A garota caiu a poucos metros de Danyel.

Parecia debilitada.

— Você está bem? – perguntou, preocupado.

Ainda cambaleante, ela tomou postura, e Dan conseguiu ver seu rosto. Tentou evitar o espanto, que insistia em vir à tona sempre que via uma daquelas pessoas azuis. Se sentia mal com aquilo, como que preconceituoso, mesmo que sem intenção.

— Eu… – a feciter, como eram chamados os da raça corrompida, fez um certo esforço para terminar a frase – ...eu estou bem. – meio andando, meio se arrastando rente à parede, ela seguiu caminho a passos lentos.

Dan resolveu não incomodá-la, por mais que ela parecesse precisar de ajuda.

Estava prestes a se virar e seguir rumo ao seu quarto quando a garota caiu novamente. Ela pareceu protestar, resmungando com murmúrios, mas Dan se pôs ao seu lado e a apoiou em seu ombro. Colocou-a cuidadosamente sentada, encostada na mesma parede em que antes se arrastava.

Apesar da coloração diferente da pele em relação a seres humanos, era claro que a garota estava pálida. Girava a cabeça lentamente, assim como os globos oculares o faziam debaixo das pálpebras abaixadas. Como se tivesse um pesadelo.

Mesmo receoso, Dan se arriscou a tentar despertá-la. Cutucou seu ombro.

Não houve reação.

Dan fitou-a. Ainda era estranho encarar uma pessoa com aquela coloração na pele. E ainda haviam as marcas. Mas a isso ele estava habituado.

Uma mecha de cabelo escuro caía sobre seu rosto, onde a paz parecia ter se esvaído. A jovem definitivamente era atormentada por algo, mas Dan não tinha como saber o que, não enquanto ela não acordasse.

Lembrou-se de quando seu irmão, um dos seus muitos irmãos, numa caçada, foi picado por uma opisari, a serpente-fantasma, dona do veneno mais poderoso em todo o território de Dhalrond.

O garoto desfalecia, murmurando coisas ininteligíveis, e Dan foi obrigado a cortar sua perna antes que a situação piorasse, mas o veneno já havia se espalhado, e logo Daek começara a delirar.

Aquele dia foi duro.

Mas Dan conseguiu salvar o irmão.

Sua mãe dizia que ele possuía algum tipo de dom. Um dom para conseguir ajudar as pessoas, mesmo nos momentos mais difíceis. Especialmente nos momentos difíceis.

Ele suspirou.

Ainda que com receio de ser invasivo, segurou as mãos da garota e iniciou o atmersi, ou ritual, que lhe fora ensinado por sua avó e pelo tya’k Galadar, a quem seu pai se referia como “aquele que encontrou a cura dos altares de Averas”, pois o próprio sacerdote afirmava ter nascido na montanha sagrada (uma das muitas) dos kalari, onde vivia o deus sem nome detentor de todos os antídotos, remédios, elixires e tratamentos medicinais que já existiram ou virão a existir.

“O, Shai, Tya’k, deluras, o, viat, makei, somni, averas”.

Grande e Supremo Sacerdote, cura a grande dor desta alma, ó residente de Averas.

Para Dan, aquilo nunca havia sido muito útil, mas era o que lhe restava sem quaisquer ervas medicinais à disposição.

Continuou a sussurrar a mesma sequência de palavras no dialeto kalari, e assim o fez por cerca de uma dúzia e meia de vezes. Sem efeito.

Suor frio escorria em seu rosto, e Dan notou que também no dele mesmo. Se concentrar em chamar forças da natureza era de fato uma tarefa árdua.

Talvez a grande estátua lá fora impeça as forças naturais de influenciarem nos limites destes muros.

Não era impossível. As divindades do povo citadino não eram opostas aos deuses selvagens, mas ainda assim muito diferentes. Era provável que o fato de toda a Academia ser na verdade um grande complexo de templos dedicados aos Nove Soberanos tornasse aquele lugar uma barreira para as entidades da natureza, impedindo-as de agir.

Mesmo assim, não desistiu. Tornou a pronunciar, lentamente, o atmersi.

Sentiu ardor nas mãos, e por reflexo soltou as mãos da garota.

Olhou para a palma das mãos, e suas dyalits, ou tatuagens, brilhavam num tom intenso que num piscar de olhos se esmaeceu.

Subitamente, a garota teve um espasmo, que fez Dan se afastar para trás com o leve susto. Ela abriu os olhos, ainda que semicerrados, e piscou lentamente.

Ele se aproximou novamente.

— Você...se sente melhor?

— Estou bem, eu já… – fez uma pausa, como que ainda tentando organizar os pensamentos para formar a frase – eu já disse que estou bem. – falava num tom tão baixo que Dan, dono de uma audição melhorada, teve que se esforçar e aproximar os ouvidos para conseguir entender.

Claramente com muito desconforto, ela tentou levantar-se, mas não conseguiu tirar forças para tal.

— Quer ajuda? – Danyel pôs-se de pé, estendendo a mão para a feciter.

— Ajuda… – ela pareceu hesitante, como se não tivesse certeza do significado da palavra – Não, obrigada… Eu consigo sozinha – a última frase soou quase como se nem mesmo ela acreditasse no que dissera.

Danyel estava prestes a responder, mas uma jovem dobrou a esquina do corredor, exclamando:

— Professor! Eu a achei! – falou sem direcionar-se a ninguém em especial, o que provavelmente indicava que ela chamava alguém distante.

Dan ficou sem reação.

A garota, de cabelo louro como a grande estátua no centro da Academia e pele clara como a neve que caía nas florestas boreais durante o inverno (talvez não tão pálida, pensou Dan. Ele ainda se acostumava às pessoas de pele não-parda, então qualquer cor que não fosse ao menos bronze era clara demais para ele), se aproximou em passos largos.

— Você a encontrou aqui? – perguntou ela num tom preocupado, sem sequer olhar para Dan. Já tinha a mão no pulso da feciter, aferindo a pressão. Fez menção de soltar um grito espantado, mas apenas abriu a boca em surpresa – Está… está melhor do que na enfermaria. Você sabe algo de primeiros socorros?

Apesar de acordada, a jovem de pele azul sequer se mexeu.

— Um pouco, mas nada muito teórico… sei apenas o mais prático. – Dan não mentia. Sua mãe lhe ensinara a usar algumas ervas medicinais, e o tya’k Galadar o mostrara como invocar o auxílio do deus sem nome, e isso era basicamente tudo que sabia de medicina.

— Algumas pessoas simplesmente são feitas para a medicina. – sorriu, o que destoou completamente da feição preocupada de três segundos antes. – Elae. – estendeu a outra mão, a que não segurava o pulso da garota atordoada.

— Danyel. – ele sorriu de volta e cumprimentou-a com a mão, mesmo que a situação não fosse das mais tranquilas.

— Oh, eu me lembro. O terceiro colocado, certo? O kalari.

— Exatamente.

— Sou muito interessada pela cultura dos nativos boreais. Não fosse minha preferência pela medicina, certamente eu estaria neste exato momento com a cara enfurnada em algum livro, estudando a sociedade kalari. Ou a d’kari, ou até mesmo a quase extinta nagathe…

Enquanto a aspirante a enfermeira se perdia em seus devaneios, duas figuras surgiram da mesma esquina de onde ela havia aparecido.

O primeiro, um homem com no mínimo cinquenta anos, alto e magro, portava um jaleco branco que parecia desajustado, folgado demais. Por baixo, uma camisa de pele de algum animal de cor preta. Não parecia material barato. Sua expressão era de total impaciência, e as rugas marcavam seu rosto em quase todos os espaços possíveis. Os cabelos grisalhos, quase brancos, não abundavam, mas também não eram ralos. Os sapatos de couro escuro estavam com a sola descolada, mas ele não parecia se preocupar.

Sua pele era clara, mas não pálida. Apenas clara como a de quase todos naquela porção do Reino.

— Há uma boa chance de ter entrado em estado de choque novamente. – falou como se a feciter não estivesse ali, o ouvindo. Embora ela não parecesse mesmo estar ouvindo – Precisaremos levá-la para a enfermaria novamente. – levou a mão à testa, como que desapontado, e em seguida soltou um longo suspiro – Pacientes. Por que nunca seguem o que lhes é pedido?

— Talvez porque você faz pedidos, não ordens. Às vezes o indivíduo não tem muito bom senso e ignora suas limitações relacionadas à saúde. O que podemos fazer para impedi-los? Ninguém pode obrigar ninguém a se dispor a passar por um tratamento ou consulta. A Constituição Imperial diz que somos todos livres. Ou ao menos deveríamos ser. – o segundo sujeito deu de ombros.

— A maldita Constituição Imperial erra quando seu primeiro artigo se refere a liberdade, mas os malditos não nos deixam sermos independentes em paz.

— Não seja hipócrita. Há quanto tempo nossa querida família real não insiste em manter Aethia para si, como um reles objeto? Não poderemos reclamar independência enquanto não resolvermos nossos próprios conflitos internos.

— Que se dane Aethia. Não dou a mínima se eles fazem parte ou não do Reino.

— Não diga isso. Tenho um tataravô que veio de Sithel.

— Oh, Sithel. Bela cidade. Pena que fica no meio do nada. Seria de maior proveito se estivesse nos limites desta porção de terra. – o senhor rude de jaleco, provavelmente o tutor de medicina de Elae, apontou para o chão em que eles pisavam.

— Ignore. Estou há apenas algumas horas com Eldar, e já me acostumei à sua forma direta de se expressar. No fundo, não é má pessoa. Sempre disposto a ajudar seus pacientes o quanto for possível.

— Como sabe disso, se está tutorada por ele há apenas algumas horas?

Ela emudeceu por um instante.

— Boa pergunta – assentiu – Talvez eu tenha uma certa facilidade em compreender as pessoas. Melhor do que se é esperado.

— Vivemos tempos em que as pessoas se fecham num nível crescente. A metrópole me parece lar de pessoas… frias. Às vezes não sei nem se posso chamá-las de pessoas.

— Novamente: você se acostuma. Se adaptar ao pior é algo necessário para a sobrevivência de uma espécie. Foi o que nos ajudou contra os syrel. Hoje, vivemos em certa harmonia.

— Maquiada. – disse a feciter. Parecia estar mais viva do que um ou dois minutos antes.

— Sophie. Você precisa descansar. Não deveria ter deixado a enfermaria sem nos avisar.

— Se eu avisasse, vocês… vocês me deixariam ir?

Dan percebeu ali, com tantas mudanças de pauta, uma chance de partir sem ser notado.

Infelizmente, ou não, uma parte dele o compelia a permanecer ali e ajudar no que fosse preciso.

— Só por cima do meu cadáver – disse Eldar.

— Então acho que se torna compreensível a reação inesperada da senhorita que aqui se encontra, afligida por um choque mental. Salvo engano. – o segundo homem, mais jovial, possuía cabelo castanho como o de Dan, porém numa tonalidade levemente mais escura. Não trajava vestes típicas de um professor, mas uma roupa leve de seda branca coberta por uma manta típica dos qaian, povo fechado descendente de indígenas que habita em uma série de vilarejos no limiar norte da Floresta. Carregava duas caixas, uma embaixo de cada braço, além de portar uma mochila maior que as próprias costas. Dan poderia facilmente confundi-lo com um dos muitos andarilhos que vê em suas caçadas, a não ser pela pele clara. Andarilhos costumam ter um bronze forte nas tonalidades do corpo.

— Eu não estou doente. Apenas atordoada. Não preciso ir para a enfermaria. – Sophie falou aquilo com tanta firmeza que Dan chegou a pensar que ela levantaria dali e prontamente marcharia na direção oposta deles. Mas ela estava definitivamente atordoada, como a própria admitira.

— Então deixe-nos levá-la para seus aposentos, ao menos. – disse Dan, meio sem pensar. Quase desconfiou que não fora ele quem dissera aquilo.

— Muito gentil da sua parte, mas…

— O garoto está certo. Não acho que alguém tão… atordoado… possa sair andando por aí à toa. Esse lugar é um labirinto. Você desabaria novamente antes mesmo de perceber o cansaço. – disse Eldar.

— Quinze anos. – disse o sujeito que parecia pronto para uma noite explorando a floresta mais próxima – Quinze malditos anos que você está aqui, Ofios, e até hoje não conseguiu decorar a localização de sua própria sala?

— Cale essa sua maldita boca, Volgard. – bradou Ofios Eldar. Ou seria Eldar Ofios?

— Por que me chamar assim? Você sabe que prefiro que se refiram a mim como Thidas. – Thidas sorriu de maneira tão sarcástica que chegou a parecer gentil, o que irritou ainda mais o tutor de medicina.

— Chega! – Eldar também trazia uma pomposa caixa em seus braços, e num único movimento, a deixou cair no chão, o que para Danyel soou como um enorme tump. – Divirta-se consertando seus brinquedos.

— Ora, devo admitir que esta foi uma vingança cruel. – Thidas não tirava aquele sorriso do rosto, o que estava começando a se tornar desconfortável – Mas diga-me – fez uma pausa e pigarreou – o que o faz pensar que eu deixaria para você, meu caro amigo, o fardo de carregar as minhas peças mais importantes?

— O que quer dizer? – perguntou Elae, cujos olhos refletiam curiosidade. Ela parecia aflita com o dilema de ter que escolher entre prestar atenção à discussão que se acalorava ou conter a garota atordoada porém teimosa.

— Peças de vidro e metal fazem muitos barulhos, mas duvido muito que façam tump. – disse Dan.

Todos se viraram para ele (exceto Sophie, que parecia mais concentrada em se manter acordada).

— Ouça o que o garoto diz – disse Thidas, num tom risonho. apontando com o indicador para Dan – Embora eu não saiba o que ele ainda está fazendo aqui. Presumo que ninguém saiba, na verdade.

— Mas… – Eldar, visivelmente apressado, se agachou e arrancou o lacre da caixa, revelando um…

— Uma pilha de roupas. Sujas, devo dizer. Não poria o nariz muito perto dessa caixa, em seu lugar.

Eldar disparou uma série de xingamentos para Volgard, alguns que sequer faziam sentido na opinião de Danyel. Ele ainda estava aprendendo e se adaptando ao nakliar. Como quase tudo que envolvia a vida nas grandes cidades do Reino.

Em seguida, o médico pareceu voltar a si aos poucos, e já alheio aos modos risonhos de Thidas, gesticulou em direção a sua aprendiz.

— Vamos, Goldtar. Vamos levar esta garota ao quarto dela.

— É Geltfer, na verdade. – corrigiu Elae.

— Que seja. Posicione-a apoiada em seu ombro direito. Se tiver força para isso.

E, sem contestar, Elae fez o que lhe fora ordenado. Sophie relutou, mas aceitou ser levada para seu dormitório.

O problema:

— Não sei onde fica meu quarto. – disse, ofegante, a feciter.

— Oh, faz sentido. Você… desmaiou ainda antes de sermos guiados a nossos aposentos.

— Que seja. Vamos até a Central então.

— Prepare-se. O caminho até lá vai ser longo.

— Não é tão longo. É neste mesmo prédio. – disse Thidas.

— Neste labirinto, você quer dizer. Não me referi a distância. Me referi ao tempo.

— Querem chegar na Central? Simples. Depois da próxima esquina, dobrem à esquerda duas vezes, à direita uma vez e sigam em frente até o que parecer ser o fim do corredor. Não é tão difícil. É questão de memorização e raciocínio. Este lugar, apesar de projetado para confundir, segue alguns padrões. – o professor-andarilho fitava algo invisível, como que analisando um mapa no ar.

Eldar grunhiu, e dobrou a esquina. Elae o seguiu. Sophie, apoiada em seu ombro, tentava caminhar, cambaleante.

Porém, antes de partir, Sophie virou com dificuldade o pescoço, olhando diretamente para Dan.

Balbuciou algumas palavras ininteligíveis mesmo para ele.

Apesar de não ter certeza do que fora dito, Dan respondeu sussurrando “não há de quê”.

Então, dessa forma, apenas ele e Thidas se encontravam no recinto.

Dan estava pensando na forma mais adequada de se despedir, mas Thidas falou primeiro.

— Então… você… poderia… porventura… me ajudar…? – perguntou tentando soar desinteressado. Estava claro que ele precisava de alguém para levar a caixa que sobrava. Ou talvez duas. A mochila também era um fardo e tanto. – Seria ótimo ter uma ou duas mãos extras aqui.

Nem mesmo o próprio Dan acreditou no que estava fazendo, mas ele balançou a cabeça positivamente.

Seu pai sempre lhe dissera que seu maior problema como líder seria seu excesso de prestatividade e gentileza. Dan tentava, tinha que se controlar, mas era inevitável às vezes.

…

A sala de mapas era inacreditavelmente desorganizada e bela, com os dois aspectos funcionando juntos.

Dan sentia os músculos dos membros superiores latejarem. As caixas que tivera que carregar eram tão pesadas que ele desconfiou se era possível algo tão massivo estar dentro de uma caixa cúbica de trinta centímetros nas arestas.

Ele andou por vinte e um ou vinte e dois longos minutos desde o corredor vazio onde estava com Thidas, sendo guiado pelo próprio. O professor, na verdade, não era exatamente um professor, sendo um pesquisador e encarregado do mapeamento do Reino. Pelo que disse, era considerado o melhor geógrafo e estatístico do Império, e pelo conhecimento que demonstrou sobre diversos conceitos relacionados ao tema, enquanto andavam, Dan não duvidava do que ele afirmava ser.

— Este lugar…

— Ssh. Você não deveria estar aqui. – sussurrou. – Deixe as caixas ao lado da mesa. – apontou para uma pequena mesa retangular de mogno, onde também deixara as suas caixas, e a grande mochila – Ande com a ponta dos pés. Não faça barulho.

O local era uma sala pentagonal de cerca de trinta e cinco metros quadrados, localizada logo abaixo da Torre de Vigia da Academia, próxima ao limite leste do muro.

Dan não questionou.

No centro da sala um pilar de cerca de três metros de diâmetro se estendia do chão e ultrapassava o teto.

A entrada para a Torre, presumiu.

— Eu tenho permissão para…

— … Entrar na Torre? Não. Embora eu não exatamente me preocupe com burocracia ou regras. Ou você nem sequer saberia que existo.

Dan continuou a observar o local enquanto Thidas tagarelava sobre alguma coisa relacionada a identificações na instituição.

Deu algum passos para trás e, por acidente, esbarrou com o cotovelo num pequeno busto de mármore na parede. Como se não pudesse ser mais clichê, o movimento do objeto fez surgir uma abertura no pilar, com a parede de pedra movendo-se lentamente para os lados.

Lá dentro, uma sala escura e repleta de teias de aranha.

Aranhas.

Não traziam boas lembranças. Dan estremeceu, mas tentou não transparecer a reação.

— Hum…

A expressão de Thidas era um misto de surpresa e despreocupação.

— Você não deveria saber disso.

— Mil perdões… – Dan já começava a se encurvar em reverência, mas Thidas o interrompeu.

— Ah, quer saber? Você me fez um favor. Eu te devo essa. Suba comigo.

— Mas, profess…

— Não, não, não. Nem mais uma palavra – ele já entrara na abertura – Venha.

Sem saber o que fazer, Dan não viu opção a não ser segui-lo.

Como era de se imaginar, a partir da entrada o que se via era uma escada em espiral que parecia subir até o infinito.

Dan entrou após Thidas, e por um momento foi assombrado por um breu profundo, mas em alguns segundos sua visão se acostumou à escuridão. Olhou para cima. Não encontrou teto. Apenas degraus e mais degraus.

— Kalari, não é?

Dan esboçou uma expressão que, esperou ele, significasse para Thidas algo como “huh?”.

Então ele raciocinou um pouco, e entendeu a pergunta de Volgard.

— Oh, sim. Sou um kalari.

— Um dos grandões, eu presumo. Não são todos os nativos que possuem permissão para transitar nas grandes cidades. – Dan odiou o termo grandões assim que a palavra foi pronunciada por Thidas.

— Sou… um Kadrach. Herdeiro da ka’lyd, a coroa que nomeia o líder do meu povo. – Dan respirava com dificuldade. O ar era rarefeito ali dentro, aparentemente.

— Você é filho de Darendar? – não era possível distinguir a expressão do geógrafo com muita clareza, mas Dan sabia que ele estava animado apenas pela sua entonação. – Ele é um bom homem. Não fosse por ele, estaríamos em guerra declarada contra os kalari até os dias atuais.

— Nunca quisemos guerra com povo algum. Com ser algum. Minha gente é pacífica. Por isso vivemos nas florestas até hoje, enquanto os ladir foram expulsos, junto com seus – Dan entonou o “seus”, como que querendo culpar Thidas – antepassados distantes.

— Os ladir— Thidas parecia tentar associar aquela palavra a algum significado – Oh, sim. Os Antigos. Como sabe da existência deles?

— O passado dos kalari e de todos os povos é contado oralmente, de geração em geração, na minha tribo.

— Vocês parecem ter muito tempo sobrando. – o sarcasmo em sua frase era quase palpável. – Certo, cuidado com sua cabe…

Antes que Thidas falasse, Dan sentiu sua cabeça tocar o que deveria ser um teto. Ele estava torcendo para ser um teto. De reflexo, se encurvou, esperando segunda ordem de Volgard para que se levantasse. Também deu alguns passos para trás, tomando cuidado para não pisar em falso num dos degraus desgastados pelo tempo.

O professor bateu com o punho duas vezes no teto.

Segundos de silêncio gélido se seguiram.

— Há mesmo alguém aí? – perguntou para Thidas, quase sussurrando.

De repente, Dan ouviu algo. Passos. Acima de sua cabeça.

Uma tênue linha de luz solar surgiu. Um alçapão fora aberto, embora a fresta fosse larga o suficiente apenas para observar os olhos de quem quer que estivesse segurando a tampa do alçapão.

— Quem está aí? – uma voz tremulante bradou, ou tentou soar intensa. Parecia ser o dono do par de olhos que se esforçava para observar os dois sujeitos imersos na escuridão. Não transmitia muita coragem.

— Deixe-me entrar logo, Marco.

— E o outro, quem seria…? – soava desconfiado. Como se tivesse recebido ordens para não deixar nem a si mesmo entrar naquele lugar. Que tipo de segredos haveria na Torre de Vigia?

— De que importa? O encarregado aqui sou eu.

Marco hesitou, mas fez o que lhe foi ordenado. Destrancou as dobradiças que prendiam a tampa do alçapão ao chão.

Dan subiu os degraus que faltavam após Thidas, e a visão que teve do local foi semelhante à da sala de mapas: uma bagunça de papéis, marcações nas paredes, mesas dispostas fora de padrão e mapas celestiais, alguns dos poucos espaços dedicados à astronomia.

O diferencial eram as paredes: ao invés de material comum, eram de vidro, separadas por barras de ferro como gigantescas janelas. No alto da sala, que devia ter cerca de vinte e cinco metros quadrados, havia uma cúpula dourada e branca com uma grande lente cristalina em seu topo. A partir dali a luz do sol era refratada, iluminando todo o espaço, apesar da lente ser provavelmente apropriada para a luz lunar, pois no horário diurno o sistema era um tanto inútil com as janelas sendo de vidro.

— Escuta, garoto. – falou Thidas – Ou devo dizer Vossa Alteza Tribal? Que seja.

— Os príncipes kalari são os kelar. – de maneira inesperada, a frase havia vindo de Marco.

— Bom saber que continua estudando culturas nativas do Reino ao invés de terminar os mapas que lhe pedi, Marco. – virou-se para Dan e cochichou – O rapaz é um gênio, mas se distrai muito facilmente. Infelizmente, tenho que constantemente deixá-lo sozinho aqui em cima, e ele sempre esquece do dever que tem a cumprir.

— Não precisa fingir que não estou aqui, Volgard.

— Apenas volte ao trabalho, Drian. A Academia não o acolheu para que você ficasse folheando enciclopédias.

— Achei que o nosso lema desde a fundação fosse Conhecimento sobre todas as coisas.

— E é. Mas qual a relação disso com a discussão?

— Enquanto folheio estas enciclopédias, estou adquirindo conhecimento.

Thidas assentiu, dando de ombros.

— Tem razão nesse ponto. Mas se pretende passar seu dia lendo livros, que ao menos sejam relacionados à cartografia.

Marco não falou nada. Simplesmente retornou à leitura dos seus livros. Era um rapaz rechonchudo de pele quase branca, marcada pelo sol, e cabelos loiros que, apesar da sua pouca idade, já começavam a rarear em sua cabeça. Não parecia muito ameaçador. Possuía um tique na mão esquerda que Dan percebeu quase que imediatamente, pois seus dedos polegar e médio eram extremamente trêmulos.

Dan olhou ao redor, para os diversos papéis colados e pendurados nas paredes, nas mesas, nas cadeiras, até mesmo nas estantes de livros. Em todos, haviam desenhos de mapas simplesmente perfeitos, tão bem detalhados que não pareciam ter sido feitos por reles mãos mortais. O que mais o impressionou foi a pequena assinatura cursiva que se encontrava na lateral de cada mapa.

V. Drian.

Era difícil acreditar que alguém com aparência tão… inusitada pudesse ser o detentor de tamanha maestria na cartografia avançada.

— Kadrach! Afinal, quer que eu retribua o favor que me fez ou não?!

— Hã… desculpe, mas eu não faço questão…

— Eu insisto! Me sinto mal ao ficar em dívida. E você não parece querer o mal de alguém. – sorriu cinicamente.

Dan suspirou.

— Certo. O que ganho? – disse, propositalmente deixando claro o seu desinteresse em ganhar qualquer coisa em troca do favor que fez. Carregar caixas era cansativo, mas não difícil.

— Diga-me, – falou, enquanto girava em sentido anti-horário uma grande tranca redonda e metálica fincada no chão. Ela não parecia muito firme à primeira vista, mas Thidas fez força até seu rosto ficar da cor de um tomate maduro. Gotas de suor pingavam do seu cabelo. Ele passou a mão na testa, enxugando-a – você sente saudades de casa?

— Na verdade, não. Não muito. Só parti em direção a Elyrasia há duas semanas, na verdade. Já percorri caminhos mais longos, e já passei mais tempo longe da minha tribo.

— Bem – um novo alçapão se revelou, criando um alto-relevo no chão. A pequena elevação subiu cada vez mais, produzindo um ruído incômodo de pedra friccionando contra pedra, até que um bloco do chão se revelara oco, com mais ou menos dois metros e meio de altura e um de profundidade – isso é uma boa notícia. Porque de onde estamos, com as montanhas nos separando do Sul, é impossível ver os domínios kalari. Vamos, entre. – fez um gesto indicando a direção do bloco de pedra oco, onde, só então Dan conseguiu distinguir, havia uma cadeira dourada em seu interior. Acoplados à cadeira, uma série de equipamentos de aparência e funcionamento complexos se interligavam de maneira sistemática, de maneira que, unidos, formavam uma espécie de visor, posicionado bem à frente da cadeira, na altura da cabeça de uma pessoa sentada. – Antes que pergunte: não, o exame de visão moderno não é aqui na Torre de Vigia. Se procura por tais serviços, vá no Centro de Estudos da Vida e Saúde.

— Existe algo como um exame de visão?

— Oh, certo. O seu povo ainda é um pouco rústico em alguns aspectos.

— Assim nascemos, assim vivemos e assim morreremos. Agora, se não for incômodo, diga-me, como isso funciona?

— Complicado demais. Às vezes nem mesmo eu entendo. Tudo que você precisa saber – Thidas jogou o seu manto em cima da mesa mais próxima, apesar dela estar suja, e num pulo se pendurou no que parecia uma maçaneta, só que no teto. Mais um alçapão escondido se revelou, e da abertura no teto caiu um tubo, semelhante aos usados no que os cidadãos das metrópoles chamavam de rede de esgoto, porém mais estreito. E dourado – … é que envolve uma série de lentes espelhadas, folhas finas de lâminas duplas, uma de vidro cristalino e a outra de azumithranium. Eu sei, eu sei, nome complicado, não entendi nada, era de se esperar. Para esclarecer suas dúvidas finalmente, azumithranium é um minério translúcido e multicolorido que refrata a luz em pontos únicos e isolados em cada milímetro de sua área.

— Certo. – Dan já desistira de seguir a linha de raciocínio de Volgard desde a palavra “cristalino”, mas não queria atrapalhar os pensamentos do professor.

— Basicamente… – pareceu hesitante. Mudou o tom da frase subitamente – Esqueça. Vou me abster de mais explicações. Você verá a mágica acontecer – seus olhos brilharam com a palavra “mágica” – quando se sentar ali, relaxar e pôr os visores. – ele fez o que pareceu ser o último ajuste, acoplando o tubo que vinha do teto a um que se erguia da parte superior do pedaço de chão onde Dan estava.

E o jovem príncipe kalari fez o que lhe foi pedido. Embora com um pouco de dificuldade, conseguiu ajustar os visores à altura de seus olhos, e quando se posicionou e olhou fundo nas lentes do equipamento, teve a impressão de estar mesmo sendo influenciado por algo mágico.

Percebera que a cadeira era giratória e fixada no chão quando tentou conseguir uma visão panorâmica. E se surpreendeu.

Ele tinha a visão completa de uma vastidão de terras que se estendia até o que parecia ser a silhueta de Galakur, a Leste, a costa litorânea de Trufhad, ao Norte, o Primeiro Nível do Templo de Eithil a Oeste e as Montanhas Vaelir, ao Sul.

Mais do que isso, ele conseguia ver cada detalhe, por menor que fosse, em todas as imagens que captava. Com um brilho azul-arroxeado, conseguia ver o movimento individual das folhas das árvores mesmo na Floresta Boreal de Galakur, a milhas dali. Conseguia acompanhar as caçadas dos lobos entre os grandes pinheiros. Conseguia ver…

— … mais uma vez, Volgard? Você não pode estar falando sério! O que foi que eu disse sobre trazer alunos para cá?! – uma forte voz feminina exclamou.

— Você não entendeu! Ele é meu aprendiz! – Dan pôde sentir o cheiro do medo vindo de Thidas, e estremeceu só de pensar em que tipo de figura poderia causar aquilo na pessoa mais cínica que conhecera na Academia.

— Acha que sou idiota?! Viajantes como você nunca escolhem aprendizes!

— Bem, de fato… nós preferimos a viagem solitária… poupa muito tempo, espaço e dinheiro, mas…

— Sem mas, Thidas. Você deveria ser o encarregado deste lugar, mas sempre sobra para mim! – a mulher parecia realmente brava, então Dan julgou como a melhor opção se levantar e sair, antes que a discussão se acalorasse demais.

Se livrou do visor, e a imagem que vislumbrou foi o suficiente para parar seu coração por uma fração de segundo.

— Acalme-se, Atis! Ele não é nenhum criminoso… acho. Na verdade, o aluno que eu trouxe aqui desta vez é mais do que um simples estudante… é um nobre selvagem!

Dan não gostava da forma como o pesquisador usava o termo “selvagem” para se referir a ele.

Mas possuía uma preocupação maior.

Como acabara de confirmar com os próprios olhos, e Volgard o também fizera ao citar o nome da mulher que se posicionava à frente deles, encarando Thidas, aquela era definitivamente Atis.

Seu pai não iria gostar de saber que o paradeiro da jovem havia sido justamente a Academia.

— É mesmo? Interessante. Um kalari, a julgar pelas dyalits nos braços. – ela fitou Dan, com uma expressão quase amistosa – Mas isso pouco importa – tornou a virar-se para o geógrafo, agora novamente com uma feição rancorosa – Por que o trouxe aqui? Você sabe que apenas veteranos podem entrar aqui, e nem mesmo os tais conseguem a aprovação de todo o Conselho!

Thidas emudeceu, se limitando a apenas sorrir, apreensivo. Olhou para Danyel e Marco não muito discretamente, talvez pedindo ajuda para ganhar a discussão, porém não obteve resposta alguma.

Dessa forma, ele relaxou os ombros e passou a mão na cabeça, como que constrangido pela sua atitude.

— Certo, certo, eu peço perdão. Não voltará a acontecer. – disse olhando para baixo, sem coragem de encarar Atis. Ela sempre fora uma garota de gênio difícil.

— Isso, meu caro, é o que você sempre diz. Todo ano, Thidas. Todo. Maldito. ANO!

— Você fala como se estivesse aqui há muito tempo. Até onde sei, se passaram apenas quatro verões desde que chegou neste lugar, e menos ainda desde que chegou no seu atual posto.

— Como se isso… – ela olhou para Danyel, como que querendo se certificar de que ele ainda se encontrava ali. – Poderia ir embora, por favor? Pelo mesmo caminho de onde veio. A porta está aberta lá embaixo. – o seu apelo funcionou, principalmente por ter sido feito com educação, e Danyel, que já se sentia um tanto desconfortável por ser o pivô da situação, cumprimentou os três presentes e desceu pela longa escadaria espiral.

Apenas depois de cerca de sete minutos descendo os lances de degraus os gritos de Atis pararam de ecoar pelo vazio da escuridão empoeirada que era aquela escadaria.

Depois que desceu, retornando à sala dos mapas, Danyel ainda teve que lidar com alguns olhares estranhos de pessoas que não o reconheciam como membro do Conselho, em seguida questionando-o sobre quem o tinha dado permissão para estar ali.

Depois de adentrar nos malditos corredores, novamente sozinho, Dan descobriu que até mesmo o melhor rastreador da maior tribo de caçadores daquelas terras poderia se sentir desnorteado às vezes. Desviou tanto de seu caminho que acabou encontrando uma saída, que terminava numa parte isolada do pátio, onde alguns sujeitos cuidavam de uma horta.

Novamente atingido pelo impulso de ajudar as pessoas sem pensar nas consequências, ele passou cerca de uma hora ajudando a plantar cebolas, e lá também se informou sobre o setor da Academia em que estava, para que pudesse se localizar e assim encontrar seu quarto.

Se despediu amigavelmente dos agricultores e jardineiros.

Passou mais quarenta minutos ou mais em suas andanças à procura do seu quarto, também pensando sobre o caso de Atis e em como anunciaria aquilo a seu pai. Se é que o faria.

Quando finalmente encontrou seu dormitório, um jovem desconhecido estava na porta, batendo pacientemente com intervalos de vinte segundos entre as sequências de batidas.

— Huh, com licença…

O jovem se virou. Era loiro, com o cabelo liso caindo em franja e há um bom tempo sem corte. Seus olhos eram escarlate, o que chamou a atenção de Dan. Aquela era uma característica rara nos seres humanos.

Ele estendeu a mão.

— Você deve ser Danyel Kadrach, certo? O terceiro colocado. – possuía um sorriso agradável e sereno em seu rosto, sem nenhum cinismo como o de Volgard.

— Exato. E você seria…

— Meu nome é Deimos. Deimos Lyrael. Este quarto é seu?

— Sim. O que procura?

O jovem parecia saber mais sobre a situação de Dan no colégio do que ele mesmo.

— Arthuel Cyriac. O primeiro colocado. Vocês pegaram o mesmo quarto, estou correto?

— Como você… – desistiu da pergunta. Ninguém naquela instituição parecia fazer questão de dividir o conhecimento com os outros, apesar do lema inspirador. – Certo, sim. O mesmo quarto. Ele veio para cá há duas ou três horas.

— Então ele está aí. Bom saber. – Deimos parecia ter falado mais consigo mesmo do que respondido a Danyel. – Seria um problema para você esperar um pouco mais aqui fora? – o jovem veterano questionador era a pessoa mais pálida que Danyel já vira. Isso, claro, sem contar com os seres. Aqueles não pareciam ter nenhum traço que os classificasse como pessoas. Mas eram mesmo muito pálidos.

— Não, nenhum. Tome seu tempo. Precisa falar em particular com Cyriac? O conhece de algum lugar?

Deimos bateu novamente à porta.

— Sim; e não. – respondeu secamente – Desculpe, mas sobre o assunto da conversa que pretendo ter com ele, não posso revelar absolutamente nada.

— Oh. Sem problemas. Acho.

Dan detestava o péssimo hábito dos cidadãos urbanos de guardar segredos demais. Uma mentira levava a outra; uma omissão criava uma nova mentira. Qual era o problema em contar a verdade? Quando as pessoas passam a morar em blocos de pedra e metal, a confiança e o respeito mútuo morrem junto com as árvores derrubadas no processo?

Pôde-se ouvir um rangido.

A porta se abriu.

Arthuel, aparentemente bastante cansado, arfava, além de estar ensopado de suor, mas conseguiu falar algo que soou como um “o que deseja?”.

— Olá, Arthuel. Meu nome é Deimos. Antes de tudo, gostaria de o congratular pela felicidade que teve em passar em primeiro lugar nos exames de aprovação para a Grande Academia. Agora, poderíamos falar em particular?

Cyriac olhou para Dan, atrás de Deimos, como que perguntando se estava tudo bem em deixar um desconhecido entrar ali.

Dan assentiu, balançando a cabeça positivamente, mas também pôs a mão numa bainha imaginária, avisando-o para permanecer alerta.

Mesmo ali, ele não poderia confiar em ninguém. Embora, ironicamente, seu objetivo primário ali fosse conquistar a confiança e simpatia dos cidadãos da metrópole.

Arthuel, então, ainda muito cansado para falar, concordou com a cabeça. Deimos deu um passo à frente, e Arthuel deu dois para trás. Os dois adentraram o quarto e a porta se fechou.