Predestinado
24 Capítulo Vinte e Quatro
Notas iniciais
—Então você era um nazista? — Dreus perguntou, limpando o suor do rosto com a camisa, sentado na arquibancada da arena. Eugene respirou fundo.
—Não. Eu estava lá durante a Alemanha Nazista. Hitler era o Chanceler do Terceiro Reich e todos falavam bem dele. Eu tinha 9 anos, cara.
—Você já entrou em algum campo de concentração?
—Quê?
—Não tinham montes deles na Alemanha?
—Não. Quer dizer, sim. Mas nenhum em Munique.
—Onde?
—Munique. Foi a cidade em que eu nasci. A Alemanha não se resume só a Berlim, sabe.
—Ei, eu não preciso saber disso. Você que é o alemão nazista aqui.
—Eu não sou nazista! Os nazistas me mataram!
Dreus riu, levando a garrafa d’água à boca.
—Então você é um traidor da sua pátria. Além disso, é um imigrante nos Estados Unidos sem um visto permanente. Um completo fora da lei.
—Por que eu ainda falo com você, Ascia?
—Porque sou seu único amigo. — deu de ombros, olhando para a espada de Eugene. —E qual a história disso aí? Como você conseguiu ferro estígio?
O amigo se voltou para a espada e a apanhou, deslizando a ponta do dedo sobre a parte chata da lâmina, agora preta e lustrosa como azeviche. O cabo feito de osso agora tinha um símbolo cravado em sua superfície, um símbolo que Dreus nunca vira antes, mas reconheceu a ancestralidade que carregava. Um símbolo do Mundo Inferior.
—Não me lembro muito bem como. Acho que quando atravessei o Estige, talvez um pouco antes.
Dreus sentiu um frio repentino no estômago. Lembrou-se de quando finalmente alcançou Eugene na margem do Rio Estige, como as sombras rodopiavam em volta dele numa espécie de furacão macabro, lembrou-se da atmosfera pesada que sentiu quando viu o mais famoso e poderoso rio do Submundo se afastar para que o filho de Hades o atravessasse.
Mas, acima de tudo isso, lembrou-se de quando Eugene os encarou, os olhos invadidos pela escuridão. Lembrou-se de como Calíope dissera que ele estava morto.
Ele olhou para os olhos do amigo com um pouco de receio. Totalmente diferente de antes, agora estavam em seu tom de verde escuro habitual. Um tanto cansados, mas brilhantes e com vida.
Eugene percebeu a análise silenciosa de Dreus e franziu as sobrancelhas por um momento, antes abrir um sorriso irônico.
—Bata uma foto, aí você pode olhar pro meu rosto lindo a hora que quiser.
—Vai ser útil pra espantar os mosquitos. — respondeu, se levantando e alongando os braços. Não comentaria sobre o que estava pensando, não agora quando Eugene parecia tão à vontade. —Tem aula de grego antigo no Anfiteatro agora. Você vem?
O sorriso de Eugene vacilou, e ele se levantou e embainhou a espada.
—Ah, acho que talvez da próxima — ele não o olhou nos olhos quando respondeu. —Preciso resolver umas coisas agora.
—Tudo bem. A gente se vê mais tarde, então?
—É. Até mais tarde, Ascia.
E se afastou na direção do chalé 13. Dreus seguiu para o Anfiteatro.
Ao entrar no chalé, Eugene se assustou ao ver Nico di Angelo e Will Solace sentados na cama juntos, os ombros encostando enquanto conversavam.
—Quando você vai contar à Hazel? — Will dizia, antes de se voltar para Eugene. —Ah. Oi.
Nico se levantou rápido, a pele pálida tomando um tom intenso de vermelho.
—Totenn, o que você tá fazendo aqui?
—Ah, me desculpe. Eu entrei no chalé errado? — rebateu, cruzando os braços.
—Nico, relaxa. — Will suspirou, se levantando também. —Acho que nunca conversamos direito, não é? É bom ter você de volta, Eugene.
E lhe ofereceu a mão para que a apertasse. Eugene aceitou.
—Pensei que os campistas não podiam transitar entre os chalés.
—Não podem. — Riu-se ele. O sorriso do filho de Apolo irradiava calor naquele chalé frio. O cabelo dourado parecia brilhar por conta própria, diferente do tom escuro e quase sujo de Eugene. —Mas nós damos um jeito de burlar isso. É a única vez que eu o deixo usar a viagem nas sombras.
—Viagem nas sombras? — perguntou.
—É. Filhos de Hades conseguem viajar pela escuridão para... qualquer lugar. Não é, Nico?
Nico assentiu, dando um passo à frente. Estava evitando olhar nos olhos do irmão. Eugene riu-se.
—Legal. Conseguimos levantar os mortos também? — caçoou.
—É. — respondeu Nico. O sorriso de Eugene vacilou e ele piscou.
—Espera. É sério?
—Você nunca usou seus poderes? Como ficou vivo por tanto tempo lá fora?
—Vaso ruim não quebra fácil, eu acho. — deu de ombros, e ambos suspiraram ao mesmo tempo, fazendo Will cobrir a boca ao conter um sorriso. —Como você aprendeu?
—Por conta própria. — respondeu com aspereza. Will lhe lançou um olhar de quem sabia que aquilo não era totalmente verdade.
—Pode me ensinar? — Eugene encarou o chão. Nunca se imaginou pedindo qualquer tipo de favor para o irmão. Talvez porque ainda tinham uma certa rivalidade desde o momento que puseram os olhos um no outro. Talvez porque tivesse inveja de Nico por ser mais próximo com Hades. Talvez porque mesmo que nunca admitisse, ficava intimidado com a presença dele.
Nico avaliou o pedido por algum tempo, vez ou outra olhava para Will, que não sabia o que pensar. Eugene estava a ponto de mandá-lo esquecer e ir embora quando o ouviu pigarrear.
—Certo. Acho que é meio que o meu dever, não é? Como seu irmão mais velho. —ele fez uma careta ao dizer aquilo. Eugene se mexia desconfortavelmente, como se precisasse ir ao banheiro. —Me encontre aqui depois do jantar. E venha descansado.
Dito isso, pegou na mão do namorado e saíram do chalé, se certificando de que ninguém os veria. Eugene abriu um sorriso largo, ansioso para que o tempo passasse rápido.
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Assim que contou exatos dez segundos desde o momento em que Nico e Will saíram do chalé, Eugene correu para o Anfiteatro o mais rápido que pôde. Tinha que contar a novidade para Dreus. Alguns campistas o olhavam com surpresa enquanto ele corria apressado. Não havia se afastado nem trinta metros quando sentiu um baque violento o jogar no chão com força. Pensou que tinha dado um encontrão em alguém de tão atordoado que ficou, e estava prestes a pedir desculpas quando escutou uma voz familiar:
—Você não vai pra lugar nenhum, garoto zumbi.
Era Sophia. Ela estava com o joelho pressionado contra o meio das costas de Eugene, e empurrava seu rosto contra a grama.
—Hein? — ele perguntou, a voz muito aguda saindo abafada com a bochecha pressionada ao chão. —Que diabo ‘cê tá fazendo?
—Você não cansa de fugir? Que foi que houve agora, se meteu em alguma coisa que não devia? Pra onde você acha que poderia chegar.
—...Anfiteatro...?
Ela piscou e saiu de cima dele, mas não o ajudou a levantar.
—Não estava fugindo, então?
—Você só presume as coisas e faz o tempo todo ou é só comigo? — ele resmungou de forma rabugenta, dando tapinhas nos braços para limpar a sujeira. Sophia ainda não perdia a pose de quem sabe do que está fazendo.
—Não podia arriscar. — disse ela, virando-se para uma menina que se aproximava deles, claramente rindo da situação.
Eugene estava preparando para olhar feio para ela, mas seu queixo caiu.
Era a menina mais linda que tinha visto na vida.
Tinha a pele cor chocolate e o cabelo muito cheio e brilhante batendo no meio das costas. Pelo menos trinta centímetros mais alta que Eugene e forte o suficiente para levantá-lo com uma só mão. Os quadris e braços eram voluptuosos, e os lábios tinham um formato divinamente perfeito. Vestia um macacão jeans por cima da blusa laranja do acampamento e brincos no formato de argolas douradas. Seu sorriso era deslumbrante.
—Olha só, o velho aperto de mão deve ter saído de moda. — comentou. —Agora nós damos um mata leão uns nos outros.
Sophia tentou disfarçar o constrangimento com um sorriso. Eugene ainda encarava a menina com os olhos arregalados.
—Vocês não se conheceram ainda, não é? — Sophia disse, mexendo no rabo de cavalo com falso tom de distraída. —Totenn, essa é a Charlotte Boucher.
—Charlie está ótimo, obrigada. — ela rolou os olhos na direção de Eugene, analisando-o. —Vai acabar engolindo uma harpia inteira, novato.
—Você sabe quem eu sou? — Eugene perguntou, tentando endireitar a postura. Agora fazia o máximo para não olhá-la por muito tempo.
—Claro que sei. Todo mundo conhece você depois do incidente no Capture a Bandeira. Sem contar que você fugiu faz quase quatro dias, logo depois de ter sido reclamado por Hades. — ela riu, dando de ombros. —Então, Sophia. Acho que vou voltar pro chalé dez. Piper quer discutir algo sobre os campistas que vão ficar depois do verão. Vejo você mais tarde?
Sophia concordou com a cabeça e Charlie se virou, andando como uma miss na passarela, a cabeça erguida, na direção do chalé que mais parecia uma casa de praia que só pessoas muito ricas pudessem usar. Totalmente impecável e limpa, com detalhes em mármore e esculturas de cupidos na entrada.
Eugene engoliu em seco, sentiu uma cotovelada nas costelas e finalmente apareceu ter acordado.
—Pare de encarar. Nunca viu uma menina antes?
—Não. — respondeu rapidamente. —Literalmente, nunca vi uma menina igual a ela. Qual divindade rege o chalé dez?
—Afrodite. Achei que fosse notar de cara.
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