Premonição 4- Viver Não É Uma Opção
5 Capítulo 05-Fogo Na Chuva
Notas iniciais
Quando Dan acordou, Nicole ainda dormia, suspirando, mergulhada em algum sonho – ou pesadelo. O rapaz havia pensado nessa sugestão porque ele próprio havia tido um pesadelo. Nele, uma tempestade se aproximava. Raios cortavam o céu enquanto vários pingos d’água começavam a cair. O curioso é que os pingos caíam em sincronia, formando cilindros de água. Um espelho estava aos pés de Dan. Quando ele olhou para o objeto, não viu seu reflexo, mas viu uma caveira. O espelho começou a se rachar e o sonho ficou escuro. Dan acordou suando. Vestiu-se e desceu.
Agora estava sentado numa cadeira, na cozinha, comendo um pão com geleia de ameixa. Havia recebido duas notícias da tia Lorena. A primeira é que aconteceria o enterro de Will junto com o memorial, que a tia soubera por um telefonema de algum funcionário da empresa que ela não decorou o nome. A segunda é que Ben não havia dormido em casa. Isso a tia soubera porque foi no quarto do garoto e não viu ele lá.
Dan teve que acalmá-la, dizendo que o irmão deveria estar na casa de algum amigo. Era mentira, ele sabia, mas foi o que conseguiu arranjar.
Após alguns minutos, Carly desceu arrumada e com uma boneca em mãos.
–Oi Dan... –ela cumprimentou.
–Oi... –Dan disse mastigando mais um pedaço de seu pão.
A campainha toca. Dan levanta-se e atende a porta. Parado em sua frente está um homem gordo, bigodudo e com poucos cabelos na cabeça. Ele pigarreia.
–Ahn... Bom dia. –o homem cumprimentou-Sou o detetive Willians. Você é Dan Gabefield?
–Sou eu. –Dan respondeu. Ele estava confuso.
–Eu estou investigando a queda do viaduto. Soube por algumas testemunhas que você disse que o viaduto iria cair. Certo?-o detetive perguntou.
–É... Mais ou menos isso.
–Bom, espero você na minha delegacia à tarde. Okay? Preciso de esclarecimentos. -o detetive convidou, entregando-lhe um cartão com um endereço. Porém, seu convite pareceu mais uma ordem.
–Ah, claro. –com certeza Dan estava desconfortável com a situação.
–E também quero que leve sua namorada Nicole. Ela tem muita coisa para falar além do acidente. –o detetive falou.
Dan concordou com a cabeça. O detetive foi embora e Dan voltou para dentro. Algo no detetive incomodava o rapaz. Ele não sabia o porquê, pois o detetive parecia ser uma boa pessoa. Um calafrio percorreu sua nuca.
Uma súbita imagem de Jason, o cara misterioso da noite anterior, veio em sua mente. Quem ele era? Com a confusão envolvendo Nicole e a casa em chamas, Dan nem pensou sobre aquele cara e nem sobre o que ele dissera. E a lista da Morte? Dan precisava pensar sobre isso.
Muita coisa estava acontecendo ao seu redor. Ele precisava saber o que estava acontecendo com Nicole. Ele precisava saber o que estava acontecendo com eles e com a Morte.
Um pouco antes de conseguir dormir, Dan pesquisou mais. De acordo com várias teorias, as pessoas que escaparam do acidente morreram na ordem em que deveriam ter morrido se tivessem ficado no acidente. Ele só precisava se lembrar de quem morria depois de Will.
Um leve ventou entrou e rastejou pela casa. Dan sentiu um arrepio pelo corpo todo. Uma sensação lhe acompanhava. Ele sentia que estava sendo vigiado. Alguém estava perto dele. O rapaz se virou, mas não tinha ninguém em lugar nenhum, apenas Carly, afogando sua boneca na tigela de cereal com leite.
***
Evan havia terminado de tomar seu café-da-manhã: duas tigelas de cereal colorido e um copo de leite, que estava meio azedo. Estava terminando de arrumar seu aquecedor, que ficava na parte debaixo de uma das paredes, perto de uma mesa. Ao contrário da noite anterior, agora estava frio. O rapaz terminou o ajustamento e deitou no sofá, pensativo.
A noite anterior, após ele sair de casa para ir a uma lanchonete, foi muito estranha. E claro que o lembrou do dia em que conheceu Verônica. Assim como a garota da noite anterior, Verônica era loira. E linda.
Já fazia dois anos que tudo aconteceu.
–
Era uma pacata e normal sexta-feira na vida de Evan. À noite, ele ia sair com os amigos da faculdade. Ia.
Estava todo atrapalhado com sua mochila, as apostilas, livros e o celular que não parava de tocar. Ao virar uma esquina da super chique universidade de Washington, trombou com a garota loira. Todos seus pertences caíram no chão.
–Oh... Desculpe-me!-a moça disse educadamente soltando um sorrisinho simpático. Ela se agachou e os dois começaram a juntar as coisas dele.
–Ah, não foi nada. –Evan disse levando a mão até um dos seus livros. A moça fez o mesmo gesto e as mãos deles se tocaram. Evan corou e a garota disfarçou arrumando o cabelo atrás da orelha.
Após juntarem os materiais dele, se levantaram. A garota ainda segurava um dos livros.
–Nossa... Psicologia. –a garota se surpreendeu. Evan não tinha cara de psicólogo. Tinha um olhar castanho, agitado, meio louco.
–É, segundo ano. –Evan disse pegando o livro-E você, faz faculdade do que?
–Medicina. –a garota disse-Meu pai diz que é bobagem e... Nossa, que falta de educação a minha! Meu nome é Verônica!
Ela lhe estendeu a mão.
–Evan. –o rapaz disse tocando-lhe novamente a mão. Ela tinha uma pele macia, encantadora. Depois que Evan a sentiu, tinha vontade de nunca mais largar aquela mão, mas acabou largando.
Depois disso foram encontros e mais encontros. Naquela noite mesmo, que Evan iria sair com os amigos, saiu com Verônica. Quase todo dia se encontravam. O rapaz começou a se perder nos estudos. O relacionamento entre os dois foi ficando cada vez mais intenso e então a garota engravidou.
Verônica queria abortar, mas Evan era contra. Depois de meses, a criança nasceu. O pequeno Dave, como o próprio Evan chamava a criança.
Com o nascimento do bebê, Verônica ficou descontrolada. Ela não podia ter um filho. Ela era jovem, estava no auge de sua vida e não tinha nem tempo e nem vontade de cuidar de uma criança. Além disso, o pai dela a mataria.
A primeira opção que ela tentou foi dar a criança para Evan. O problema é que ele também não podia. Seu pai era um famoso, rico e importante empresário, com árvore genealógica importante. Entre os costumes da família, um deles era ter filhos após o casamento. O escândalo de que Evan, o filho de um importante empresário, teve um filho, poderia arruinar a empresa de seu pai e leva-lo a falência.
Assim, Evan quis ir à falência sozinho. Chamou seu pai em uma tarde de domingo e contou toda a história para ele. Seu pai, obviamente, ficou abismado. Evan saiu de casa, perdeu todos os mimos de seu pai. O que lhe restou era apenas uma Ferrari.
Após inúmeras brigas com Verônica, a mulher decidiu que ficaria com a criança e não contaria para ninguém quem era o pai. Em compensação disso, queria uma “pensão” para a criança. Uma fortuna, aos olhos de Evan. O rapaz rejeitou o preço da moça, que levou o caso a justiça, mas tudo escondido da imprensa.
Evan acabou largando a faculdade de psicologia e aceitando o trato com Verônica. E pensar que toda sua vida se destruiu em dois anos.
–
Atualmente, o pequeno Dave tem dois anos. Evan ainda teimava em comprar alguns luxos, como seu aquecedor e uma televisão, parcelados no cartão. Claro que isso era uma loucura, aliás, a segunda parcela desses eletrodomésticos estava atrasada e não parava de chegar cartas de cobrança.
Cobranças, cobranças e cobranças...
Uma brisa fria entrou pela janela e balançou os cabelos louros de Evan, que estava esticado no sofá.
Na noite anterior, após a busca por uma lanchonete, Evan trombou com outra “loira fatal”. Por sorte, já a conhecia: era Emma, irmã de Adrian. O estranho era que a mulher estava mais pálida que o normal e tinha os olhos confusos.
–Ah, desculpe... –Evan disse após trombar com a moça. Então, percebeu quem era-Emma? Você tá legal?
A loira fitou o asfalto em baixo de seus pés por alguns segundos, então olhou para o rapaz.
–Ah, oi Evan. –Emma sorriu simpaticamente.
Evan havia largado sua faculdade de psicologia, mas sabia reconhecer uma pessoa mentalmente abalada. “Ela tem a loucura em seus olhos! Algo está errado com essa mulher...”
–Ahn... Emma, você gostaria de me acompanhar em um lanche?-Evan convidou.
–Ah, claro. –Emma disse olhando para os lados, nervosa.
Após alguns minutos, os dois comiam X-Burger’s e conversavam como amigos de infância. Em alguns instantes Emma paralisava, com os olhos vidrados em alguma coisa por alguns segundos, mas logo voltava ao “normal”.
Mas Evan sabia que tinha algo errado com Emma.
–Ih... Acho que vai acontecer uma tempestade. –Emma disse olhando pela janela da lanchonete.
–Tempestade?-Evan disse seguindo o olhar de Emma. Mas não havia nenhuma nuvem no céu.
–É! Olha só aqueles raios!-Emma disse olhando fixamente para o céu.
Evan prestou mais atenção no céu. É, não havia nenhum raio. O céu estava sem nenhuma nuvem e se alguém se concentrasse, podia ver alguma estrela timidamente escondida pela poluição. Ele ainda quis dizer isso a Emma, mas apenas concordou com a cabeça e mastigou o último pedaço de seu X-Burger.
Emma então fixou o olhar em Evan. Ela não piscava.
–O que foi?-Evan perguntou estranhando ainda mais a moça.
–Evan... –Emma disse. Seu tom de voz mudou de alegria para assustada.
–Emma, o que foi?-Evan novamente perguntou, preocupado.
As palavras seguintes que saíram da boca de Emma atormentaram Evan.
***
O cemitério não estava nada alegre, o que já era de se esperar. Quando Adrian chegou, uma mulher descabelada chorava desesperada pelo cemitério. Alguns minutos depois ele descobrira que era Gertrude, a ex-mulher de Will.
Na entrada e onde ocorreria o memorial, haviam bancadas cobertas com um tecido de seda azul escuro, com várias fotos em cima. Essas fotos eram das pessoas que morreram no acidente. Algumas dessas pessoas, Adrian reconhecia, pois trabalhava com eles, obviamente. Elas iriam fazer falta.
Alguns colegas de empresa que não haviam ido ao passeio começavam a chegar. O loiro havia deixado Emma sentada em uma cadeira, acomodada. Quando o rapaz chegou a casa dela há algumas horas, viu que a irmã estava melhor naquele dia. Parecia mais... Humana.
Adrian começou a andar pelo cemitério, organizando seus pensamentos. Parou perto de uma árvore torta. Algumas folhas secas caíam dela, mergulhando em direção ao solo.
Num susto, Lilian apareceu ao lado de Adrian. Ele quase gritou, mas se segurou. Estava tenso esses últimos dias.
–Oh, me desculpe. –Lilian disse.
Ela estava realmente deslumbrante. Os olhos elétricos pareciam mais intensos. Seu cabelo caía, como sempre, numa cascata cor de chocolate sobre seus ombros. Sua roupa, apesar de simples, a deixava elegante. Ela vestia uma roupa preta: – todos estavam com ternos e vestidos pretos, era um enterro – uma meia-calça com uma saia e uma blusa com decote “V”. Seu busto era enfeitado por um colar que tinha uma forma de meio coração. Adrian não entendeu aquilo, mas achou bonito. Ela não usava maquiagem pesada como Carrie, apenas um batom leve e não muito mais.
O loiro estava hipnotizado.
–Adrian?-Lilian chamou sua atenção.
–Ah... Oi. –Adrian soou um pouco bobo. Porque ele estava ficando bobo, confuso e nervoso perto daquela mulher? “Não, corte esses pensamentos Adrian!”, se repreendeu.
–Estava pensando sobre a lista da Morte. –Lilian cruzou os braços-E sobre as teorias...
–Lilian, você não pode se preocupar. –Adrian tentou ser o mais gentil possível. O loiro quase segurou os ombros da morena, mas controlou-se. Eles não tinham esse tipo de intimidade. Haviam trabalhado anos juntos e não trocavam palavras, apenas um “bom dia” de vez em quando.
–Não me preocupar?-Lilian disse-Adrian, por favor, não me iluda. Você teve o mesmo sonho que eu, e sabe muito bem que quem está na mirada da Morte é o Evan, depois Carrie, e depois eu.
–Você não vai morrer. –Adrian disse querendo parecer o mais confiante possível.
–Quem garante?-Lilian perguntou. Ela via que tinha pouco tempo de vida.
“Eu! Eu garanto! Não vou deixar você morrer!” Adrian quis dizer. O loiro não podia mais negar. Desde que sentou junto a Lilian naquele ônibus, um sentimento puro, porém confuso, estava com ele.
Adrian não respondeu a pergunta de Lilian. Apenas se virou, olhando para os lados, disfarçando.
–Vamos nos sentar?-Lilian chamou-lhe novamente a atenção.
–Ah, claro. –Adrian disse. Os dois se dirigiram para duas cadeiras vazias, ao lado de Emma, que estava olhando fixamente para uma árvore.
Uma mão toca o ombro de Adrian, o que o faz levar outro susto.
–Dan... –Adrian disse aliviado, vendo o colega com Ben e Nicole.
–Desculpe o atraso, Ben me atrasou. –Dan disse. O irmão apenas abaixou a cabeça, constrangido.
Os três sentaram-se nas cadeiras atrás de Adrian, Lilian e Emma.
–Descobriu mais alguma coisa sobre a Morte?-Adrian perguntou.
–Algumas coisas... Estou tendo alguns sonhos estranhos que não consigo entender, mas acho que são pistas de como a próxima pessoa irá morrer. –Dan disse.
–Sério? –Adrian disse-Sonhos, fotos, visões e objetos podem ser sinais.
–Os meus sonhos são muito complexos. Eu não consigo entender!-Dan disse.
–Calma, resolveremos isso... Juntos. –Lilian se intrometeu na conversa.
***
Já era a quarta ligação seguida que Evan recusara. Verônica havia ligado quarenta cinco vezes nos últimos três minutos. Ele tinha vontade de atender ao telefone, pedir a guarda do seu filho e dizer que ia ficar tudo bem. E de xingar a mulher, claro.
Estava frio, mas ele precisava de um copo de água gelada pra esfriar seu corpo e sua mente, que estavam fervendo. Tomou metade do copo rapidamente, então o colocou em cima da mesa, ao lado do aquecedor.
O telefone tocou novamente. Evan respirou profundamente.
Dois, três, quatro, cinco, seis toques. Evan não atendeu. Foi para perto do pequeno quadrado que ousava ser chamado de janela e a abriu, tentando respirar. O vento frio bagunçava seus cabelos e faziam seus olhos arder. Mas ele não se importava.
As imagens dos pequenos momentos que teve com seu filho vieram a sua cabeça. O sorriso e os olhinhos brilhantes da criança quando via o pai. O rapaz fechou os olhos e soltou um sorriso. Talvez o pequeno Dave fosse a única coisa boa que existisse agora na sua vida.
A imagem de Emma dilacerou as lembranças fofas de Dave. “Vai acontecer, você já deveria saber”, ela havia dito.
***
O chefe do pessoal, o senhor “respeitável” Oliver, havia acabado de fazer um discurso emocionante. Provavelmente havia lido em algum livro de suas filhas de outros casamentos ou copiado da internet. Ambas as opções dariam muito trabalho para vossa pessoa.
Dan, Nicole, Ben, Lilian e Adrian estavam reunidos em um pequeno círculo perto da saída do cemitério. Nicole estava abatida e desanimada. Ben parecia estar preocupado com alguma coisa e procurando alguém. Adrian e Lilian estavam perdidos em seus pensamentos. Dan olhou para longe, perto de uma pilastra, e viu um homem loiro vestido de preto, com seus óculos escuros. “É aquele tal de Jason.”
–Dan... –Nicole chamou sua atenção com a voz fraca. Dan olhou para a namorada e depois rapidamente olhou novamente para perto da pilastra. Não havia mais ninguém lá.
–O que foi?-Dan perguntou olhando de volta para a namorada.
–Podemos ir embora? Esse lugar me deixa triste. –Nicole pediu.
–Ahn, claro, já vamos. –Dan prometeu.
Emma se juntou ao grupo no momento em que o celular de Adrian começou a tocar. Era um número desconhecido.
–Me desculpem, eu já volto. –Adrian disse se afastando do grupo.
Então atendeu.
–Alô?
–Oi Adrian. Aqui é o Evan...
–Oi Evan. –Adrian disse com um falso entusiasmo. O que Evan queria falar com ele?
–Preciso falar com você. É algo muito sério. –Evan disse.
–Tá, pode falar. –Adrian respondeu, preocupado.
–Não dá. Tem que ser em particular. –Evan avisou.
–Tá, qual o endereço da sua casa?-Adrian perguntou estranhando onde a conversa estava indo parar.
Evan passou o seu endereço e como última fala disse:
–É sobre Emma, sua irmã. É algo importante. Até logo.
E desligou. O loiro olhou para irmã, que o observava com seus olhos claros. Emma soltou um sorriso simpático e disfarçou o olhar.
Adrian estava cheio de desconfiança. O que sua irmã tinha a ver com Evan? O que era tão importante que teria que ser dito pessoalmente?
Adrian observou o céu. As nuvens claras se moviam rapidamente e nuvens escuras, de tempestade, começavam, a chegar. O loiro se virou novamente para Dan e os outros, que começavam a ir embora. Emma não estava ali. O rapaz alcançou Dan, Nicole e Ben, e perguntou:
–Cadê a Emma?
–Ela disse que ia ir com você... –Dan perguntou olhando para trás. Adrian olhou em volta. Emma não estava em lugar nenhum.
“Mas que droga, Emma!” Adrian pensou.
–Preciso ir a um lugar... Se virem a Emma, liguem pra mim, por favor?-Adrian pediu.
–Claro cara, vai lá. –Dan disse.
Adrian retomou seu caminho. Estava quase saindo do cemitério, quando uma mão delicada apertou seu braço.
–Lilian.
–Já vai?-Lilian perguntou docemente.
–Já. Preciso resolver uma coisa... –Adrian respondeu. Ele se preocupava com a irmã e achava toda aquela história, envolvendo Evan, muito estranha, mas não queria dar intimidade pra ninguém com esse assunto.
–Tá... Se cuida. –Lilian disse.
–Você também... –Adrian disse meio bobo. O que estava acontecendo com ele?
Adrian começou a andar e sentiu um pingo cair no seu ombro.
Dan saía envolvendo Nicole com seu braço e com Ben ao seu lado. O garoto parecia estar hipnotizado por alguma coisa. Andava em linha reta, como se estivesse no automático.
–Ben, hey, Ben. — Dan chamou.
–Sim?-o garoto de virou.
–Você tá legal?-Dan perguntou. Seu irmão estava começando a agir estranho.
–Claro. Tô legal sim. –Ben disse-Vou dar uma passeada por aí.
–Ah, vai lá. –Dan disse. Ben iria passear com terno e gravata, todo social? Realmente algo estava errado. Na verdade, Dan tinha certeza de que algo estava errado desde que entraram para uma lista psicótica da Morte.
***
Evan resolveu arrancar a afiação do telefone e desligar o celular. Mas ele tinha certeza de que logo Verônica arrombaria a porta. O que ela queria era um mistério. Ou provavelmente queria mais dinheiro.
Adrian chegaria a casa dele em alguns minutos, e isso significava que ele tinha que estar um pouco apresentável. No mínimo. Não que ele estivesse no estilo Shrek da vida. Resolveu ir tomar um banho e depois se arrumaria.
Entrou no pequeno banheiro com sua toalha. A pequena pia branca, velha e que estava se desprendendo da parede era do lado oposto da porta em que Evan entrou. (Não que fosse grande distância, o banheiro era pequeno, como eu já disse.)
Em um pequeno banco de madeira com três pernas ao lado da pia, estava um rádio desligado. Evan colocou a toalha em cima de um rodo, do outro lado da pia. O rapaz pegou o rádio do banquinho e o colocou em cima da pia. O objeto quase virou, mas Evan o segurou. Depois, o ligou.
Devia estar sincronizado numa rádio que estava relembrando músicas antigas, pois começou a tocar Love Rollercoaster, da banda The Ohio Players. Evan fez uma careta e sincronizou em outra rádio, que estava tocando um rock pesado.
O rapaz abriu o Box de vidro... Ou melhor, tentou, pois estava emperrado. Ele usou mais força e finalmente conseguiu abrir. Então girou a torneira, bem enferrujada, que ligou o chuveiro. Logo um cilindro de água começou a descer do chuveiro no alto da parede.
Evan se distanciou um pouco do Box e então tirou a roupa, jogando no chão mesmo. Encaminhou-se para dentro do Box que, como o banheiro todo, era pequeno. Dessa vez, não teve dificuldade em fechar a porta de vidro.
O cilindro de água que caía do chuveiro começou a molhar o corpo de Evan. Ele pegou o sabonete na saboneteira e quase deixou o pote de shampoo cair.
Do lado de fora de seu apartamento, uma chuva começou a derramar.
***
Os pés de Ben estavam começando a doer quando os primeiros pingos da chuva começaram a cair. Ele realmente odiava usar aqueles sapatos sociais. Além de sempre apertarem, era muito difícil engraxar. Para o garoto.
Ben estava quase chegando ao seu destino, quando a água despencou, literalmente, do céu. Em poucos segundos ele já estava totalmente encharcado. A chuva estava muito forte. Ele apressou o passo e chegou ao pequeno e pobre apartamento. Subiu rapidamente a escada podre de madeira e bateu em uma das dezenas de portas que não tinha número, mas que ele decorara qual queria.
A moça que abriu a porta tinha uma presilha de prender cabelo na boca, enquanto segurava o cabelo com uma mão e abria a porta com outra. Quando viu Ben, seu queixo caiu, derrubando a presilha.
–Ben... –Carrie disse.
–Ahn... Oi. –Ben soltou um sorriso, enquanto vários pingos d’água caíam dele e molhavam o chão.
–Você... Tá todo molhado!-Carrie exclamou.
–É, tá chovendo lá fora. –Ben respondeu.
–Entra, vou te ajudar... –Carrie disse, pegando sua presilha do chão e saindo de perto da porta. Ben entrou e a fechou. -Tira a roupa... E é só para se secar, não venha com saliência. Vou achar umas roupas deixadas por uns... Doadores.
Ben tinha quase certeza que o certo seria “roupas deixadas por uns caras”, mas não quis discutir. Tirou os sapatos – "que alívio!"- depois o terno e a camiseta. Nessa hora, Carrie pegou uma toalha e jogou na cara do garoto, que começou a enxugar a cabeça e o corpo.
–Me surpreendi com o tempo que você demorou a voltar aqui... –Carrie soltou.
–Por quê?
–Vai dizer que –Carrie pegou um molho de chaves em cima de uma mesa- você esqueceu suas chaves de casa de propósito?
Ben apenas soltou um sorriso malicioso enquanto terminava de enxugar os braços. Carrie jogou as chaves no peito de Ben, que depois caíram no chão.
–Vou lá achar umas roupas. Vai tirando a calça... –Carrie disse-Para colocar outra logo. –e foi para algum lugar.
Ben obedeceu e começou a enxugar as pernas. Carrie voltou com calças e camiseta nas mãos. Quando viu Ben apenas de cueca se enxugando, paralisou. Mordeu o lábio inferior. Então acordou e jogou as roupas para Ben.
–Quer mesmo que eu me vista?-Ben perguntou maliciosamente.
–Não, não. Vou querer que você saia apenas de cueca no meio da rua. –Carrie retrucou irônica enquanto arrumava algumas coisas.
Ben começou a se aproximar de Carrie.
–Ben, para!-Carrie mandou prevendo o que ia acontecer.
–Ah, qualé, eu tô com saudade!-Ben disse-Queria te ver... Você não foi ao memorial.
–É... –Carrie limitou-se a dizer. “Logo você vai ao meu.” quis completar.
–Você tá estranha... –Ben notou.
–Meu amor, eu sou estranha. –Carrie disse, evitando contato visual. Estava nervosa.
–Carrie, você entendeu. –Ben agora estava sério. E isso era raro. E sério.
Carrie estava de costas para Ben, que se aproximou e tocou a mão dela.
–Ben, por favor, se vista... –Carrie pediu. Ela estava com muito desejo e pegando fogo por dentro, mas não queria continuar com isso. Logo isso acabaria, de um jeito, ou de outro.
–Acho que seria melhor você se despir... –Ben sugeriu, colocando suas mãos na cintura dela.
Num rápido movimento, Ben a girou e Carrie laçou o pescoço dele com seus braços. Os dois olharam nos olhos um do outro e então se beijaram. Um beijo que misturava desejo, fogo, paixão e sedução.
Ben empurrou levemente Carrie contra a parede e então pressionou seu corpo contra o dela, beijando-a novamente. Os dois foram para o quarto e acabaram deitando no chão mesmo.
Durante um movimento, Ben passou a mão por baixo da cama e sentiu uma folha de papel, como uma carta. Mas não ligou para isso, pois Carrie estava dominando-o.
***
Evan tirava o shampoo, que escorria pelo seu corpo e ia embora pelo ralo, que estava desgastado, quase quebrando. Do lado de fora, ouviu-se um trovão no céu.
O rapaz loiro estava terminando seu banho, assim como mais uma música de rock terminava de tocar no rádio, quando mais um trovão foi ouvido e a frequência do rádio trocou. Agora começou a tocar Set Fire To The Rain, da cantora Adele.
But I set fire to the rain
Watched it pour as I touched your face
Well, it burned while I cried
Cause I heard it screaming out your name, your name!
(Mas eu ateei fogo à chuva
A assisti cair enquanto eu tocava seu rosto
Bem, ela queimava enquanto eu chorava
Porque eu a ouvia gritando seu nome, seu nome!)
Evan paralisou debaixo do chuveiro. O que tinha acontecido? Ele acabou dando um passo em falso dentro do Box e acabou pisando no ralo, que se despedaçou, deixando apenas um buraco no meio do piso.
–Mas que... –Evan abafou um xingamento.
Enquanto isso, na sala, um vento, da tempestade que ficava cada vez mais forte, invadiu o local, derrubando o copo d’água que estava em cima da mesa. O copo caiu em queda livre e a água molhou o aquecedor, que soltou pequenas faíscas. O aparelho começou a aumentar a temperatura.
Ao cair em cima do aquecedor, a água deu um pane no sistema elétrico da casa. As luzes piscam uma vez. O chuveiro começa a esquentar cada vez mais a água que sai dele próprio. Evan havia encostado a cabeça na parede e mergulhava em seus pensamentos. E a música Set Fire To The Rain ainda tocava, deixando-o depressivo.
Tantas pessoas. Verônica. Dave. Emma. Adrian. Esse último precisava saber.
A água começou a ferver e ao entrar em contato com as costas de Evan, o queimou.
–Au!-ele exclamou sentindo dor. E sentia cada vez mais, uma vez que o chuveiro estava fervendo ainda mais a água-Mas o que...?
O aquecedor estava aumentando cada vez mais a temperatura. Em pouco tempo, havia aumentado mais de 20ºC.
Evan sofria dentro do Box. A água quente vinda do chuveiro queimava cada vez mais seu corpo. Em uma tentativa desesperada de parar com essa situação, tentou desligar o aparelho, girando a torneira, mas ela quebrou-se, caindo no chão.
–Droga!-ele exclamou.
A água ficava mais quente a cada segundo. Evan tentou sair do Box, mas a porta estava travada, não abria, assim como ele tentou abrir quando entrou.
–Não, não!-Evan exclamou usando mais força para abrir o Box, mas os trilhos pareciam estar enferrujados.
Como o Box era pequeno e o chuveiro era grande, Evan não conseguia esconder todo o corpo da água quente, que começou a queimar seu braço e sua perna.
O rapaz tentava abrir a porta do Box e ficar o mais longe possível da água, o que era difícil.
–Vamos lá... –ele gemeu de dor, enquanto a água queimava ainda mais.
Assim como o chuveiro, o aquecedor aumentava cada vez mais a temperatura. Evan, tentando se esquivar da água novamente, acabou dando uma cotovelada no shampoo, que estava na saboneteira. O objeto quicou pelo chão e entrou no ralo, mas parou. O shampoo estava entalado.
–Oh... –Evan disse quando viu o que estava acontecendo. Como o shampoo estava entalado no ralo, impedia a saída da água, fazendo assim, o Box começar a encher.
***
As gotas da tempestade batiam contra o vidro e logo eram “abatidas” pelos limpadores do para-brisa do carro de Adrian, que estava indo em rumo à casa de Evan.
Esse mistério todo, junto com essa loucura de lista da Morte, estava perturbando Adrian. O que ele mais queria era chegar logo à casa do homem e descobrir o que estava acontecendo ao seu redor. De brinde, aproveitaria para avisar Evan sobre a Morte. O rapaz era o próximo e tinha o direito de saber.
Só que o trânsito estava engarrafado.
–Anda... –Adrian torceu, apertando o volante, deixando brancos os nós de seus dedos.
Buzinas ecoavam entre os trovões que retumbavam no céu. O rádio do carro anunciara que a tempestade tinha o risco de ficar mais forte quando mudou de estação sozinho, começando a tocar Set Fire To The Rain, da Adele.
–Mas...
Um raio cortou o céu, o que fez — não se sabe por que — arrepiar Adrian. Ele estava com uma sensação estranha. Como na hora do acidente. Alguma coisa estava acontecendo.
O trânsito havia se movimentado e parado umas três vezes enquanto Adrian arrumava o rádio. De repente uma preocupação forte tomou conta de sua cabeça. E era sobre Emma. Resolveu ligar para a irmã, mas caiu na caixa postal. Cinco vezes.
Adrian tentava a sexta vez, quando uma mão bateu contra o vidro.
***
Evan estava, com todas as forças, tentando arrebentar o vidro do Box. A água já estava no nível do joelho, e continuava queimando sua pele cada vez mais. O rapaz já havia gritado por socorro, mas o barulho da chuva e os trovões abafavam seus gritos.
Em mais um ataque de fúria, estava socando o chuveiro, que começou a balançar.
–Mas que merda! Quebra sua desgraça!-Evan gritou dando mais tapas e socos no aparelho.
Um pedaço do chuveiro acabou quebrando, deixando um fio desencapado a mostra. O nível da água subia mais rapidamente. Estava no umbigo do rapaz, que estava começando a boiar.
Desesperado, Evan tentou abrir o Box, que continuava emperrado. Afastou-se, e com a força que conseguia, deu um chute no vidro, que se rachou.
–Isso aê... –Evan comemorou.
Deu mais um chute, mas nada novo aconteceu.
Do lado de fora do apartamento, batendo na porta, encharcados por terem pegado um pouco de chuva, estavam Adrian e Lilian.
–Evan? Cara, você tá aí?-Adrian perguntou.
–S-Será... Será que aconteceu alguma coisa?-Lilian perguntou, enquanto tremia de frio.
–Não, deve estar tudo bem. –Adrian tentou tranquilizar ele mesmo. E Lilian também.
Evan, dentro do banheiro, tinha a leve sensação de que alguém estava chamando-o. A falha elétrica aconteceu novamente e as luzes começaram a piscar.
O rádio começou a trocar de estações rapidamente, de um jeito sinistro. Evan deu mais socos e chutes no vidro, que se rachou mais.
O fio desencapado do chuveiro estava quase se encostando à água.
–Será que não é melhor arrombar?-Adrian perguntou.
–Não sei... Acho que não seria muito elegante. –Lilian comentou.
–Eu acho uma boa ideia... –Adrian disse, empurrando levemente Lilian, para afastá-la e dando um chute na porta, para arrebentá-la. Mas ela ficou intacta.
Tentou outro, mas nada aconteceu.
–Deve ter muitas trancas... –Adrian disse.
Lilian se aproximou, girou a maçaneta e a abriu.
–Adrian... Tava aberta. –Lilian disse, e então entrou.
–O meu chute deve ter aberto... –Adrian comentou seguindo-a.
As rachaduras haviam aumentado e o vidro estava quase se quebrando. A água estava chegando a cabeça de Evan e o fio estava deslizando cada vez mais.
Finalmente, Evan conseguiu estourar o vidro, que sumiu numa explosão de cacos, que voou em várias direções, rebatendo nas paredes, no rádio e na pia. A água inundou o banheiro todo. O rapaz caiu de joelhos no azulejo. Todo seu corpo estava vermelho e queimado pela água do chuveiro, que agora estava começando a parar de cair.
Então ele ouviu, entre a música que tocava no rádio e os trovões da tempestade, alguém chamar seu nome.
–Eu tô aqui... –ele gritou.
Invés de esperar por ajuda, Evan se precipitou e levantou correndo, em direção da saída. Logo que tentou sair do espaço que era o Box, escorreu na água que estava pelo banheiro todo e caiu no chão.
–Ah!-ele soltou um grito abafado, enquanto cacos de vidro que estavam no chão penetravam em todas as partes de seu corpo.
A visão de Evan ficou turva. Ele tentou se levantar. Sangue escorria pelo seu corpo. Tentou agarrar o pequeno banco ao lado da pia para tentar usá-lo como apoio para ficar de pé.
E foi aí que aconteceu. O banquinho virou e bateu na pia que, como estava velha, inclinou-se, derrubando o rádio no chão. Logo em contato com a água, o aparelho soltou faíscas e descargas elétricas atingiram tudo que estava em contato com o líquido.
Inclusive Evan.
O rapaz começou a se contorcer no chão, recebendo choques e mais choques. Seu corpo se contorceu. Os dedos das mãos e dos pés se dobraram como garras de alguma ave, até que o corpo começou a ficar imóvel.
Evan começou a perder os sentidos. A última coisa que ele ouviu foi a voz de Adrian dizendo “Acho que ele tá no banheiro!”.
Quando Adrian e Lilian entraram no banheiro, a mulher soltou um gritinho de horror. Evan estava caído, com o corpo queimado, ensanguentado e imóvel, com os olhos fixos no teto.
Adrian tomou cuidado para que ele e Lilian não encostassem na água e levassem um choque. O loiro então abraçou Lilian fortemente, com o rosto dela escondido no peito dele, escondendo aquela cena horrorosa de Evan caído. E morto.
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