As ruas de Ilydas eram mais apertadas do que a planta da cidade fazia parecer. Alec prometera que se encontraria com Kristin na Praça do Antigo Trono às onze horas, mas depois de duas horas de espera, Galten desistiu e resolveu explorar a cidade por si mesma.

Caminhou tentando não escancarar a pressa que permeava seus pensamentos. Outrora, Ilydas fora uma cidade de suma relevância política e econômica, mas tudo a que se resumia naqueles dias era uma cidade cinzenta, melancólica e oligárquica. Famílias como os Waldriff, os Zeralem e os Midas passavam o poder de geração em geração, em acordos de cavalheiros periódicos. E nenhum dos cidadãos parecia se importar muito. Geralmente, estavam ocupados demais tentando manter as dívidas em dia; parar para reclamar de quem cobra os impostos seria trabalhoso demais.

Apesar disso, a cidade ainda mantinha vestígios de antigos tempos de glória. O próprio nome da Praça indicava isso. Naquele momento, Kristin passava exatamente na frente de um templo pouco preservado dos tempos dos reis Galehaut, dedicado a algum dos deuses velhos da natureza.

Se o Império vir isso…

Os syrel vinham tentando a todo custo diminuir a influência dos velhos deuses em Naklur. Não surtira muito efeito a princípio, o que tornou seus métodos mais… agressivos.

Tinha certeza de que, em alguns anos, aquele templo se tornaria um altar a Elyrach, ou Syrelis, ou Facundra, ou qualquer outro dos Soberanos.

Passou também em frente a um orfanato.

O distrito central tem mesmo de tudo.

O abrigo, pintado em cores vivas que já se desbotavam com a umidade da região, destoava completamente do ambiente ao redor. Crianças brincavam alegremente enquanto algumas moças vestidas de branco observavam-nas. Um letreiro até discreto acima da porta larga dizia “Casa da Dama Pálida”. Era uma das maiores fundações de caridade do Alto-Reino, e também uma das mais antigas. Os pequenos eram de todas as raças. Alguns brincavam com bolas, outros corriam sem objetivo algum, e outros até estavam parados, olhando para uma pedra. Mas todos sorriam. Parecia um bizarro porém fortuno modelo de sociedade utópica, em menor escala.

O momento de alegre distração, porém, acabou no momento em que o orfanato saiu do campo de visão de Kristin. Por mais que parecesse perdida, e estivesse de fato perdida, seus olhos estavam a todo momento procurando por algo ou alguém que pudesse ajudar em sua missão na cidade.

Vivaros havia enviado uma carta recentemente. Kristin estava prestes a completar um mês em campo, e por mais que não fosse nem metade do tempo imposto pelo Conselho, ele exigia pressa e sigilo na operação.

Não que isso fosse uma surpresa. Ele sempre era o cara das exigências. Mas Kristin não precisava de mais pressão. O simples fato da feciter misteriosa estar se escondendo da Academia já fora o suficiente para bagunçar todo o seu plano. A maioria dos dotados recebia com honra e até animação o convite para ingressar na Ordem.

Sem sequer se dar conta, chegou na frente da estação de trem, onde toda a jornada havia começado. Aquela avenida em especial era repleta de vendedores, de maneira que uma feira informal surgiu ali meio sem querer.

Gritos vinham de todos os lados, oferecendo toda sorte de coisas para as centenas de transeuntes em fluxo aparentemente infinito. Kristin percebeu que tinha fome.

Andou por entre fileiras de barracas e pessoas, por vezes precisando se espremer com sua bolsa. Não estava desejosa por nada muito pesado, então procurou com os olhos por uma barraca de frutas, embora tivesse a impressão de que seria dinheiro à toa. As frutas em geral no Norte não eram das melhores. Recebiam pouco sol e não cresciam corretamente.

Resolveu comprar a maçã mais vistosa que poderia encontrar por ali, apesar de parecer um limão perto de uma maçã-cerúlea de Travoli, em Ruudgeir. Aproveitando a parada, decidiu fazer algumas perguntas para a comerciante na barraca.

— A senhora sabe como vou daqui para o Distrito das Mariposas? – jogou a pergunta no ar, tentando não soar desesperada por uma resposta, embora estivesse perigosamente perto disso.

— Para onde? – ela não conseguia ouvir, tamanha a gritaria ambiente. Os muitos anos que aparentava ter deviam ter trazido princípios de surdez consigo.

— Para o Distrito das Mariposas. – respondeu, em tom mais alto.

De imediato, a vendedora se retraiu.

— Não sei o que quer por lá, mas eu não quero nem ouvir esse nome. – resmungou. As rugas em seu rosto se retraíram.

— Eu preciso encontrar alguém por lá…

A mulher pareceu ainda mais indignada.

— Se você também gosta daquela corja, vá embora. Passar bem – ela pôs-se a atender outros fregueses.

Alec tinha razão quando comentava a fama dos humanos de Ilydas.

— Releva. Fomos roubados recentemente por alguns feciter desse distrito. – um jovem bastante parecido com a senhora saiu de trás da barraca, carregando um cesto de melões. – Quase todo mundo aqui tem um motivo para detestá-los.

— Ao que me parece, você não se importa muito com eles. – Kristin retrucou.

— Não muito. Eles não costumam ter dinheiro para comprar nada, então raramente passam por aqui. Quando passam – colocou o cesto junto a outros, de laranjas e limões – geralmente são problema. A mãe já tinha sido assaltada uma dúzia de vezes antes mesmo de eu nascer.

— É. Acho que é meio que culpa de todo mundo e culpa de ninguém toda essa segregação.

— Você parece mais esperta do que eu, moça. Se você tá dizendo, eu não vou discordar. Mas para quê quer ir pras Mariposas? Tá devendo alguma coisa por ali, é?

— Eu tenho alguém para encontrar por lá. Trabalho para uns Ministros. Estamos fazendo um censo – mentiu. Era inerente a seu trabalho.

— Ministro? E onde estão as carruagens e cavalos e cavaleiros e tudo mais?

— Você tem uma ideia estranha de Ministros, garoto.

— Eu já vi alguns. Eles sempre passam por aqui, com toda a pompa, jogando moedas e acenando para as pessoas. Eu e a mãe não passamos fome, então não fazemos questão das moedas, nem dos acenos. Os Ministros fingem que se importam com os povos, e o povo finge que acredita nos Ministros.

Kristin riu por dentro, mas se sentiu mal. O relato fora cômico, mas trazia em si uma profundidade maior do que o esperado.

— Talvez você seja mais esperto do que eu. E do que muita gente. Qual o seu nome?

— Henry.

— Como o prefeito?

— Como o prefeito?

— É, o prefeito. Henry III.

— Eu não sabia nem o nome do prefeito, moça. Acho que metade das pessoas não sabe.

— Huh, certo. Digo, isso não é muito certo. Diga-me, Henry, sabe onde fica o Distrito das Mariposas?

— Sei, moça. Se quiser, levo você lá. Mas só na entrada. Eu não gosto de andar por lá.

— Mas e a sua mãe?

— Ela vai ficar bem. Ela sabe vender sozinha, e eu sei andar pela cidade sozinho.

Kristin aceitou o acordo.

Em quinze ou vinte minutos andando, lá estava. Subiu lances e mais lances de escadas rudimentares e ruas mal-pavimentadas. Henry, que se despedira desejando boa sorte, tinha muito mais fôlego do que Galten esperava. Mesmo após subir tantos degraus, ele desceu de volta para o centro da cidade saltando entre os telhados, tudo num piscar de olhos.

O mal de Ilydas parecia ser redobrado naquela paisagem. Para onde quer que olhasse, Kristin ia de encontro a alguma cena de descaso.

Os feciter, em maioria da linhagem soresci ou gaezi (os padrões em suas peles indicavam isso), dividiam casas de madeira em cuja entrada mal cabia uma porta. Muitos ficavam do lado de fora de seus lares, conversando com vizinhos. Alguns deles, pelo jeito, estavam falando sobre a presença de Kristin.

Alguns, sentados ou deitados nas calçadas em péssimo estado, apresentavam feridas, suplicando por ajuda. Uns ajudavam, mas outros pareciam ser tão necessitados quanto os mendicantes.

Não era exatamente a primeira vez que Kristin visitava um ambiente como aquele, mas a experiência sempre lhe fazia mal até a alma. A pouca capacidade de empatia que guardava em si vinha à tona com tudo em momentos como aquele.

Enquanto isso, em Trufhad e Elyrasia, Ministros, conselheiros e ricos comerciantes discutiam há mais de uma década medidas para amenizar a situação dos feciter, a nível econômico, social e cultural. De que adiantava

manter essa pauta eternamente se nada era feito de verdade a respeito deles?

Certa vez, Kristin fora levada por Darkas para um desses encontros, onde representariam a Academia, conhecida por apresentar-se como uma instituição democrática e aberta para todos. Tanto ela como o Grão-Mestre sabiam que isso não era bem verdade, mas foi o pedido pelos Darchinia. Lá, ouviram as propostas dos Norne, um casal de ricas posses que lutava há muito contra o preconceito para com os feciter. O detalhe é que eles eram humanos.

Quando questionados a respeito, eles apresentaram a pequena filha adotada deles, uma feciter. Kristin sentiu-se mal por pensar de tal forma, mas teve a impressão de que os Norne tratavam a menina como objeto de propaganda da sua causa, ao invés de uma filha. Após o evento, ousou comentar o que percebeu com Darkas, mas foi imediatamente repreendida. O Grão-Mestre avisou-a que aquele tipo de presunção fora a raiz dos problemas da Ordem com Alecsandar.

Alecsandar Strauss. Kristin olhou ao redor. Deu-se conta de que, com ele, seria bem mais fácil procurar pistas por ali. Ele fazia falta, mesmo que Kristin nunca fosse admitir isso em voz alta.

Um dos mendicantes interrompeu-a, suplicando por moedas. Ela não titubeou em ajudar. Deu três moedas de ouro. Seus olhos e o sorriso maltrapilho reluziam o dourado das moedas que agora tinha em mãos. Ele rastejou até os outros pedintes, grunhindo comemorações. Alguns tinham membros amputados, outros eram cegos, outros eram simplesmente coitados sujos, mas todos tentavam se aproximar do agora mendigo mais rico da região.

Ele, no entanto, gritou agressivamente para com os outros. Aparentemente, só queria as moedas para si. Kristin compreendia. Era a lei da sobrevivência. Suspirou. Catou mais cinco ou seis moedas na bolsa e jogou para os mendigos, que agora olhavam para Galten como uma espécie de deusa da boa fortuna. A ideia de estar sendo algo semelhante à figura dos Ministros era aterradora.

Há tempos não fazia tal coisa. O Conselho não recomendava. Mas, ao mesmo tempo, também funcionava como forma de conquistar simpatia. Ajudava a se misturar.

Pelo jeito, os populares ao redor ainda a observavam. Notou os olhares fixos em si. Resolveu usar a atenção como artifício.

— Ei, você.

Um jovem feciter olhou de volta, como quem diz “eu?”.

Kristin caminhou até ficar de frente ao garoto. Aparentava ter seus dezesseis anos.

— Bom dia. Meu nome é Lauren.

— Bom dia. – ele respondeu, timidamente. Pelo jeito, preferia não se nomear.

— Sabe qual é o lugar mais… huh… popular daqui? Quero dizer, onde todo mundo vai, e todo mundo sabe das coisas.

Ele e os outros adolescentes que o acompanhavam se entreolharam. Kristin teve a impressão de ter interrompido alguma brincadeira entre eles.

— É só subir a rua, moça. Vai na Taverna da Precyl. Só toma cuidado. Tem gente que não gosta de gente por lá.

Kristin agradeceu a informação, o aviso e também o fato de que, pela primeira vez em tempos, ninguém questionou os porquês de suas perguntas. Estava cansada de acumular mais e mais mentiras.

A tal taverna, por sua vez, não demorou para ser achada. Mesmo num distrito mal-planejado como aquele, era bem localizada. E mesmo que sua única entrada viável fosse uma porta lateral num beco suspeito.

Entrou no lugar, que fedia. E fedor foi a única conclusão concreta que conseguiu extrair do local nos primeiros minutos ali. Alguns dos presentes notaram sua presença, provocando-a em geral com ofensas, algumas de cunho racista. Preferiu ignorá-los.

Chegou até o balcão. À sua frente, de costas, estava uma mulher robusta que devia ser a Precyl. Era uma feciter gradansi pesando algo em torno de cento e vinte quilos. No momento, estava lavando copos. Passou uns cinco minutos ali, de costas para a taverna, então Kristin resolveu se introduzir.

— Bom dia.

— Boa tarde. – corrigiu, ainda de costas – O que você… – ela parou de falar quando se virou e viu Kristin. – O que uma humana tá fazendo aqui? – disse, quase falando com si mesma.

— Deve ser surpreendente. Imagino que seja. Meu nome é…

— Eu não me importo muito com seu nome. Só diga o que quer e vá embora.

Curta e grossa. Kristin se mexia na cadeira, desconfortável. Talvez com a

situação como um todo.

— Eu preciso de informações. Há uma garota…

— Ah. – Precyl disse, com desdém – Eu já disse que não. Todo dia um de vocês vem me amolar. Eu não sei nada dessa tal Morrigan, e diga aos seus amigos que não voltem mais!

Oh, oh.

— Espere. Quem mais anda aparecendo por aqui?

— Seus amigos da Mão Branca. E aquele moleque ali – ela apontou para um jovem pálido, saindo apressadamente da taverna – Não finja que não sabe, garota.

Mais um problema para a pilha de problemas que Kristin acumulava.

— Muito obrigada.

— Eu nem te ajudei…

— Mais do que você pensa. – disparou para fora da taverna.

Começara a chover. No fim do beco, viu a silhueta de Tarsius se afastando e dobrando à esquerda.

Andou com passo forte, tentando não correr para evitar chamar atenção. Ouviu alguém se mexer atrás de uma grande pilha de lixo.

Maravilha, pensou. Dois dos sujeitos que a ofenderam na taverna estavam na sua frente, armados e com sorrisos maliciosos.

— Com licença… ? – disse, tentando ganhar tempo enquanto tirava sua adaga discretamente da cintura.

— Se você colaborar, vai ficar tudo bem – disse um deles. Não parecia muito verídico.

— Passa essa bolsa pra cá – disse outro, surgindo por trás de Kristin.

Os três cercaram-na, deixando claro que aquilo não era nenhuma brincadeira.

— Sinto muito, mas não… – o bandido da direita a interrompeu, jogando-se para cima dela com todo o corpo. Kristin tentou manter-se de pé, girando e empurrando-o contra a parede.

Sacou de vez sua arma.

— Não posso. – ofegava. Havia tempos que não se envolvia em combate direto. Sozinha, mais tempo ainda.

O terceiro assaltante pegou do chão uma barra de ferro solta e tentou acertar Kristin no estômago. Ela se protegeu, livrando-se do golpe e empurrando-o com as duas mãos, mas o outro bandido restante bateu com um punho na sua nuca, levando-a ao chão.

Mesmo assim, ela encontrou uma brecha para puxá-lo pelo pé e também derrubá-lo, sem medo de desferir um corte em seu torso durante a queda. No momento seguinte, alguém chutou sua mão, jogando a adaga para longe. Era o primeiro. O outro largou a barra de ferro e pôs um pé na cabeça de Kristin, arrancando sua bolsa da alça. Em seguida, começou a vasculhar o objeto.

— Bilhetes infinium… isso pode ser útil. – passou os bilhetes de trem para o comparsa – Chaves… meh. Um diário… meh. – jogou-os no chão – Um pingente?

O colega analisou o pingente.

— Isso é um daqueles colares da Ordem de Elyrach. Dá uma grana legal.

— Parece que a gente tá mexendo com gente grande aqui… – ele riu. – Qual o teu nome, hein? Agora fiquei curioso.

Kristin estava tonta. Tudo que viu foi uma silhueta turva surgir atrás do bandido, que em seguida caiu. Era alguém, segurando a barra de ferro de antes.

— Alec! – Kristin gritou, mas podia muito bem ter soado como um grunhido. Estava bastante atordoada.

— Como você se mete nessas, hein? – ele disse. Um dos assaltantes jogou Alec contra a parede.

— Isso aqui não era da tua conta, irmão! – os olhos de Kristin vasculharam o ambiente, procurando pela adaga, e ela engoliu em seco quando notou a arma nas mãos do bandido que pressionava Alecsandar.

Ela se levantou, fraca. Olhou para o outro lado; o bandido que restava corria para fora do beco, levando seu pingente e uma dúzia de moedas que caíra da bolsa.

Ouviu um grito controlado. Alec tentava resistir, mas o criminoso impôs força suficiente para enfiar a adaga no seu abdômen, apesar de parecer que seu alvo era o peito. Ele girou a lâmina, com requintes de crueldade. Alec urrou de dor.

O mundo parecia girar ao redor de Kristin. Durante microssegundos, reuniu forças. Pegou uma garrafa quebrada (provavelmente, da taverna) da pilha de lixo a seu lado, disparou até o embate e jogou-a na cabeça do bandido. O feciter agora sangrava e parecia atordoado. Galten lascou o que restava da garrafa de vidro novamente na cabeça do oponente, que então caiu, largando a adaga.

Ela pegou a adaga e caminhou a passos largos até Alec. Sua barriga sangrava muito, e não parecia que iria estancar sozinha.

— Alec! Está acordado? – perguntou, com certo desespero na voz.

Embora suas feições entregassem o sofrimento, ele se forçou a esboçar um sorriso.

— Inacreditável. Você sempre precisa da minha ajuda, não é?

— Não é hora para essas coisas. Venha, consegue se mexer?

Ele concordou com um movimento sutil da cabeça. Ela pôs o braço dele em seus ombros, e por mais que também estivesse enfraquecida, levantou-o.

Mas não tinha ideia de onde poderia procurar ajuda. Pouco conhecia a cidade, e estava muito lenta. Foi obrigada, então, a considerar a pior hipótese de auxílio naquele momento.

Waldriff.