Lars ainda estava um pouco tonto. O quarto não parecia muito firme na sua visão turva. Sentia a pancada na cabeça latejar.

Nas últimas três semanas, o quarto outrora sujo e escuro fora rearranjado à maneira de Gael. Não que agora fosse o mais suntuoso dos aposentos, mas estava mais… habitável. Naquele momento em específico, mais se assemelhava a um quarto de hospital.

A luz do fim do inverno entrou pelas frestas na cortina, iluminando um pouco o lugar que, apesar de não ser mais sujo, ainda era escuro. Ao lado da cama de casal onde Lars se encontrava deitado, havia uma jarra d’água e um pão mordido sobre um criado-mudo.

Belo serviço de quarto.

Pela intensidade da luz externa, julgou ser entre as nove e as doze horas. Sua noção de tempo se fora pelos ares. Não tinha certeza, mas sentia que já acordara outras duas ou três vezes. Não sabia quanto tempo havia se passado desde a confusão na taverna.

Notou que estava sozinho. A porta parecia trancada. Discorreu por alguns instantes sobre o paradeiro de Gael, e chegou a ter dúvidas sobre como teria chegado ali. Estava confuso.

Queria pedir um copo d’água para Gael, mas recordou-se de que o sujeito não estava presente. Deuses, estava mesmo grogue. Resolveu pôr o copo ele mesmo. Ao lado da jarra, encontrava-se um copo meio sujo, mas ignorou o detalhe e agarrou o objeto.

Assim que se esticou e pôs a mão esquerda no copo, largou-o no ar. Um barulho onomatopeico ecoou pelo ambiente em seguida, e Lars pensou duas coisas. Primeiro, torceu para que o serviço de quarto cobrisse o copo quebrado. Depois, arrumou algum tempo para se preocupar com suas mãos enfaixadas, agora latejando.

Sentia-se um pouco estúpido por ter, literalmente, brincado com fogo na taverna. Mas toda aquela situação era suspeita. Não sentiu nem cócegas quando o fogo tomou conta de seus braços durante a briga. Lars não compreendia como poderia, então, ter se machucado.

Ouviu o ranger da porta.

Gael trazia medicamentos numa mão, enquanto na outra tinha um doce, provavelmente o mesmo que estava mastigando. Não pareceu surpreso ao encarar Lars acordado.

— Bom dia.

O garoto não soube muito bem como reagir.

— Bom dia. Onde esteve?

— Fazendo algumas compras. – pegou um saco que havia largado no chão, e dele tirou algumas roupas.

— Capuzes?

— Vamos precisar.

— O que te faz pensar isso?

Gael hesitou. Pôs os capuzes de volta no saco, e colocou os medicamentos em cima da mesa. Sentou-se na outra cama.

— Você é mais inteligente do que isso, garoto. Preciso mesmo responder?

— Minha cabeça não anda funcionando muito bem.

O tutor suspirou.

— Porque você fez besteira, Lars. De novo.

Lars não estava muito no espírito para discussões.

— Provavelmente. – se conteve a responder isso.

— Ainda bem que sabe. Os capuzes são para nos escondermos. Você chamou mais atenção do que o desejado. Como você consegue, hein? Ah, não responda. Não vai resolver nada. Precisamos conversar sobre algumas coisas importantes, mas antes temos que nos precaver.

— Coisas importantes. Que tipo de…

— Você saberá. Paciência. Quer água?

— Quero. Eu estava tentando pegar, mas aí…

— Suas mãos. Agradeça que ainda as têm. O quanto incomodam?

— Isso não é algo lá muito quantificável, Gael.

— Muito ou pouco já ajuda.

Foi a vez de Lars suspirar.

— Bastante.

— Você vai precisar deixá-las em repouso, dentro de um balde de água com isso aqui – ele pegou um dos remédios. Era um frasco com um pó verde até que amigável.

— Vai doer?

— É uma boa pergunta.

Minutos depois, Gael buscou um balde com o estalajadeiro, já cheio d’água. Parecia satisfeito em ver que Lars seria obrigado a ouvi-lo, parado enquanto deixava as mãos “descansarem”.

Ele aproveitou para terminar seu doce, e transmitia um ar pensativo. Havia um pouco de ressentimento no ar. Era de se esperar que ambas as partes estivessem incomodadas com a atitude de outrem.

— Lars.

— O que foi?

— O que você entende com “me espere aqui”?

— Eu não quero começar esse tipo de discussão.

— Você tem noção de em que estamos metidos agora?

— Algum tipo de gangue de fracassados do Distrito das Moscas.

— E…

— E a Guarda de Elyrasia. Já entendi. Desculpe. Eu sou intrometido. Interajo demais. Que seja.

— Não me refiro apenas a isso. Por que acha que eu sempre fiz questão de que fôssemos discretos e não tornássemos nossos rostos marcantes para ninguém?

— Eu já perguntei. Você nunca dá respostas das mais concretas.

— Já conversamos sobre… sobre porque estamos sempre em movimento, não foi?

— Um pouco. Digo, você mencionou gente perigosa, sei lá.

— Tem gente que vai adorar saber que você está vivo, Lars. E eles virão atrás de você assim que souberem.

— Eu adoraria saber quem são essas pessoas, também. Estou farto de ficar fugindo. E você mesmo disse que Elyrasia é nosso último passo.

— Não importa, Lars – Gael denotou impaciência no comentário – Mesmo que chamar atenção não fosse um problema, há formas melhores de fazê-lo. Transformar uma taverna em cinzas? Qual era a sua ideia com isso?

— Eu estava me defendendo!

— E desde quando isso precisa envolver fogo e explosivos!?

— É – Lars parou para pensar um pouco em como a situação fora bagunçada – De fora, deve ser um cenário estranho de se imaginar. Aliás, eu não tenho a menor ideia de como fiz aquilo com o fogo. Não sei sequer se fui eu.

— Foi o que eu ouvi dos transeuntes. De toda forma, se eu fosse você, ficaria longe de fogo por um bom tempo.

Alguém bateu à porta, com força.

Os dois se entreolharam, desconfiados.

— Não vai atender?

— Espere – Gael pôs um indicador sobre a boca, pedindo silêncio.

Novamente, bateram em ritmo inquieto à porta do quarto.

— Guarda da cidade. Queremos conversar.

— Acho melhor nós…

— Fugirmos. Eu sei. Coloque isto, rápido. – jogou um dos capuzes na direção de Lars – Consegue colocá-lo sem dor nas mãos?

— Não – Lars respondeu enquanto segurava a peça de roupa, sendo infelizmente sincero.

— Ótimo. Aguente a dor e se vista logo. – Gael também se vestia com seu capuz.

— Sabemos que foi você que causou a confusão no gueto das Moscas, amigo. Agora abra essa porta!

— Espera, o quê? Como eles nos acharam tão rápido?

— Como eu disse, tem gente que ficaria muito feliz de nos encontrar. Agora, levante-se. – ele tentava abrir a janela, aparentemente emperrada. – Quando eu abrir isso aqui, você pula.

— Eu já estava me esquecendo desses nossos momentos.

— Que momentos? – Gael perguntou, com a face vermelha de tanta força que empregava na janela.

— As fugas desesperadas. São um elo entre nós.

— Adorável da sua parte, mas temos mais com o que nos preocuparmos. – num estalo, a janela se abriu – Vai!

Nem cogitou questionar. Estava mais do que habituado a fugas, como comentara. Lars e Gael não precisavam de mais do que uma troca de olhares para entender as decisões corretas durante uma situação de evasão.

Pulou para fora. Estava agora sobre o telhado cinzento da estalagem, que como muitas coisas naquele dia, não parecia firme aos olhos do jovem. O vento frio fustigou seus braços desprotegidos de imediato. Agora, pela posição do sol, tinha certeza do horário: por volta das onze horas.

Gael demorou alguns segundos para sair. Devia estar coletando coisas úteis que deixara pelo quarto durante a estadia. Lars ouviu mais gritos vindo da porta. Gael agora tinha um olhar mais apressado. No mesmo momento em que pulou para fora do quarto, ambos viram a porta ser estraçalhada pelos chutes de um guarda com cara de poucos amigos. Ironicamente, ele tinha muitos amigos atrás dele naquele momento.

A dupla se limitou a correr pelos telhados, sem nem pensar em olhar para trás. Mas olharam para baixo, e não gostaram do que viram; mais guardas. Era estranho que tamanha comitiva das forças da cidade fora mobilizada apenas para capturar um adolescente.

Dispararam, saltando de telhado em telhado, enquanto os homens que os perseguiam empurravam transeuntes nas ruas abaixo deles. Quando se deram conta, acabaram os telhados. Estavam de frente para uma avenida.

— Vamos ter que descer. – comentou.

Ainda mantendo o pique, ambos escorregaram sobre um declive no telhado onde estavam e caíram rolando no chão, assustando algumas pessoas próximas. A julgar pelos inúmeros pequenos templos ao seu redor, estavam no Distrito dos Altares. Os guardas ainda estavam em seu encalço. Dispararam quase tropeçando, tentando não esbarrar nos cidadãos. Transitavam no que parecia ser uma feira de artefatos religiosos.

— Estão ali! – ouviram uma voz distante gritar. Não estavam dispostos a esperar para descobrir o dono da voz.

Onde tinham chegado estava tão abarrotado de pessoas que era impossível correr, então puxaram os capuzes e tentaram não parecer suspeitos, o que era um pouco contraditório.

Foi quando Lars deu de cara com quem não imaginava.

— Gael – falou.

— Eu sei. Ignore.

Ambos passaram direto pela mulher da Colheita que, aparentemente, estava de volta a Elyrasia. Ela não pareceu notá-los.

Lars quase comemorou, mas quando se virou para falar com Gael, esbarrou em outro rosto conhecido e caiu sentado.

O aracnoide animalesco grunhiu, se virando para ver quem tinha esbarrado em suas costas. O aspecto de sua máscara ainda era aterrador.

Imediatamente, a mulher antes distante reservou suas atenções para a cena em que o parceiro havia se envolvido. Ela olhou para Gael, e não parecia muito feliz.

— Vamos. – disse Gael, puxando Lars pelo braço. Os dois voltaram a correr, agora com mais duas figuras nada amigáveis atrás de si.

Quando dobraram a esquina para sair daquela avenida, foram puxados para um beco.

— O que fazem aqui? – disse o velho. – Quem trazem?

Lars e Gael, mais uma vez, trocaram olhares confusos. Não entendiam muito bem como, mas encontrar com aquele ancião novamente parecia ter sido uma salvação para a situação urgente em que se encontravam.

— A guarda. E a Cialeth.

— A Colheita. Não, não. Eu quem os trouxe. Estavam em meu alçapão. É melhor irmos. Gente como a gente não costuma ter tempo.

O velho caminhou para o outro lado do beco sem saída, escalando o muro no final da via como um atleta. Fez sinal para ser acompanhado.

O adolescente e seu tutor obedeceram. Não tinham muitas opções.