Notas iniciais
Antepenúltimo capítulo postado, gente :D Espero que gostem! Como sempre: ele foi revisado, mas qualquer errinho me deem um toque, por favor!

— Anna? — Simon disse, confuso pela voz que havia lhe chamado.

A garota abriu a porta da cozinha, que dava em direção à garagem, e entrou. O rapaz rapidamente percebeu que Phillip estava atrás dela, e que Ben tinha trazido os dois até ali. O ruivo fechou a porta e ficou encostado ao lado dela, curioso pelo que os amigos tinham para dizer. Simon percebeu no mesmo instante que Anna parecia inquieta e angustiada, de modo que seguiu em sua direção e lhe deu um caloroso abraço.

Anna não desviou do gesto, mas o retribuiu de maneira fraca e desanimada. Sentia-se triste, cansada, impotente. Estava aliviada por encontrar Simon vivo, mas também incrivelmente temerosa pelo que poderia acontecer à ele. Ela já havia perdido pessoas demais. Amigos próximos, amores. Não suportaria aquilo por muito mais tempo, tinha certeza.

— A gente precisa te contar uma coisa, Simon. Na verdade não só pra você, mas pro Ben, pro Daniel e pra Laura também. — Phillip falou de maneira firme. Sentiu novamente o nó na garganta ao pronunciar aqueles nomes. Percebia claramente como a lista havia se encurtado Dos nove amigos que seguiram para Oahu semanas antes, restavam somente cinco.

Aquele pensamento também ocorreu à Anna e atingiu-a de maneira forte no peito. A garota sentiu-se fraca, e então encostou no retrovisor da van, apertando-o com firmeza.

— Vocês estão me apavorando, gente. O que foi que aconteceu?

Ben observava o trio com um olhar de curiosidade, encostado na parede, com os braços cruzados e com o celular em mãos.

— A Courtney está morta. — Anna disse de repente. Simon arregalou os olhos, e Ben derrubou o aparelho que segurava. A garota, porém, não deu tempo para eles absorverem a notícia. Continuou: — Trevor, Michelle, Kia, Joe, Courtney. Existe algo sério acontecendo conosco, e eu acho que descobri o que é.

Simon estava completamente atordoado com aquela notícia. Sentou-se no chão, atônito, e viu o guaxinim parado ao seu lado, com um pedaço de pão velho e duro em mãos. O bichinho mexeu o focinho e olhou para ele de maneira curiosa. O rapaz então percebeu que o que havia em seu pelo era sangue. Sangue seco. O pobrezinho deve estar machucado…

— E o que seria? — Ben perguntou, surpreendendo a todos pela firmeza com que disse aquilo. — O que está acontecendo conosco?

Anna suspirou.

— É uma espécie de lista. — Ela começou, tentando tomar cuidado com as palavras. — A lista da morte. Na minha visão, todos vocês morriam. Vocês se lembram disso?

Ben e Simon menearam a cabeça ao mesmo tempo. O segundo rapaz, porém, olhava de maneira fixa para o celular do ruivo ainda caído no chão.

— Pois bem. Vocês… — E então ela pensou melhor. — Quero, dizer, nós… Nós morríamos em uma ordem. O primeiro era o Trevor. Depois o Phillip, e então a Michelle, a Kia, o Joe, a Courtney… Nessa exata mesma ordem.

O ruivo caminhou para perto de Anna e Phillip estralando os dedos das mãos.

— Essa é quase a mesma ordem em que eles morreram. Com exceção do Phillip, que… — E então Ben se lembrou da ocasião em que salvara a vida do amigo, ainda em Oahu. — A roda…

Anna não deu tempo para os dois processarem aquela informação. Se titubeasse, não conseguiria. Estava tomada por uma sensação de adrenalina inebriante, e sabia que quando aquele ímpeto passe, voltaria a ser covarde. Continuou dizendo:

— Isso significa que nós podemos impedir essa… Coisa. O Phillip deveria morrer depois do Trevor, mas ele está vivo. Nós só precisamos estar atentos.

Apesar de ter dito aquilo, nem mesmo Anna acreditava naquela teoria. Ethan lhe contara que sofrera diversos acidentes quase fatais, não apenas um. Isso significava que muito provavelmente o mesmo aconteceria com eles. Depois que morte a levasse, ela voltaria para Phillip. Parecia o mais lógico, e aquilo desanimava tremendamente a garota. Mas eu não posso desistir. Não posso.

O celular continuava caído no chão e Simon continuava olhando de maneira fixa para ele. Não sabia o exato motivo, porém. Processava tudo o que Anna tinha acabado de dizer, mas seu olhar se mantinha focado no aparelho.

O guaxinim saiu de seu lado e correu na direção de Ben. Anna se assustou com o bicho e deu um gritinho, instintivamente segurando no braço de Phillip. O animal então pegou o celular do ruivo com as duas mãos e correu para debaixo da van, passando novamente ao lado de Simon.

— Mas que maldito! Ele pegou meu celular. — Ben comentou.

O movimento do guaxinim ao pegar o aparelho foi o suficiente para quebrar o fluxo de raciocínio de Simon. Ele então bufou e se deitou no chão, olhando por debaixo do veículo. O bicho estava lá, com os olhos brilhando e o celular em mãos.

De súbito Anna sentiu uma sensação de mal estar. Sentiu-se fraca, e percebeu que iria desmaiar, de modo que estendeu o braço na direção de Phillip. O rapaz notou aquilo e a segurou no mesmo segundo, antes que a garota caísse. Ben ajudou o amigo a colocar Anna sentada em um sofá velho que havia ali, e então voltou suas atenções para Simon, que parecia não ter percebido a cena.

— Me dá isso aqui, seu infeliz… — O rapaz murmurou.

Ben sentiu-se incrivelmente desconfortável quando Simon se esticou para debaixo da van. O rapaz ficou com a cabeça exatamente debaixo da roda do veículo, esticando os braços para alcançar o guaxinim e retirar o celular das mãos dele.

— Cuidado com isso daí, cara. — O ruivo o alertou.

Simon grunhiu alguma coisa ininteligível, parecendo concordar.

Ben percebeu o acidente iminente no mesmo instante, da exata mesma maneira que havia percebido o acidente de Phillip semanas antes. Assim como o outro amigo, a roda do veículo parecia estar pronta para selar o destino de Simon.

— Sai daí, cara! — Ben exclamou.

O ruivo então se abaixou e colocou a mão no ombro de Simon. Phillip observava a cena alguns metros atrás, enquanto Anna parecia estar recobrando a consciência.

— Eu tô tentando pegar o teu celular, cara, fica de boa.

Simon esticou ainda mais o braço e deu dois tapas no chão, procurando acuar o bicho. O guaxinim assustou-se com o movimento e correu para fora, passando pelo outro lado do rapaz e trombando com força no macaco que mantinha a roda do veículo suspensa no ar. O impacto quase não fez baruho, e o bicho correu para longe dali quase que imediatamente, ainda atordoado pela batida.

Não houve nada que pudesse ser feito.

O macaco caiu para o lado com um tilintar que feriu os ouvidos dos quatro. No mesmo instante a roda do veículo cedeu, caindo com força em cima da cabeça de Simon e do braço de Ben que segurava o ombro do amigo. O impacto matou o rapaz instantaneamente, explodindo sua cabeça como se ela fosse um balão de festas e espirrando pedaços de cérebro e uma quantidade imensurável de sangue por todos os lados, em especial no rosto do ruivo.

Anna gritou de maneira ensurdecedora. Phillip virou o rosto e vomitou.

Ben gritou alto e começou a se debater, com o braço preso debaixo da van. Anna não perdeu tempo e correu para fora dali para pedir ajuda, enquanto Phillip manteve o sangue frio e correu na direção do ruivo.

— Meu braço! Meu braço…

Phillip olhou o braço de Ben e teve vontade de vomitar mais uma vez. Ele estava preso debaixo da roda do veículo, imerso na poça de sangue e cérebro que havia sido formada com a cabeça de Simon. O corpo do rapaz estava com os braços estendidos debaixo do veículo e as pernas para fora, completamente inerte.

— Fecha os olhos, Ben. Pensa em um lago. Você está nadando nesse lago e a água está bem quente. Você consegue sentí-la?

Ben estava mais pálido do que de costume, completamente atordoado. O rapaz parecia febril e batia os dentes, tremendo de frio. Phillip não sabia o que estava acontecendo, mas imaginava que a dor que o ruivo estava sentindo fosse tanta que ele estava em estado de choque, incapaz de sentir qualquer coisa. O amigo manteve o olhar de Ben fixo no seu, procurando lhe passar conforto e calma, enquanto esperavam que a ajuda chegasse. Funcionou por algum tempo, mas então Phillip percebeu os olhos do amigo se revirando e percebeu quando ele desmaiou, batendo a cabeça na lataria do carro com delicadeza.

Anna chegou acompanhada de um batalhão de irmãos da Pi Chi, bem como diversos outros curiosos que estavam na festa, vários deles com copos vermelhos em mãos. Com a porta aberta, a música alta invadia o cômodo.

Algumas garotas soltaram gritos de horror e um dos irmãos vomitou. Phillip então começou a expulsar todos eles dali, com uma firmeza impressionante. Todos que o conheciam se surpreenderam com aquilo, de modo que respeitaram os pedidos dele, saindo da garagem e ajudando para que os demais curiosos fizessem o mesmo. Em alguns segundos só restavam uma garota estranha e alguns irmãos da fraternidade, todos eles dedicados à tarefa de erguer a van para que pudessem retirar o braço de Ben debaixo dela.

A tarefa foi concluída com rapidez. Quando os irmãos puderam ver com clareza o que a cabeça de Simon se tornou, o horror em seus rostos foi notável. No mesmo instante um rapaz moreno e alto, que Anna desconhecia, teve calma e frieza suficiente para pegar Ben no colo e seguir com ele para fora da garagem, dizendo para Phillip:

— Vai abrindo caminho no meio desse povo da festa, por favor, até a gente chegar no meu carro. — E virando-se para a única garota ali além de Anna, disse: — Pega as chaves do meu carro, Kelsey. Você vai dirigindo.

Mesmo sem entender o que estava acontecendo, Phillip acenou positivamente e fez o que o rapaz pedia. Em poucos segundos eles tinham chego no veículo, enquanto diversos curiosos os observavam da frente da fraternidade. A tal Kelsey ajudou o rapaz a colocar Ben no banco traseiro e então se sentou no banco do motorista. Phillip não perdeu tempo e sentou-se atrás, colocando a cabeça de Ben em seu colo. O rapaz que havia os ajudado sentou-se ao lado da amiga. Do lado de fora, Anna permanecia parada, estática.

— A lista… Ela não vai ter fim… — Ela murmurou um pouco alto, perplexa.

Kelsey ouviu aquelas palavras no mesmo instante em que elas foram proferidas. A lista.

— Vem com a gente. — Ela pediu. E diante da expressão de confusão de Anna, acrescentou: — Por favor.

Anna concordou com um aceno de cabeça, abrindo a porta de trás do carro e sentando-se ao lado de Phillip e Ben. A garota então colocou o cinto de segurança no mesmo instante, não conseguindo deixar de pensar em como aquilo era tolo e inútil. Quando a morte estivesse pronta para levá-la, um cinto de segurança não faria a menor diferença.

x-x-x-x-x

A capela do hospital era bem menor do que a capela em que Anna e os outros costumavam ir. A sua estrutura, porém, era a mesma, com bancos de madeira sem divisória dos dois lados dispostos de maneira alinhada. À frente, o pequeno púlpito em que que se realizavam as cerimônias estava vazio.

Anna estava sentada na primeira fileira, observando a imagem de Jesus Cristo na cruz. Jesus chorou, pensou no mesmo momento. Ela, assim como os outros, estava esperando Ben ser liberado pelos médicos. Phillip aproximou-se e sentou ao lado da garota sem dizer qualquer palavra. Em suas mãos ele tinha o celular dela, que usara para ligar para Daniel.

— Eu não tive coragem de contar sobre a Courtney. — Phillip disse, entregando o aparelho para Anna. — Mas eu contei pra ele sobre o Simon e sobre quase tudo o que nós descobrimos. Deixei de fora a ordem da lista, porque isso poderia deixá-lo ainda mais apavorado. Mas o Daniel já sabe que corre perigo. Ele vai ficar bem.

A garota concordou com um aceno de cabeça resignado.

— E a Laura? Você conseguiu falar com ela?

Phillip meneou a cabeça positivamente.

— Ela falou que ia nos esperar no dormitório do Daniel também. O plano é nos reunirmos todos lá. — O rapaz ficou em silêncio por alguns segundos, mas então disse: — A Laura falou que tem alguma coisa importante pra nos contar. Algo relacionado com tudo o que está acontecendo com a gente.

Por aquilo Anna não esperava. Por algum motivo achou aquela notícia positiva. Temia ser a única a ter alguma informação que fosse valiosa. Lhe assustava a perspectiva de ser a responsável por tudo, por ser a garota que deveria trazer as respostas e soluções. Era bom saber que Laura parecia possuir alguma carta na manga.

Os dois ficaram em silêncio por vários minutos. Anna continuava a observar a estátua de Jesus na cruz, enquanto Phillip parecia ter a cabeça livre de qualquer pensamento. Queria afastar de sua cabeça a cena do corpo quebrado de Courtney ou da cabeça esmagada de Simon, mas era difícil. Em sua boca, o gosto de ferro do sangue da loira ainda se fazia presente, enojando o rapaz. Ele imediatamente teve vontade de vomitar, mas se conteve.

— A rosa. — Anna começou de maneira incerta, sem ter certeza do que estava fazendo. — A Courtney sempre foi apaixonada por rosas, desde o dia em que eu a conheci. Eu não sei se o motivo é o nome do meio dela, Rose, ou se essa foi apenas uma maravilhosa coincidência, mas… A verdade é que ela sempre foi fascinada por rosas.

Phillip meneou a cabeça, como a demonstrar que estava prestando atenção no que a amiga dizia. Anna continuou:

— Ela era feita pro amor da cabeça aos pés. — A garota comentou de maneira solene, e sentiu os olhos se enchendo de lágrimas. — A Courtney perdeu a virgindade com o primeiro rapaz que lhe deu uma rosa, sabia? — Phillip nada disse diante daquela pergunta retórica, de modo que Anna prosseguiu: — Era uma rosa azul, eu me lembro até hoje. Nós tínhamos quinze anos na época. O cara era um babaca completo, mas ele tinha uma rosa. Pra Courtney isso bastava. Sempre bastou. Ela não conseguia evitar, era mais forte do que ela mesma. A necessidade de amar e ser amada. As rosas representavam isso na vida da Courtney. O amor.

Anna então abaixou a cabeça e deixou as lágrimas caírem em seu colo. Chorava por Courtney. Chorava por Simon. Chorava por Michelle. Choraga por Big J.

Phillip instintivamente virou-se para trás e viu duas pessoas entrando na capela.

Era a dupla que tinha trazido Ben ao hospital. O rapaz era alto e tinha os cabelos escuros e finos. Parecia um pouco carrancudo e tinha um furo no queixo. Ele usava uma camisa social branca com as mangas dobradas até o cotovelo e calças jeans justas.

Ao seu lado, a garota era uma figura curiosa. Perceptivelmente menor do que o rapaz, Kelsey (como Phillip a ouvira ser chamada) era bastante exótica. Tinha os cabelos de um tom de castanho avermelhado e os usava presos num coque desajeitado, com uma franja solta colocada atrás da orelha direita. A garota tinha um piercing acima do lábio superior e usava uma maquiagem esdrúxula, com sombras azuis e verdes em suas pálpebras. Vestia-se com uma regata cor de rosa aberta de tal maneira que era visível seu sutiã preto por debaixo dela. Em suas pernas havia um par de shorts jeans curtos e em seus pés a garota usava um Converse.

O rapaz aproximou-se dos dois e se sentou ao lado de Phillip. Olhava pra frente quando disse:

— Meu nome é Angel. Aquela é a minha amiga Kelsey. — Ele falou, apontando para trás. — Nós estamos na sua universidade para palestrar a respeito do Massacre da Babilônia.

— Eu sou o Phillip.

— Eu sou a Anna. — A garota respondeu, suspirando. Então esfregou os olhos, limpando as lágrimas.

Kelsey se aproximou do trio e ficou parada de pé em frente à Anna.

— Eu quero te perguntar uma coisa, Anna.

— Pode perguntar.

— Antes de tudo eu queria dizer que eu sinto muito pelo seu amigo. De verdade. Eu cheguei a conhecer o Simon quando nós chegamos, e ele era um cavalheiro. Eu sinto muito, muito mesmo.

Anna agradeceu as palavras gentis de Kelsey com um aceno de cabeça. Ela parecia estar sendo genuína em suas condolências, de modo que isso tornou-a mais acessível para Anna.

— Você falou sobre uma lista. Que lista é essa?

Ah, era só o que me faltava.

— Não é nada não, Kelsey. Não esquenta.

— Não, por favor. É importante. Eu senti uma sensação esquisita desde o primeiro momento em que eu entrei naquela fraternidade. Era um sentimento ruim, como se algo terrível fosse acontecer. E então aconteceu. E daí agora você me fala sobre uma lista. Eu… — E então Kelsey olhou para cima, sem saber direito o que deveria dizer em seguida. — Eu sinto que eu sei o que está acontecendo com você, Anna.

— Você não faz ideia, Kelsey.

— Na verdade ela faz sim. — Angel disse, vindo em defesa da amiga. Anna o olhou com surpresa, e antes que alguém pudesse dizer algo, o rapaz soltou: — Você está falando sobre a lista da morte, não é Anna?

Ele… Sabe. Eles… Sabem.

Não foi preciso que Anna respondesse com palavras, já que sua expressão facial entregou a verdade.

— Oh, Anna… — Kelsey murmurou com pesar.

Phillip observava a cena da mesma maneira que observara todas as outras, sem dizer qualquer palavra. Apesar disso, absorvia tudo o que diziam, guardando as informações com a precisão característica dos aspies.

— Quando foi? — Angel perguntou da maneira mais doce que conseguiu.

Anna suspirou.

— Faz algumas semanas. Foi um acidente de ônibus no Havaí. Eu tive a visão e salvei alguns amigos. E então eles… — E a garota engoliu em seco. — Bom, eu acho que vocês sabem, não é? Quero dizer… Vocês sabem muito mais do que eu, tenho certeza. Eu adoraria ouvir a história de vocês.

Como se um controle remoto invisível estivesse os conectando, Kelsey e Angel entreolharam-se. Não houve qualquer dúvida de que era preciso falar sobre tudo o que passaram. Como palestrantes, era sua missão falar sobre as experiências ruins em sua vida, e a lista da morte com certeza fora a pior de todas.

— Aconteceu três anos atrás…

x-x-x-x-x

Laura caminhava pelas ruas escuras e vazias do campus com a cabeça em polvorosa. Fazia calor, de modo que sua caminhada era deveras agradável, mas mesmo assim a garota se sentia eufórica e temerosa. Era como se algo terrível estivesse prestes a acontecer e ela não pudesse fazer nada para evitar.

Tinha decidido que contaria à eles sobre o Djinn. Não podia adiar mais aquilo. A história que Phillip lhe contara pelo telefone parecia fantasiosa e improvável, mas depois de tantas mortes não havia como titubear. Trevor, Michelle, Kia, Big J, Courtney, Simon. Restavam cinco, e Laura temia que pudesse ser a próxima vítima.

Quando chegou em frente aos dormitórios masculinos, notou que não havia ninguém cuidando do andar inferior e agradeceu por isso. Abriu a porta do hall e entrou, subindo até o terceiro andar, onde ficava o quarto de Daniel e Big J.

Bateu na porta e esperou. Do outro lado, ouviu passos, como se alguém de salto alto estivesse caminhando na direção da porta. Laura não se surpreendeu quando quem lhe abriu a porta foi um Daniel que usava um corset anil, da cor de seus olhos, e um par de saltos vermelhos. O rapaz tinha os olhos bastante vermelhos, como se tivesse chorado bastante.

De dentro do quarto, se ouvia:

There's no need for tears

Cause there's no need to cry

The love that you leave

Will never be left behind

This pain in my head comes straight from my heart

No woman alive could touch who you were

— O Phillip falou que você viria. Oi. — Ele disse de maneira desanimada, e caminhou para dentro do quarto.

Laura meneou a cabeça positivamente e fechou a porta atrás de si. O quarto de Daniel estava uma bagunça, como se não fosse arrumado há dias. A cama de Big J estava com os lençóis bagunçados, e havia inclusive uma cueca em cima dela. Acima deles, um ventilador de teto girava de maneira rápida. Em um canto afastado, havia uma escada de metal, que claramente não pertencia àquele lugar. Ela estava apoiada em cima de uma prateleira que ficava no alto do cômodo. Em cima dela havia diversos livros de cinema e discos de filmes. A loira não fez nenhum comentário, limitando-se a observar o que havia ao seu redor.

Mas então ouviu o trecho da música que a congelou:

So bye, bye Laura

There's no one could take your place

Bye, bye Laura

Your beauty will never fade

Adeus, Laura. Essa letra… Ela fala sobre a minha morte. Oh!

Daniel percebeu aquilo no mesmo momento, de modo que correu até o notebook e fez com que a música parasse de tocar. Aquilo foi suficiente para deixar a loira um pouco menos ansiosa. Daniel então sentou-se em frente à sua escrivaninha, onde havia um espelho de rosto e um formidável estojo de maquiagem. O rapaz afastou e prendeu os cabelos ondulados com uma bandana preta em que se lia “Flogging Molly”, o nome da banda que tocava a música que se ouvia anteriormente.

— Você quer um sushi? — Daniel perguntou, estendendo pra garota uma caixinha de isopor em que havia a comida japonesa. Laura meneou a cabeça negativamente, agradecendo-o.

A loira decidiu perguntar à queima-roupa:

— Daniel, você por acaso ainda tem aquele boneco que você pegou na caverna lá de Oahu? O… Djinn.

O rapaz virou-se, desviando o olhar do espelho. Disse:

— Tenho sim, ele está preso atrás da porta. — E apontou para o lugar.

Laura viu o boneco no mesmo instante. Suspirou.

— Eu acho que o Phillip já te contou sobre tudo não é? — E Daniel meneou a cabeça positivamente. — E você acredita?

Daniel voltou a se virar para o espelho. Pegou um lápis de olho e começou a passá-lo, dizendo:

— Não tenho condições de duvidar. Meus amigos estão todos mortos.

Oh, Daniel. Naquele instante Laura sentiu uma incrível dor no peito. Tentou não pensar naquilo. Precisava ser objetiva. Os amigos de Daniel estava mortos, mas ele poderia sobreviver. Nós podemos sobreviver. Nós temos uma chance.

— E se eu te disser… Que tudo isso está relacionado… Com ele? — Ela arriscou, apontando para o Djinn. Daniel terminara de passar o lápis, então o deixou em cima da escrivaninha e seguiu com o olhar na direção de onde Laura apontara. — Você acreditaria?

Os olhos anil do rapaz, destacados pela maquiagem, brilharam diante daquela pergunta.

— Continua, por favor. — Ele pediu.

— Eu vou te contar a história toda, prometo. Mas eu posso te adiantar uma coisa: nós vamos sair dessa. Eu prometo. Nós só precisamos devolver esse boneco para o lugar de onde ele foi tirado e acabar com essa maldição de uma vez por todas.

O barulho do batom caindo no chão foi a única coisa audível.

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Kelsey sabia exatamente pelo que Anna estava passando.

A garota percebeu isso após poucos minutos de conversa. A outra garota lhe relatara, em detalhes, tudo o que acontecera com ela e Angel. Contara sobre a visão que tivera do massacre, sobre a morte dos seus amigos… Contara inclusive sobre o suicídio do irmão de Angel, Skip, e como isso fizera com que a maldição deles fosse quebrada.

— Então isso… É uma maldição? Nós estamos amaldiçoados? — Foi tudo o que Anna conseguiu perguntar.

A outra garota deu com os ombros.

— Eu sinceramente não sei dizer porque tudo isso aconteceu comigo. Ou com o irmão da minha amiga Melissa, ou com todos os outros com os quais tive contato desde então. Nós apenas… Vimos. Nós vimos uma coisa que não deveríamos ter visto, e então tivemos que lidar com as consequências disso.

Antes que Anna tivesse tempo de processar o que havia sido dito, Phillip surpreendeu a todos perguntando de maneira firme:

— Como? Como vocês detiveram a lista?

Kelsey suspirou. Ela então olhou para Angel e ele meneou a cabeça positivamente, autorizando-a a contar o que eles sabiam.

— Vocês já perceberam que existe uma ordem, correto? Uma ordem em que as pessoas devem morrer.

Anna e Phillip menearam a cabeça positivamente ao mesmo tempo.

— Então, ela é a chave. Quando alguém interefe no acidente de outra pessoa, essa pessoa é pulada e é mandada para o final da lista. Ela então só vai morrer depois que todos os outros já tiverem morrido. Se alguém se salva sozinho de um acidente, porém, essa pessoa recupera a própria vida. Mas isso é algo muito, mas muito improvável de se acontecer.

— Então foi isso que vocês fizeram? — Phillip insistiu. — Vocês escaparam sozinhos de um acidente fatal?

Kelsey meneou a cabeça negativamente.

— Nós escapamos graças ao outro método. O motivo pelo qual a ordem é a chave. Se alguém morre fora da ordem em que deveria morrer, a lista é jogada fora e todos vocês ganham uma nova chance. Suponhamos que a Anna, por exemplo, fosse ser a última a morrer. — Anna tremeu diante daquela fala de Kelsey, mas não a interrompeu. — Se ela fosse assassinada ou cometesse suicídio enquanto a lista esperava levar outra pessoa, então todos os planos ou desígnios da lista iriam pelo ralo. Ela estaria quebrada e vocês estariam livres.

Anna teve vontade de suicidar-se ali mesmo. Naquele instante, naquela capela.

Faria qualquer coisa para pôr um fim àquela maldição, mesmo que isso custasse a própria vida. Não valia a pena viver daquela forma, com medo, acuada… Mas então a imagem dos pais veio à sua cabeça. O sorriso bobo de sua mãe, e o toque gentil das mãos de seu pai. Isso os destruiria. Não seria justo com eles que eu tirasse a minha própria vida. Que eu abdicasse da dádiva que eles me concederam. Não. Essa não é a única solução. Não pode ser.

Suspirou.

x-x-x-x-x

O ventilador continuava a girar no teto.

Daniel refletia sobre a história que Laura havia lhe contado enquanto continuava a se maquiar. A sombra acima de seus olhos era clara, prateada, enquanto o batom em sua boca tinha uma tonalidade azul esverdeada.

Tudo parecia muito fantasioso demais. A lista da morte, a maldição do Djinn. Os motivos de eles estarem na situação em que estavam eram no mínimo risíveis. Para o rapaz era difícil fazer a conexão entre o encontro de Laura com o demônio, o boneco que ele tinha em mãos e a situação trágica em que estavam. A atriz, porém, parecia convencida de que o boneco era a chave. Convencida de que assim que eles o entregassem ao lugar em que pertencia, tudo estaria acabado.

Se o que ela falava fosse verdade, isso significava que o maior responsável pela tragédia deles era Daniel. Para o rapaz, isso era pior do que ser morto por um acidente qualquer.

Laura estava em silêncio, observando os sushis em cima da mesa, quando percebeu uma enorme aranha em cima da estante. Instintivamente soltou um gritinho, que chamou a atenção do rapaz.

— O que foi? — Ele perguntou, confuso.

A loira então apontou para o bicho em cima da estante. Daniel abriu um meio sorriso, achando graça da reação dela.

— Eu mato pra você. Fica calma.

Aquela fala dele e a maneira como ele reagira, lembraram Laura do primeiro encontro dos dois, ainda em Oahu. A loira sorriu diante daquele pensamento. Daniel era um gentleman. Fora assim desde o primeiro momento e mesmo ali, semanas depois e após tantas tragédias seguidas, continuava a ser. Continuava a se preocupar com os outros e a tentar fazer com que todos se sentissem bem e confortáveis. O Daniel é um homem de verdade.

O rapaz ajeitou a escada apoiada na estante e pegou um tênis de Big J que estava no chão. Começou lentamente a subir os degraus, com os saltos vermelhos causando um tilintar harmônico diante do contato com o metal. Quando Daniel estava no degrau mais alto, esticou o braço, encarando a aranha.

— Toma cuidado, Dani. — Laura murmurou, apreensiva.

Daniel meneou a cabeça positivamente, sorrindo. Ele então colocou o braço para trás e o trouxe para a frente com toda a força, procurando fazer com que o impacto do tênis contra a parede esmagasse a aranha. Ele não contava, porém, que o bicho fosse perceber seu movimento antes do tempo.

Todo o restante aconteceu em poucos segundos.

A aranha pulou no exato mesmo segundo em que iria ser morta, caindo dentro do corset de Daniel. Apavorado com aquilo, o rapaz se desequilibrou, procurando algo em que pudesse segurar para não cair. Instintivamente esticou o braço para trás na direção do ventilador. Não teve tempo de pensar no resultado de sua ação, pensando somente em evitar a queda.

Quando sua mão entrou em contato com as hélices do ventilador de teto, o sangue respingou por todo o quarto. Quatro dos dedos de sua mão esquerda voaram pelo cômodo, caindo em cantos diferentes. Daniel soltou um berro e caiu no chão com um baque surdo.

Laura levantou-se no mesmo instante, apavorada. Caído no chão, o rapaz gemia de dor, enquanto uma poça de sangue se acumulava ao seu lado e em cima de seu corpo. A aranha escapou naquele instante, correndo e deixando pequenas marcas de sangue por onde passava.

— Daniel! — A loira exclamou, dando dois passos em sua direção.

Mas então houve um barulho fraco, como se algo tivesse quebrado.

Laura gritou.

Daniel olhou para cima, seus olhos cor de anil mirando o ventilador, a última visão que teria. Piscou. O objeto caiu do teto diretamente em seu rosto, pendurado por fios e ainda funcionando. As hélices fatiaram o rosto de Daniel sem piedade, fazendo pedaços de carne e sangue serem espalhados por todos os lados, incusive nas pernas de Laura.

A garota gritou de maneira ensurdecedora, enojada com a cena que tinha diante de si. Instintivamente virou-se na direção da porta e viu quando o boneco do Djinn, também sujo de sangue, desprendeu-se do prego onde estava preso e caiu no chão, rolando até a poça que fora formada com o sangue de Daniel.

Notas finais
E aí? Sangrento, certo? HAHAHAHA Começo deixando a música que utilizei aqui: Laura - Flogging Molly: https://www.youtube.com/watch?v=pOdEPcnySas Não, a Laura não foi inspirada nela! HAHAHAHAHA mas fiquei chocada quando a ouvi, porque vi que a letra fazia MUITO sentido com a personagem, então decidi incluí-la aqui :D Posso adiantar que o próximo capítulo será um dos mais caóticos que já escrevi, porém será uma "jornada" e tanto, já que depois de tantas mortes seguidas, os personagens vão precisar ter o seu emocional explorado e tudo mais ^^ Enfim, vocês verão ^^ ps: apresento pra vocês, em primeira mão, o novo vilão das minhas fics. Depois de Maria, Morgan, Marsellus, Yohann e Bunny Face, ele, o temível... http://i.dailymail.co.uk/i/pix/2012/04/26/article-0-12C79383000005DC-916_634x471.jpg :'DD Acho que esqueci de comentar algo aqui nas notas finais, mas pff, azar hahahaha Até mais, gente :D