Predestinado
23 Vinte e Três
Eugene se sentia desconfortável com a aproximação repentina. Sophia insistia em segurar seu braço enquanto eles andavam para o pavilhão, campistas os encarando e cochichando por onde passavam. Ele não sabia se era porquê estava de volta, ou talvez porque não esperassem que alguém estivesse andando junto com ele, ou o fato de estar de cueca.
Ele parou para pensar um pouco, e concluiu que talvez fosse a junção de tudo isso.
Ao sentar na mesa de Hades, encarou o prato limpo, não ousando olhar para ninguém em volta. Dreus deu tapinhas em seu ombro.
—Quando você acabar, vamos para a aula de esgrima. — disse ele, antes de ir para a mesa do chalé nove. Sophia se juntou aos irmãos e irmãs também, e ele suspirou.
Não queria estar ali de novo, com todas aquelas pessoas o olhando desconfiadas, como se a qualquer momento ele pudesse se levantar, dar um soco em alguém e sair correndo. Aquilo o lembrou de quando ainda estava andando de cidade em cidade, dois anos antes, e praticamente vivendo nas ruas, escondido em becos escuros e sarjetas, para evitar monstros.
A melhor forma de disfarçar seu cheiro era estar entre os mortais, então vez ou outra ele frequentava escolas de bairro, onde poderia finalmente parar de estar sempre em alerta ou preparado para correr. Foi na primeira escola que ele finalmente conseguiu dormir decentemente, enquanto Erika procurava por informações ou um lugar para ficarem — algum apartamento minúsculo no bairro ou até mesmo abrigos para pessoas sem-teto. — durante algum tempo. Demorou alguns meses para que ele se acostumasse a usar a Névoa a seu favor, e começar a usar o cartão de dinheiro infinito do Cassino Lótus para alugar quartos de hotéis e comprar comida e roupas.
Quando estava na escola, não conversava com ninguém, nem participava de grupinhos, a não ser que a Névoa manipulasse as crianças da sala para que acreditassem que ele sempre esteve ali. Lembrou de quando chegou para seu primeiro dia na Mountain Green Middle School, em Utah, e os alunos o receberam com sorrisos e tapinhas nas costas, perguntando como foram as férias de verão. Ele ficou desconcertado por ter que mentir, mas no fundo queria realmente levar as vidas que os outros lhe contavam que ele tinha. Depois de seis meses, ele teve que pegar um trem para Oklahoma, depois de ter sido atacado por um dos professores ( que era um monstro disfarçado). Quando comentou à Erika que sentiria falta dos amigos que fizera, ela respondeu:
—Eles já esqueceram que você esteve lá, criança. É assim que a Névoa funciona.
Aquilo o atingiu como um soco no estômago, mas logo se deu conta de que começara a acreditar nas mentiras que ele mesmo contara. Não acreditava que pudesse ter sido tão ingênuo.
Dali em diante, todas as escolas em que esteve tinham um rastro de que Eugene passara por ali. Fosse uma pichação nas partes mais inesperadas do prédio ou a marca do próprio sangue no carpete da sala do diretor. Pessoas esquecem nomes com rapidez, mas cicatrizes são um pouco mais complicadas de se apagar.
E lá estava ele mais uma vez. Tinha deixado sua marca, o que normalmente era seguido de uma expulsão. Mas as coisas por ali eram diferentes. Ele tinha ido embora, mas o buscaram de volta.
“—Vamos para casa.”, dissera Calíope.
Ele nunca teve uma casa. Nunca se sentiu em casa em lugar algum.
Era a primeira vez que alguém o queria por perto, e ele não fazia a menor ideia de como reagir.
Estava tão envolto nos próprios pensamentos que não reparou que uma ninfa tinha enchido seu prato com algumas frutas e uma torrada molenga. Ele encarou a comida e sorriu. Estava faminto, mas se levantou para fazer a oferenda. Chegou para o braseiro e despejou duas metades de uma maçã, fechando os olhos.
—Hades. — sussurrou para si mesmo. —Obrigado pela segunda chance.
E voltou para a mesa, devorando tudo o que podia. A torrada tinha uma textura um tanto borrachuda, mas ele não poderia se importar menos. Não comera nada em pelo menos 48 horas. Ele encheu o cálice mágico com suco de laranja e bebeu até não poder mais. Não percebera que Nico estava ao seu lado, então levou um susto quando o garoto falou:
—Falei com Quíron.
—Santo ciclope, Di Angelo! De onde você veio?
—Da Casa Grande. Expliquei o que você me disse para Quíron. Você não vai sofrer nenhuma penalidade, mas é bom que você comece a medir suas atitudes.
—Certo, certo. Obrigado. Vou indo. — disse, se levantando e olhando para Dreus, que conversava com uma menina do chalé 9 usando uma bandana vermelha na cabeça. Ele acenou para eles e a menina semicerrou os olhos, cochichando algo no ouvido de Dreus. Ele a olhou e deu de ombros, falando algo que Eugene entendeu que fosse “não se preocupe”, e enfiou uma panqueca ensopada de calda na boca, se aproximando.
—Ei, cara. — cumprimentou. —Vou no chalé pegar algumas coisas. Você deveria fazer o mesmo… — ele não tentou conter o sorriso ao olhar para Eugene dos pés à cabeça. —Você sabe que está…
—De cueca, sim. — suspirou. —Bem que achei esquisito estar tão arejado quando me levantei.
—Você usa cuecas com estampa de carrinhos.
—Eu sei.
—Tem Hot Wheels escrito na sua bunda.
—Vai encarar?
Ele riu e balançou a cabeça, e os dois andaram de volta para os chalés.
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