Predestinado

22 Capítulo Vinte e Dois


Em poucos segundos, Eugene sentiu o piso de obsidiana do Mundo Inferior se transformar em uma espécie de esponja. A mudança súbita fez seus joelhos se dobrarem para frente, e ele despencou para o chão. Desta vez, um chão de verdade. Duro como pedra.

A visão de ajustou com ainda mais lerdeza. Estava escuro e frio. Ele escutou algo que estava entre um arquejo e um resmungo alguns passos à frente. Tochas se fogo esverdeado ascenderam uma do lado da outra, iluminando o que parecia ser um casebre construído com granito preto.

Quando levantou o olhar, Eugene se deparou com o que ele nunca pensara que pudesse presenciar: Nico di Angelo se levantando da cama com o cabelo amassado para o lado esquerdo, vestindo seu pijama de esqueletos dançantes.

O fato de estar confuso não deixou a cena menos engraçada para Eugene.

—Quê…? — os olhos de nico estavam semicerrados e levemente vermelhos. —Totenn, você está… vivo?! — ele pareceu ter acordado completamente agora. —Que diabos está fazendo aqui? Por que está no chão? Que horas são?

—Calma, di Angelo. Muitas perguntas. — Eugene se levantou, dando uma olhada em volta. —Então é assim que o chalé treze é por dentro… Não tem janelas?

—Tem um santuário com ossos de verdade e rubis. —Nico apontou para a direita. Eugene riu.

—Fofo.

E ficaram em silêncio, no que pareceu uma competição de quem ficava mais tempo sem olhar para o outro. Constrangedor.

—Bem… eu vou voltar para a cama. — disse Nico.

—Ah, sim. Eu vou voltar para… — parou para pensar, pigarreando. — o Mundo Inferior, aparentemente. — e foi para o lado da cama, se deitando no chão. Sorriu de leve ao escutar o outro conter uma risada.

—Ou você pode se deitar na cama e a gente fala sobre o que aconteceu lá.

Eugene assentiu com a cabeça e olhou para o irmão, ao mesmo tempo que tirou os tênis e se enfiou debaixo dos lençóis pretos.

—Quem ficou encarregado de decorar esse lugar? Agora que descobri que sou filho de Hades tenho que andar de preto e escutar aquela banda… Como se chama mesmo? Algo a ver com química e cabelo nos olhos.

—My Chemical Romance? — Nico sorriu, e Eugene ficou desconcertado com a assustadora semelhança que ele tinha com Hades. Como as linhas de expressão dele substituíam as rugas em volta dos olhos e ele parecia ficar mais jovem. O mesmo cabelo tão escuro quanto as paredes do chalé, os mesmos olhos misteriosos. Ele se perguntou se Nico via nele algo em comum com o pai. —Não é como se fosse um clube. Mas se assim fosse, pelo menos teríamos um bom gosto musical, hein? — parou por um instante, e chacoalhou a cabeça como se estivesse perdendo o foco. Seu cenho se franziu e ele perguntou, sério. —Você falou com ele?

—Falei.

—Que explicação você recebeu?

Eugene respirou fundo e se escorou na cabeceira da cama, apertando os lençóis para aliviar a tensão. E disse-lhe tudo o que sabia.
Com o desenrolar do monólogo, Nico pareceu ficar mais aliviado. Principalmente quando Eugene revelou que tinha nascido nos anos 30.

—Menos mal. Então o juramento não foi quebrado.

Eugene bufou, indignado.

—Achei que você fosse se impressionar. Eu morri, pelo amor dos deuses!

—Eu trouxe uma irmã nossa dos Campos Asfódelos alguns anos atrás. Ela tinha morrido junto com a mãe no começo dos anos 40.

—Então é assim que se entra no clube? Morte trágica há setenta anos atrás Quem ditou essas regras?

—Bem, eu sou dessa mesma época, mas nunca morri. Fui posto no Cassino Lótus depois que Zeus matou minha mãe.

—Então você não pode entrar do clube.

Nico o ignorou.

—Hades deve ter posto você no cassino pouco antes da Batalha de Manhattan. Talvez tenha pensado que se os Titãs fossem derrotados, seria mais seguro trazer mais um filho de volta quando os deuses estivessem em paz uns com os outros. Quando a Profecia dos Sete foi clamada, ele teve receio de que você pudesse ser parte dela e Zeus querer fulminá-lo. Agora que os Gigantes também foram derrotados, ele não poderia pedir por uma oportunidade melhor.

—Mesmo assim, ele me escondeu dos outros com a névoa, só por garantia. Engenhoso.

—Ah, sim. Hades sabe agir por baixo dos panos melhor que ninguém. Nem me confiou qualquer informação sobre você. Mas ele não esperava que você fosse fugir e estragar o plano todo.

—É… — Eugene coçou o queixo. —Será que ele vai cortar a minha mesada?

Nico balançou a cabeça em reprovação, suspirando.

—Bem, já temos uma explicação para dar para Quíron e Dionísio. Boa noite.

—É assim? Eu te falo tudo o que você quer e você vai dormir? Que tipo de boas vindas é essa?

—O que mais você quer que eu faça?

Eugene abriu a boca para responder, mas não tinha nada para argumentar. Nico se cobriu e estalou os dedos, fazendo as tochas apagarem como velas de aniversário. Agora só ouviam o cantar dos grilos do lado de fora do chalé.

—Nem um beijinho de boa noite?

—Cale a boca, Totenn.

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Quando as sombras levaram todos de volta pro acampamento, Calíope pensou que fossem acabar no meio do pavilhão numa entrada triunfal. Haveria um arquejo grupal e depois todos iriam parabenizá-los pela missão bem cumprida. As coroas de louros para os três heróis e mais um mês de limpeza de banheiros para Eugene Totenn.

Mas é claro que ela se materializou de pé em cima do próprio beliche no chalé 6 às 3:00 da manhã, com o som de um baque na cama de baixo, seguido de um grunhido de dor. Ela pulou para o chão, acordando todos.

Sophia estava sentada em sua cama, zonza.

—Você também estava de pé quando chegou aqui, não é? — ela perguntou para a irmã mais velha, massageando a cabeça. —Merda, isso doeu.

Os outros campistas de Atena saíram de suas camas e as cercaram. Jude Aarons sentou ao lado de Sophia, o cabelo loiro bagunçado.

—Conseguiram trazer Totenn de volta?

—Missão cumprida. — Sophia assentiu, e todos suspiraram de alívio. —Ele e Dreus devem estar em seus chalés agora. De manhã podemos chutar o traseiro dele juntos.

Calíope já estava subindo para sua cama. Jude sorriu e deu tapinhas nas costas da irmã antes de se levantar.

—Bom trabalho, então. Vamos voltar para a cama, gente. Temos um dia cheio amanhã.

Sophia se jogou contra o travesseiro, cansada. E logo caiu no sono.

Pela manhã, as duas foram juntas para a porta do chalé 13. Queriam ter a certeza de acompanhariam o filho de Hades para a Casa Grande e esclarecer toda aquela história o mais cedo possível. Depois de meia hora esperando, Dreus Ascia apareceu, vestindo as mesmas roupas que usou toda a missão. Tinha um sorriso sonolento no rosto.

—Que horas são? — bocejou.

—Hora de estar acordado e fora do chalé. — Sophia resmungou, ajeitando o rabo de cavalo.

—Deveríamos bater? — ele perguntou, ao mesmo tempo que Calíope esmurrou a porta de madeira escura três vezes, fazendo o crânio pendurado logo acima balançar. Os três ouviram resmungos vindos do lado de dentro, e em alguns segundos, Eugene os atendeu, vestindo uma blusa preta amarrotada e posta para dentro da cueca, a carranca mais emburrada que nunca.

—Que é?

Dreus soltou um ronco pelo nariz, não conseguindo segurar o riso.

—Você não tira as meias para dormir?

—Bom dia, princesa. — Calíope o puxou pela roupa para o lado de fora. —Vamos para a Casa Grande, você tem muita coisa pra explicar.

—Não vão me deixar escovar os dentes pelo menos?

—Deveria ter pensado em escovar os dentes antes de fugir. Ande logo.

Ele limpou a baba do canto da boca e os acompanhou, ainda de olhos fechados. Dreus vez ou outra o puxava pelo ombro para que ele não caísse no sono. Vários campistas os encaravam sem entender, o que Sophia não sabia distinguir se era algo engraçado ou constrangedor.

Quíron estava esperando na varanda da Casa Grande, a cauda balançando nervosamente. Sophia deu um tapa no meio da testa de Eugene, o que fez com que ele ajeitasse a postura. Ele piscou com força e olhou para o centauro.

—Eu morri nos anos 40. — deu de ombros. —Não quero falar sobre isso.

Quíron ergueu uma sobrancelha, mas o menino não tinha acabado de falar.

—Hades não quebrou o juramento nem nada. Tudo está bem. Não estou mais morto por causa da minha mãe. Ah, ela morreu nos anos 40 também, só por curiosidade. Posso voltar para a cama agora?

Os outros três campistas se entreolharam.

—Você morreu? — Dreus coçou a cabeça. —Como…

—As pessoas têm mania de de fixar nesse detalhe! — reclamou, sarcástico. Calíope revirou os olhos. Quíron pôs a mão no ombro dele.

—Muita informação para pouco tempo, não é? — sua voz era suave e paciente. —Vá tomar café da manhã, o que importa é que você está de volta e a salvo.

Eugene pressionou os lábios juntos com força, os olhos ficaram sérios quando ele encarou os próprios pés. Sophia percebeu que toda aquela atitude era um modo de disfarçar o quanto ele estava perdido com aquela situação. Ele precisava de tempo.

—Tudo graças a vocês três. Fizeram um trabalho excepcional. Sinto que o banquete de boas vindas não será tão farto quanto de costume, mas as tradições serão seguidas como sempre.

Calíope deu um passo à frente.

—A seca fora de época não foi embora, não é?

Quíron assentiu, sério.

—Não temos nenhuma pista do que pode estar acontecendo. Originalmente achamos que tinha alguma ligação com a chegada do sr. Totenn. Agora tenho minhas dúvidas.

—Eu nem gosto de legumes, mesmo. — comentou o filho de Hades. Sophia balançou a cabeça em negativa, suspirando.

—Ande, garoto zumbi. Vamos comer alguma coisa. — ela lhe lançou um meio sorriso, tentando ser agradável. Em resposta ele fez uma careta de desconfiança, mas a seguiu para o pavilhão, com Dreus galopando logo atrás.
Calíope ainda olhava para Quíron, como se tentasse lhe tirar a informação que ela sabia que ele tinha. Quando percebeu que ele não pretendia deixá-la a par da situação, se virou e marchou na direção dos outros.

Ela sabia que aquele problema estava longe de ser resolvido.