeito naquilo. A única coisa com que ela se preocupava não podia ser consertada...
***
Carrie havia se produzido divinamente. Havia colocado um vestido sem alça azul deslumbrante, que havia ganhado de uma tia no natal há dois anos. Vestido qual foi comprado em um brechó, mas isso é só um detalhe. A moça teve até dificuldade de fechar o zíper nas costas, mas deu um jeito. Colocou brincos dourados e um anel, também dourado. Seu pescoço estava enfeitado com um colar de pérolas e seus cabelos negros arrumados em um coque.
Descia as escadas com seus sapatos negros e brilhantes. A cada movimento muscular dela, a escada de madeira do prédio fazia um ruído. Mas ela não ligava, só queria se divertir essa noite.
Quando chegou à rua, uma limusine a esperava. A porta se abriu e revelou-se lá dentro o seu acompanhante da noite: Karl. Ele era um playboy que estava afogando as magoas no bar em que conheceu Carrie.
–Nossa... –ela disse impressionada.
–Por favor, entre. –Karl sorriu. Carrie obedeceu e sentou-se no estofamento de couro de vaca do carro.
Karl pediu para o motorista se dirigir para um chique restaurante francês no centro da cidade.
–Espero que essa noite seja especial... –Karl disse lançando uma piscadela para Carrie. Ela estava encantada.
–Tomara... –ela disse sorrindo.
Após alguns minutos bebendo champanhe e rindo, chegaram ao tal restaurante. O motorista abriu a porta e os dois desceram. Logo na porta, Carrie gelou. Vários homens de negócios e suas esposas finas jantavam lá, sobre a luz de um lustre de cristais caríssimo. Ela não pertencia a esse mundo. Não sabia o que era ser chique, ser refinada ou como se comportar em um ambiente desse.
Apesar da timidez, deu o braço para Karl e os dois entraram, após o rapaz confirmar que a mesa reservada estava lá. Carrie já estava puxando a cadeira com as próprias mãos quando Karl a puxou com cavalheirismo e ela sentou-se, agradecida.
A moça se atrapalhou logo no começo do jantar, quando o cardápio chegou e todos os pratos tinham nomes esquisitos ou/e eram em outra língua, principalmente francês. Ideias nada sugestivas vieram quando ela leu o nome de tal prato chamado escargot.
–Você vai querer o que?-Karl perguntou gentilmente.
–Ah... –Carrie disse sem jeito-O mesmo que você...
O garçom anotou o pedido que Karl fez (algo que Carrie não entendeu) e saiu de perto da mesa. A moça começou a ficar sem graça e fingiu que estava arrumando o anel em seu dedo.
–Chique aqui né... –ela puxou assunto.
–É... Você tá custando caro... –Karl disse sorrindo maliciosamente e dando uma piscadela-Espero que seja recompensado depois...
–O quê?-Carrie não acreditou no que havia ouvido-Um momento, você deve estar confundindo as coisas...
–Ah, Carrie, por favor... Não estou confundindo nada. –Karl respondeu-Eu sei o que você é.
–O que eu sou?!
–Uma vadia barata... Quero dizer, não tão barata. –Karl concluiu-Um jantar caro, aluguel de limusine... Pensei que você era mais fácil.
–Karl, assim você me ofende!-Carrie exclamou.
–Ah, Carrie, é só a verdade!-Karl disse-Você vai dar para mim de qualquer jeito...
–Você é nojento!-Carrie exclamou se levantando, claramente ofendida.
Nesse momento, uma patricinha com o cabelo loiro oxigenado chegou, com uma roupa rosa choque.
–Karl, seu canalha!-ela gritou, chamando a atenção de todos.
–Princesinha... –ele disse se levantando.
–Sabia que ia encontrar você aqui –a patricinha olhou para Carrie e depois para Karl- com mais uma vadia podre!
–Ei, eu não sou... –Carrie começou a protestar.
–Cala sua boca!-a patricinha disse dando um tapa estalado na cara de Carrie, que colocou a mão no rosto.
Vários sentimentos tomaram conta de Carrie nesse momento. Ela queria revidar e mostrar para aquela patricinha oxigenada quem ela era. Mas não fez isso. Aquela ação só mostraria que era igual aquela moça. Resolveu sair correndo do restaurante, mostrando ser superior. Karl e a garota ficaram discutindo. Carrie ainda escorregou em alguma coisa na porta do estabelecimento, mas não ligou se alguém riu. Ela só queria sair dali.
Embarcou no primeiro táxi que achou. Deu o endereço de uma casa que era duas quadras antes da dela. Lágrimas escorriam pelo seu rosto. Nunca fora tão humilhada em sua vida. Estava ofegante. Tossiu uma, duas, três, quatro vezes.
O tempo passou rápido e o táxi parou onde ela havia pedido. Num movimento rápido, Carrie saiu do veículo sem pagar, pois não havia levado dinheiro para o jantar, na promessa de Karl que seria um alegre jantar. Tudo fingimento.
Já as duas quadras pareceram ser uma eternidade para Carrie. Ela corria desesperada, querendo chegar logo em casa. Tentando enxugar uma lágrima enquanto corria, acabou tombando com um rapaz.
–Hey, calma garota... –ele disse-Peraí, você não é a Carrie?
O rosto do garoto de dezesseis anos se iluminou em um sorriso. Por que estava tão hipnotizado pro ela? Carrie demorou a reconhecê-lo: era Ben, irmão de Dan.
–É, sou eu... –ela respondeu voltando a andar.
Ben começou a segui-la.
–Ei, espera aí, por que você tá chorando?-Ben questionou.
–Não é nada... –Carrie respondeu enxugando as lágrimas.
–Uma ex minha também falava que não era nada... –Ben disse se lembrando de uma garota.
Ben começou a reparar mais em Carrie. Na beleza de seu rosto, no brilho em seus cabelos, nas curvas do seu corpo... Algo nela o atraía, mas ele não sabia o que.
–Você é muito bonita... –ele acabou disparando.
Carrie parou, irritada.
–Tá de sacanagem né?-Carrie perguntou. Rímel escorria pelo seu rosto.
–O quê? Não! Eu nunca mentiria para uma mulher tãããão bonita... –Ben disse.
–Vai arranjar o que fazer garoto!-Carrie mandou recomeçando a andar. Estava sendo durona, mas estava se derretendo por dentro. Acabou percebendo que nenhum homem havia lhe elogiado de maneira tão carinhosa.
–Garoto? Eu vou fazer dezessete anos semana que vem!-Ben protestou.
–Ah, parabéns... –Carrie ironizou.
–Obrigado. –Ben aceitou as falas de Carrie-Sabe, eu estava passeando pela cidade e agora que vi você assim... Toda arrumada... Pensei que poderíamos sair...
–Ah, que gentil... –Carrie disse friamente.
–É sério! Você é uma mulher bonita, gentil... –Ben começou a elogiá-la- E vejo que está triste... Eu poderia alegrá-la!
Carrie apertou o passo e logo estava chegando ao seu apartamento. Ela subiu as escadas e Ben a seguiu.
–E eu não sou de se jogar fora... –Ben se vangloriou.
–Você é bonitinho... –Carrie admitiu.
–Viu?!
Os dois entraram no apartamento de Carrie. Ela tirou seus brincos e seu anel e os deixou em um balcão na cozinha. Então os dois seguiram para o quarto dela.
Enquanto Carrie separa uma roupa para se vestir, Ben se aproximou por trás. A moça sentia a respiração dele em seu pescoço.
–Me dá uma chance? Aposto que consigo te fazer feliz... –Ben garantiu. Não se tratava só de mais uma conquista para ele. Como ele podia nomear o que viu em Carrie? Uma paixão avassaladora? Seria isso? Ele não sabia.
Carrie não sabia o que responder. Havia dado confiança a um cara riquinho e mimado e havia dado naquilo. Sentia nojo dela própria.
Nesse instante, Ben começou a abrir o zíper nas costas de seu vestido e a dar beijos em seu ombro, depois no pescoço, até virar o corpo dela e lhe dar um beijo na boca. Carrie sentia o calor de seu corpo.
Ela entrelaçou seus braços no pescoço dele e trocaram mais beijos quentes e demorados. Ben a levantou e a colocou sentada numa mesa cheia de perfumes. Alguns deles caíram no chão.
Carrie pensou que aquilo era errado por dois motivos. O primeiro: ele parecia estar apaixonado ou sei lá o que, e ela não queria iludi-lo. Segundo: ele tinha dezesseis anos, era menor de idade. Não que Carrie fosse uma senhora de sessenta anos. Iria fazer vinte no mês que vem.
Mas algo em Carrie bateu mais forte. Ela tirou a camisa de Ben ferozmente e jogou em algum lugar do quarto. Depois tirou seu cinto e lentamente abriu o zíper da calça dele. Ben a ergueu em seu colo e os dois caíram na cama.
Por sorte, num movimento rápido, Carrie conseguiu jogar a carta da consulta médica debaixo da cama.
Ben interrompeu o beijo por um momento e olhou profundamente nos olhos de Carrie. Então eles se beijaram novamente e se entregaram um ao outro.
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