Premonição 8: Condenados
7 Rosas
Notas iniciais
Ethan estava sentado em sua cadeira de rodas no meio do jardim. Ao seu lado, Anna e Phillip, fantasiados, estavam sentados em um banco de madeira. Os três estavam um pouco distante dos outros idosos e das enfermeiras, em uma clareira bastante iluminada. Ao redor deles havia apenas o verde, com diversas flores coloridas decorando a paisagem. O sol era fraco e o dia estava brilhante.
— Eu me lembro como se fosse hoje. — Ethan começou. — O dia em que eu te conheci. — E ele então apontou para Anna. — A Janet e todas as outras me falam que eu estou perdendo a minha memória, mas eu me lembro claramente do nosso encontro. Ah, eu me lembro...
De início a garota não compreendeu o que ele queria dizer com aquilo, mas logo sua ficha caiu. Eu estou fantasiada de Dorothy. Ele acha que eu sou a Judy Garland. Anna tentou se aproveitar daquilo:
— Eu também nunca me esqueci do nosso encontro, Ethan. — E sorriu. O velhinho sorriu em retribuição. — Por isso mesmo eu queria lhe fazer uma pergunta. Uma pergunta bastante delicada.
Ethan então retirou os óculos e os colocou em seu colo. Suspirou solenemente e então disse:
— Pois pergunte Judy. Tudo para você, minha princesa.
É agora. Essa é a minha chance.
— É sobre o ataque. O ataque à Pearl Harbor. Você se lembra desse dia?
O velhinho arregalou os olhos no mesmo instante, exclamando:
— Mas é claro! Os japoneses nos atacaram naquele dia. Foi horrível. Mas nós merecemos, sim. Nós merecemos. Nós os atacamos primeiro, você sabia disso, Judy? Nós os atacamos, e eles revidaram. Muitas vidas se perderam naquele dia. Vidas inocentes, de ambos os lados.
— Mas você sobreviveu. — Anna afirmou. — Você serviu nosso país com bravura e sobreviveu.
Ethan imediatamente abriu um sorriso resignado.
— Oh, minha querida Judy... Nesse dia eu não fui bravo. Oh, não, eu não fui. Nesse dia eu fui covarde!
Phillip prestava atenção à conversa sem dizer qualquer palavra. Temia se manifestar e acabar quebrando a confiança e a conexão que havia sido estabelecida entre Anna e Ethan. Eles estavam pisando em ovos ali, e qualquer fala errada ou fora de hora poderia colocar tudo a perder.
— Você viu, não foi? — Anna arriscou, mexendo no cabelo de maneira displicente. — Você sabia o que iria acontecer. Você sonhou.
A reação do homem foi bastante inusitada. Ele empurrou a cadeira de rodas alguns centímetros e ficou com o rosto exatamente em frente ao rosto de Anna. Disse:
— Foi exatamente isso o que aconteceu, minha querida. O sonho. A maldição.
— Maldição?
— Maldição, sim! — Ethan exclamou. — Eu poderia ter morrido um herói naquele dia. Mas aquela premonição me fez sobreviver o suficiente para que eu me tornasse um maldito covarde.
Anna entendia pouco do que estava sendo dito. Para sua sorte, porém, Ethan parecia ter muita coisa a dizer:
— Por alguma razão, eu não deveria ter tido aquele sonho. Foi errado. Deus soube disso imediatamente, e então tentou me punir. Não uma, nem duas, mas dezenas de vezes. Eu tive sorte, porém. O Senhor tentou me levar em uma infinidade de acidentes, mas eu sobrevivi a todos.
Os acidentes, é claro, Anna pensou. O Ethan teve a visão e escapou do ataque à Pearl Harbor. Então ele começou a ser perseguido por essa... Força. Pela morte. Ele deveria ter morrido nesses acidentes. Assim como Trevor, Michelle, Kia, Joe... Assim como todos os meus amigos morreram.
A pergunta foi direta:
— Como? — Anna murmurou, no tom de voz mais doce que conseguiu imprimir. — Como você sobreviveu todos esses anos mesmo com tudo isso?
Ethan tossiu algumas vezes e então deu com os ombros.
— Eu não faço ideia, minha querida Judy. Eu só sei que Deus resolveu me perdoar no dia em que eu perdi minhas pernas. — E então ele apontou para os joelhos amputados. — No dia em que eu tirei a vida de um homem em uma batalha.
Oh.
— Foi só algum tempo após o ataque à Pearl Harbor. Eu fui enviado para lutar na guerra, para lutar contra os malditos alemães... — E então o olhar de Ethan vagou pelas árvores, como se ele tivesse sido acometido por lembranças dolorosas. — E eu matei um deles. Eu perdi minhas pernas, sim, mas eu o matei antes que ele matasse o Tintin. Deus viu isso e quis me recompensar. Desde o dia em que eu acordei naquela cama de hospital sem as minhas pernas, Ele nunca mais tentou me levar. Nunca.
O Ethan parou de ser perseguido depois de matar alguém. Assassinato. Assassinato pode nos tirar dessa maldição. Mas muitas coisas ainda estavam no ar. Por que eu sonhei com ele? Por que eu tive essa visão? Por que todos os meus amigos estão morrendo? Por que tudo isso está acontecendo?
Ethan, porém, parecia não ter nenhuma daquelas respostas.
Anna sentiu-se incrivelmente frustrada. Tentou arrancar mais algumas informações do homem, mas a tarefa se mostrou infrutífera. Ethan Hasselbeck já tinha lhes contado tudo o que sabia. Quando eles já não tinham mais esperanças de descobrir algo novo, Phillip arriscou algumas perguntas, mas também não obteve um resultado satisfatório. Ethan, porém, pareceu feliz em conhecer o Leão Covarde.
Os dois se despediram do velhinho logo após almoçarem com ele e Janet no refeitório da Casa de Repouso Carpenter. A refeição ocorreu sem que nenhum deles mencionasse as tragédias passadas e atuais, e por alguns minutos Anna sentiu-se mais leve. Riu de algumas piadas que a mulher contara, e até conversou sobre o seu curso e sobre seus pais. Phillip se manteve quieto a maior parte do tempo, um pouco tímido.
Quando Anna se levantou para ir embora, abraçou Ethan, prometendo visitá-lo mais vezes. Naquele momento a garota sentiu o coração dele batendo de encontro ao seu. Suspirou.
— Obrigado por ter vindo me ver, Dorothy.
— O prazer foi todo meu, velho amigo. — A garota confirmou, sorrindo.
Anna ainda acenava para Ethan e Janet quando entrou no carro e deu a partida. Phillip estava ao lado dela e retirou a parte de cima de sua fantasia de leão, jogando-a em cima do banco traseiro do carro. Os dois acabavam de sair da propriedade onde ficava a Casa, quando o rapaz comentou:
— Se a gente ao menos soubesse o critério desses acidentes... Quero dizer, com o Ethan foi fácil, ele foi o único sobrevivente da visão. Mas e conosco? Será que os acidentes que nos envolvem estão acontecendo todos ao mesmo tempo e tudo mais, ou...
— Ou existe uma ordem? — Anna completou o pensamento do amigo. — Esse pensamento também me ocorreu.
Phillip meneou a cabeça positivamente. Ele então abaixou o espelho do banco do carona e começou a observar a maquiagem felina de seu rosto. Disse de maneira displicente:
— Trevor, Michelle, Kia, Big J. Nessa ordem. Por quê?
E então Anna teve um insight.
A garota parou imediatamente no sinal vermelho. Ficou calada durante vários segundos, e quando o farol tornou-se verde, ao invés de seguir, Anna desviou o carro para o lado, em direção ao acostamento, e então o desligou. Phillip nada disse.
— É isso. — A garota falou, de repente. — Existe uma ordem sim. A ordem em que nós morríamos na minha visão. É isso!
Phillip arregalou os olhos. Antes que perguntasse algo, Anna foi dizendo:
— Na minha visão os primeiros que morriam eram o Trevor, você, a Michelle, a Kia e o Joe. Exatamente nessa ordem. Você é o único que continua vivo.
— E foi por pouco. — Phillip comentou. — Eu quase morri naquele dia, quando a roda ia me acertar, mas o Ben me salvou no último segundo. Aquele era pra ter sido o meu acidente fatal.
Os olhos de Anna brilharam de empolgação diante daquela descoberta.
— Nós descobrimos, Phillip! Nós descobrimos! — Ela exclamou. — Ainda existe muito que nós precisamos desvendar, mas nós já sabemos de algo valioso. Sabemos a ordem. Nós temos um padrão em nossas mãos.
O rapaz meneou a cabeça positivamente. Anna então voltou a ligar o carro e desviou na direção da estrada vazia, continuando seu percurso.
— Mas então... Quem é o próximo, Anna? Quero dizer, quem morria depois do Big J?
Oh, não.
— Era a Courtney. A Courtney é a próxima.
x-x-x-x-x
Laura estava sentada no meio do cômodo numa posição conhecida como “posição de lótus”. Ela praticava yoga há dois anos, quase todos os dias. Soubera, numa das únicas conversas que teve com Phillip, que ele também era adepto da prática. Os dois conversaram um pouco sobre aquilo e naquele momento, por algum motivo, Laura se lembrava da conversa com clareza. Estranhamente, pensar em Phillip a deixou inquieta. Seu pensamento imediatamente foi transferido para o acidente de ônibus em Oahu, e então para o boneco do Djinn.
O Djinn.
Depois de assistir a morte de Big J, Laura tinha a certeza de que eles estavam amaldiçoados pelo demônio. Não havia outra explicação. Pessoas não morriam assim, todo o tempo, em acidentes estranhos. A explosão de um ônibus, a queda de um elevador, esmagado contra um veículo, durante uma partida de futebol americano… Não era natural, não fazia sentido. E tudo isso após Anna ter alegado ter tido uma premonição. Aquilo era sobrenatural.
As imagens do encontro com o Djinn iam e vinham na cabeça de Laura.
Acontecera seis anos antes, em 2008. Naquela época a garota tinha acabado de se formar no high school e tinha se mudado para Los Angeles para tentar a carreira de atriz. Trabalhava como guia turística durante o dia e como dançarina em uma boate durante a noite. Com o dinheiro que recebia conseguia se sustentar, dividindo as contas de um apartamento alugado com um casal de amigos gays. Em meio à isso, fazia todo tipo de audições para filmes, em especial filmes de terror de gosto duvidoso.
O seu primeiro trabalho fora o famigerado Wishmaster 5: The Devil’s Daughter, a quinta parte de uma franquia que tratava da mitologia dos Djinn. Ela fora escolhida em uma audição que contou com mais de duas mil garotas, de modo que podia se sentir uma sortuda. Além disso, a equipe do filme era decente e profissional, diferente de diversas outras com as quais Laura teve contato. Enojava à ela esse lado sujo de Hollywood, mas tentava sempre pensar que aqueles eram a exceção, não a regra.
O encontro aconteceu logo após o termino das filmagens.
O produtor-executivo e o diretor do filme decidiram dar uma festa na mansão do primeiro, convidando todos os envolvidos na produção de Wishmaster 5, bem como amigos e parceiros de todos eles. Laura estava entre eles, caminhando por entre uma infinidade de rostos conhecidos. A (ainda) morena se fascinava com tudo aquilo, e em sua ingenuidade de começo de carreira, nem imaginava que aquele era o primeiro degrau da fama. Aqueles ao seu redor eram a base da pirâmide de Hollywood, mas mesmo assim eles a fascinavam.
A mansão era enorme. Wes Aja, o produtor-executivo, era um colecionador de objetos raros e obras de arte. Espalhados por toda a propriedade havia estátuas, quadros e outras coisas que pareciam valer milhões. Laura caminhava pelos corredores, admirando cada canto e procurando absorver o máximo que pudesse da experiência.
Estava caminhando por um corredor particularmente vazio, com uma taça de champanhe em mãos, quando uma garota oriental chamou sua atenção. A mulher usava um vestido verde e estava encostada ao lado de uma enorme porta com um brasão da cabeça de um leão em seu centro. Ela parecia pensativa, olhando para frente.
— Oi? — Laura arriscou.
A oriental olhou para a garota e abriu um sorriso.
— Olá! Meu nome é Jessica Chang. Eu faço parte da equipe de iluminação…
Laura meneou a cabeça positivamente concordando.
— Eu sou…
— A Laura King, claro. — Jessica disse, abrindo outro sorriso.
A atriz entendeu imediatamente a situação. Como parte da equipe de iluminação do filme, a oriental a conhecia. No mesmo instante Laura se sentiu um pouco mal, pensando que deveria prestar mais atenção nas pessoas ao seu redor. Mas não é como se eu fosse uma estrela que a esnobou deliberadamente. A Jessica deve morar em um apartamento melhor do que o que eu alugo.
— Você sabe o que tem atrás dessa porta? — Jessica perguntou de maneira enigmática.
Laura meneou a cabeça negativamente.
— A pedra.
— Que pedra?
— A pedra em que está preso o Djinn! — Jessica exclamou, como se estivesse falando algo óbvio. — A história que inspirou o filme e tal… — E diante da expressão de confusão de Laura, a oriental riu largamente.
— Me explica essa história. — A atriz falou, e então se sentou no chão de carpete vermelho. Colocou a taça ao seu lado e suspirou.
Jessica sorriu e então se sentou no chão também, alisando seu vestido verde. As duas estavam uma de frente para a outra, cada uma encostada em uma das paredes do corredor.
— Logo quando o primeiro Wishmaster foi lançado, o Wes se interessou por aquela história. Na época o filme pertencia à outra produtora e tudo mais, de modo que o fascínio dele teve de ser contido. Mas então os direitos foram colocados à venda, e o velho os comprou na mesma hora. Junto com os relatórios, livros e todo o resto que era mantido pela antiga produtora, ele descobriu que a tal pedra do filme…
— Me desculpa, Jessica, mas… — Laura disse, interrompendo a oriental. — Eu não assisti o primeiro filme. Que pedra é essa?
— É uma espécie de jóia. Na verdade, é aquela jóia que você usa no seu pescoço durante o filme, sabe? — E a atriz meneou a cabeça positivamente. — Bom, o Djinn era mantido preso dentro daquela pedra. E ele concedia desejos à quem quer que o libertasse de dentro da jóia. Entendeu?
— Entendi sim.
Jessica meneou a cabeça positivamente diante daquela resposta, e então continuou:
— Bom, voltando… O Wes descobriu que a pedra do filme existia de verdade. Ele então começou uma extensa busca pelo objeto, pagando diversos profissionais para que a encontrassem. E então, um dia, ele a encontrou. Ou encontrou algo que imaginou ser ela. A pedra que inspirara o filme. A pedra em que o Djinn estava preso.
Laura sentiu uma onda de eletricidade passando por todo seu corpo. Jessica riu da reação dela.
— Estava, não: está. O Djinn ainda está preso. Ele é perigoso demais para ser libertado. Ele concede desejos amaldiçoados. O que quer que você peça, será virado contra você. Ele vai fazer o possível e o impossível pro seu desejo causar a sua morte. Pedir algo ao Djinn é assinar sua sentença de morte. Seus dias estarão contados!
Apesar de estar se sentindo levemente desconfortável, a atriz não deu muita importância para aquilo. Os dias de todos nós estão contados. Ninguém é imortal, pensou.
— Você quer entrar? — Jessica disse no mesmo instante, parecendo ter mudado completamente de humor. — Dar uma olhada na pedra, sabe? Só por curiosidade!
— Eu acho que o Wes não iria gostar. Além disso, essa porta deve estar trancada, não?
Jessica abriu um largo sorriso.
— Não, ela está aberta. Eu só não entrei porque… Sei lá. Acho que eu estava com medo de fazer isso sozinha. — E então houve o silêncio. Laura nada disse, esperando que a oriental mudasse de ideia. Mas depois de quase um minuto, parecia que aquilo não aconteceria.
— Tudo bem. Mas nós não vamos tocar em nada.
A outra garota concordou com um aceno de cabeça, parecendo uma criancinha. Quando Laura se aproximou dela, pôde sentir que a oriental tinha hálito de álcool. Claro, ela está bêbada. Isso explica alguma coisa.
Jessica abriu a porta de maneira lenta e cheia de cerimônia.
O cômodo que as duas tinham diante de si era bastante imponente e pouco iluminado. Havia estátuas de mais de dois metros de altura espalhadas pela sala, bem como alguns baús fechados e diversas caixas de madeira lacradas. No centro, porém, havia uma coluna de pedra de um metro e vinte, e, no meio dela, uma almofada. Laura não precisou se aproximar muito para perceber o que havia em cima da almofada.
A pedra.
A atriz olhou para todos os lados, e então percebeu as câmeras de segurança. Claro. O Wes teria de ser um imbecil pra deixar tudo isso aqui desprotegido.
— Elas estão desligadas. — Jessica disse, ao perceber o interesse da Laura pelas câmeras. — O Wes está chapadaço. Eu vou ficar impressionada se não roubarem várias coisas da mansão. A não ser que ele faça aqueles brutamontes da entrada revistarem os convidados antes deles irem embora.
Laura concordou com um aceno de cabeça. Como se estivessem conectadas por um fio invisível, as duas se aproximaram da coluna de pedra no mesmo instante. A tal jóia era extremamente brilhante. Era vermelha, e parecia ter milhares de lados que refletiam o rosto da atriz quando Laura olhou para ela.
— Eu não vou conseguir… — Jessica disse, esticando o braço.
Laura arregalou os olhos e segurou o braço dela antes que a oriental pudesse tocar a pedra.
— Jessica, não! Você prometeu! Você sabe o que vai te acontecer se você fizer alguma coisa com essa porcaria de jóia? O Wes fode com a sua vida!
Jessica imediatamente abaixou a cabeça, parecendo uma criança ao ser repreendida. E então, quando Laura pensou que o seu argumento havia vencido, a oriental esticou o braço e pegou a pedra. A atriz gritou no mesmo instante, e o susto que Jessica levou com aquela reação a fez derrubar a jóia no chão.
O som do objeto tocando a madeira feriu os ouvidos de Laura.
A jóia rolou pelo chão por alguns metros e então parou. Estava intacta.
Quando a atriz estava prestes a suspirar de alívio, a luz tomou conta do cômodo. Jessica caiu no chão no mesmo instante, assustada. A claridade intensificou-se, e então explodiu sem barulho algum. Laura observava a cena de maneira fascinada.
E então, quando a claridade diminuiu e o lugar voltou a ser tomado pela semi-escuridão, as duas puderam ver a criatura. Jessica arregalou os olhos, ainda no chão, e engatinhou para trás da coluna de pedra. A atriz, por sua vez, continuou de pé, parada como uma estátua de sal.
O Djinn era um verdadeiro demônio. Ele tinha uma forma humanóide e parecia estar nu, embora não tivesse um órgão sexual. Tinha quase dois metros de altura e o corpo era todo cinza e enrugado, como se estivesse podre. Em suas mãos havia pequenas garras, e em sua cabeça havia dois chifres que tinha uma forma contorcida para trás. Os olhos da criatura eram vermelhos, e ele tinha uma expressão de placidez absoluta.
Laura e Jessica não disseram uma palavra e não se moveram sequer um centímetro. Estavam congeladas de medo.
Foi então que a criatura virou o pescoço para o lado, olhando-as de maneira curiosa. O Djinn abriu um sorriso maléfico ao sentir o cheiro do medo das garotas. Abriu a boca e disse numa voz gutural e que fez todos os pelos do corpo de Laura se arrepiarem:
— Obrigado por me libertarem. Eu devo agora lhes conceder três desejos.
Laura soube naquele exato momento que estava assinando a sua sentença de morte.
x-x-x-x-x
Anna parou em um posto de gasolina para abastecer o carro e saiu do veículo. Após encher o tanque, a garota perguntou se Phillip queria alguma coisa da loja de conveniências e, diante da negativa dele, entrou no estabelecimento sozinha.
Phillip tinha o celular ao lado do ouvido, ligando ininterruptamente para Courtney. Se a lógica deles estivesse correta, ela corria perigo, já que seria a próxima a sofrer algum acidente. Era essencial que eles conseguissem falar com a loira. Mas, por algum motivo, ela não atendia o telefone. O rapaz mantinha a ligação até o momento em que ela caía, e então voltava a discar o número da amiga.
Decidiu que não iria ficar parado sem fazer alguma coisa. Esticou-se por cima do banco e pegou a mochila de Anna que estava na parte de trás do carro. Dentro dela estava o iPad da garota, que ele ligou no mesmo instante. O tablet era necessário. Phillip não poderia utilizar o seu celular para acessar a internet, já que com ele se dedicava à tarefa de contactar Courtney. O rapaz colocou o aparelho em cima do painel do carro e apertou o viva-voz, de modo que cada vez que ouvia que a chamada tinha caído, automaticamente apertava o redial.
O sinal de internet estava bom e o Google estava aberto diante dele. Phillip instintivamente olhou para o lado de fora e percebeu que o dia estava bonito. Segundo o relógio do rádio do carro, era 15:13. O rapaz suspirou.
Digitou:
Visão de acidente
Phillip estava acostumado com a filtragem mental de conteúdos, de modo que seus olhos imediatamente captavam e eliminavam os resultados não relacionados com o que ele estava procurando. Na segunda página do Google, algo lhe chamou a atenção. Era um post que supostamente havia sido retirado de um fórum da deep web. O texto estava hospedado em um site qualquer sobre creepy pastas. Estava escrito:
Essa história aconteceu comigo e com uns conhecidos e é muito, muito estranha. Vocês não precisam acreditar, eu estou postando isso apenas para o caso de alguém aí fora saber alguma coisa. Bom, vamos lá.
Há algumas semanas eu, minha irmã e algumas outras pessoas estávamos no Roar Zoo. Sim, aquele zoológico em que os animais fugiram. E sim, foi no mesmo dia! É aí que a história fica estranha. Um dos rapazes que estava com a gente disse que viu o acidente! Ele disse que teve uma premonição. Foi uma parada muito doida. A gente acabou saindo de lá pra ajudar o cara, mas ninguém realmente acreditou nele. Mas então aconteceu.
O pior vem agora: esse cara tá dizendo que tem sonhos com a gente morrendo. Ele vê as pessoas que saíram do acidente morrendo! Um maluco, certo? Bom, eu acho que nem tanto. Uma das garotas que saiu do acidente, uma atriz chamada Themis Aghata Dellis, morreu ontem durante a estreia da peça “Cassandra”. Podem procurar aí no Google. Eu confesso que estou um pouco assustado.
E se eu também for morrer? E minha irmã? Eu geralmente não acredito nesse tipo de história, mas é impossível não ficar com um pouco de medo.
Cody H.
Phillip olhou para fora e conseguiu ver Anna sentada em um banco de madeira, com um copo do Starbucks em mãos e com uma expressão de cansaço no rosto. Decidiu não interrompê-la e continuar a pesquisa, enquanto voltava a apertar o redial e a ouvir a ligação chamar até cair.
Em segundos ele descobriu que o tal Cody falava a verdade. A notícia da morte de Themis Aghata Dellis estava em diversos sites e, segundo as datas, acontecera há pouco mais de um ano. O acidente no Roar Zoo era conhecido do rapaz, de modo que ele não precisou pesquisar sobre o ocorrido.
O intrigante, porém, era alguém ter dito que outra pessoa havia previsto aquele acidente.
E então algo chamou a atenção de Phillip, fazendo-o se esquecer momentaneamente do que estava fazendo. Do outro lado da rua, há cerca de vinte metros, havia um prédio sendo demolido. Um veículo grande e estranho que o rapaz desconhecia estava estacionado e, preso a ele, estava uma enorme e pesada bola de destruição.
Phillip percebeu todos os sinais ao mesmo tempo.
No veículo em que a bola estava presa, havia o número: “1518”. Na rádio, uma música começou a tocar no mesmo instante:
I came in like a wrecking ball
I never hit so hard in love
All I wanted was to break your walls
All you ever did was break me
Yeah you, you wreck me
O horário já não era mais 15:13, mas 15:17. Um minuto, ele soube na mesma hora.
Colocou a cabeça para fora do veículo e chamou Anna, gritando:
— Anna, vem cá! Eu acho que vai acontecer alguma coisa…
E então, antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, viu a garota arregalando os olhos diante de algo que estava acontecendo atrás dele, do outro lado da rua. Phillip virou-se no mesmo instante e percebeu a cena.
O que captou sua atenção foi a rosa. Sua visão foi toda direcionada para a pequena e delicada flor na mão da garota, de modo que todo o resto só lhe foi compreensível em uma análise posterior. Anna, porém, conseguiu prestar atenção no panorama completo.
A rosa estava na mão de Courtney.
— Courtney, a bola!
Do outro lado da rua, Courtney virou-se e sentiu seu coração prestes a sair pela boca ao ver a amiga. Deu dois passos para trás, assustada, e sem perceber pisou no rabo de um pequeno guaxinim. O animalzinho gemeu de dor e correu, entrando dentro do veículo com a bola de destruição pendurada. O animal pulou de cima do banco vazio e então em direção ao painel de controle da máquina, esbarrando em um botão que ligava o movimento da bola.
Anna não pensou duas vezes e tentou correr para atravessar a rua e salvar a amiga, mas Phillip percebeu o timming do acidente, e segurou a garota pelos ombros de maneira firme. Anna se debatia e gritava, tentando se soltar, mas o rapaz não permitiria que ela morresse junto com a amiga.
E então aconteceu.
A bola de destruição desceu na direção da rua, quebrando uma parede de madeira que separava o terreno da calçada. Os pedaços de madeira voaram por cima da cabeça de Courtney, que se abaixou. O que ela não percebeu, porém, foi a bola vindo em sua direção.
O objeto pesado acertou o corpo da loira com força, arremessando-a na direção do carro de Anna. O impacto da bola contra Courtney foi o suficiente para fazer com que a coluna da garota fosse quebrada ao meio e seu corpo ficasse totalmente disforme, com sua cabeça encostando em seus pés, formando um arco. O cadáver com a rosa ainda em mãos caiu em cima do Impala com um estrondo que feriu os ouvidos de Phillip.
Algum sangue respingou no rosto do rapaz e de Anna, que olhava a cena com incredulidade. Phillip a soltou com delicadeza, e então a garota começou a gritar de maneira histérica, batendo com os punhos na lataria do veículo. O rapaz percebeu imediatamente que as mãos de Anna estavam sendo cortadas pelo metal, mas não tentou impedi-la. Sentou-se no chão, exausto, encostado na roda do veículo. Ele sabia que diversas pessoas estavam observando a cena, chocadas, mas não se importou.
Ao seu lado, o sangue de Courtney pingava, escorrendo de cima do veículo e formando uma poça no chão. Ao lado dela, a pequena rosa parecia intacta e intocável, alheia à todo o sofrimento que lhe cercava. Toda mulher gosta de rosas…
Phillip conseguia sentir o gosto de ferro. O sangue de Courtney respingara dentro de sua boca aberta de incredulidade e deixara o gosto amargo da própria morte. Enojado o rapaz cuspiu, mas tinha a sensação de que sentiria aquele gosto pelo resto de sua vida.
Aquela simples visão, quase poética, do líquido rubro pingando de maneira constante ao lado da flor, foi suficiente para fazer com que Phillip sentisse um nó na garganta e uma vontade incontrolável de chorar.
x-x-x-x-x
Simon conseguia ouvir a música do lado de fora da garagem. A Pi Chi estava entupida de gente, com pessoas em todos os cômodos e no quintal, com copos vermelhos e latas de cerveja espalhados por todos os lados. Ele havia se encontrado com os estudantes da universidade onde ocorrera o Massacre da Babilônia, mas rapidamente percebera que não estava com paciência para aquelas pessoas e para aquela festa, de modo que entrou na garagem e se dedicava à tarefa de expulsar todos que entravam ali.
Decidira também que iria aproveitar o tempo livre para dar uma olhada na van que pertencia à fraternidade. O veículo estava quebrado fazia quase dois meses, e os irmãos procrastinavam na tarefa de fazer uma vaquinha para mandar consertá-lo ou mesmo darem uma olhada em qual poderia ser o problema. Simon tinha alguma noção de mecânica, de modo que podia pelo menos dar uma olhada para garantir que eles não seriam enganados com relação ao preço quando fossem levar a van para o mecânico.
O veículo era pintado de branco e azul, as cores da universidade, e tinha diversos desenhos feitos com grafite por todos os lados. A maioria eram nomes dos irmãos, mas havia também alguns desenhos obscenos e de folhas de maconha. Simon colocou o macaco embaixo da van e então fez força para que ela ficasse suspensa por alguns centímetros. Quando se ajoelhou para deslizar por baixo do veículo e verificar o problema, viu o grafite em que estava escrito: “Simon & Trev = badass motherfuckers”. Suspirou.
Ao fundo, ouvia:
I only want to die alive
Never by the hands of a broken heart
I don’t wanna hear you lie tonight
Now that I’ve become who I really am
A ironia daquela letra fez Simon rir de maneira nervosa. “Eu quero morrer vivo, nunca pelas mãos de um coração quebrado”. É, eu acho que essa letra combina comigo. Mas ao contrário da letra, Simon temia que pudesse acabar morrendo pelas mãos de um coração quebrado.
Ele ainda estava ajoelhado pensando na letra da música, quando o guaxinim entrou pela abertura do portão da garagem, destinada ao gato de estimação que a Pi Chi tinha, o Satan. O bichinho parecia assustado, e tinha um líquido vermelho estranho em seus pelos. Simon ignorou a presença dele e voltou a fixar o olhar nas palavras escritas na van.
The thought on your body
I came alive
It was lethal
It was fatal
Vai ser difícil conseguir me concentrar, ele concluiu rapidamente. Suspirou mais uma vez.
E então ouviu uma voz conhecida lhe chamando.
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